Monthly Archives: December 2016

Lindo email de Guilherme Zelig sobre “Entre Duas Fileiras”: LINDO !!!

Guilherme Zelig

Guilherme Zelig

Terminei a tua autobiografia. Tardei a lê-la porque queria que fosse a minha última leitura de 2016, a prever que acabaria no dia de meu aniversário, mas acabei um dia antes. Tudo isso com gosto de quero mais. De olhar para a última página e desejar ler mais umas cinquenta, cem, duzentas de tão insólita e maravilhosa e instigante escrita e pormenores de sua louca vida, vida breve. Mesmo aos 62 anos. Afinal, o que são 62, 24 (que completarei amanhã), um século ou um par de anos para a história da humanidade? Cheia de erros e acertos. E, sob esses dilemas, está você na existência.

A memorar meu mestre, teu mestre, nosso mestre John Fante e seu fantástico Arturo Bandini, teu livro – meio ficção, meio vida real – além de uma aula de humanidade, é inspirador para quem ainda não experimentou a pílula chamada coragem.

Você diz em determinado momento que suas lágrimas são de covardia e autopiedade. Não, afinal estamos em um mundo onde o individual é o que importa. Você é dos poucos que chora pela dor alheia com sinceridade. Porque também a conhece, intimamente. A solidão, as tristezas, as perdas, o desespero por não conseguir transformar em exclamação a grande interrogação chamada vida. Eu te entendo muito bem. E sinto. E entristeço-me como lamuriei diversas vezes aqui, como o Werther de Goethe – que você tantas vezes o mencionou. Ou aquelas pessoas-animais de Zola e seu naturalismo idiossincrático.

Um imenso nó na garganta o teu livro. Você transporta o leitor a seu teatro pessoal. Uma hora estamos à ribalta com você; outra hora, somos meros expectadores de seu drama pessoal. A tentar te entender – algo que ousei em determinado momento, mas acho que esse sentimento de dúvidas quanto a você é o que me instiga a te perscrutar mais e mais. Afinal, você é a sua pura arte. Outra hora nos vemos sentados no divã, a deixar que você anote os nossos dramas. E invertemos papéis. Você vai ao divã e se define.

Olho para o teu – agora meu, com teu autógrafo cheio de interrogações – negro livro e me pergunto se não te li rápido demais. Se não te penetrei demasiadamente rápido. Se detalhes minuciosos foram perdidos em estado catártico de leitura ao qual me encontrava. Certamente lerei. Mas não como li durante esses três últimos dias. Sim, comecei no dia 27 e planejei terminar dia 31. Foram horas ininterruptas de leitura e risadas e caras de choro. A relembrar meu desespero aqui ao receber aqueles avisos de Leon. Ao tentar receber alguma notícia positiva. E depois veio teu e-mail, a dizer que estava bem, e que tudo ficaria bem. Um alívio.

E veio nosso breve hiato – idiotice de minha parte. Teus inúmeros e-mails a pedir para que eu reavaliasse meus modos de agir. E quão infantil fui! E te vi de perto, de novo, ao vivo e a cores, mais vivo do que eu – que também pertenço a Os Mortos, de Joyce, ou sou como aquela personagem de Zola que, em sua impotência de dizer que estava vivo, fora enterrado vivo.

E vivos ficaremos. Você está ótimo! Não pude – nem consegui, nem tive tempo, nem me encorajei – dizer naquele momento na Livraria Cultura , enquanto munido estava de seu celular colocar meu número, para dizer quão feliz estava de te ver tão bem. E feliz!

Escrevi demais. É minha sina. Eu poderia ser breve e conciso como os poetas: seu livro é excepcional, instigante. Mas não consigo

Sempre tenho mais a dizer.

Obrigado por existir. E por também existir em minha vida.

Eu te amo

I love you

Te quiero

Io amo te

Muitos beijos

Gui

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Uma carta de Fernanda Montenegro pra mim e FELIZ ANO NOVO !

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Querido Gerald, exgenroeterno,

 

          Existem os que EXISTEM fora da “Ordem Mundial. ” O que se vai fazer? Quanto pior a barra, mais o endemoniado cria. É essa a carga que te cabe neste latifúndio. Viver na luz enviesada.

          Li teu livro ousando achar que te entendo.

          Te entendo?

          Você aprendeu a sêr o máximo possível de si mesmo. Seja o que fôr esse “sêr.” A frase é do Nelson Rodrigues: “Aprendi a ser o máximo possível de mim mesmo.”

          Sua visão sobre mim é tão bonita e só é tão bonita porque é tão humanamente, amorosamente patética.

          Gerald, lembrar aquela noite de estreia ou véspera (não lembro com clareza mais) em que você largou tudo, a barra de estreia naquele lugar e me tomou pela mão e ficou comigo naquele ante-consultório público alemão, sentadinhos ali, tão órfãos de nós mesmos, conversando nadas, eu, trincada de dor nas costelas. E você, fraterno, tão filho, parente, amigo, vizinho, solidário na dor. Esperou radiografia, exame de urina, de sangue.

          Você lembrando?

Resultado? Eu chorando!

Querido Gerald, fim de mais um ano.

Você sobreviveu.

Sobreviver é coisa pra burro.

No teu livro, você se narra com extrema, honesta e despudorada dramaturgia. Você é sempre o máximo possível de você mesmo. Você não se traiu nem nos traiu.

Só te peço uma coisa:

Não me morra!!!

Até já.

Com todas as benesses para mais um ano.

 

Fernanda

 

 

 

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Parceria (partnership): Paulo Rocha and Gerald Thomas (Hamburg + New York)

This short YouTube compilation marks the beginning of a series which started as a joke between us and is slowly developing into something far more than that. Of course, we’re using smartphone technology since our entire relationship began through Instagram and Skype.

So, here’s what Paulo did: he compiled the “best moments” and made it into this clip. To be continued (in the best “tradition” {dare I say} of the Super 8s used by Warhol, Oiticica and even by myself back in the late 1960s. It’s typical of the Kenneth Anger, Abbey Hoffman era and NOT YET outdated. If anything, just like the DJs of the modern era, we will bring back the BEST OF THE BEST and, the WURST of the worst. 

LOVE

Gerald

Zurich

December 22, 2016

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THANK YOU BARACK AND MICHELLE OBAMA !

Watching the First Lady Michelle Obama being interviewed by Oprah last night… oh man! Oh man! I had promised myself to hold back my tears but, with the terrible events in Berlin (my parents were originally from Berlin), I had already been shaken up and (plus) this was Michelle’s farewell interview as First Lady. They’re leaving the Presidency after EIGHT GLORIOUS YEARS. How many people in how many countries in the world can say this? I’ve been a supporter since the early days and I have to say this: THIS IS THE MOST BEAUTIFUL FAMILY IN THE WORLD. An example ! I can hope (HOPE) that we all will come to regret (or help improve) this next administration coming in. If I had to keep one thing….One only thing in my life…and everything else were to burn down in a bonfire of vanities, I’d keep these mementos shown below. Call me an idiot but I still believe in people’s souls.
Thank you Barack and Michelle Obama.

Vendo a entrevista ontem da Primeira Dama Michelle Obama (pela Oprah), caramba! Eu havia me prometido não chorar. Mas com os horrendos eventos em Berlim (meus pais eram originalmente de Berlin), eu já estava bem emocionado. Essa era a entrevista derradeira da primeira dama depois de OITO ANOS GLORIOSOS. Quantas pessoas e em quantos países podem dizer isso? Tenho sido um “supporter” desde o inicio de suas campanhas. ESSA EH A FAMILIA MAIS LINDA DO MUNDO. Um exemplo de esperança (HOPE). E, se eu tivesse que guardar uma única coisa, umas coisinhas só….E todo o resto queimasse numa fogueira de vaidades, eu levaria essas lembranças (cartões) mostrados ai embaixo. Me chamem de idiota mas eu ainda acredito na alma humana.
Obrigado Barack e Michelle Obama.

GERALD THOMAS

NYC, December 20, 2016

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Por JARDEL DIAS CAVALCANTI (resenha de “Entre Duas Fileiras”)

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Gerald Thomas, uma autobiografia.

(Jardel Dias Cavalcanti)

“Tornei-me consciente de ser um – eu e a vida – o que significava, em meu caso, buscar uma expressão artística para minha existência.” A frase de Oskar Kokoschka poderia ter saído da boca de Gerald Thomas. A sua autobiografia Entre duas fileiras, editada agora pela Record, apresenta como o dramaturgo encontrou para sua vida o caminho da expressão artística. Nem a autobiografia escapou de ser, também, uma obra de arte, um exercício de escrita artística.

O que Gerald Thomas faz não é um relato de fait divers de sua vida (fait divers como o refugo desorganizado das notícias informes, segundo Barthes). Ao contrário, o que pressentimos é um mergulho do homem do presente, com suas angústias atuais, revendo o passado (e o presente) de uma forma, por vezes, impiedosa. Para ele e para os outros, como para os mundos onde viveu e vive.

GERALD THOMAS, BENVENUTO CELLINI E GOETHE

Estamos numa época narcísica, com as livrarias recheadas de biografias e autobiografias. Sintoma do caráter individualista burguês da nossa cultura selfítica? No entanto, não é de hoje que existem autobiografias, e nem sempre elas são apenas o reflexo de um narcisismo decadente. Para ficar em alguns casos célebres, temos Cellini, Goethe… e, atualmente, essa de Gerald Thomas.

CELLINI

Talvez a primeira autobiografia da história tenha sido escrita no Renascimento (sec. XVI) pelo ourives e escultor florentino Benvenuto Cellini, época onde já se havia superado o conceito medieval de que escrever as próprias memórias seria um ato de extrema vaidade. Cellini escreveu sua Vita quando o artista era sexagenário e, diferente das outras autobiografias da época, chamadas de libri di ricordanze, onde apenas se anotava a circulação financeira, batismos, casamentos, funerais etc, ou seja, registros de fatos cotidianos, sem a intensão de registrar uma determinada imagem de uma pessoa, diferente disso, Cellini acreditava estar escrevendo, ao narrar as suas memórias, uma obra literária.

Uma autobiografia para ser importante não deve fornecer dados apenas sobre a pessoa que escreve, ela deve ser culturalmente importante, sendo também uma reflexão sobre uma época. Outra questão que envolve a autobiografia, essa dada pelo próprio Cellini em sua justificativa de redação de suas memórias, é que são os homens que praticaram atos virtuosos, e já estando em alta idade, que devem deixar registradas suas experiências para a posteridade. Diz ele: “Todo homem que produz qualquer obra de mérito deveria, sendo sincero e honesto, escrever com o próprio punho a sua vida; mas essa empresa não deve ser encetada antes dos quarenta anos.” Em um soneto ele resumiu seu desejo: “Escrevo a minha vida acidentada// altas coisas eu fiz na minha estrada.”

Do ponto de vista da escrita, Cellini segui como inspiração a obra Le vite de Giogio Vasari, mas partindo de um modelo, buscou superá-lo, opondo-se ao estilo polido da narração clássica, escrevendo uma narrativa mais espontânea e agressiva. Outra questão que chama a atenção é que sua autobiografia foi escrita depois da fundição de seu Perseu e que a segunda parte trata justamente do processo de elaboração de sua obra prima e as agruras que teve que passar até concluí-la. Ou seja, trata-se do homem virtuoso que supera as agruras da vida para terminar sua grande obra. Por isso, pode tornar sua memória pública.

GOETHE

A proclamação da individualidade dos artistas e o culto ao gênio atormentado pelo Romantismo deu impulso ao acesso à Vite de Cellini. Goethe ficou muito impressionado com a autobiografia de Cellini durante sua viagem à Itália. Não só leu como a traduziu para o alemão e prefaciou em 1796 a obra do florentino, existindo inclusive entre os críticos a ideia de que a cena de uso de necromancia em pleno Coliseu para conquistar uma mulher, presente na obra de Cellini, influenciou o Fausto. Ou seja, a autobiografia de Cellini estava presente no berço do pensamento romântico alemão.

Goethe também escreveu suas memórias, cujo título é Memórias: poesia e verdade. O objetivo de sua autobiografia foi apresentar a história de sua formação interior, do seu intelecto, e as transformações a que passou ao longo da vida. Suas emoções íntimas, no entanto, não são expostas. Segundo observa o comentador da tradução brasileira “a biografia, segundo Goethe, deve apresentar o homem em relação com sua época, determinando até que ponto a situação histórica o contraria ou favorece, que tipo de cosmovisão decorre dessa influência e – quando se trata de um artista – como suas concepções se refletem em sua obra”. O que suas memórias revelam são as circunstâncias peculiares que deram origem a cada obra, expondo impulsos interiores, influências externas e etapas vivenciais vencidas na teoria e na prática, numa inter-relação tão estreita com sua obra poética que as fronteiras entre a escritura ficcional a autobiografia se perdem e o resultado é uma espécie de Bildungsroman da vida real.

O GÊNIO ACIMA DA LEI

Outro leitor romântico apaixonado pela Vita de Celinni foi Byron que a traduziu para o inglês, embora não tivesse publicado a sua tradução. A mais famosa tradução para o inglês foi feita por John A. Symonds. Na tradução de Symond algumas passagens foram retiradas. Uma delas chama a atenção. A ideia do artista como gênio acima da lei é mencionada quando Cellini, acusado de assassinato, é defendido pelo papa Paolo III nos seguintes termos: “Você não sabe que um homem como Benvenuto, único na sua profissão, não deve obrigações à lei.”

Na França a autobiografia de Cellini foi traduzida por Lamartine em 1866 e o compositor romântico Hector Berlioz compôs uma ópera em 1838 com o nome de Benvenuto Cellini. O autoretrato do artista elevado à condição de arte.

GERALD THOMAS

Chamei para esta resenha a presença de Cellini e Goethe porque vejo uma identidade entre a obra autobiográfica dos dois e a autobiografia Entre duas fileiras, de Gerald Thomas. Na verdade, no caso particular de Gerald se acentua o que neles é apenas ainda um anúncio tímido da liberdade de expor elementos da sua intimidade e personalidade, enquanto, pensando na identidade entre os três, o que os une é a ideia de revelar a constituição de sua formação pessoal, de suas obras e a crítica ao seu próprio tempo.

A não separação entre a própria vida e a obra (não que a obra derive diretamente da vida) é o que Gerald faz mais do que os outros. A vida, e não apenas as suas obras, tratada em suas façanhas como obra de arte, ou como algo excepcional, eis o que pretende a narrativa de Thomas. Um pouco mais além, a própria escrita de suas memórias sendo elevada à categoria de construção ficcional, o tal Bildungsroman da vida real, como me referi no caso de Goethe.

Explicar sua obra, elevando a própria vida à categoria de arte, é o que Gerald Thomas parece, no fundo, buscar. A autobiografia é mais um capítulo da vida do dramaturgo, um dos momentos em que quer continuar construindo-se, só que agora de dentro para fora. Construindo-se e criando uma ficção-vida tão interessante como sua obra.

CULPEM KAFKA

A trajetória cultural de Gerald Thomas impregna sua autobiografia. A importância atribuída aos livros lidos, às obras de arte visitadas, aos artistas conhecidos e admirados revela suas opções estéticas e suas posturas frente à vida. Revela como foi afetado por todo essa manancial. A sua formação é o resultado da vivência de uma cultura que vai do clássico ao moderno e às vanguardas, do erudito ao popular, em todas as áreas de interesse: música, dança, teatro, literatura, política, filosofia, ciência, com acesso a autores como Goethe, Rembrandt, Schiller, Kafka, Gertrude Stein, Joyce, Haroldo de Campos, Schoënberg, Wagner, Freud, Beckett, Phillip Glass, Sontag, Fernanda Montenegro, Hélio Oiticica, Alban Berg, Borges, Francis Bacon, Warhol, Duchamp, Kantor, Nelson Rodrigues, Zé Celso, Led Zeppelin, Roling Stones, Deleuze, Artaud etc. Basta visitar o índice onomástico do livro para se perceber a dimensão dessa praia.

As frustrações, depressões e irrealizações são tratadas na autobiografia como parte constituinte de Gerald Thomas tanto quanto as suas realizações invejáveis. Seu lado humano é acentuado a cada página, seja confessando sua compulsão sexual, seu uso de drogas, sua vida sexual bastante variada, suas fadigas existenciais, seu tédio, seu desejo de morrer, de viver, de foder, de criar… Sempre, em seguida à narrativa desses fatos relativos à sua vida e aos seus problemas pessoais, descreve, já em um código literário, o resultado reflexivo dessas experiências. Por exemplo:

 “O que importa é que a batida da vida parece ser marcada por um estranho relógio. E os ponteiros desse relógio não apontam para as realizações de alguém. Eles apontam para os desempenhos ruins, para as frustrações insolúveis e para a tristeza, e eu me pergunto porque é assim.”

Descrente da ideia de uma “realidade” (credos, guerras, ideologias, políticas falidas), Gerald Thomas dedica seu livro aos “ARTISTAS”, aqueles que fazem da arte e da utopia um compromisso. E é descrendo da “realidade” que decidiu escrever uma autobiografia não dos fatos apenas, mas a partir de sua mente atual, de seus sentimentos atuais, de suas observações críticas sobre o passado à luz do que é hoje. Por isso o caráter ficcional da escrita, esse jogo de sombra e luz sobre si mesmo, foi a forma mais apropriada para não cair numa descrição objetiva e linear dos fatos passados.

Gerald Thomas avisa aos seus leitores: “Embora meus sentimentos sejam obviamente pessoais, ao serem expressos e exteriorizados, eles passam a pertencer a vocês, e já não a mim.” A danação do leitor é também um desejo do autor. Expondo-se, está sujeito à crítica, ao ataque, ele que já sofreu todos os tipos de ataques (e todos os tipos de elogios). Mas também ataca, seja um grande músico como Luciano Berio ou apenas uma situação social por ele observada mas que não desceu pela garganta.

Sendo um “encenador de si mesmo”, aliás título de um livro sobre ele e com textos dele, ele sabe, ao provar da comida modernista de Rimbaud, que o artista é outro, “atuando” tanto fora como dentro da sua obra. Sua condição é a do judeu errante, envolvido na criação de um grande mosaico, gerado a partir de sua observação e participação no mundo. Como ele mesmo diz: “Este palco é meu rosto, e meu rosto é, acima de tudo, um lugar neutro, uma plataforma a partir da qual construir. Meus genitais são minhas salas de ensaio, a coxia é meu pau e minha bunda; minha mente, um mosaico abrangente de imagens se desdobrando em palavras, palavras, palavras sendo ditas”.

Esta autobiografia tende a ser polêmica, como sempre foi seu autor. Mas isso é a ponta do iceberg. Gerald é uma espécie de discípulo de Andy Warhol. Sabe que um pouco de lama faz bem para a fama. Sob a ponta do iceberg, existe, no entanto, um mundo de criação tão importante quanto esses “descaminhos do demo”. A polêmica é apenas “o tiro durante o concerto”, não tem nada a ver com a música mas nos chama a atenção. Mas logo passa, e o que fica é um universo mais amplo de criatividade.

Como bem disse Fernanda Montenegro, “Gerald Thomas existe por sua qualidade demolidora, por sua inconstância, por seu inconformismo (…) por ser um monstro de criatividade, por sua diabólica, eterna e inconformada Arte.”

Autobiografia como um retrato esfumado da existência interior (e externamente tumultuada) de um criador ousado, jamais tranquilizado por nada, que atordoou o teatro e a crítica brasileira com suas intervenções excepcionais, com um referencial de vanguarda que ora encenava Beckett, Kafka ou Wagner, como sua própria produção, também ousada.

A generosidade de Gerald Thomas suplanta sua vaidade (como não ser vaidoso com tamanha produção?). Pegue-se o caso da adoração do dramaturgo pelo poeta Haroldo de Campos (que era grande admirador do seu teatro). São infinitas as vezes em que Gerald Thomas expõe publicamente sua profunda admiração por Haroldo de Campos. Escandaliza-se com o fato de que um gênio desse porte tenha recebido (ou receba) um tratamento tão acanhado no Brasil. Como se a ausência de uma estátua em praça pública do poeta fosse um atentado suicida contra o próprio processo civilizatório do país – desse país que renega seus grandes talentos. Na autobiografia registra seu interesse pelo poeta que chamou de o “Fausto brasileiro”: “A vontade de conhecer Haroldo era mais que um capricho ou fascinação que eu sentia por sua obra. Era profundamente importante para mim. Eu queria sabe como ele se sentava, como bebia, e queria ouvir sua respiração.”

Atravessa aqui e acolá na autobiografia a verve pessimista do autor (a visão de quem viu a cara do mundo e conhece sua história e sabe de suas malditas tragédias diárias… centenárias, milenares). Diz Gerald: “O mundo de Fausto nos afeta em grande parte porque expõe nossa vulnerabilidade de merda e nossas vidas dispensáveis de merda.”

Vulnerabilidade que quase o levou à morte, numa tentativa (ainda bem que) fracassada de suicídio. Descrença absoluta nos rumos do mundo, da própria vida, do resultado de sua arte? Não fica claro na autobiografia. Mas juntando-se os fatos relatados na obra e como Gerald Thomas os percebe, as suas contrariedades pessoais (como artista), ter que aturar a cafonice do mundo atual, amigos que desaparecem, as traições, o consumir-se nas notícias diárias dos assassinatos de guerra e fome… diante de um artista à flor da náusea, o que resta?

A verve literária continua, ao longo do riverrun autobiográfico, em escritos irônicos como o seguinte, que traduz de alguma forma o lugar que ocupamos no mundo, esse mundo que ele ama e odeia em igual intensidade. Com esse texto terminamos nossa resenha:

“As janelas OLHAM de volta porque, no século XXI, cada janela olha para outra janela. E, na OUTRA janela, existe um ser, como eu, olhando para fora e se perguntando.

E, notando os milhões de olhos olhando para o nada e contemplando O TEMPO, o tempo da Terra, o tempo passando por nós nesta Terra, eu…

Eu mesmo. Meu rosto se obliterando.

A janela também se pergunta, me olhando nos olhos, pois o que é aquilo que vejo refletido nela?

Eu mesmo, e meu rosto, o tempo todo.

E que mentira tem sido isso.

Tchau.

Adeus e obrigado por permitirem que eu existisse – brevemente – entre vocês.

O FIM???

É claro que não.

Se precisarem de uma pausa para banheiro, drinques, e assim por diante…

Fiquem à vontade! Dez minutos, e estaremos de volta.”

JARDEL DIAS CAVALCANTI

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Entrevista: com Luciano Trigo no G1. (maquina de escrever)

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VALOR ECONOMICO (resenha por Sérgio Roveri) “ENTRE DUAS FILEIRAS”

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