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MICHAEL JACKSON MORREU POR EXCESSO DE HIGIENE

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New York – Caramba! Mal coloco os pés em casa e vem a BOMBA!!!! Michael Jackson está morto!

Na minha peça, “Circo de Rins e Fígados”, Marco Nanini dizia (numa entrevista fictícia sobre o astro Peter Pan que acaba de morrer): “Não é homem nem mulher, não é branco nem negro, não é adulto nem criança”. De fato, MJ transcendeu a figura humana. Poucos fizeram isso na nossa história recente.

Estávamos em 2005 e Jackson se encontrava em mais um desses escândalos de moléstia, mais crianças encontradas em seu LaLaLand e o ídolo escondido (guarda-chuvas, chapéu entrerrado na cara, lenço para se esconder) dançava no topo de uma limousine na frente do tribunal em Los Angeles. Imagino o que Greta Garbo acharia dessa cena.

Pode ser que a autópsia revele que ele tenha morrido por excesso de anti-depressivos, ou cocktail de “prescription drugs”, ou seja, drogas tarja preta. Na minha opinião, Michael Jackson já estava num processo de morrer há muito tempo, se isolando em bolhas de oxigênio, não querendo respirar o mesmo ar que o resto de nós.

Morreu por excesso de higiene!

Será?

O que se pode dizer dele? Genial? Certamente.

Eu o vi, junto com a minha ex-sogra, Sir. Fernanda Montenegro e toda a minha trupe em Lausanne, Suíça, em 1992. Surgia de um buraco feito no palco como se fosse um boneco inflado e parado ficava.  O público ria de nervoso porque o impacto da subida era forte demais para um ser humano. Pois é! Forte demais para um ser humano. E por um minuto e meio ele não se mexia depois de “subido”, lá plantado.

De repente, ao leve som de um instrumento, move-se um braço. O povo delira, vai abaixo.

Bem, o resto é história.

Uma bela, triste história, como poucos, poucos verdadeiros ídolos mágicos do nosso imaginário podem provocar. Não importa a causa da morte, na verdade. Importa, sim, que morreu um poeta excêntrico, um menino do Jackson 5 que morria de medo do seu próprio império e que queria que o tempo parasse! E fazer o tempo parar é uma equação impossível, assim como é impossível achar a fonte da eternidade (“Fausto” de Goethe ou Marlowe), assim como é impossível se superar como Michael Jackson se superou virando monstros, bichos, virando um thriller ele mesmo. E ao virar isso tudo, ele acabou por dar a volta no Universo. Esse Universo tão grande e tão escuro em que ontem, uma estrela, Michael Jackson, se apagou, deixando legiões de planetas, satélites, asteróides, enfim, uma galáxia inteira totalmente desolada.

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Gerald Thomas

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(Vamp na edição)

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Boal Morto: Quantos Ainda Pensam a Sua "Própria" ARTE?

A tristeza da perda e a imbecilidade do dia a dia

 New York- Não posso dizer que não fiquei triste com a morte do Boal. Óbvio que fiquei. Fiquei triste com a morte de um artista. Quantos deles temos hoje em dia? Poucos.

Muito poucos.

Se você liga a televisão ou vai ao cinema pode medir: vai ouvir a palavra KILL ou MATAR ou MORRER a cada 3 minutos (se não mais) e o Ibope exige que os programas sejam baseados na vida e na relação polícia versus bandido e os procedimentos legais: são milhares de programas, em milhares de formatos. Na política é a mesma coisa. A retórica é a mesma.

Pontes explodem, carros explodem, pessoas explodem. Raramente nota-se que já existiu uma sinfonia como a de Mahler, a SEGUNDA, a Ressureição, para ser mais preciso. Poucas vezes a mídia, seja ela qual for, nos remete a uma sinfonia de Beethoven ou a uma ópera da Wagner. Não há mistérios! É a violência que dá audiência mesmo. E, se não é a violência bruta, a crassa, então é o melodrama barato, estúpido. E se não é isso, somos consumidos pela notícia do PÂNICO (como o terror da gripe suína e outras coisas do tipo. Nossa vida sempre em “perigo de vida” e a tal chamada guerra dos mundos, que Orson Welles tão magnificamente satirizou pelo rádio). Ah…

Boal morreu. Seu Teatro do Oprimido não era a “minha coisa”. Mas faz pensar. Faz pensar o que ele pensava sobre seu teatro. E isso não é pouco. E nos faz pensar sobre a vida, ou melhor, a morte.  Os grandes artistas, ou melhor, a ARTE GENIAL, como a de Mahler, como a de Beckett, como a de Joyce ou a de Gogol, Tolstoy ou Conrad ou seja lá qual for seu autor predileto, faz pensar sobre a morte: como deve ser, como somos imbecis com nossos valores materiais aqui nesta terra. Claro, Goethe e seu Fausto, assim como Marlowe e seu Fausto. Shakespeare e as comédias trágicas e as tragédias trágicas ou as moderadas.

O sistema nos traiu. Sim, fomos traídos. Somos todos cornos! Estamos vivendo há uma década, ou mais, sob falsas pretensões e sob falsos valores esperando um messias.

Somos uns imbecis achando que o dia de amanhã será melhor porque o politico A, B, ou C nos salvará da crise absoluta do sistema vigente. Não nos salvará.

E Boal nisso tudo? Bem, Boal tinha suas convicções. Podia não me convencer com seu teatro “em prática”, mas ele já previa e já cantava essa bola há muito tempo. Qual bola? A de que somos cornos de um sistema que nos trai. Mas ele, diferente do Living Theater, diferente dos outros que cantavam a mesma bola, levou seu teatro pro lugar do consumo: o supermercado, ou o lugar onde se consumia aquilo que o sistema martelava na gente! Teatro de Martelo! Um ensaio permanente e inocente (até) de como fazer de corno um sistema que nos faz de corno. Boal estudou aqui na Columbia University e fez grandes amigos.  Mas era outra era, outro tempo.

Esse tempo hoje:

Um bando de imbecis tweetando, ou twitando, como preferirem, achando que estão na “última”, exacerbando o ego e elevando o seu anonimato berrando pros oito cantos do mundo o “nada” do que fazem todos os dias. Que lindo! Já o teatro do invisível de Boal já cantava a bola justamente desse invisível ou desse oprimido (que somos nós, todos nós. Não necessariamente se fala de uma CLASSE, e sim de um estado de ser).

A Arte volta a fazer parte de nossas vidas e de nossas lágrimas. Tentei resistir e não escrever, pois não gosto de escrever emocionado. Augusto Boal morreu e com a morte dele se percebe que morreu um artista.

Isso deixa a ARTE num estado de fragilidade. Ou com a imunidade baixa, fraca.

O mundo não é feito, mas “está” feito de programas que trivializam a alma, que derrubam o ser humano para um lugar onde ele não merece estar: a sua pior ignorância.

É isso. Escrevo pois pesa o peso da M.O.R.T.E. e, nesses dias de angústia, a falta de um ser que construiu um vocabulário teatral é realmente triste. Muito triste.

Quantos construíram um vocabulário teatral?

Quantos sequer “pensaram” sua arte?

Estamos sendo traídos pelo sistema: talvez seja hora de pararmos de nos acusar uns aos outros e pensarmos na CENA de ORIGEM. Sim, aquela que os filósofos invocam quando têm de enfrentar a GRANDE CRISE, ou melhor,  GRANDE ARTE, ou seja: a morte!

 

Gerald Thomas, 3 de Maio de 2009.

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(O Vampiro de Curitiba na edição)

 

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