Monthly Archives: December 2004

a morte de Susan Sontag

São Paulo, quarta-feira, 29 de dezembro de 2004

Desta vez, a realidade ultrapassou a metáfora

GERALD THOMAS
ESPECIAL PARA A FOLHA, EM NOVA YORK

Não posso dizer que Susan Sontag era minha amiga, propriamente. Mas éramos "conhecidos". E esse conhecimento se deu através de Samuel Beckett, seu fascínio pela obra dele e pelo fato de eu conhecer o mestre. Falo da década de 80, quando todos os ícones estavam vivos e eu estava em cartaz com a "Beckett Trilogy" no La MaMa, estrelada por Julian Beck, um grande amigo (esse, sim, enorme amigo) de Susan.
Susan vinha visitar a produção várias vezes, e íamos tomar café numa espelunca anexa ao teatro, na rua 4, no East Village. Ela me perguntava (a palavra mais certa seria "torturava" com perguntas) sobre Beckett: "Como ele é?", "como anda?", "como senta?", "você conhece o apartamento dele?". Coincidentemente, o nome da mulher de Beckett era Suzanne. Ela me atentou para esse fato.
Dias depois, recebo um telefonema, e ela me convida para conhecer sua ENORME coleção de botas de caubói, quando ainda morava na rua 17 e estava casada com a coreógrafa Lucinda Childs (que mais tarde, em 95, se tornou parceira minha numa produção fracassada, que tinha Luciano Berio como líder, em Florença).
Fiquei boquiaberto e não conseguia muito entender aquela intelectual, de quem eu tinha lido tudo e havia assistido aos debates (ela mediava Umberto Eco na New York University, mas não o deixava falar) e divagava apaixonadamente sobre Roland Barthes, com aquele "closet" repleto com prateleiras e mais prateleiras cheias de botas de caubói. "São o meu fetiche e não me pergunte mais!", dizia ela, morrendo de rir. "Quem venceu a batalha contra o câncer [ela escreveu um livro sobre isso, "A Doença como Metáfora') e tem um filho para sustentar, pode-se dar a esse luxo."
Um dia me chamou às pressas para Boston, ou melhor, Cambridge, Massachusetts, onde fica o American Repertory Theatre. O diretor artístico de lá, Robert Brustein (um teórico importante do teatro americano), a havia convidado a montar uma peça de Diderot. E lá fomos nós. Daniela Thomas, eu e Alisa Solomon (minha amiga e crítica do "Village Voice") e, decepcionados com a produção, não sabíamos o que dizer no final do espetáculo.
Mas a "flamboyance" de Susan não deixava espaço para que alguém inserisse qualquer tipo de crítica. O público dormia, e a crítica tinha caído de pau. Susan precisava de carinho e elogios. Alisa, vidrada em Sontag, procurou desviar o assunto e falar da sua obra como semióloga, e isso a irritou bastante. "Os críticos não iam tolerar a minha incursão no teatro. Seria demais para eles. Eles tinham que me destruir!!!!!"
De volta a Nova York e separada de Lucinda, recebo um telefonema dela. "Venha ver o meu novo apartamento na King Street, no SoHo. Agora estou morando do lado da Grove Press, ou seja, um pouco mais perto de Beckett."
Achei engraçado a facilidade com que Susan tratou sua separação e a mudança. Era época de plena "guerra" entra ela e Camille Paglia na imprensa americana. Ela, dessa vez, me perguntou sobre Machado de Assis. Envergonhado, disse que não sabia muito sobre Machado e que era melhor continuarmos a falar sobre Beckett. Foi lá que ela teve a primeira idéia de encenar "Esperando Godot". Só não sabia ainda onde.
Anos se passaram e ela aparecia esporadicamente. Viu o "Flash and Crash Days" no Lincoln Center e me mandou um cartão: "Não achei a produção à altura da trilogia Kafka, me ligue". A essa altura, já estava casada com a fotógrafa Annie Leibovitz e morava no complexo "posh" aqui nessa mesma rua 23, onde moro, só que no lado do Chelsea. Annie, por sua vez, já havia sido namorada de Bia Feitler, a brasileira que revolucionou a diagramação da "Harper's Bazaar" e "Rolling Stone" e nos deliciamos em conversa fútil.
Sempre foi ativa em vários aspectos da vida intelectual, mas perdemos contato nestes últimos anos. Eu a seguia pela imprensa e vi que foi uma das vozes mais lúcidas e ativas quando os aviões abateram o WTC e continuou sendo uma das vozes dissidentes e lúcidas na América até o fim.


Gerald Thomas é diretor teatral

Advertisements

41 Comments

Filed under Sem categoria

a neve que caiu sobre Nova York

Esta lindo. Vou descer e me deitar nela. Meu mundo chegou a um fim. Sou capaz de me abalar com o maremoto que matou tanta gente em Sri Lanka, India, thailandia, sinceramente nao desenvolvi o tal cinismo que o Chico Buarque tanto fala, apesar de entender perfeitamente o que ele quer dizer, quando fala da sociedade como um todo. Mas eu, metido aqui nesse conflito neuroticamente patriotico e invasivo por mais 4 anos (e quem sabe, o proximo candidato Republicano tambem ganhe), junto com a minha decepcao pessoal do que o Lula esta se tornando…um Stanilismo podre, velho, horroroso…..e Gilberto Gil no meio disso…….Nao. Chega. Nao tenho dormido direito desde o Natal, quando servi comida numa shelter. Mas, tendo chegado aos 50 anos de vida e ja tendo passado por uma militancia politica e trabalhado na Amnesty International em Londres, fazendo o possivel pra "abrandar as coisas" relativas ao Brasil; vejo que essas pessoas hoje estao no poder e sao destrutivas, corrosivas e…..Nao, o meu teatro ou nenhum teatro serao solucao pra isso. O tal monologo de Hamlet esta, mais que nunca na minha cabeca. So que a questao aqui nao eh a vinganca e sim a esperanca. O ser ou nao ser aqui revolve em torno da esperanca. Mas tal qual Hamlet, onde as palavras tomam o lugar da acao, so fica o silencio e nada acontece.

Nao eh epoca pra respostas ou perguntas. Amei o que o Chico teve a dizer na Folha esses dias. So a ultra-maturidade traz essas coisas. Ah, claro, e muita paciencia. Ele aguentou muito tempo calado. Eu nao tenho essa paciencia e nao vejo 2005, 2006 e os anos seguintes nos dando prazer, trabalho ou dignidade. Vejo alienacao, idiotice e a midia contribuindo pra que tudo isso seja mais idiotizante ainda pra vender seus celulares, seus I-pods, seus CDs e tudo que ENSURDECE as pessoas e as torne "numb" ou seja, dormentes. Ai no Brasil, vai ser a eterna novela das 7, a das 8, as das 9, a das 10, quem sabe a das 11….e o Pais para pra ver e eu nunca entendi isso. Aqui, eh Hollywood, a mesma coisa com as super-producoes e os reality shows na televisao. Minhas ilusoes estao estateladas no espelho. Vou cobri-lo com num ritual judaico de morte. Pra mim basta. Ainda prefiro uma caminhada aqui pelo East Village que eh terra de lugar nenhum, odiado pela America, e, obviamente nao fazendo parte da Europa, mas com meio pe na merda e outro na Lama, onde loucos ou semi-loucos confraternizam e falam de suicidio como se fosse uma coisa da epoca dos Sex Pistols, coisa parada no ar, parada no tunel do tempo. Talvez tivesse ter sido melhor parar ali mesmo, junto com eles, ou com Kurt Cobain. Hoje, os tabloides so escrevem porcariadas sobre…..voces sabem o que digo e o CULTURAL GAP esta se tornando INSUPORTAVEL. As (varias) Igrejas LUCRAM em cima desse desespero todo e emburrecem mais ainda quem ja nao esta "brain dead". Nao ha mais o que salvar. Nao ha mais jornalismo isento. Nunca houve, mas agora esta transparentemente descarado!!!! Vao la minha gente. Rabelais pra voces! Eu cresci com Krystalnacht na minha cabeca desde que nasci. A Alemanha nazista esta em cada fio dos meus longos cabelos. Nao da pra continuar. E nao vou fazer trocadilhos com Beckett. Chega de Beckett. Ta cheio dele em Suicide Note. Um dia voces voltarao a ouvir falar de mim.

Feliz Ano novo pra quem tem fe

Eu nao tenho mais

Gerald

49 Comments

Filed under Sem categoria

MÔNICA BERGAMO, da Folha Ilustrada

São Paulo, quarta-feira, 15 de dezembro de 2004

MÔNICA BERGAMO

GELO SECO
Cogitando tirar seu blog do ar, devido a ataques que sofreu de internautas, o dramaturgo Gerald Thomas agora está irado com o Orkut, no qual há alguém se passando por ele. "O Orkut vai ter problemas jurídicos comigo", anuncia Thomas, que também dispara contra o "vigarista": "Vou acabar com a vida desse imbecil".

15 Comments

Filed under Sem categoria

Âncora no peito

13 Comments

Filed under Sem categoria

MÔNICA BERGAMO, da Folha Ilustrada

São Paulo, quarta-feira, 15 de dezembro de 2004

MÔNICA BERGAMO

TECLADO
Acabou em aborrecimento uma brincadeira do dramaturgo Gerald Thomas com o apresentador Marcelo Tas na internet. Thomas escreveu em seu blog que já teve um romance com Tas – que "confirmou" em sua página: "Sim, já namorei o Gerald!". Os dois estavam mentindo. "As pessoas não têm humor", reclama Thomas. "Estou fechando o meu blog. A internet virou uma coisa horrorosa, com um bando de anônimos de baixíssimo Q.I.." Tas também ficou aborrecido com a agressividade dos internautas.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1512200406.htm

4 Comments

Filed under Sem categoria

Gerald entrevista Jiosef Fainberg

2 Comments

Filed under Sem categoria