Monthly Archives: February 2019

I sit by the window and wonder……Stress? Or is it ….?

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De Guilherme Zelig (novo texto inédito e maravilhoso) “AS LUVAS”

 

Guilherme Zelig, autor

Era um homem esquisito, bastante vigoroso, de seus cinquenta e tantos anos. De aparência nem um pouco amistosa, penetrava o olhar dos investigadores como se quisesse fazer consigo o que costumava fazer com suas vítimas. Era até temoroso enfrentá-lo. Tinha um ar de pessoa violenta, agressiva. Não era nada agradável dividir uma saleta tão pequena com um sujeito mal encarado daquele tipo.

– Muito bem, Alceu – disse um dos investigadores, com as nádegas postas sobre a mesa amadeirada que era uma das poucas mobílias daquela saleta. – O que aconteceu naquela noite?

– Prefiro não dizer – redarguiu o outro, completamente inacessível, com aquele olhar suspeito a fitar de cima a baixo os dois outros homens.

Estava vestido com calças jeans e uma jaqueta de couro preta que revelavam o sério problema que tinha com caspas. Usava uma bota pesada, também de couro e preta, sem os cadarços. Sob os braços cruzados e sua expressão despreocupada, revelavam-se suas mãos e, nessas, luvas para academia – que deixavam livres os seus longos e gordos dedos.

A cidade ficara abalada quando descobrira uma dezena de corpos de vítimas, jogadas em frente às suas casas, sem sinais de violação ou quaisquer coisas do tipo, porém com sinais de uma crueldade inumana. Eram todas elas espostejadas ainda vivas, a verem seus órgãos a sair de si dentro de um carro parado em frente de casa, completamente impotentes em pedir ajuda e, quando o crime era finalmente concluído, Alceu jogava seus passageiros em frente a suas casas, em pedaços, por prazer.

– Como você explica essa sua crueldade para com as pessoas? – perguntou o outro investigador. – De que forma, com o carro ainda em movimento, você conseguia matar e esquartejar suas vítimas?

– Ele deve ter algum comparsa – murmurou o outro, porém de forma audível.

A escutar a última frase, Alceu coçou-se incomodado com aquela dúvida. Parecia que não aceitava realizar aqueles crimes – de características violentas tão escandalosas – com a ajuda de quem quer que fosse.

Irritado com o silêncio, o homem que estava sentado à mesa levantou-se num átimo.

– Você vai cooperar ou não? – disse ele, em tom imperativo.

– O que vocês querem saber? – replicou, impaciente, o Alceu.

– Como você matava as vítimas?

– Primeiro, eu as estrangulava – disse ele, cheio de reticências, a sorrir.

– E como segurava o volante do carro? – perguntou o primeiro investigador.

– Segredo – disse ele, a dar um leve riso debochado.

– E depois? – perguntou o outro investigador, curioso.

– Depois que as percebia sem vida, punha minhas luvas e começava a fazer meus cortes…

– E você virou motorista com esse objetivo?

Alceu assentiu. Ali sua figura desumana acentuou-se. Demonstrou ser, agora sem a máscara, o monstro que presumiam os dois investigadores. Aquele homem despudorado e vil matava por prazer. Como se o fizesse por ofício. Ali parara quando fora surpreendido por policiais que viram uma mulher aparentemente desacordada em seu banco de passageiro. Fora conduzido para fora do veículo, com as luvas nas mãos e estas postas à cabeça, e a mulher, já morta, levada para um IML. Detrás da proteção para bancos, descobriram os policiais as manchas de sangue dos crimes anteriores e começaram a fazer correlações com as histórias vinculadas pelos periódicos. Era ele: o motorista assassino a quem todos estavam procurando.

***

Contudo, enquanto os investigadores decidiam se far-lhe-iam mais perguntas ou coletavam aquelas gravações como provas contundentes do criminoso, Alceu levantou-se e de dentro de sua luva tirou uma navalha – sem que os policiais percebessem.

Dentro daquela saleta cometera Alceu seu último crime: um duplo homicídio, com características de espostejamento e fugira sem deixar rastro – com as vestes de um dos policiais.

Guilherme Zelig

São Paulo, February 23, 2019

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Adriane Gomes hoje as 23h no CABARE DA CECILIA (rua fortunato 35, Santa Cecília- São Paulo, SP)

TEXTO DE ADRIANE GOMES (+ Guimarães Rosa e Gerald Thomas)

Detalhamento da Performance

cenário: um banco e um microfone

(Mulher entra vestida de homem)

Boa Noite (bar do lado de fora)

Essa é a minha vez de falar, todos voces já falaram…. eu sempre quis falar, eu pensei muitas vezes sobre isso…. pensei que isso nunca aconteceria. (fala pra uma pessoa) eu não sei porque mas eu desconfio que era apenas medo!

Então resolvi escrever pra não ficar com medo e não ficar nervoso.

(vai entrando pra dentro do bar e falando o texto acima)

Mas eu já estou nervoso. (olha para a plateia)

(entra dentro do bar, desce as escadas) música ambiente alta, vai baixando devagar) Já sentada

…quando eu era criança eu adorava falar, falava mais que o homem da cobra… foi nessa época que eu morava em frente a escola perto do rio.

Pra mim tudo começou no rio… a gente de cuequinha andando de mãos dadas entre as pedras dos rios, escondidos entre os capões de mata, olhos nos olhos, e a gente já estava se embrenhando mundo à fora:

“Aquele lugar, o ar. Primeiro, fiquei sabendo que gostava de Diadorim – de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei – na hora. Melhor alembro.”

***

“O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente – “Diadorim, meu amor…” Como era que eu podia dizer aquilo?”

***

“E como é que o amor desponta.”

***

“Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe.”

***

“E eu – como é que posso explicar ao senhor o poder de amor que eu criei? Minha vida o diga. Se amor ? … Diadorim tomou conta de mim.”

***

“E de repente eu estava gostando dele, num descomum, gostando ainda mais do que antes, com meu coração nos pés, por pisável; e dele o tempo todo eu tinha gostado. Amor que amei – daí então acreditei.”

***

“Um Diadorim só para mim. Tudo tem seus mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abraçava com meu corpo aquele Diadorim- que não era de verdade. Não era?”

***

“Diadorim deixou de ser nome, virou sentimento meu”

***

“Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora, eu pudesse morrer, não me importava

é a vida imitando a arte desde cedo (eu sei isso é clichê)… e então atrás do paiol nos beijamos pela primeira vez, quando ia tomar banho ele subia no pé de Goiabeira pra ver o diabo que era eu mostrando minhas partes pra ele era assim: eu sentava dentro da bacia ABRIA AS PERNAS e ficava mostrando pra ele, e quando acordava já queria ele grudado em mim… brincamos de mijar um no outro, trocamos cuspe lambemos as partes, e no fim gozamos… Ele era filho de pastor, eu era filho de Petista o pai dele PMDB roxo. Meu pai detestava os crentes que colocavam bem alto o som do culto pra toda cidade escutar.

Quando fiz 5 anos minha mãe morreu e eu fui pra cidade, virar puta, artista, levar porrada. Eu sentia saudade do cuzinho dele, e do seu pau se esfregando em mim. nunca mais voltei lá…  Quando ja estava adolescente fui brincar na casa de uma amiga ela era nossa vizinha e um certo dia eu estava sentada na cama da dela e  ela passou a mão nos meus seios e beijou a minha boca, disse que é pra gente aprender como se faz, depois chupou meus peitinhos, fez um rolo de papel e colocou entre nossas vaginas, e se esfregava em mim, eu não entendia muito bem…  depois ela gozou e me mandou ir embora.

No bairro tinha um padre, Um ´padre velho, ele pediu para sentir o cheiro da minha vagina, rapidamente ajoelhado no chão, eu estava de saia e ele era padre da igreja da minha tia mais carola. todas as vezes que estávamos sozinhos ele tocava meus seios, e ajoelhava pra cheirar minha bucetinha, até que um dia ele não aguentou e pediu para tocar com a língua quando sua língua encostou, tive o desejo de enfiar minha buceta na sua cara e sufocar ele, mas ele parecia um cachorrinho lambendo, me virou de costas, e lambe meu cu, enfia a lingua la dentro, e chupava… depois deitou no chão me pediu pra fazer xixi nele e me mandou sentar na sua cara, mas antes me pediu para perdoar ele… eu olhei e cuspi nele e depois sentei e gozei no seu rosto, eu tinha 13 anos.

Ja na fase adulta, fui trabalhar com um grupo de teatro infantil e lá tinha um diretor dessas bem canalhas e bem bonitos, mas bem filho da puta, desses abusadores…. um dia ele chegou desceu da sua Moto potente, com seu pintinho fedido no meio da pernas, e percbendo que eu estava sozinha na sala de ensaio, resolveu enfiar aquele pequeno instrumento fedido na minha boca, foi ai que eu comecei a me lembrar de um sonho antigo, foi aí que eu comecei a me lembrar de quem realmente  eu sou… quem sou… mas mesmo assim demorou mais de 8 anos pra eu entender que essa crápula é apenas um crápula.

2 ato O sonho de MININI

Atriz volta de Boneca

pega o microfone

Acho que ele morreu com o pulmão perfurado pelo meu super salto. Era o único sapato que eu tinha, digo de salto daquele tamanho- eu chamava ele de “foz do Iguaçu”. Tristeza.

Não ha mais chances pró mundo. É deus contra deus, é religião contra religião: com tanto GOOGLE pra la e pra ca, com tanto iPhone e ipad e ifuck e iMe e i-MEUDEUS o que sobrou mesmo foi aquela flor no fundo do jardim pedindo um pouco d’agua.

Outro dia foram me chupar e desmaiaram. Romântica que sou, achei que foi de amor. “Ah, que lindo, desmaiou com o elixir do amor!” Nada! Desmaiou com a cândida ou  o pessimismo e a correnteza e o TRIconoma la de dentro mesmo e no chão ficou. E caiu em cima do meu sapato de salto alto.

Eu sei que não é fácil viver afastado do mundo. Sei como é difícil “tentar” estar envolvido e, no entanto, não estar. Imagino como deva ser enfurecedor. 

O negócio então é esperar. Esperar o matadouro matar essa merda e vender a minha vidinha pra um açougue qualquer onde alguem, algum poeta sujo e boemio, como Artaud ou Rimbaud – veganos, obvio, que nem passam perto de açougues e não moram no Brasil, me comprem. abre o roupão.

Dança

Pega o mel e derrama no pau

e oferece pro público

Adriane Gomes de Brito

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“Agachada no banheiro” – um texto maravilhoso de Adriane Gomes.

Adriane Gomes

...no banheiro agachada lavando os pintos (material cênico) penso no número de homens que passaram na minha vida e no quanto eu era uma putinha. Putinha? Eu me lembrei de algumas cenas rápidas de sexo, me virei, olhei no espelho, e vi (pausa) uma senhora magra, seca, de olhar triste, e pensei nas dores de hoje, peguei um dos pintos, enxuguei, andei na direção do quarto quando aquela maldita dor me acometeu o quadril, e eu pensei: que merda viver com tantas dores, viver dói demais, (pausa dramática) eu chorei mesmo, e resolvi sentar aqui e escrever: eu não quero falar da senhora do espelho e nem dos olhos esgotados de muitos sentimentos e uma vida estranha.

A minha vida é estranha, a minha casa é estranha, eu sou estranha.

Eu decidi estar aqui, e essa foi a minha opção… (sem palavras) Estou em crise, e não sei ainda o que está acontecendo. Você chama de surto, eu de depressão, tristeza profunda, não sei… medo. Estou muito cansada confusa e a única coisa boa que aconteceu nesses últimos tempos, foi aquela conversa que tivemos sobre gênero e identificação.

Isso foi bom porque abriu outras referências de vida, e me deu alívio falar da sensação que tenho sobre a identificação com os dois sexos e isso é muito confuso e eu nunca tinha pensado sobre esse ponto de vista.

E sobre isso me vem as seguintes imagens:

Quando eu era criança eu queria fazer xixi em pé.

Eu sempre queria tomar banho com os meninos.

Eu andava na beira do rio seguindo os meninos mais velhos e tinha uma pinguela bem fininha era parecida com uma corda bamba, Corda Bamba, A CORDA BAMBA (lembrei)

O rio enchia e fazia enxurrada nas ruas,

quando adolescente eu morei na casa de dois irmãos que moravam com um amigo, todos eles eram Gays, ou Bi, era uma casa diferente e eu sempre participava como modelo para as makes. Eu era uma travesti, uma travestizinha. Eu era a ADRIENNE, assim a Gerus (amigo do meu irmão) Falava.

Corta para a vida (corta a Verteria (jeito que meu pai se referia a Artéria da galinha) (impulso de morte)

meu estado: Ansiosa

(Preciso sair para resolver coisas… mas…)

Antes de sair para resolver problemas fico andando indo e voltando para o mesmo ponto, não tenho vontade de falar

sensação no meio do peito como uma dor constante, medo?

Sabe quando a gente vai entrar em cena que dá aquele frio na barriga? imagina isso direto, imagina esse sentimento o dia todo….

se você conseguir ler tudo isso… você sempre lê… eu tenho certeza! com amor sua sempre  Adriane Gomes (carta escrita respondendo um questionamento do telefone).

Adriane Gomes de Brito

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“A MEDIOCRIDADE”, novo texto de Guilherme Zelig.

Guilherme Zelig

“A MEDIOCRIDADE”

Enquanto escutava aquele triste blues de Gary B. B. Coleman naquela noite fria, ainda com frases de Philip Roth em mente, a construir as relações de Casei Com Um Comunista em sua cabeça, e a apreciar um chá já frio naquela caneca branca de porcelana, Sérgio refletia também sobre a que ponto a mediocridade da vida se lhe acometera.

Duas horas antes, sua esposa ainda reclamava sobre sua inaptidão de ir ter com o filho, Miguel, que, pela terceira vez em menos de duas semanas de aula, havia brigado na escola com algum outro fedelho juvenil metido a durão. Ela só fazia-o recordar de que nunca na vida havia-se preparado para a paternidade, muito menos para a construção de uma família burguesa à brasileira.

O fato de todos os dias bater cartão em casa às nove e meia da noite, trocar muxoxos com Silvia – que geralmente assistia às telenovelas ou lia algum livro de romance do século XIX – e ter de relatar todas as frustrações, angústias, risadas, preocupações de seu dia na direção daquela editorial aporrinhava-lhe bastante. Havia momentos que gostaria de mudar de rota, sentar-se em uma mesa de bar e beber toda tristeza acumulada em seu cerne até aquele ponto de sua existência considerada banal.

Havia muito não conseguia fazer nada direito: não acompanhava a vida escolar do filho; não satisfazia as necessidades sexuais da esposa; na editora, prorrogara reunião com três tradutores e adiara o lançamento de quatro livros; às reuniões maçônicas já não comparecia; discutira com o padre na última vez que havia ido à missa; aos parentes, nem um sinal de vida. Percebia Sérgio que a vida transformara-lhe em um homem medíocre.

Levantou-se, a fechar o livro e jogá-lo sobre a mesa de centro. O disco na vitrola havia muito só estava a rodar – a agulha já estava em riste. Era uma e quinze da madrugada e percebeu Sérgio que lhe faltavam propósitos na vida. Dirigiu-se ao quarto do filho e assistiu por um determinado momento à sonolência do garoto. Embora devesse aparecer-lhe no dia seguinte de rosto fechado e a pedir explicações sobre o ocorrido na escola, um estranho orgulho preencheu-lhe o ser. Um valentão em casa. Em seguida, voltou à realidade. Fechou a porta, meio acabrunhado.

Apagou as luzes da casa e dirigiu-se ao seu quarto de dormir. Silvia dormia, de terna expressão à face. Acima de tudo, amava-a. Amava-a a ponto de aceitar que Silvia também percebesse a mediocridade que envolvia a existência do marido. Tudo aquilo era culpa unicamente dele. É de suma importância ressaltar a culpa, pensou ele enquanto acendia o abajur.

Deitou-se à cama – a sentir o peso de sua existência acometer-se-lhe enfaticamente. Sentia-se estar findando. Com isso, pensava, garantiria ali o que havia muito estava predisposto a fazer: terminar com sua mediocridade com a iminência da morte. O corpo começou a formigar. Suas mãos e pés adormeceram. Parecia ele entrar em um certo êxtase. Conseguiu desligar o abajur e sentiu-se engolido pelo negrume da escuridão e pelos cobertores. Pensava que morreria ali, ao lado de sua amada, a fazer algo que passar-se-ia longe de ser medíocre: passar-se-ia de ser a consumação de seu pleno estágio do ato de ser e existir à inevitabilidade da inexistência como força de sua intrépida vontade.

Uma tristeza profunda arrebatou-se-lhe quando, na manhã seguinte, viu-se desperto pelo barulho do despertador. A mediocridade vencera.

Guilherme Zelig

Fev/2019

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S.O.L.O my solo piece with Lisa Giobbi – opened in Copenhagen on November 24, 2018, is finally on Vimeo.

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BANNED FROM FACEBOOK.

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February 12, 2019 · 8:24 pm