Monthly Archives: March 2004

DA VAIDADE

''vaidade, tudo é vaidade''(Eclesiastes)

por Adrilles Jorge

A primeira coisa que fazemos quando acordamos é nos olharmos no espelho.Geralmente a imagem não é muito agradável.Lavamos o rosto, nos penteamos, tentamos nos recompor,enfim.É a evidência mais primária daquilo que nos alimenta: nossa vaidade.

Nossa vida toda é calcada nesta metáfora elementar.Tentamos nos recompor,através de nós mesmos, para nós mesmos e para os outros, do caos sem sentido que é a vida.Nunca nos satisfazemos.O mais narcisista, o mais egocêntrico dos seres nunca está plenamente satisfeito consigo mesmo.A satisfação é a própria morte.

A vaidade é a base primitiva do próprio artista.Sejamos francos:o mais culto dos seres não sabe muita coisa além de si mesmo.É a partir de si próprio que um artista interpreta e INVENTA o mundo.Não há escapatória deste narcisimo elementar a que estamos condenados, e de que um artista se alimenta.

Mas passemos da mais nobre das funções para uma mais baixa:a de jornalista.Em princípio, um jornalista deve ser uma ponte, uma condução à informação.Aparentemente, nada menos narcisista,não?Nada mais falacioso, meus caros.Alguém que detém o poder da informação tem a ãnsia de interpretar o que vê, de dizer, do seu ponto de vista, o que é o mundo.Tão narcisista quanto um artista, mas certamente mais inocente e ingênuo, e por isto mesmo mais perigoso(no pior sentido da palavra).Não existe objetividade.O universo é construído de um enorme ''sujeito'' estilhaçado em bilhões;um mundo de subjetividades únicas e distintas.

O caos ,então?Não.Há apenas uma maneira de nos libertarmos deste universo de incomunicabilidades.Através do amor.Reparem:a única vez que conseguimos nos libertar de nós mesmos é quando amamos alguém.Quando nos apaixonamos ou quando temos um filho, e esta pessoa a que amamos torna-se para nós mais importante do que nós mesmos.E o que importa se somos todos seres solitários?compartilhemos então nossa solidão, nossos egos, nossas vaidades.A generosidade da arte reside justamente aí, nesta vaidade compartilhada, doada, comunicada a todos.Que se dane a objetividade.Entreguemo-nos como sujeitos que somos.

É preciso ler com mais cuidado o mandamento cristão que diz que devemos amar o próximo como a nós mesmos.COMO A NÓS MESMOS.Primeiro é preciso aprender a SE amar antes de amar os outros, ou seja, a vaidade é intrínseca ao amor.Se nos libertamos de nós mesmos ao amarmos nossos filhos e nossos(as) amantes, é porque este amor é fruto de nossa própria personalidade.O objeto amado não é mais fundamental do que aquele que ama.E isto sem falar das vezes que amamos sem sermos correspondidos.

Mais que um instinto, maternal, sexual, o que seja, é preciso lembrar que ,sim, escolhemos a quem amamos.O que é urgente é que saibamos ampliar esta escolha. é que aprendamos a amar como os artistas, reparo, com os VERDADEIROS artistas, não com meros fabricantes de entretenimento.Invejo os artistas porque eles, com seus narcisismos, com suas megalomenias, são os únicos que sabem amar realmente.Através, e unicamente através deles mesmos.E que amor.

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Espiritualismo e ateísmo

por Tathiana Lessa

Não se pode dizer, de maneira absoluta, que toda democracia seja espiritualista e que toda a autocracia seja atéia. Na verdade, diz Jaques Maritain que a democracia está ligada ao cristianismo e que o impulso democrático surgiu na história humana como uma manifestação temporal da inspiração evangélica. Explica Maritain que isso não significa que a democracia derive do cristianismo como "credo religioso", mas como "fermento social" na profundeza da consciência humana, como anseio de igualdade, de liberdade e de dignidade.
Em face dessas idéias, é fácil observar que nas democracias floresce um intenso espiritualismo, seja nas várias correntes do cristianismo seja em outras formas de religião.As democracias asseguram a liberdade de pensamento e religião, entre as várias expressões de Liberdade, e, assim permitem ao cidadão atender as inclinações profundas de sua personalidade para as elucubrações da vida sobrenatural, seguindo tradições dos antepassados.
Quanto às autocracias de esquerda e de direita, há que lembrar, em primeiro lugar, que têm tradições espiritualistas todas as latino-americanas. O problema surge nas autocracias de esquerda, de que a Rússia e a China são as expressões maiores:nesses países, toda a atividade religiosa se acha afetada pela filosofia marxista-leninista dominante. Aliás, dentro da concepção marxista, todos os fenômenos sociais são uma decorrência de fenômenos ou estados econômicos e só estes têm importância. Para Lênin , a religião era o "ópio do povo". O ateísmo, com o correr dos anos,assim ganha campo nos países comunistas, porque as gerações novas já têm contato com padres ou missionários ou ministros de qualquer culto.
O sistema democrático de governo, ao estabelecer a separação entre a Igreja e o Estado, veio assegurar a todos os cidadãos o direito de ter ou não ter uma religião. O que contraria a dignidade da pessoa humana é vedar-lhe a expressão de seu anseio mais íntimo e mais profundo – o anseio de Deus. Disse-o bem Fulton Sheen, um escritor famoso durante a última Guerra: "O coração humano tem sede de absoluto." E, como disse Voltaire, se o homem não tivesse Deus, criaria um Deus para si.
O cristianismo tem no Amor a síntese suprema de toda a conduta humana e é essa lição que ressumbra dos Evangelhos.Daí as palavras de Maritain, para quem a democracia se funda na transcendência espiritual da mensagem de Cristo. Todas as democracias modernas, assegurando as liberdades civis, asseguram também a de crença, um dos "direitos inalienáveis", a que aludia Jefferson, na proclamação da independência americana. E constitui inominável violência dar "a César o que é de César", e negar "a Deus o que é de Deus".
Os cristãos repudiam o marxismo-leninista, entre outras, pela razão essencial de negar a vida espiritual, fundado no materialismo dialético.Eis um poema do alemão Bertolt Brecht, onde o mesmo nos dá uma idéia de salvação em que a própria capacidade de crer passa a ser objeto de dúvida.


Hino a Deus


No fundo dos vales escuros morrem os famintos.
Mas você lhes mostra o pão e os deixa morrer.
Mas você reina eterno e invisível
Radiante e cruel, sobre o plano infinito.

Deixou os jovens morrerem, e os que fruíam a vida
Mas os que desejam morrer, não permitiu…
Muitos daqueles que agora apodreceram
Acreditavam em você, e morreram confiantes.

Deixou os pobres pobres, ano após ano
Porque o desejo deles era mais belo que o seu céu
Infelizmente morreram antes que chegasse com a luz
Morreram bem-aventurados, no entanto – e apodreceram imediatamente.
Muitos dizem que você não existe e que é melhor assim.
Mas como pode não existir o que pode assim enganar?
Se tantos vivem de você, e de outro modo não poderiam morrer-
Diga-me, que importância pode ter então que você não exista?

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texto do Adrilles Jorge

SOBRE ALGO
Penso diariamente em suicídio.Por mais absurdo que possa parecer., é a única maneira de manter minha lucidez.É difícil conviver com a falta de sentido e do total esgotamento intelectual humano.Todos os humanismos foram contestados, todos os sistemas políticos, toda a filosofia, absolutamente tudo foi posto em cheque no século passado.
O que sobrou?Nada mais que este porre absoluto chamado relativismo.Dá até saudade de um certo conservadorismo que dizia (que ainda diz) que há princípios incontestáveis, que há valores indiscutíveis.
Mas não dá para voltar atrás.Como acreditar piamente em uma moral cristã depois de Nietzsche?Como pensar em uma república utópica de Platão depois de termos inventado esta mídia imoral que fabrica meias verdades?(Fatos, eles dizem, atenham-se aos fatos.Mas o que são os fatos sem uma compreesão maior?''os fatos me entediam'', já dizia Paul Valéry.).A história das idéias parece ser uma constante humilhação de teses passadas, uma permanente autofagia que se alimenta de si própria e nos lança , cada vez mais , em um vácuo.
Não sou cético, apesar de o parecer.Meu problema é justamente este:tenho esperança.Em princípio, todos(os que permanecem vivos) temos.Me alimento exclusivamente deste câncer ''salutar'' chamado esperança.É preciso saber tirar lições do absurdo em que vivemos.É urgente a criação de uma nova didática que obedeça aos moldes da arte.Sim, da arte mesmo.Platão expulsou os artistas de sua ''república''.Talvez fosse melhor expulsar os pensadores.Não há mais espaço para um pensamento cartesiano, lógico, racional.É preciso reinventar o modo de se pensar, e talvez este modo seja a poesia.As tensões da nossa era ''pragmática'' estão se rompendo.Vivemos em um mundo bárbaro travestido de civilização.''O mais forte sobrevive''.Força econômica, força de poder.Nada mais.Apenas um arremedo do sistema feudal da idade média.E ainda nos chamamos de ''pós-modernos''.
Vivemos, aparentemente, em um mundo supostamente melhor do que foi antes.Aqui, na terrinha ,desfrutamos de um regime democrático que dá voz à todos.Mas de que adianta o direito à voz, se quase ninguém tem o que dizer?Não há voz, mas apenas um grunhido animalesco e inaudível.O que se observa é uma multidão de apáticos que seguem ordinariamente a voz daqueles que JULGAM ter razão, o que é muito pior.Yeats dizia que ''os piores sempre são radicais, enquanto aos melhores falta convicção''.Tendo a concordar.
E ficamos nós aqui, intelectuaizinhos desencantados mastigando nossa própria desilusão.É preciso agir, é preciso sim ser infantilmente utópico, é preciso lutar contra moinhos de vento, é preciso ser patética e ridiculamente quixotesco.Ou então seremos esmagados por esta razão medíocre, por esta sanidade tediosa que nos ensinam desde o berço e que deu no que deu.Cá para mim, prefiro o meu ridículo.
Adrilles Jorge

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a solidao e a perseguicao

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Harold Bloom, Don Quixote e o debate

Depois de um debate tao tumultuado sobre o que eh e o que nao eh……eu queria so copiar algumas linhas aqui de Harold Bloom a respeito da nova traducao de Don Quixote por Edith Grossman:

" Qual eh a natureza exata da QUESTAO de Don Quixote? Essa questão não tem resposta. Quais eram os os motivos reais, autênticos de Hamlet? Igualmente, nos – o publico – não temos acesso a resposta. Não sabemos, simplesmente. Já que a QUESTAO magnífica do cavaleiro de Miguel de Cervantes tem um leque cosmológico de reverberação e nenhum objeto lhe parece fora de alcance."

Pois eh, estou encantado com essa nova versão de Don Quixote e, principalmente com a introdução de Bloom. Desde "Invention of the Human" onde ele pega as obras completas (ou quase completas) de Shakespeare, e as analisa de um ponto de vista pesssoal e desconstrutivista (mas sem ser chato ou pretensioso), esse monstruoso gênio tem o mesmo dom que o "nosso" Harold", o Haroldo de Campos também tinha: o de somar as questões político-socias e literárias de diversas épocas históricas, e apresenta-las numa única pagina, fazendo com que o UNIVERSO se apresente sucinto, claro, como se visto pelo telescópio de Palo Alto, ou pelo Hubble.

Eh a única forma através da qual nos – pequenos e medíocre que somos – podemos medir nosso tamanho vis-a-vis aquilo que consideramos ser o nosso ANTI-MESTRE, ou seja, a nossa anti-imagem ou imagem MAIOR (o que alguns querem chamar de Deus).

Estamos virando nossa maior anti-materia, assim como o buraco negro esta brincando conosco, tendo como finalidade ultima, engolir-nos a todos. Mas, enquanto isso não acontece, a gente vai se deleitando com questões dialéticas, com as varias interpretações de Hegel, com as mil e quatro interpretações de Freud e com as 330 intepretacoes de se Godot era mesmo o "Deus" (God….ot) que não chegava ou um ciclista no Tour de France chamado Godeaux que, em 1938 simplesmente não chegou em Champs Elisee……(Beckett me contou isso pessoalmente).

Estou adorando o que esse Blog esta virando. Acho que esta na hora do Adrilles Jorge mandar um texto propriamente (não acha?) e a Ana Peluso publicar aquele triangulo epistolar que rolou por uns dias…….

Fora as malcriacoes que acontecem nas melhores famílias, estou orgulhosíssimo de que isso aqui, finalmente virou um FORUM de discussões e passou da janela egocêntrica que anunciava em que estagio eu estava no meu dia a dia.

Agradeço aos meus contribuidores profunda e calorosamente.

LOVE

Gerald Thomas (segunda feira meio dia em Nova York um sol de rachar)

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Desabafo critico, por Tathiana Lessa

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o dialogo das Anas

Ana Guimaraes e Ana Peluso

Ufa! Estou ha horas lutando aqui com esse blog desde que voltei do jantar tentando postar uma materia mas o Blog diz que o numero de caracteres eh excessivo. MENTIRA. Ja escrevi o TRIPLO e entrou sem problemas. Enfim, mandei copia de tudo pra Ana Peluso e espero que ela, com as magicas internauticas dela, consiga. Fiz de um email dela um dialogo entre nos.

Tambem gostaria de ver o triangulo epistolar entre o Ardilles e a Ana e a Tathianna publicado aqui. Eh otimo e nao precisa (a nao ser que os autores se oponham) ficar reduzido a escuridao do anonimato dos emails.

Agora vamos a Ana Guimaraes: pessoa apaixonante mesmo Ana (peluso) (gente, eh tanta Ana….). Nos conhecemos no Rio ha uns anos, por causa da minha coluna num jornal local. Eh uma inteligenterrima psicanalista lacaniana (deu pra sacar), mas nem tudo eh tao simples e tao claro quando se quer ler ou se pretende ler aquilo que ja eh o "imaginado e conscientemente concebido" , assim como a minha obra, ou a obra de qualquer artista considerado artista da era pos-Freudiana, desconstrutivista ou conceitual. Claro, a leitura que ela fez do DRY e do WET foram otimas (pena que a critica do Antonio Quinet de Anchorpectoris ainda nao tenha saido em nenhum jornal e agora…perdeu seu momentum……), mas nada/tudo/seco/molhado e os opostos no chamado quadraro semiotico nem sempre se estabelecem como sendo pontos convergentes quando se trata de arte.

As vezes a arte esta na frente da psicanalise ou da ciencia. Tanto eh que eles nos estudam e sao inspitados na nossa obra. Claro, o oposto tambem eh verdadeiro. O video que vi sobre Derrida semana passada bate muita coisa,. Bateu na minha cara, Mas Derrida nao eh- exatamente – um paiscanalista. Mas diz que eh tudo. ER mais um pouco.

Ana Guimaraes me foi muito preciosa num momento de crise (quantas ne?) e eh uma mente brilhante e fico feliz de ver voce aqui. Mas o termo neurose eh um termo complexo. Prefiro o approach de Canetti quando fala de uma complexidade indisvendavel chamada "pacote humano" ou o poeta Paul Celan quando simplesmente usa a simplicidade das atrocidades holocausticas e reduz a Alemanha a um leite negro. Neurose? Claro que sim. Mas a poesia e a arte em geral sao uma especie de anti virus pra ela. Assim como o suicidio.

LOVE

Gerald

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