Monthly Archives: January 2013

By Jardel Dias Cavalcanti – beautifully written:”Scratching..

Terça-feira, 12/2/2013
Gerald Thomas: arranhando a superfície do fundo
Jardel Dias Cavalcanti 

A escolha óbvia. Um tubarão afogado em um copo d´água. Um simples desenho de caneta sobre papel, retirado do caderno de anotações deSturmspiel (peça escrita e dirigida por Gerald Thomas em 1989). Linhas singelas, mas que, no entanto, desenham o que pode ser uma metáfora perturbadora da condição do artista. O tubarão reaparecerá em várias das obras plásticas de Gerald, que agora podem ser apreciadas no livro “Arranhando a superfície”, publicado pela editora Cobogó, do Rio de Janeiro.

O livro apresenta um amplo conjunto de desenhos e ilustrações, coloridos ou em preto e branco, feitos em cadernos (como notas de projetos), para cartazes de peças, para capas de revistas e para publicação no The New York TimesVanity Fair etc. Junto aos desenhos, textos de Isabel Diegues, Zuenir Ventura e Antonio G. Filho que apontam leituras e narram a trajetória de Thomas em relação às artes plásticas.

Que perdoem ao crítico o uso subjetivo do adjetivo, mas são desenhos belíssimos. De uma beleza que, indo além, não dispensa o pavor. Manchas de sangue, deformidade corporal, feridas abertas, gargantas escancaradas em vômitos verdes ou vermelhos, figuração humana grotesca como bestas num circo de horrores, arquitetura absurda, objetos já sem função e carcomidos pela ferrugem e animais aprisionados. Um mundo de imagens para lá de temíveis.

Não é diferente do que sempre vemos nas peças de Gerald Thomas. E não podemos pensar o artista dividido entre uma atividade e outra: artes plásticas e teatro. A plástica de seu teatro é pintura, onde luzes e sombras, corpos e gestos, gritos e sussurros compõem esse mesmo circo de horrores. Sua música, na mesma medida, dramatiza, ao máximo, essa plástica. E a preparação de uma cena pode antes ser um desenho, como também um desenho pode ser o resultado de uma cena. E um desenho pode vir a fazer parte do cenário.

Se existe uma arte total (sonhada por Wagner), existe também o artista total, aquele que desenha, pinta, compõe, encena, ilumina e escreve. Pensa tudo ao mesmo tempo, e para isso precisa fazer uma arte que não pode prescindir da outra.

O caso de Gerald Thomas não é raro, quando sabemos das experiências de desenho e manchas criadas por Victor Hugo, ou os desenhos de Henri Michaux, para quem o material de desenho e pintura era tão importante em sua mesa quanto o caderno de anotações de seus textos. Também o cineasta Eisenstein, entre outros artistas, fazia da obra plástica o preparo para seu trabalho cinematográfico. Em todos esses casos, o desenho, a pintura, a ilustração ganha vida própria, respirando com enorme potência para além de sua função inicial.

Os desenhos criados Thomas conseguem unir vários universos artísticos sem perder o seu poder expressivo, motivo que prende imediatamente o espectador: de uma figuração que faz pensar em Rauschenberg e outros artistas da pop arte (pela delicadeza das composições), às cores penetrantes da pintura e o desenho seguro que indicam uma proximidade com a arte dramática de Philip Guston, passando pelos terrores do cinema e pintura expressionistas, até o deformador de corpos (e da pintura) que foi Francis Bacon. E não podemos deixar de mencionar Saul Steinberg, que talvez seja, no que diz respeito aos desenhos para o The New York Times, a influência mais marcante.

O material usado para a criação dos desenhos e ilustrações, do ponto de vista técnico (e porque não também da expressão?), são tinta naquim, café, lápis de cor aquarelado, caneta, pico de pena, tinta; usados sobre papel canson, Fabriano, cartolina, Schoeller e papel de caderno escolar. Além de desenho, aparecem, aqui ou ali, algumas colagens como as de recortes de jornal, palavras, band-aid.

Gerald Thomas provém de uma tradição de vanguarda, portanto não se pode interpretar de forma fácil seu trabalho. Se assim o fizéssemos estaríamos negando o próprio princípio de uma arte que não se dobra ao realismo fácil, à narrativa clara, ao entendimento óbvio. Aproveitando o acaso das manchas de café, ou rabiscando uma linha sem muito sentido inicial, depois desdobrando tudo isso sob a forma de cores também jogadas sem muito controle, a obra aparece e se presentifica potencialmente.

Como artista à flor da pele, Gerald pretende com seus desenhos expor a “anarchy-orgy” deste mundo e seus próprios sentimentos sobre o mesmo. Nesse sentido, a representação do tubarão se torna aqui uma das figuras mais importantes na galeria de seus desenhos. Reaparecendo inúmeras vezes, o tubarão está sempre amarrado, machucado, afogado em um copo de água, ao lado de uma crucificação, sangrando ou enfaixado. Encarnação, talvez, da figura do artista (e, em determinadas circunstâncias, autobiografia imagética do próprio Thomas), o tubarão é força, habitante das profundidades e, deslocado de sua natureza marítima, um ser frágil.

A condição da fragilidade do artista, como no tubarão que solta sangue na capa do livro de Thomas, pode ser pensada a partir da fala de Fausto: “(…) de agora em diante/ às dores todas escancaro esta alma./ As sensações da espécie humana em peso,/ quero-as eu dentro de mim; seus bens, seus males/ mais atrozes, mais íntimos, se entranhem/ aqui onde à vontade a minha mente/ os abrace, os tatei; assim me torno/ eu próprio a humanidade.”

Como obras que destilam as agruras do mundo contemporâneo, sua força não está propriamente no que representa, mas na forma que representa. Exemplo é a obra “E é assim que os tabloides britânicos são feitos”, de 2003, onde uma vagina explode em respingos de sangue, sobre uma perna aberta e escancarada ao máximo de sua flexibilidade, onde ainda aparece a inscrição “anarchy orgy”. Retrato de uma época que se consome na sede de aparição exibicionista, onde se educa e se fabrica o gosto pela violência que alimenta milionários impérios midiáticos sado-masoquistas. Para dizer isso, Gerald usa recursos mínimos, bastando o contorno das pernas pela caneta, as cores vibrantes que misturam café e lápis aquarelado na agressiva violência do sexo feminino jorrando sangue e na colagem sob o desenho de duas palavras. O impacto da imagem é brutal, pois quer chamar a atenção imperativamente para a prática sanguinária da exploração dos instintos mais baixos do homem pela “cultura” perversa da mídia.

Apreender o mundo moderno com uma arte moderna é para Gerald, portanto, fazer uma arte da crise: formas fragmentárias, estruturas estranhas e parodísticas, ambiguidades, ironia trágica – uma arte para uma época fragmentada, pluralista, doente e estranha quer colocar as tripas desse mundo para fora.

A possibilidade de uma leitura alegórica (procedimento da fragmentada arte de vanguarda) é indicada em alguns dos desenhos preparatórios de Gerald, como na criação de uma boca sustentada por uma “coluna do império das meias verdades”, uma “viajem do presidente Clinton pela América do Sul”, que solta o “vômito fluorescente do terceiro milênio”, enquanto “lá fora o presidente da China espera para entrar”. Uma ideia reunida em pequenas (e grotescas) imagens e textos que se transformam na cabeça do espectador-montador na leitura dos desdobramentos e novos agenciamentos do poder.

Esses desenhos provam que o artista é quem consegue nadar até o fundo, e se arranha apenas a superfície, ainda é a superfície do mais profundo, o tempo dos “homens ocos”, denunciado por T. S. Eliot, e que não deixou de existir. E artistas, para não deixá-lo impune, também não deixam de existir. Gerald Thomas é um desses artistas resistentes, tanto nos seus desenhos como no seu teatro, sempre além de qualquer superfície.

Para ir além:

 

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Oh Brasil ! What a pity ! Will you ever learn?

Front page of The New York Times 28 Jan 2013

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Lance Armstrong !!!!

Duchamp ? Lance?

Duchamp ? Lance?

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A Day to be remembered ! And what a day it was.

Dr. Martin Luther King Jr

Dr. Martin Luther King Jr

President Barack Obama

President Barack Obama

From The Guardian

The best inaugural addresses of presidents past can be reduced to a single phrase or line: “With malice toward none, with charity for all …” (Lincoln); “The only thing we have to fear is fear itself” (Roosevelt); “Ask not what your country can do for you …” (Kennedy).

Barack Obama’s second inaugural may not be as enduring as those classics. But it will enter the history books for one line, perhaps even just one word: “Stonewall”.

The low-ceilinged dive of a gay bar on Christopher Street in New York’s Greenwich Village, which was raided by the NYPD in 1969, is now elevated to American immortality by the head of state. When I heard Obama say Stonewall, I twitched in disbelief. And then, as the president opened his second term with a call for gay equality, I realized just how profoundly, and with what amazing speed, the United States is changing.

For many gay Americans, the excitement of Obama’s election in 2008 was tempered by the passage, that same election night, of California’s Proposition 8 – the ballot initiative that amended the state’s constitution to rescind the right of gay men and lesbians to marry. And Obama himself, both a constitutional law scholar and a committed Christian, had wavered on gay marriage throughout the campaign – and continued to do so well into his first term.

He tried to keep his own beliefs hidden, so much so that the major accomplishments of his first term, from repealing Don’t Ask, Don’t Tell to recording an “It Gets Better” video, didn’t win the favor they deserved. Yet, in the last two years or so, the terrain shifted.

Support for gay marriage and other components of gay equality now has majority support in the country and overwhelming support among the young. Obama’s double game could no longer endure – and in a hastily organized interview with ABC’s Robin Roberts, he announced that “for me personally”, he believed gays ought to have the right to wed.

That was a memorable interview, and one with real resonance for gays. But it’s one thing for a politician in an armchair to support equality “for me personally”, and quite another for the head of state to bellow out to the National Mall that gays must be treated equally under the law. On the steps of the Capitol, our president declared:

“We, the people, declare today that the most evident of truths – that all of us are created equal – is the star that guides us still; just as it guided our forebears through Seneca Falls, and Selma, and Stonewall.”

This was not “for me personally”. This was the voice of the body politic, the president speaking in the name of We the People, asserting that, like women and racial minorities, the gays who faced down discrimination and violence are models of American virtue.

“Our forebears,” he said, are not just the suffragettes in upstate New York and the marchers in Alabama, but the young kids, hustlers, drag queens and other marginalized members of what’s now called “the gay community”. The people who beat back that police raid in 1969 and chanted “Gay Power!” in the streets of Manhattan are American heroes, the president proclaimed, and their struggle is an exemplar for our times.

It’s worth noting, too, his cunning use of alliteration – Seneca Falls, Selma, Stonewall – the choice of other S-initial locations brought women, blacks, and gays into linguistic as well as political harmony. The president went on: the task for today’s Americans, Obama said, is to continue the struggle waged by earlier pioneers of equality. That means fighting for equal pay for women, ending unconscionably long waits to vote, reforming the immigration system, and keeping “the quiet lanes of Newtown” safe from gun violence. And it means something else:

“Our journey is not complete until our gay brothers and sisters are treated like anyone else under the law – for if we are truly created equal, then surely the love we commit to one another must be equal as well.”

A loud cheer went up on the Mall after this line, and I hope that the US supreme court justices sitting to Obama’s left heard it. For, while it’s inspiring to hear the president refer to gays as “brothers and sisters”, what makes that line stick is its union of love and equality, making our emotional lives and our civic ones into a common enterprise.

Marriage in America is a civil undertaking, and when the high court rules on two gay marriage cases this June, it’s entirely possible that they may strike down discriminatory laws on narrow grounds of privacy or states’ rights. Obama, in his address, called for more. He did not say that the government should not to tell gays how to live. He said something much finer: that gay love itself is as valid at its straight counterpart, and the law must reflect that fact.

It is amazing enough that gays are even mentioned in an inaugural address. A statement like that – putting gay love at the heart of gay equality – would have been unthinkable, even a year ago. But Barack Obama is the president of a transformed America, and it’s worth remembering, today, that he has been instrumental in that transformation.

Gay liberation has always sat uneasily among other struggles for justice. Civil rights leaders have occasionally bridled at the equation of gay rightsto civil rights. In part, that was for the wholly correct reason that for all the discrimination that gays and lesbians face, it pales compared to the horrors of slavery and the endurance of American racism. But on Martin Luther King Day, our first African-American president used his grandest platform to write gays into this country’s long struggle for equality.

Placing Stonewall alongside Selma was no mere rhetorical flourish. Nor was it just a shoutout to a loyal constituency. It was the boldest statement yet by a leader whose slow start on gay equality is maturing into full-throated leadership. And it marked the indelible inscription – by our president himself – of gay Americans into the nation’s history.

 

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Try not to cry: be brave! Led Zeppelin at the Kennedy Center Honors

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PETRA – Jordan, a MUST ! absolutely a MUST !

PETRA

PETRA

Petra 2

Petra 2

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“Scratching the surface” (book of paintings) review in Portuguese

Publicado em r  curado por Leonardo Tonus
O que me atraiu no Scratching the surface (desenhos de Gerald Thomas organizados por Isabel Diegues, ed. Cobogó, 2012) foi o lance de nada estar pronto. Os desenhos do livro não são uma finalidade em si – ou, pelo menos, a maioria deles não o é. Rastros de outros processos, tentativas repetidas, pretendem uma terceira coisa que não é nem a representação de algo, nem, à la Picasso, o preenchimento de uma superfície a partir do seu vazio.
Portanto, vivos.
Vou me estender, e faço isso para mim mesma, porque vou gostar. Os rastros. Meio como me vejo, um conjunto sempre mutante de coisas que ainda estão presente e de outras que acabam de chegar. Tentativas. Sem parar, sem parar. E agora esse negócio de supor um vazio inicial, que não é a minha, e que também não parece ser a de Gerald Thomas. Não há a suposição de partida, de um retângulo a pedir linhas sem centro que o preencham e, ao preenchê-lo, apontem justamente para essa metafísica disfarçada do vazio que se mantém, outra vez justamente, porque cheio. Como no “La cuisine” de Picasso, a primeira versão mais do que a segunda, na sua feitura: a “panela” vazia, e os ingredientes: a linha, o preto, e o retângulo. Como no Sartre, sobre Giacometti, mas também sobre Picasso: “o vazio é anterior aos seres que o habitam”.
Não aqui.
 O papel está lá e é qualquer um. E nele cabem os registros mentais e também os registros do tempo para-sempre-presente dos encontros não programados com, por exemplo, as xícaras de café. A organizadora Isabel Diegues teve o bom senso de incluir, nos desenhos do autor mais explicitado (o Thomas), a participação autoral de seus companheiros momentâneos, como o bloco do papel, com sua espiral em metal e suas outras folhas, um fundo de mesa, a mancha que calhou de lá estar. E mais os detalhes desenhados que acabaram nem sendo mesmo aproveitado, como acontece sempre com tudo – e não só com detalhes de desenhos.

Melhor que o Picasso. Quero dizer, melhor para mim, para o hoje. Seria um parentesco, não fossem as cabeças tão diferentes. Porque Gerald Thomas também recapitula, com colagens, o que já foi feito; também fala de uma história da arte e de uma “grande arte” supostamente eterna, mas vista ironicamente pelos olhos da mídia, do jornal que dura um dia. E também aqui vou encontrar a presença da plateia, de mim, lá dentro: Picasso montava suas touradas contando com o observador do quadro na própria composição do quadro. Gerald Thomas também me supõe. Fala comigo. Me escreve frases, conta que eu vá lê-las. Ambos, afinal, compartilhando um mesmo estar-no-mundo teatral. O segundo (cronologicamente) mais às claras que o primeiro. Ambos sem se importar nem um pouco com divisões entre o que está sendo criado – sem conclusão à vista – naquele momento e um suposto “real” que dessa ação independe. Ambos sem se importar nem um pouco com a impossibilidade de se separar tempo do processo de criação com esse outro tempo – que se inventou do nada – e que é o tempo de uma apresentação, uma vez o processo de criação terminado. Nunca fica. Constrói-se, descontrói-se, e agora todos juntos mais uma vez!
E ambos com um saudável apreço por o que temos entre as pernas e por o que entra e sai por ali.
Nenhuma teleologia. Foi do que gostei antes de ver e do que continuei gostando, e gostando ficarei até que o livro se misture com outras coisas e continue, ainda livro mas não mais livro.
Ah, mas e a tensão – que toda criação (em falta de nome melhor) precisa ter para se manter minimamente existente como unidade, como tal?
A tensão não está na coisa, no papel, no tubarão morto. Está na busca, na repetição nunca igual, no rastro daquele momento em que tubarão começou a ser tubarão. Talvez pelo rabo, talvez pelo copo d’água ou pelo risquinho abandonado em um canto qualquer e, nem por abandonado de fato abandonado. Lá, presente. O abandonado-presente.

A teórica americana Lisa Florman, ao falar de Picasso, disse que freudianamente, suas raízes – históricas dentro da história da arte e históricas dentro da história pessoal do artista – deveriam ser descobertas à posteriori. Assim como nos sonhos descobre-se significados a partir de uma cultura e de uma psique existentes, mas que se modificam, cultura e psique, a cada sonho.
Há explicações para os tubarões de Gerald Thomas. Ele mesmo se encarregou de algumas: os tubarões, derrotados como os artistas, tudo comem, tudo absorvem, até morrer.
Tenho enorme e irracional medo de tubarões. Desmaiei ao ver o filme. Bônus adicional do livro: me fez bem vê-los afogados em copos de água. Ou não é bônus. É o que acontece mesmo com os processos/diálogos que nunca terminam.

Elvira Vigna
Janeiro de 2013

Scratching the Surface / Arranhando a Superficie

Scratching the Surface / Arranhando a Superficie

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