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Barack Obama Ganha NOBEL da PAZ: ESSE É O CARA!

President Barack Obama speaking at the United Nations on September 23.

OSLO – O presidente americano, Barack Obama, foi premiado nesta sexta-feira com o Nobel da Paz 2009, “por seus esforços extraordinários para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos, indicou o Comitê Nobel da Noruega.

“O comitê atribuiu muita importância à visão e aos esforços de Obama em vista de um mundo sem armas nucleares”, declarou o presidente do comitê, Thorbjoern Jagland.

O anúncio causou surpresa. Além de Obama, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, era um dos candidatos, mas ambos não eram tidos como favoritos. As indicações são feitas por milhares de pessoas de todo o mundo, tais como parlamentares, ministros, ganhadores de anos anteriores, professores universitários e membros de organizações internacionais. Os nomes são mantidos em segredo pelo comitê, mas alguns acabam vazando.

Para a edição deste ano, foram 205 indicados, entre pessoas e organizações. “Trata-se de um número recorde, depois de 2005, quando foram apresentadas 199 candidaturas”, informou o diretor do Instituto Nobel, Geir Lundestad.

O comitê, que esperou até o último momento, fez sua escolha em uma última reunião celebrada na segunda-feira (5). Dada a quantidade de indicados e sem um grande favorito, o Comitê Nobel precisou se reunir neste ano mais vezes do que o habitual para poder designar o premiado. “Tivemos mais reuniões que de costume, pois desta vez havia um grande número de candidatos, porque dois de nossos membros são novos e porque tentamos utilizar o tempo que temos para fazer a melhor escolha”, explicou Lundestad.

Vencedores das edições anteriores

No ano passado, o prêmio Nobel da Paz foi entregue ao ex-presidente da Finlândia Martti Ahtisaari, que esteve envolvido em várias negociações de conflitos como o de Kosovo e Iraque.

Em 2007, o prêmio foi para ex-vice-presidente americano e ativista Al Gore, juntamente com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas. Um ano antes o escolhido foi o bengalês Muhammad Yunus, pioneiro na implementação do microcrédito para pessoas em extrema pobreza (2006).

EU preciso dizer mais alguma coisa?

Acho que não.

É limpar as lágrimas do rosto de emoção e pronto.

CONGRATULATIONS MR.PRESIDENT!

Estou mudo de emoção, ou… sei lá. Obama ganha prêmio Nobel da PAZ. Acordo cedo, como sempre (quando durmo), e a tela já abre no New York Times: “filed one minute ago”. “OBAMA WINS THE NOBEL PEACE PRIZE”. Caramba! Olhei pra tela e não acreditei. Estou eufórico. Eufórico em pensar que hoje alguns republicanos vão ter infecção na gengiva. Eufórico em saber que HOJE o Health Care Reform PASSA!

Eufórico porque o OBAMA MERECE e pronto! Sem mais conversa fiada!

Não irei escrever mais nada.

Não preciso.

Vocês sabem.

E, se não sabem, é porque eu fiz com que não quisessem saber. Eis um trecho da tradução de “Suicide Note”, “trivial de uma infância num asterisco da linguagem”:

Os doces e bolos não te interessavam. Aliás, te davam um imenso sentimento de culpa e de vergonha, aquela mulher com aquela bonezinho empacotando doces em troca de dinheiro… Ao perguntar o que você quer, você responde que nada. Tua mãe te olha com um ponto de interrogação, pois foi você quem pediu para ir lá. Ela nem imagina que são aqueles dois, mãe e filho, a razão por você ter pedido para passar ali. De novo, nos próximos quarteirões, você nada nota, nada sente além da “awe“, algo entre fascínio religioso e o respeito e tremor perante a santidade. Você passa cada vez mais tempo devotado aquela imagem. De noite, deitado na cama, ainda acordado, você fantasia coisas inacreditáveis. Você se imagina parte da vida daquela mulher. Tem com ela uma relação amorosa, filial. Por mais incrível que soe, você se sente mais perto dela que da sua própria mãe. E ainda aquela Lua ali que te olha e pesa sobre você. Sim, agora você acaba por chama-la pelo teu próprio nome.

A partir desse momento, você desenvolve um senso crítico que te acompanhará a tua vida inteira. Nada mais é o que é. Nada mais é o que te dizem. Você acredita enxergar algo atrás de tudo que te descrevem. Você acredita enxergar algo atrás de tudo que te descrevem. Você se sente muito bem e muito mal o tempo todo. Você não se sente parte de nenhum lugar e você está experimentando um gosto estranho que não mais te permitirá, jamais, sentir bem em qualquer circunstancia em qualquer lugar. Você carrega um choro contido e ao mesmo tempo um raio de sol de otimismo que não consegue sair. Você só se sente bem no chão do teu quarto rabiscando nos blocos gigantescos de papel jornal que teu pai te dá. Você está contaminado por um vírus indefinível e acha que o tempo não vai passar nunca. Você ama aquele lugar em que  você não está e não gosta daquele onde você está. Passará a próxima década vendo o lado horrível e risível das coisas, o lado torto de tudo, o erro primal, as diferenças gritantes, os acidentes, o lado frágil em tudo e todos; você até desenvolve uma repulsa por sangue, uma exaustão ao premeditar qualquer ação, de dá-la como inútil de ante mão. Você se torna para todos e para você mesmo a essência de tudo que vê e sente: insuportável.”

Gerald Thomas

October 9, 2009

New York City

LOVE

Gerald Thomas

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(Vamp na edição)

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MY INDEPENDENCE DAY: Everything to Declare – it’s a long goodbye

New York- Dearest ones: I’ve come to a crucial point in my life. Actually, ‘THE’ most crucial to date. A pedestrian crossing without the white stripes, an “Empty Space” cluttered with junk, an asterisk. I’ve been in it for a while and have realized that moaning and groaning from the cradle to the grave simply doesn’t help. So, I made a decision.

Transform the world: Wake up every morning and change the world”, a soft voice used to whisper into my ear. It was that of Julian Beck, whom I directed in his final show and from whom I learned so much.

Yes,I used to have a vague idea or notion of things. Yet, I can’t find them anymore. Don’t seem capable of even knowing of where they are any longer. All I can see, eyes open or shut, is that self portrait by Rembrandt , hanging in Amsterdam, staring right at me; he at the age of 55 and I at the same age. Him on one side of a timezone/era as if trying to tell me, or as if WE are trying to tell one another that my Renaiscence is over, finished, and that I’m dead. Am I dead?

I can’t go on. And I won’t go on.

Beckett, the one whose universe I’m so very close to, would have said: “but I will go on”. Yes, I do realize the necessity of a continuance, continuity, progression, of a forward movement. However, I look around and ask myself (in less than a subtle way…..”continue what?” if I haven’t really started anything!!!! There isn’t – on my turf (or terminology) that much to be continued.

My life on stage, as such, is finished. And it is so because I have determined that it has perished. I do not believe that our times reflect theater as a whole (or vice versa) and I certainly don’t have the patience to  create the iTheatre, as if it were the extention of the iPhone or the iPod and so on. These miniatures and gadgets of self satisfaction  do, indeed, fit extremely well the decadent present days of, well, self satisfaction. Pardon me for writing in loops but this is a reflection of the times. Or is it?

But art and creativity? Not at all. If one were to analize, say, this or that person’s last movie or CD or choreography we’ll only come to realize that it has all become a mere  and smaller repetition of what once had the taste of the new and of the, say, “good”.

Of course, it’s known that my dramaturgical option has always been on the dark side. From Beckett to Kafka to my own nightmares…a New York Times critic once wrote “that I used the audience as my therapist”. So, I decided to opt for putting Freud center stage right in the middle of Tristan in the Rio Opera House. I guess everyone knows what the outcome was.

What seems strange is that, up to 2003 or, even, 2005, it made sense to put things on stage or to stage pieces. I cannot, for the world, describe with any sort of precision what has changed. But something has.

Of course, needless to say, we are political beings. But this shouldn’t mean that our obsession (as artists) should contain ONE political agenda. Au contraire. If there is something called art, it’s  there precisely to bridge the gaps left over between that which politicians can’t say (or are unable to say) and our need to find ways to survive (by destroying or constructing). Art as metaphor, art as replica, art as illustration or art as protest; art has always required analogies and fantasy between modern man and that of yesteryear.

Daniel Barenboim, who was born Argentinean (but is a citizen of the world) and carries an Israeli passport, found a  way to ‘apply’ his art to the practical, political world. He’s been trying, since 2004, to promote peace between Palestinians and Israelis through music, In his acceptance speech, during the Wolf Prize Cerimony at the Knesset, he said that his life seemed only validated if he could, somehow, liberate those who were confined (Palestinians who were beginning to be surrounded by a WALL built by Israel) and Isrealis alike.

I cannot, would not dare compare myself to Baremboim. But building a theater piece from scratch is far more difficult than opening musical scores and making or motivating an orchestra to play. What we do is ‘original stuff’.

Yeah.

TEMPORARY LOSS OF MEMORY

(allow me to skip a part, please)

I just skipped a part where I quote from a text in a program book of Earth in Trance and Queen Liar. Poetic freedom? Was that it? Or pure boredom? Maybe just a gage or indicator of HOW much I need to tell everyone how LOST I am or where I need to get.

Perhaps I need to get lost for a while in order to find myself again, as corny as this may sound. I’ve really, seriously lost sense of who I am. No easy thing to say. Yet, I may be living in a bubble of illusion.

I’ve become a slave of this computer and, likewise,  a slave of an immediate political agenda which isn’t even close to my heart, It’s someone else’s, not my own. I do have an enormous knowledge of history. I mean, I am immensely educated in the field of History. Enough so to know that what happens now, today, hardly matters at all, unless one is talking about, say….Obama’s coming to the White House. Well, there’s something!!!!

Yes, I have to get lost in order to find myself again.

It might be useful to remind you all: I was brought up in the shadows of the Holocaust, amidst drops of paint by Pollock and ‘ready mades’ by Marcel Duchamp….and some drawings and scribbles by Saul Steinberg. I owe this ‘education’, as it were, to two masters: Ivan Serpa and Ziraldo. Both back in Rio.

 

And there is Haroldo de Campos, the inventor of the humans, as Harold Bloom would have put it. Campos is the founder member of the Concrete Poetry movement and my mentor ‘from a distance’ . The guy I always wanted to be. Christ only knows how much I felt when he walked into my theater in 1987 and, later on, curated two books on me, about my work, and wrote, wrote and wrote endless pages about…well…me and my work. Simply unimaginable.

 

The world became so much more boring and flat the day he died. And that day happened to have been on the same day when I opened my Tristan at the Rio Opera House. A decade before that I had written one of my first plays, Eletra ComCreta – a play of words in the ‘concrete tradition’ with the myth of Electra and the island of Crete, in the hopes that the poets – Haroldo and his brother Augusto, would storm into the theater. No such luck. It took them, I mean, him (Haroldo de Campos), another year to discover me.

Philip Glass was kind enough,  gracious enough to grant a wonderful and hilarious interview about me and my work ( https://vimeo.com/105034878 ). It lasts about 20 minutes and, in it he manages to be funny and brilliant, all at once – as if in a sax solo improv – saying everything (majestically) what scholars and critics have tried but weren’t able to put together in some eight thousand paragraphs, in all these years I’ve been on stage. This Glass interview can also be seen on my site (www.geraldthomas.com).

My father used to place me between two huge loud speakers of a RCA Victor deck  and make me listen to Beethoven. At a very very young age, I’d be in tears, listening to the Pastoral, the 6th Symphony – whilst drawing away, almost autistically, on some rough paper, things which, decades later (at the British Museum Reading Room or Library) would become…theater projects.

Today, with over 80 “things” or works having been staged all over the world, I look back and what do I see?

I see little. I see a world flattened by a shitty and mediocre and petty culture (if one can even call it that), punctuated by twitters and facebooks and myspaces and the like, which say little or nothing at all.

I see people without ANY NOTION of what was, of what has been and excited about a much ado of a ridiculously cheap plastic fast food junk overload of info. Yes, that’s what I see? Is there anything I’m missing?

Not even bands or innovative musical groups are there to be seen: it’s all just a bunch of look-alikes of the ones we’ve known for decades: from Hendrix to Zeppelin or The Who and so on.

It’s almost as if we lived in a sort of looping inside someone else’s nightmarishes head. Contrary to that of Prospero’s head, this one does not liberate us to the ‘new’. It condemns us to the old and used. How nice! Even China looks like the West. Or is that we’ve anticipated ourselves and it’s the other way around: it is us who look like China, since everything we wear and use is made in China.

Yes, I met Samuel Beckett (yes, I had this amazing privilege!), staged his prose – some of which, world premiere – in the early eighties. Well, for those who don’t know anything about this period, I urge you to access my site (www.geraldthomas.com), and enter my ‘so called’ universe.

Why would I want you to enter my universe? Why would I care? Because when I began my theatrical life, life as such, the scene itself was sparkling, glowing with ingenuity and the wonderful taste of the avantgarde. We had the Village Voice and the SoHo News (amongst others) for intellectual support (or debate) and plays were multifaceted: multimedia and so on. Everything from darkness to brand new monitors were growing on stages.

There were dozens of theater companies, from the ones based at La MaMa, to the Public Theater, or PS122 or in lofts in SoHo or in garages or, even, imports by BAM.

But it was all new, a NEW, New form of Creation.

It was the very exercise of experimentalism, it was all about taking risks. And the critics? Oh yes, just as most scholars, they stood by us and supported what we did. And what was that, you might ask? Well, that was the ‘tradition’ left by Artaud and Brecht and others.Furthermore, I regret to say that my particular generation did not invent anything. All we did was to carry on what the previous generation had given to us on a silver platter.

They were the ones who suffered. They were the ones who really swallowed the bile and digested the undigestible raw material of defiance (Grotowski, for instance). Yes, I’m talking about Bob Wilson, Pina Bausch, Victor Garcia, Lee Breuer, Peter Brook, Peter Stein, Richard Foreman and the one who invented it all, Ellen Stewart.

That’s right: all we did had been done before.

I’m part of a generation of collage artists, if there is such a thing. Of course, we added a few ‘personal touches’, whatever it was that the previous generation had fed us.

Not enough, I’m afraid. Not enough.

What does this all mean? Well, regrettably it means that my generation will not be a part of HISTORY. And I say this with an obvious amount of sadness. Sadness and reason. What a weird mixture!

Today, the Village Voice is but a bunch of sex ads. About the theaters themselves, I’d rather shut my mouth. As for the companies themselves, 99% no longer exist nor have they been exchanged for others. All we see is….

(I’m shutting my mouth). It’s very much like the world of music. Can’t you hear the stomping and and repetitive sound of the electronic drums hammering  away into your eardrums the robotic beat of ‘grounding’? Can’t you? Rather, its effect is ‘grinding’.

 

This universe of ours seems smaller than the one Kepler or Copernicus or Galileo described/saw/envisaged. Many of the theater companies here and around the world have closed for good. The money floating around to subsidize theater is laughable and the audiences are so small, we could take them out to dinner.

But I will never blame an audience. It is us who are  doing the wrong thing, obviously. Few youngsters nowadays know who Peter Brook is or what he has done. This year alone we have lost Pina Bausch and Merce Cunningham. Bob Wilson, the last warrior standing (inexplicably) is traveling with a mediocre and simplistic play: “Quartett” by Heiner Mueller. I, myself directed the American and Brazilian premiere of this play with the presence of the playwright. I can now say, with a fair amount of certainty, that Heiner Mueller is a complete waste of time.

But, as it seems, the problem is mine and ONLY mine. As I’ve said before: I’ll try going for a walk around the planet to find who I am. Or, maybe just sit here, exactly where I am now, and come to the same conclusion.

But it’ll be hard: I’m part of that romantic generation who saw Tower Records open its doors here on Broadway and E4th Street. Today, Tower is gone and even, Virgin (which destroyed Tower) is gone. All Towers are gone.

I’m writing this one day before 9/11. Please excuse all analogies and possible comparisons.

I saw Hendrix from a yard away. I saw Led Zeppelin in their best days, live in London.

I directed the best of Richard Wagner and was with spitting distance of Michael Jackson and am grateful to have witnessed the birth of cable television, CNN, internet and the frenzy of emails flying back and forth.

I was given incredibly beautiful presents, such as some of the great operas I directed on the best stages in the world (Moses und Aron, in Austria would just be ONE example).

It’s just….it’s just…so many fantasies that depression has obscured or overcast. I simply cannot see them anymore. And what is art without fantasy or artifice? It would be…well, you got the drift.

No, I’m not leaving. Not really leaving as such. Only leaving “in a way….”

Anatole Rosenfeld once wrote:

“ The theater is older than literature and, thus, does not depend on it. There are plays which aren’t based on literary texts. According to ethnologists, the Pygmies perform an extraordinary theater, completely void of any text. They are capable of acting the agony of an elephant with a perfect impression, as if it were a true art. They might even use a few words here and there, obeying the oral tradition. But there isn’t a formal text laid out as literature.

In the improv theater there’s also a tradition”

That was Rosenfeld.

As for me, I’ve lost my ability to improvise. Yes, I’ve lost my desire to improvise.

I will have to make an enormous effort in….what? In seeing me as myself again as in what I used to be. Why? Because it’s not me what I see when I look in the mirror. It’s a deformity, a hardened version of a self that was,”an aberration of an author as an old man”.

I will have to make an enormous effort when looking into Rembrandt’s eyes again or, maybe, into a slice of a shark, or the shark in its entirety, by Damien Hirst.

It’s obvious that, in the event of a real possibility of a news fatality or a tragedy of great proportions (outside of the theater) taking place in our lives or on our planet, I’ll come back to the blog with texts, images, etc.

Maybe even without such tragedies. It could be that I’ll find myself in the middle of Tunisia, inside a bent tent, and decide, a la Paul Bowles, that it’s time to write. Who knows?

All I can say is that I’m at the beginning of a long, very long and lonely journey.

I’ve had the best theater and opera stages of the world, in more than 15 countries given to me. Yes,  I was given the gift of the Gods. No complaints, whatsoever. It has been a wonderful ride. Really has. Thank you all so very much. Thank you all so very very much.

Fairwell to you all.

LOVE

Gerald Thomas

September 11, 2009

(what a date!)

Minha “INDEPENDÊNCIA OU MORTE” – TUDO A DECLARAR – “It’s a Long Good Bye”

New York – Meus queridos, cheguei num ponto crucial da minha vida. O MAIS crucial até hoje. Um asterisco. Aliás, já estou nele há algum tempo e percebo que não adianta resmungar pra cima e pra baixo. Finalmente tomei uma decisão.

Transformar o mundo: acordar todos os dias e transformar o mundo”, dizia a voz de Julian Beck (quem eu dirigi e com quem aprendi tanta coisa). Eu tinha uma vaga noção das coisas. Não  encontro mais nenhuma. Eu tinha uma fantasia. Não a encontro mais. Só encontro aquele auto-retrato de Rembrandt me olhando, ele aos 55, eu aos 55,  um num tempo, o outro no outro, como se um quisesse dizer pro outro: o TEU “renascentismo” acabou: Você morreu. Morri?

I can’t go on. And I won’t go on.

Beckett, que é o meu universo mais próximo, diria “but I’ll go on”. Sim, existia uma necessidade de se continuar. Mas olho em volta e me pergunto: Continuar o quê? Não há muito o que continuar.

Minha vida nos palcos acabou. Acabou porque eu determinei que os tempos de hoje não refletem teatro e vice-versa. Também não estou a fim de criar o iTheatro, assim como o iPhone ou o iPod. A miniatura e o “self satistaction” cabem muito bem na decadência criativa de hoje. Mas, se formos analisar o último filme ou CD de fulano de tal, ou a última coreografia de não sei quem, veremos que tudo é uma mera repetição medíocre e menor de algo que já teve um gosto bom e novo.

Claro, minha opção dramatúrgica sempre foi escura, sempre foi dark, se assim querem. De Beckett e Kafka aos meus próprios pesadelos, que um crítico do New York Times disse que eu ”usava a platéia como meu terapeuta”. Até que coloquei Freud como sujeito principal da ópera “Tristão e Isolda” no Municipal do Rio. Acho que o resultado todo mundo conhece.

É estranho. Até 2003, 2005 talvez, ainda fazia sentido colocar coisas em cena. Sinceramente não sei descrever o que mudou. Mas mudou.

Claro que somos seres políticos. Mas isso não quer dizer que nossa obsessão ou a nossa única atenção tenha que ser A política. Ao contrário. A arte existe, ou existia, justamente para fazer pontes, metáforas, analogias entre a condição  e fantasia do ser humano de hoje e de outras eras e horas.

Daniel Barenboim, que nasceu Argentino mas é cidadão do mundo (um dos músicos mais brilhantes do mundo), e cidadão Israelense, achou uma forma de aplicar sua arte na prática. Ele tenta, desde 2004, “provocar”, através da música, a paz entre palestinos e israelenses. Fez um lindíssimo discurso ao receber o prêmio “Wolf” no Knesset Israelense dizendo que sua vida era somente validada pela música que ele conseguia construir com jovens músicos palestinos (presos, confinados – justamente na época em que Israel construía um Muro de separação) e jovens músicos israelenses.

Não sou tão  genial quanto Daniel Barenboim e construir uma peça de teatro é muito mais difícil que abrir partituras de um, digamos, Shostakovich ou Tchaicovski, e colocar a orquestra pra tocar.

AMNÉSIA TEMPORÁRIA

Um trecho de uma sinopse, por exemplo, que escrevi quando os tempos ainda se mostravam propícios:

“E em Terra em Trânsito, uma óbvia homenagem a Glauber, uma soprano só consegue se libertar de sua clausura entrando em delírios, conversando com um cisne fálico, judeu anti-sionista, depois de ouvir pelo rádio um discurso do falecido Paulo Francis sobre o que seria a verdadeira forma de “patriotismo”. O cisne (cinismo) sempre a traz de volta a lembranças: “Ah, você me lembra os silêncios  nas peças de Harold Pinter! Não são  psicológicos. Mas é que o sistema nacional de saúde  da Grã-Bretanha está em tal estado de declínio que os médicos estão  a receitar qualquer substância, mineral ou não mineral, que as pessoas ficam lá, assim, petrificadas… cheirando umas às outras…”

Essa “petrificação” que a sinopse descreve, acabou me pegando.

“Os dois espetáculos (Terra em Trânsito e Rainha Mentira), são  uma homenagem à cultura teatral e operística aos mortos pelos regimes autoritários/ditaduras”.

Serão mesmo? Homenagens?  Não, não são. Quando escrevo um espetáculo, escrevo e enceno o que tenho que encenar. Não penso em homenagens.

“Mais do que nunca eu acredito que somente através  da arte o ser humano voltará a ter uma consciência do que está fazendo nesse planeta e de seu ínfimo tamanho perante a esse imenso universo: ambas as peças  se encontram em “Liebestod”, a última ária de “Tristão  e Isolda”, onde o amor somente é possível através  da morte e vice-versa.  No enterro da minha mãe, ao qual eu não fui (por pura covardia) uma carta foi lida (mas ela é lida  na cena final de “Rainha Mentira”), que presta homenagem aos seres desse planeta que foram, de uma forma ou outra, desterrados, desaparecidos, torturados ou são  simplesmente o resultado de uma vida torta, psicologicamente torta, desde o início torta e curva, onde nenhuma linha reta foi, de fato, reta, onde as portas somente se fechavam  e onde tudo era sempre uma clausura e tudo era sempre proibido e sempre trancado. Então, a tal homenagem se torna real, através da ficção da vida do palco”.

Pulo pra outro trecho, lá no fim do programa.

“Essa xícara esparramada nessa vitrine desse sex shop em Munique era um símbolo que Beckett não ignoraria e não esqueceria jamais. Eu também não. Sejam bem vindos a tudo aquilo que transborda. ”

Por que coloquei esse trecho de programa ai? Não sei dizer.

Liberdade poética pura ou pura liberdade poética. Ou chateação mesmo! Talvez seja um indicador do quanto estou perdido no que QUERO DIZER e ONDE QUERO CHEGAR.

Tenho que sair por aí pra redescobrir quem eu sou. Talvez nunca venha a descobrir. Posso estar vivendo uma enorme ilusão. Mas não me custa tentar. Virei escravo de um computador e virei escravo de uma agenda política imediata da qual não faço  parte. Tenho uma imensa cultura histórica. Imensa. Tão grande que a política de hoje raramente me interessa. Sim, claro, Obama. Mil vezes Obama. Mas Obama afeta o mundo inteiro. Mais eu não quero dizer.

Tenho que sair por aí pra redescobrir quem eu sou.

(nota rápida: acabo de ver o que resta do The Who, Daltrey e Townsend, no programa do Jools Holland: não tem jeito: nenhuma banda de hoje tem identidade MESMO! A garotada babava! E era pra babar mesmo!)

Sabem? Vale sempre repetir. Fui criado na sombra do holocausto entre os pingos de Pollock e os “ready mades” de Duchamp e os rabiscos do Steinberg. Isso o Ivan Serpa e o Ziraldo me ensinaram muitíssimo cedo na vida.

E… Haroldo de Campos.

Meu Deus! O quanto eu devo a ele! Não somente o fato dele ter sido o curador dos livros que a Editora Perspectiva lançou a meu respeito mas… a convivência! E que convivência! E a amizade. Indescritível como o mundo ficou mais chato e menos redondo no dia em que ele morreu. E ele morreu na estréia do meu “Tristão e Isolda” no Municipal do Rio. Haroldo não somente entendia a minha obra, como escrevia sobre ela, traçava paralelos com outros autores e criava, transcriava a partir do meu trabalho. A honra que isso foi não tem paralelos. Por que a honra? Porque Haroldo era meu ídolo desde a minha adolescência. O mero fato de “Eletra ComCreta” se chamar assim, era uma homenagem aos concretistas.

Mas ele só veio aparecer na minha vida na “Trilogia Kafka”, em 1987. Eu simplesmente não acreditei quando ele entrou naquele subterrâneo do Teatro Ruth Escobar.

Nem mesmo a convivência com Helio Oiticica foi uma coisa tão forte e duradoura.

Não posso e não vou nomear todas as grandes influências da minha vida. Daria mais que um catálogo telefônico. Já bato nessa tecla faz um tempo.

Philip Glass dá uma graciosa e hilária entrevista a meu respeito (http://www.vimeo.com/2988089). Dura uns 20 minutos. Nela, ele sintetiza, como se num improviso, tudo aquilo que os scholars e os críticos não conseguem dizer ou tentam dizer com oito mil palavras por parágrafo! Essa entrevista também está no www.geraldthomas.com ou aqui em vídeos, no blog.

Meu pai me fazia ouvir Beethoven numa RCA Victor enorme que tínhamos. E eu, aos prantos, com a Pastoral (a sexta sinfonia) desenhava, desenhava essas coisas que, décadas mais tarde (na biblioteca do Museu Britânico) iam virando projetos de teatro. Hoje, com mais de 80 “coisas” montadas nos palcos do mundo, olho pra trás e o que vejo?

Vejo pouco. Vejo um mundo nivelado por uma culturazinha de merda, por twitters que nada dizem. Vejo pessoas sem a MENOR noção do que já houve e que se empolgam por besteiras. Nem bandas ou grupos de músicas inovadoras existem: vivemos num looping dentro da cabeça de alguém. Talvez dentro de John Malcovich.  E, ao contrário de Prospero, ele não nos liberta para o novo, mas nos condena pro velho e o gasto! Até a China tem a cara do Ocidente. Ou então nos antecipamos e nós é que temos a cara da China, já que tudo aqui é “made in China”.

Sim, encontrei Samuel Beckett, montei seus textos, encontrei um monte de gente que, quem ainda não viu, não sabe ou não leu – vá no www.geraldthomas.com e se depare com o meu universo.

E gostaria muitíssimo que vocês entendessem o seguinte: quando comecei minha carreira teatral, a vida, a cena aqui no East Village era “efervescente”. Tínhamos o Village Voice e o SoHo News pra nos apoiar intelectualmente. A “cena” daqui era multifacetada. Eram dezenas de companhias, desde aquelas sediadas no La MaMa, ou no PS122, ou em porões, ou em Lofts ou em garagens, ou aquelas que o BAM importava, mas era tudo uma NOVA criação. Era o exercício do experimentalismo. Do risco.  E os críticos, assim como os ensaístas, nos davam páginas de apoio.

Além do mais, a minha geração não INVENTOU nada. Somente levou aquilo que (frutos de Artaud, Julian e Grotowski), como Bob Wilson, Pina Bausch, Victor Garcia, Peter Brook, Peter Stein e Richard Foreman e Ellen Stewart, etc., haviam colocado em cena. Faço parte de uma geração de “colagistas” (se é que essa palavra existe). Simplesmente “levamos pra frente, com alguns toques pessoais” o que a geração anterior nos tinha dado na bandeja. Mas quem sofreu foram eles. Digo, a revolução foi de Artaud e não da minha geração..

Portanto, minha geração não fará parte da HISTÓRIA. Óbvio que digo isso com enorme tristeza. Nada fizemos, além de tocarmos o barco e ornamentarmos ele.

Ah, hoje o Village Voice está reduzido a um jornal de sex ads. Sobre os teatros eu prefiro não falar. Quanto aos grupos, 99 por cento deles, não existem mais e nem foram trocados por outros. Só se vê pastiche. É o mesmo que no mundo da música: é o mesmo bate-estaca em tudo que é lugar.

Esse universo está menor que aquele que Kepler ou Copernico ou Galileu descobriram. O Wooster Group aqui fechou suas portas. Muitas companhias de teatro daqui e da Europa fecharam suas portas. E poucos jovens sabem quem é Peter Brook. Esse ano perdemos Pina Bausch e Merce Cunningham e Bob Wilson, o Último Guerreiro de pé, inexplicavelmente, viaja com uma peça medíocre: “Quartett” de Heiner Mueller, que eu mesmo tive o desprazer de estrear aqui nos Estados Unidos (com George Bartenieff e Crystal Field) e no Brasil com Tonia Carreiro e Sergio Britto nos anos 80. Heiner Mueller é perda de tempo.

E Wilson está tendo enormes dificuldades em manter  seu complexo experimental em Watermill, Long Island, aqui perto, que habilitava jovens do mundo a virem montar mini espetáculos e conviver e trocar idéias com seus pares de outros países.

Sim, o tempo semi-acabou.

Mas somente parte desse tempo acabou. E o problema é meu. Como disse antes: vou tentar sair por aí pra redescobrir quem eu sou.

Mas vai ser difícil. Sou daqueles que viu a Tower Records abir a loja aqui na Broadway com Rua 4. Hoje a Tower se foi e até a Virgin, que  destruiu a Tower, também se foi e está com tapumes  cobrindo-a lá em Union Square. Parece analogia pra um 11 de Setembro? Não, não é. Falo somente de mega lojas de Cds.

Tive a sorte de seguir as carreiras de pessoas brilhantes, ver Hendrix de perto, ou Led Zeppelin, ou dirigir Richard Wagner, e estar na linha de cuspe de Michael Jackson e de assistir ao vivo o nascimento da televisão a cabo, da CNN, da internet, dos emails pra lá e pra cá. Deram-me presentes lindos como grande parte das óperas que dirigi nos melhores palcos das casas de Ópera da Europa.

São muitas fantasias que a depressão  não deixa mais transparecer. E o que é a arte sem a fantasia, sem o artifício? É o mesmo que o samba sem o surdo e a cuíca! Fica algo torto ou levemente aleijado.

Não, não estou indo embora. Anatole Rosenfeld escreveu:

O teatro é  mais antigo que a literatura e não depende dela. Há teatros que não se baseiam em textos literários. Segundo etnólogos, os pigmeus possuem um teatro extraordinário, que não tem texto. Representam a agonia de um elefante com uma imitação perfeita, com verdadeira arte no desempenho. Usam algumas palavras, obedecendo à tradição oral, mas não há texto ou literatura.

No improviso também há tradição.”

Perdi meu improviso. Sim, perdi a vontade de improvisar.

Vou fazer um enorme esforço em me ver de volta, seja via aqueles olhos de Rembrandt ou uma fatia do Tubarão de Damien Hirst.

Óbvio que – na eventual possibilidade de um acontecimento real – eu reapareço por aqui com textos, imagens, etc. Também sem acontecimentos. Pode ser que eu me encontre no meio da Tunísia, numa tenda de renda, e resolva, a la Paul Bowles escrever algo: surgirá aqui também. Então, o blog permanecerá aberto, se o IG assim o permitir.

Sei que estou no início de uma longa, quase impossível e solitária jornada.

I’ve had the best theater and opera stages of the world, in more than 15 countries given to me. Yes,  I was given the gift of the Gods. No complaints, whatsoever. It has been a wonderful ride. Really has. Thank you all so very much. Thank you all so very very much.

Um breve adeus para vocês!

LOVE

Gerald Thomas, 7 September 2009

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Lula, o Messias que Nada fez: Ainda Tem a Gripe Suína. Ah, Deixa pra Lá…

Gerald Thomas

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Morre o Leão do Senado Americano

 

 

New York- Morreu ontem à noite o “último” dos Kennedys. Irmão mais novo de John e Bob (ambos assassinados), Ted foi um dos maiores combatentes a favor dos direitos humanos.

Todos sabíamos que já estava muito mal, sofrendo de um tumor no cérebro, tanto é que não conseguiu participar da campanha do Presidente Obama o quanto quis participar.

Num jantar estratégico (e Obama já eleito) na Casa Branca, servido para pouquíssimas pessoas, Ted passou muito mal e teve que ser retirado.

Os Kennedys têm ou tiveram uma vida trágica e uma complicada relação com o álcool. No caso de Ted Kennedy o álcool provocou um acidente de carro em Chappaquiddick, em que sua secretária (e amante) acabou morrendo. Ele nadou e se salvou. E isso quase lhe custou a carreira política.

O namoro com a morte entre os Kennedys é tão famosa quanto é triste e inclui aqueles que se agregam à ela, como Jackie ou a família Shriver: na medida oriental do yin e yang, eles são tão fortes quanto são fracos.

Robert Kennedy, o irmão do meio, assassinado em 1968, teria sido um dos maiores lideres e pensadores políticos desse país. Sua causa era justamente a de quebrar a barreira da cor (naquela época), do preconceito racial. Ted, de certa forma seguiu seus passos, mas timidamente.

Até os Republicanos o respeitavam. Coisa rara num país dividido entre conservadores e liberais.

O “leão do Senado”, como era chamado, conseguia alianças em todas as áreas porque era um homem brilhante e porque vinha de uma família brilhante! E não media esforços em sua própria batalha no campo dos direitos civis ou da educação e da saúde.

Agosto ou o câncer? Ou os dois? Tem sido triste que – quarenta e cinco anos depois que seu irmão mais velho, John, iniciou o projeto que iria colocar o homem na Lua, ainda estamos perdendo pessoas notáveis e não notáveis para o câncer! É de dois em dois dias, abrir o jornal pra ver a desgraça!Michael Jackson, Pina Bausch, Merce Cunningham, Eunice Shriver, Walter Cronkite, Don Hewitt e…

Ted Kennedy disse, na posse de Obama: “Eu vi a luz”. Qual terá sido ela? A “era Obama” ou a luz que vem com a morte?

Gerald Thomas

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O Reality Show do Woodstock + materia do G1

 

 

New York – Pois é! Quarenta anos se passaram. Mas quarenta anos se passaram desde o homem na Lua, desde que os Beatles isso e aquilo, desde o assassinato de JFK, desde…

 

Quando é que vamos parar de contar ou contabilizar numericamente as coisas, os eventos? Daqui a pouco serão 50 anos.

 

Então, voltando  a Woodstock, sim, peguei o último dia. A maior parte já estava voltando e eu ia na contramão. Com 15 anos de idade nas costas (mas me sentindo maduro como uma Susan Sontag) subi a colina e coloquei os pés na lama e… e o quê?

 

Encontrei um lugar sereno, com menos de meio milhão de pessoas, onde “tudo era permitido”.

 

E esse “tudo era permitido” não é uma questão tão simples. Pelo menos não era. Um ano antes, 68, foi pauleira. As polícias do mundo inteiro pegaram estudantes e manifestantes do mundo inteiro de PORRADA!

 

“Como pode então uma polícia passiva?”, pensava eu, vendo todo mundo fumando seus joints e tanta gente nua, muitos trepando ali, em tendas abertas.

 

E hoje? Como estamos?

 

Estamos bem? Bem, não tivemos ainda nenhuma GUERRA MUNDIAL, então, por esse termômetro, estamos… razoavelmente bem.

 

Mas, culturalmente, estamos PÉSSIMOS! Duchamp, que morreu em 68, e que já havia ironizado a pintura e arte em geral, não podia prever que em 2009 estaríamos com 2000 (dois mil) canais a cabo mostrando merda. E qual merda? Reality shows do PIOR NÍVEL ou então, o que é mais triste ainda, quando comparado a Woodstock, o tal “Vale Tudo”, the Ultimate Fighting, onde homens enjaulados se atracam e partem pra cima dos outros com toda espécie de golpes e sangue e quebras de tudo que seria um avanço, aos urros do público! Uau!

 

Ficamos mais cínicos, mais hipócritas e mais imbecis: claro, os demographics do mundo duplicaram! A maior parte do mundo encaretou! E nem sabe direito que Woodstock não foi somente uma grande festa e celebração de uma geração que levava porrada por PROTESTAR contra a guerra do Vietnam e lutar pela PAZ. PEACE, Man, Peace! Não se tratava simplesmente de um conglomerado de meio milhão de pessoas celebrando a paz (e em paz), debaixo de chuva ou sol, ao som de Hendrix, do Who, de Crosby, Stills, Nash and Young e Joplin e Santana e Country Joe and the Fish e tantos outros: tratava-se de uma afirmação! Estávamos mudando o rumo do mundo.

 

Mudamos?

 

Nada.

 

O ser humano mata golfinhos, esses seres que falam conosco.

 

O ser humano mata racoons (espécie de cães: os dois posts abaixo) e lhes arranca a pele enquanto VIVOS, ao som de Hendrix.

 

Se mudamos o rumo do mundo, mudamos esse mundo por três dias. Ou nos nossos sonhos, assim como numa peça de Shakespeare. O encantamento dura enquanto o espetáculo dura. E foi somente isso. O resto? É a glorificação do passado. Somos, como sempre fomos, um Weapon of self Destruction. E isso não poderemos medir em quarenta anos.

 

 

Gerald Thomas

 

 

 

 

(Vamp na edição)

 

Matéria do G1: Gerald Thomas em Woodstock: ‘melhor show foram 8 violões e uma lata de lixo’

Dramaturgo diz ao G1 que esteve no festival quando tinha 15 anos.
Brasileiros que viveram a época refletem sobre efeitos na contracultura.

O diretor e dramaturgo Gerald Thomas (Foto: Agência Estado) 

 

 

“Cheguei no último dia, algumas pessoas estavam indo embora, mas eu encontrei muita gente ainda lá. Hoje se fala entre 400 mil e 500 mil pessoas. Na época, a gente não pensava assim – pensava: ‘meu Deus, quanta gente, que loucura!’”.
 
A recordação é do diretor e dramaturgo Gerald Thomas, que diz ter estado em Woodstock no último dia do festival (domingo, 17 de agosto de 1969). Nascido em Nova York, em 1954, o diretor de “Um circo de rins e fígados” e “Príncipe de Copacabana” veio ainda bebê para o Rio de Janeiro com a família. Aos 13 anos de idade voltou para a Grande Maçã e tinha 15 anos quando pegou a estrada rumo ao festival em Bethel, comunidade rural no estado de Nova York.

“Uma das lembranças mais fortes que eu tenho, além da lama e do fedor, foi a passividade dos policiais diante de tudo o que estava acontecendo. Pouco tempo antes, a polícia espancava pessoas em Berkeley. [Woodstock] foi o momento em que eu – e, acredito, muita gente – pensei: ‘Caramba, o mundo está mudando’. A impressão era nítida, como nunca tinha sido antes”, conta Thomas em entrevista por telefone ao G1, de Nova York, onde mora atualmente.

Fã de Jimi Hendrix e The Who (que tinha esperanças de ver ao vivo – o que não aconteceu, uma vez que a banda se apresentou no dia anterior), Thomas diz que sua apresentação musical favorita no festival não aconteceu no palco principal, no centro da fazenda. “Foi de um grupo de pessoas sentadas no gramado, não foi no palco. Acho que eram oito violões e uma lata de lixo virada ao contrário usada como tambor. E era um som absolutamente impressionante. Nunca vou saber quem eram.”

O diretor lembra que a cena era comum. “Durante a troca das bandas, a gente não tinha muito o que fazer, demorava horas, às vezes quase duas horas. E as pessoas iam se aglomerando em volta desses pequenos grupos. Fiquei perto desse grupo e achei uma coisa incrivelmente linda.” 
 


Público no Festival de Woodstock (Foto: AFP/AFP)

Paz, amor… e brigas
Por outro lado, Thomas não acredita que houve em Woodstock tanta paz e amor quanto é lembrado por alguns dos frequentadores. Segundo ele, havia brigas acontecendo na plateia. Como exemplo, ele cita o caso do ativista Abbie Hoffman, que foi expulso do palco pelo The Who, no sábado.

“Não vi porque cheguei no dia seguinte, mas foi o próprio Hoffman quem me contou a história mais tarde. Ele havia subido no palco para denunciar o Who como ‘vendidos’ e começou a fazer um discurso. O Pete Townsend [guitarrista da banda], que é um cara imenso de grande, deu-lhe uma guitarrada e jogou o Hoffman para fora do palco. Em 1971 saiu o disco ‘Who’s next’ com a música ‘Won’t get fooled again’ e o verso: ‘Conheça o novo chefe/ É igual ao velho chefe’”.

Thomas se mostra, em certa medida, decepcionado e cético em relação às mudanças provocadas pela contracultura. “O que aquela geração se tornou? Um bando de loucos que jogam na Bolsa de Valores e transformam a bolsa nisso que você viu acontecer em setembro, outubro do ano passado. Um monte de companhias falidas, uma economia desastrosa. Ou seja, nada mudou, porque o ser humano é assim.”
 
‘Sabíamos que a dor estava lá fora’
Assim como Gerald, outros brasileiros que viveram a época lembram de Woodstock como um marco, um divisor de águas. Joel Macedo, escritor e correspondente da primeira versão da revista “Rolling Stone” brasileira, entre 1972 e 1973, morava na Califórnia em 1969 e não conseguiu atravessar o país para chegar a Woodstock, mas sentiu seus efeitos.
 
Macedo enxerga no festival um componente político importante. “Woodstock até foi sexo, drogas e rock‘n’roll, mas foi também o grito de uma geração contra o sistema capitalista (…). As pessoas quebraram as cercas que afastavam o festival do povo, invadiram a fazenda e transformaram um evento que teria um lado comercial numa mega e mitológica celebração tribal. Não foram os superstars que fizeram do Festival de Woodstock um mito, foi o povo”.
 
De Bethel à Mooca
Com a barra pesando na ditadura no Brasil e as mudanças significativas que ocorriam no exterior – com Woodstock à frente, mostrando a nova força do movimento hippie –, muitos brasileiros partiram para o exílio, imposto ou voluntário. Foi o caso do artista plástico Antonio Peticov, que, preocupado com o regime militar nacional se auto-exilou em Londres em 1970, em partes, inspirado por Woodstock.

“Na época as informações chegavam lentamente para nós no Brasil, era complicado. Então, para um garoto de classe média baixa da Mooca (bairro de São Paulo) saber que aconteceu um festival daqueles, programado para 50 mil pessoas e para o qual chegaram 500 mil, foi um estalo: ‘somos uma nação!’.”

Peticov acabou indo ao festival da Ilha de Wight na Inglaterra em 1970, onde encontrou os amigos Gilberto Gil e Caetano Veloso. “Foi uma coisa mágica”, define. Mas, apesar dos ótimos shows e de conhecer uma “nação hippie” maior ainda (o público total de Wight foi de 600 mil pessoas), o artista percebeu que o clima já havia mudado. “Lá já havia o grande problema da questão do comércio. Todo mundo ganhando dinheiro às custas dos hippies”.

Thomas também concorda que Woodstock foi diferente de outros festivais. “Foi um evento quase espontâneo, eu não sei o que reuniu aquelas pessoas. Porque foi único. Altamont não foi assim, Monterrey não foi assim, o festival da ilha de Wight não foi assim. Ele foi único na sua vontade de mostrar para o mundo que a nossa geração tinha força.”
 


Americanos reunidos para a posse de Barack Obama, em janeiro de 2009 (Foto: AFP)
 
‘Obamastock’
O diretor acredita que o festival não foi só um marco mas que é algo que precisa voltar a acontecer. “George Bush foi um retrocesso tão grande que voltamos à uma época pré-Woodstock. Agora com Obama no poder a gente vai avançar de novo no tempo. Teria que haver um novo Woodstock”.

A referência ao novo presidente dos EUA não é à toa – Thomas trabalhou por um ano na campanha do democrata. E acha que encontrou seu próprio “novo Woodstock”, maior e mais inclusivo. “Com a vitória do Obama eu desci para Washington no dia 20 de janeiro (dia da posse do presidente) e chegando lá eu disse, por alguns minutos: ‘isto aqui é Woodstock no inverno’. Um Woodstock com um p… frio, mas ninguém estava sentindo frio, estavam todos sentindo um enorme calor humano. E era quatro vezes Woodstock, porque eram dois milhões de pessoas”, compara.
 

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Descascando Animais

DESMEMBRAMENTOS, ou o Auschwitz dos Animais.

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New York – Com uma câmera escondida filmaram animais, cuja pele era  retirada enquanto ainda todos  vivos. Dizem que é para permitir um corte limpo, depois as carcaças são jogadas em pilhas ainda vivos e por mais ou menos 10 minutos o coração bate e olhos piscam e as patas dos cães tremem. Leram o que está escrito? Cães! Não bastasse o post anterior expor a matança absolutamente cruel e desnecessária de pequenas baleias e golfinhos na Dinamarca (ritual de passagem, my ass!), agora estamos lidando com cachorros mesmo. No vídeo vemos um que levantou a cabeça e fixou os olhos ensanguentados direto para câmera. Pessoalmente, isso me derruba. Pessoalmente, se eu pudesse, eu mataria, sem a menor compaixão, os (não) humanos que cometem esses crimes contra esses seres.

O vídeo que se segue é de uma violência dolorosa. Os seus silêncios atingem no fundo cada um de nós.

 

Pledge to go fur-free at PETA.org.
 

Ontem à noite, por acaso, vi um documentário sobre Marcel Duchamp. Aquele que mais amo, que mais admiro, que riu de tudo, que desmembrou tudo há exatos cem anos! Não houve mais “arte” depois dele, no entanto não entendemos mesmo a mensagem: e o que fazemos? Arte. Ou pensamos que fazemos. Duchamp, sua musa brasileira, a embaixatriz brasileira Maria Martins, em seu longo affair, seu Large Glass: uma declaração de amor ao celibato e à sacanagem, dependendo de qual parte do vidro se quer ver.

Por que eu trouxe Duchamp pra dentro disso? Porque ando numa fase sem muitas explicações.

Assim como deveria ou poderia estar hoje escrevendo sobre Woodstock. Ainda escreverei o meu ÚNICO dia lá, debaixo de chuva.

Quanto a essa matança de animais, voltamos atrás. Digo, viramos a ser cruéis como éramos (na escala da evolução, estamos no ZERO). E quando penso que levei meu pai pra subir as pequenas e improvisadas escadas de madeira no lado de Berlin Ocidental, que olhavam pra Berlin Oriental, por cima do Muro (o que, indiretamente, acabou causando sua morte), não consigo viver bem dentro dessa minha pele.

Olhando direto para dentro da câmera… .


Gerald Thomas

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(Vamp na edição)


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Nojo!

 


Miami – Essa série de fotos (que o Pacheco me enviou) de matança de golfinhos ou pequenas baleias (não sei ao certo) me deixou num estado de… de que nada mais vale a pena: de que somos uma raça de merda mesmo! E isso, cometido pelos Dinamarqueses! Apresento-me na DK desde 1990, com certa regularidade. Conheço seus atores, seus ministros da Cultura, seu público. E confesso que não dá!

 

Temos leis, não temos? O ultimo post (aqui embaixo) gerou enormes discussões: sobre a “liberdade de se expressar” fumando ou não!

 

Muitos dinamarqueses dirão que “vivem” da pesca. E que é um livre direito deles cometerem esse tipo de “GENOCÍDIO” absurdo que vemos nas fotos: esse Mar Vermelho, quase bíblico.

 

Aliás, muita gente vive de muita coisa. E mais da metade desse trabalho é “bárbaro” no sentido do primitivismo da coisa, da barbárie da coisa. Eu, particularmente, cheguei num certo limite: não aguento mais.

 

Não sei se porque a data de hoje me lembra a morte da minha mãe, ou a minha covardia em enfrentá-la (a morte), ou em enxergar esses movimentos obsessivos e redundantes nos quais nos vemos envolvidos (M.O.R.T.E. espetáculo meu de 1990, vai fazer 20 anos).

 

Crise. Crise total.

 

As praias de South Beach estão vazias pra essa época do ano: o calor está completamente insuportável. E estou numa dessas fases onde não acredito mais em nada: leio os jornais ou ligo a TV e é tudo sempre igual: as mesmas discussões sobre isso ou aquilo.

 

Somos mínimos. Somos ainda menores que mínimos. E imperfeitos. E eu, ainda sob o impacto daquele auto-retrato de Rembrandt, feito aos 55 anos de idade, continuo minha jornada não sei como.

 

E esse “não sei como” está repleto de dor.

Dor do mundo, como se diz. Não combina muito com o mar de Miami e com a beleza da “cultura do corpo” daqui, com a nudez do lugar, com os corpos bronzeados, já que vejo tudo como uma breve passagem. Uma breve interrupção.

 

Como seres humanos, sempre nos posicionando de maneira tão rígida, numa fila de opiniões disso ou daquilo, a favor disso ou daquilo outro, me sinto como se estivesse num enorme campo de futebol, cercado de mil jogadores felizes, por terem essa tal de bola que eu não consigo enxergar.

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Gerald Thomas

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(O Vampiro de Curitiba na edição)

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