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Um Ano de Blog no IG

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 .          (Antes do Blog, em Paris)                                      (Depois do Blog)

 

New York – Miami: Cinco anos e meio de Blog corrente, de conta corrente que não se esgota, graças a vocês! Hoje, exatamente hoje, esse Blog comemora um ano aqui no IG.

E, no entanto, os espelhos!  Estejam lá onde estiverem (os espelhos), são somente humanos. Retratam nossa dor. Retratam nosso humor. Retratam nossa estima. Meu medo? Quem estaria ou estará atrás desses espelhos! Quem nos vê da maneira que ninguém mais nos vê. Ou seja: Quem enxerga MESMO, de verdade, nossa alma?

Alma, aquilo que poucos conseguiram até hoje retratar.

Esse ano passou como uma flecha! Foi um ano devotado, praticamente todo ele, á eleição de Barack Obama. Foi, de minha parte, uma tensão doida!

Tem um corpo morto no chão, aqui do meu lado, enquanto escrevo. Sou eu mesmo. Não me reconheço mais. Parte de mim se foi. E não estou tentando brincar com palavras, não estou tentando fazer joguinho com as parolas. Sim, morri de várias formas. Fui traído por vários amigos. Ainda não sei muito bem por quê. Talvez um dia saiba.

Blog traz dessas coisas: em teatro temos um mundo muito EXPLOSIVO. Ele se mostra na hora. O aplauso ou a vaia são ali mesmo, no final, quando cai o pano! Sabemos dos cochichos, sabemos do veneno, mas “sabemos”. Nossos inimigos, por assim dizer, se tornam nossos maiores amigos assim, da noite pro dia, como se nada jamais tivesse acontecido. E aceitamos isso.

A Decadência dos tempos de hoje, com tanto artista legal fazendo tanta bobagem, me choca! Deixa-me triste! Meu corpo morto aqui do lado ainda não foi achado pelo time de “Law & Order Special Victims Unit”. No momento em que encontrarem esse meu corpo em decomposição, constatarão que ele foi molestado, espancado, torturado por tanta, mas tanta burrice, tanta besteira e tanta pobreza cultural que ele leu nesse último ano. E o médico legista não terá um diagnóstico! Aliás, não há!

É de se questionar tudo mesmo: em que ponto de nossa cultura estamos? Como nos vemos? Quem nos vê? Como somos enxergados? Se Richard Wagner nos visse hoje (seu aniversário, by the way), como ele nos veria?

Obama tenta imprimir nessa linda terra nossa uma proposta de um NOVO SISTEMA LEGAL em que terroristas  poderiam ser presos ou detidos por um tempo prolongado DENTRO dos USA (sem julgamento em vista). Qual a diferença entre isso e Guantánamo? É que aqui dentro eles teriam acesso ao sistema judicial. “Ou se prova que são culpados, ou deixa-os andar”.

A Arábia Saudita está conduzindo um programa de reabilitação de ex-membros do Al Qaeda. Entre erros e acertos, a margem é de 80 por cento.

Meu corpo morto aqui do lado, infestado de Kafkas, de Becketts, de Orwells, de uma literatura praticamente obsoleta quando olho essas estantes (retornei pra casa ontem e ainda olho tudo numa ressaca terrível), vejo esses volumes de Joyce, de Gertrude Stein, de sei lá quem. Não nasci com um nome bom. Quem dera. Deram-me um nome vulgar.

Sim, agradeço muitíssimo aos meus mestres! E como! Eles têm nomes sonoros. Mas na autópsia desse corpo não sairão sons. Nunca sai som, a não ser o som do vento armazenado nas entranhas, nos intestinos, o som dos gases, o som gutural do tempo perdido de Proust, o som de certa amargura por não ter sido entendido por A, B ou C.

Escreve o leitor “José Augusto Barnabé”: 

“O Gerald, chegou a hora definitiva de a arte e a criação representar pelos seus meios, o futuro.Acho que Da Vinci foi o último, nos seus escritos e desenhos, que geram até hoje controvérsias e discussões.Não há mais espaço para Inquisições, que se mostrou uma fraude política.O Artista tem que achar forças para se desvincular do Sistema, ser um pouco Iluminatti, escancarando até essas próprias sociedades secretas, também fraudulentas, e criar.Na imaginação está o nosso gene, e o artista que tem o dom da sensibilidade, a aplica melhor.O Planeta está mudando rapidamente, e não é coisa para 500 anos como na época do Da Vinci. É coisa para já.Se os artistas não perceberem, vão deixar de existir e continuar sendo os BOBOS DA CÔRTE.Ficção? não sei. E o Sistema não o é?Você não tem nada para comentar, porém tem muita coisa a fazer, se não desocupa a moita, meu caro”.

Difícil, muitíssimo difícil responder qualquer coisa que coloque Leonardo Da Vinci no meio. Até Shakespeare, em sua última peça, “A Tempestade” (praticamente autobiográfica), se viu num espelho e enxergou um futuro não sangrento. Foi a única tragédia desse magnífico gênio não sangrenta: Prospero, o personagem principal, era um Leonardo. Mas era também um Duque deposto. Era um ILHADO, era alguém que tinha o poder da mágica reduzido aos confins do palco.

Tudo é sempre uma metáfora.

Há um ano, nesse blog, escrevo parte em metáforas, citando meus mestres, citando minhas angústias. Criei um enorme e lindo círculo de amigos. Vocês, os leitores.

Mas as metáforas estão fadadas a ter um limite, a esbarrar na moldura do espelho ou refletirem a luz que vem de fora e, portanto, ofuscarem a imagem real que o espelho deveria estar mostrando. Sim, escapismo.

Escreve o “Capitão Roberto Nascimento”:

Gerald Thomas meu querido cabeludo, que beleza esse texto rapaz! Não é um texto de moleque, de fanfarrão!!É UM TEXTO PARA QUEM USA FARDA PRETA E COLETE; MAS É PARA SE REFLETIR SOBRE O QUE ESTÁ ACONTECENDO.Eu penso: no BOPE, a gente não pode pensar muito NA HORA; mas devemos pensar antes, no treinamento, para que a ação seja EFICAZ COMO O SILÊNCIO DO FUNDO DO MAR.Nossa missão é subir o morro e deixar corpo de narcotraficante no chão. Pode parecer nazismo, mas, para mim, NAZISMO É DEIXAR OS NAROTRAFICANTES DOMINAREM O MORRO, OPRIMINDO CENTENAS DE MILHARES DE POBRES FAVELADOS.O teu silêncio, Gerald, chega como um abraço. O teu silêncio é o silêncio do preto da minha farda, do frio do meu fuzil, antes da ação.E nós agimos em silêncio Gerald. Quem faz festa é bandido. Quem solta rojão é traficante.A lei é fria e silenciosa. COMO O TSUNAMI QUE NASCE NO FUNDO DO MAR.”

Tudo é sempre uma metáfora. Nem tudo sempre é uma metáfora. Muitos de vocês, leitores, lidam com a vida REAL. E isso, muitas vezes, me assusta. Por quê? Não sei.

Ontem, ainda em Miami, a caminho daqui, um velho, obviamente cubano, enrolado na bandeira americana, trazia, trêmulo, a sua bandeja com um croissant, café, um ovo, etc. Sua cara marcada pelo tempo e sua elegância deixavam claro não tratar-se de um “daqueles” milhões de cubanos que povoam Miami (pra onde eu vou 3 vezes ao ano). Tive uma enorme vontade de cobrir-lhe de perguntas. Muitos milhares de perguntas. Ele me olhava. Eu o olhava. Estamos em pleno feriado de “Memorial Day”, dia dos caídos em combate, em guerras passadas. Os USA em guerra constante!

Mas pensei e pensei. Não, melhor não. De repente, assim como já foi com tantos outros seres interessantes, ele vai vir com uma dessas “verdades universais” ou com a “ordem do universo” e despejar tudo isso sobre a minha bandeja. Isso me aconteceu no Arizona com indígenas que “ouviam deus” ou na Chapada da Diamantina e mesmo na Cornualia.  São seres simples e que tremem, elegantes. Mas que quando perguntados, são verdadeiras “torneiras da verdade”. E eu não suporto mais a quantidade de verdades que existem por aí.

Tive medo de fazer perguntas a um simples ser que poderia ter me contado a sua história de vida. Mas tive medo. Arreguei.

Como pode ser isso? Medo de seres místicos? Eu? Medo de ouvir sobre Eric Von Denicken e os deuses que eram astronautas? Logo eu? Quem te viu e quem te vê, Gerald!

Já ouvi que a minha cara era o mapa de Hiroshima. Então, do que ter medo?

Exaustão chama-se isso. Falta de espaço aqui dentro. E isso me preocupa.

Sim, assim como no texto anterior: “Sinto-me como uma massa, como uma pasta, irregular, inexplicável, triste, vazia, ruidosa, sem nada a declarar e, no entanto, querendo dizer tanta, mas tanta coisa e… sem conseguir dizê-lo.”

Nem tudo sempre é uma metáfora. Às vezes esse corpo morto aqui do meu lado tentou atravessar o espelho vezes demais ou tentou atravessar espelhos espessos demais.

Faz parte da minha profissão: o risco. Como me sinto? Esgotado. Acabado. Esse (que ainda vive) olha praquele que está morto e pensa: será esse o meu futuro? Caramba!

Parece mesmo um conto de Poe! Ou um Borges mal escrito. Somos tantos e não somos porra nenhuma. No texto anterior, “NADA A DECLARAR”, fiz uma declaração de amor a tudo que sinto, de verdade, ao vazio, ao TUDO a Declarar, como o Pacheco detectou.

Mas e agora, José? Um ano e não sei quantos artigos. A partir de hoje estamos sem contrato. Como diria meu mestre Samuel Beckett: “Não Posso Continuar: Hei de Continuar!”

Em inglês soa melhor:

I Can’t Go On. I’ll Go ON!

Muito Obrigado por tudo!

Coberto de emoção e lágrimas vendo o mundo numa relativa paz e, no entanto, atravessando o maior período de mediocridade em décadas, se desmanchando num milk shake insosso e azedo, esperando um Moisés que ainda nem subiu o Monte Sinai, porque lá nada existe!

O deserto está realmente repleto de areia mesmo. E ela está em nossos sapatos.

 

LOVE

Gerald

 

Gerald Thomas, 23/Maio/2009

  

(O Vampiro de Curitiba na edição)

 

 

 

 

 

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Mulher Não Brinca de Foguetinho

(Madoff saindo da Corte Fedral de NY)

MULHER NÃO BRINCA DE FOGUETINHO!

New York – Ontem de madrugada, conversando com Gustavo Ariani (pelo skype), falamos de tudo, como sempre falamos. Com a câmera do MacBook ligada eu fazia um tour pelo apartamento e ele tocava, no violão, uma lindíssima peça de Villa Lobos. Mas falávamos das nossas intensas indignações também, já que ele dirige a CAL no Rio. A CAL é uma escola de artes dramáticas. E, depois de uma hora de conversa, chegamos onde sempre chegamos: aos risos, aos choros, às  náuseas habituais até ao caso David Goldman (que chegou ao Rio ontem), e, como sempre,  tecemos longas teorias sobre por que o mundo está como o mundo  está.

Não, querido leitor. Não irei entrar em detalhes. O Caso do David  e Sean Goldman está “all over” nesse blog e já viramos um instrumento de defesa em sua causa.

Agora, o escândalo é mesmo esse filho da puta do Bernard Madoff. Mas se a desconstrução do nome já não diz tudo – MAD OFF,  ou se seguimos a pronuncia “Made Off” (with the money, correu com a grana) – então não sei se o diabólico e a cólica não se misturam numa liquidificação da parabólica!

Ah, claro! A minha Ellen Stewart (antes que todos perguntem) está de volta ao hospital, em estado anti-crítico/super crítico, para não falar em anti-Edipo, entubada e embutida,  mas dando um sorriso que faz o pavilhão inteiro do oitavo andar passar lá para pegar carona no seu carisma.

Gustavo, indignado, dizia: “que loucura essa coisa da economia mundial, colapsou!”. E eu já o interrompia. “Gustavo, pelo amor de deus, pare com economia. Ninguém aqui fala em outra coisa!” Eu chego ao cúmulo masoquista de ver o “Countdown”, programa do Keith Olberman, além de todos os outros, para me certificar again e again que o Down Jones parece mesmo aquele filme pornô da década de 60, “The Devil in Miss Jones”, PÉSSIMO!

Nós, os homens, temos a capacidade de estragar tudo. Olha esse crápula do MAD OFF.  Não são mais 50 BILHÕES de dólares. Agora parece que são 65 BILHÕES. Quem sabe, amanhã ouviremos que serão 100 BILHÕES ou até mais?. É o caso mais comentado entre amigos, em cafés ou patisseries pela cidade. Sim, os homens têm uma capacidade impressionante de se destruir e de conseguir destruir o outro assim… digo, assim, sem  mais nem menos: é algo… o quê? Vem de onde? Não, não sou o Clausevitz nem o Paul Virilio nem um expert nessas coisas. Mas uma frase me fica na cabeça e não sei de onde veio:

Estou tentando me comunicar com você. Você não me ouve? Hein? Hey, hey, você mesmo! É com você que estou falando. Não consegue me ouvir? Que pena! Estou bem atrás de você, quase encostando na sua nuca, no seu ombro e você não nota a minha presença.

Lembro muito de Haroldo de Campos em muitas horas do meu dia.

Em Miami na semana retrasada, conversando com o Walter Greulach, conversávamos muito sobre os fantásticos escritores argentinos, do qual ele faz parte.  Não sei porque mencionei o Haroldo. Ah sim, porque além da sua meta isso e aquilo e paixão por Joyce e Pound e tudo, era um INDIGNADO! Mas destruía  e desconstruia também as línguas que falamos e digitamos, e isso é fantástico por…Por quê? Porque somos prisioneiros delas! Deles! Dos idiomas.

Sim, nos destruímos e partimos para briga. Um xinga o outro. Olhem os comentários nesse blog. Mas o Gustavo (num tom de briga e depois de dedilhar lindamente um Vila Lobos no violão), contrafobicamente me retrucou: “MAS NÃO É SOMENTE ISSO, NÃO, MEU IRMÃO! SE NÃO FOSSEM NÓS, OS HOMENS, NÃO TERÍAMOS A PARTE BOA DA VIDA”.

“Como assim, Gustavo, parte boa da vida?”

“SIM, NÃO TERÍAMOS AVANÇOS INCRÍVEIS NA TECNOLOGIA, NA MEDICINA, NA ENGENHARIA E ARQUITETURA E NA FILOSOFIA… e foi você mesmo que diz na tua peça “Kepler the Dog”: Não tem mulher compositora clássica. E, quer saber? O HOMEM NÃO TERIA IDO À LUA PORQUE MULHER NÂO BRINCA DE FOGUETINHO!!!”

Bem, diante disso tivemos ambos uma crise de riso. É, Stalin, Hitler, Napoleão, Franco, os Faraós, as Dinastias, os Imperadores, os Kaisers, sim, até Ghandi e suas sandálias eram masculinas.  Judith Malina escreve sobre Erwin Piscator (um dos maiores gênios do teatro do século XX), penso: Brincamos do que brincamos porque, até certo ponto, aceitamos que a vida é um risco. RISCO ! Sem ela não teríamos a dialética ou esse balanço sobre o qual está baseado o sistema econômico! Bah e viva!

As mulheres nos colocam aqui. Nos preservam de tanta besteira que fazemos. Ao mesmo tempo nos excitam e incentivam. Às vezes, passamos pro outro lado e ficamos SÓS, digo, S.O.S.

Não há certo nem errado, não é? Grande besteira quem diss isso. Óbvio que há. Existe o Meu e o Teu certo e errado e puxamos o gatilho em nome dele! Sartre sacaneou  Humbold (só um exemplo) mas nós, os supostos brincalhões da história, somos os predadores, os vomitadores que falham e falham sempre.

Talvez a resposta esteja não exatamente na promessa, mas na expectativa, e Madoff era a expectativa de TANTOS em enriquecer trocando dinheiro por… mais dinheiro.

 Ah, sim, porque somos sempre acusados disso e daquilo: os próprios leitores do blog dizem “vc não sabe nada sobre a realidade brasileira e fica aí vendo a vista do East River”. Minha resposta está num dos comentários: a Vejinha Rio estreou seu número 1 com “a Vanguarda sobe o morro”: passei 3 dias na Rocinha e de lá não saí mais. Os carnavais subseqüentes que construí com eles foram… (bem, isso é para outra coluna) e as minhas subidas à Mangueira ainda quando menino, com o Helio Oiticica… ah, o Cartola lá em cima… ah… não, não vivo de nostalgia porque EU BRINCO DE FOGUETINHO E A VIDA É UM RISCO. E SÓ POR ISSO VALE A PENA. E, QUER SABER?

SE MAIS UM ENGRAÇADINHO AQUI CHAMAR O DAVID GOLDMAN DE (…) vai tomar na VAGA!

Tenham um ótimo fim de semana!

O Lula vai ter: afinal, estará nos Estados Unidos da América  e deverá me ligar. Será que eu irei atender?

Gerald Thomas

PS. URGENTE: Enquanto eu escrevia a coluna, o desgraçado Madoff estava sendo algemado e levado para a prisão! Esse homem brincou demais com o seu foguetinho e seu esquema furado (Ponzi scheme é como se chama esse tipo de malandragem aqui), agora teve um final (in)feliz, depois que alguns se suicidaram e os BILHÕES continuam DESAPARECIDOS.

VEM CÁ: O homem está pra lá dos 70 anos. Se pegar 3 penas consecutivas de 50 anos, mesmo com todo o Açai e todos os anti-oxidantes como CQ-10, green tea ou  Madoffberry que existem no Mercado orgânico…o que vai acontecer? Ele morre de ataque cardíaco em 3 anos e?  E?

 

 

(O Vampiro de Curitiba na Edição)

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Pânico do Mundo?

 

 

 

“Considerando o cenário contemporâneo”, escreve João Carlos do Espírito Santo, “no qual impera o hedonismo em detrimento da razão e das buscas do bem comum, é importante entender em que solo deitamos nossas sementes, aos olhos de quem nos apresentamos.”

Fiquei mudo por um tempo olhando a tela. Sim. Sim. João Carlos é uma pessoa com a qual me correspondo com frequência. Muita frequência. Mais que um ombro amigo, um psicanalista e intelectual que aprecia Rosa, Haroldo de Campos, Joyce e, obviamente, Freud.

Ainda olhando o cenário e tendo um certo pânico do mundo com o que está acontecendo depois que o nosso Governador Patterson anunciou: “O Estado de Nova York está num déficit de 15 bilhões, ou trilhões ou terrabites, ou a minha emoção em descer aqui pra Washington DC pra ver a Inauguration do nosso Obama em OITO dias no meio dessa tremenda CRISE econômica que afeta amigos, parentes, dentes, pentes e escovas de cabelo, caspas, aspas e tal…e Gaza e as mortes e Israel, e Ellen Stewart e as peças de teatro que tenho que entregar e não tenho tempo, tempo, tempo….O MUNDO me consome. Como responder, João? Como?

Respondo citando Artaud:

“Jamais, quando é a própria vida que nos foge, falou-se tanto em civilização e em cultura. Há um estranho paralelismo entre essa destruição generalizada da vida, que se encontra na base da desmoralização atual, e a preocupação com uma cultura que jamais coincidiu com a vida, e que é feita para governar sobre a vida.

Antes de retornar à cultura, observo que o mundo tem fome, e que ele não se preocupa com a cultura; e que é apenas de maneira artificial que se quer dirigir para a cultura pensamentos que estão voltados unicamente para a fome.

O mais urgente não me parece tanto defender uma cultura cuja existência jamais salvou um homem de ter fome e da preocupação de viver melhor, e sim extrair disso que se chama de cultura ideias cuja força viva seja idêntica à da fome.

GT: Aliás, citei Artaud, mas não sei se estou de acordo totalmente. Vou te dar um exemplo mais específico, João Carlos. Essa foto ai em cima, dos soldados se abraçando, o que significa isso? O que pode significar isso quando soldados (seja de onde forem) se abraçam e comemoram a vitória? Qual a dívida humana de inocentes do outro lado desse abraço? Quanto custa cada vez que um soldado toca no outro? E justamente nesse momento onde escrevo uma peça chamada Body Parts (Pedaços de um Corpo).

João: Nas buscas do bem comum, é importante entender em que solo deitamos nossas sementes, aos olhos de quem nos apresentamos.

Mas, há sempre uma trilha do meio, uma possibilidade de, sem perder nos princípios básicos, naquilo que nos constitui e nos dá sentido à existência, manter a travessia, coerentemente. Há uma patologia fomentada nos espaços da Internet, que permite, em função do anonimato, expressões que – no tête-à-tête – não aconteceriam, pois covardes não firmam posições, não dão a cara à tapa, são, por excelência CANALHAS.

GT: Vivemos várias vidas. Não vivemos linearmente. Não pensamos linearmente. Daí a importância de Joyce, daí a importância de Pollock. Enquanto dirijo um carro, e no CD player estudo uma opera de Wagner, me emociono com uma ária qualquer, mas não perco o foco de PRA ONDE estou indo e o movimento dos carros. Tenho que frear, quando os carros freiam. Sei que estou indo visitar alguém que me importa, uma visita/appointment que me trará algo de importante: um diretor artístico de uma opera. Portanto, estou nervoso. Tenho, digamos, dois amigos no carro. Eles conversam entre si. A conversa é política. Não posso deixar de ouvir o que dizem e, portanto, “sentir” e me envolver com o que estão dizendo.

1- emoção com a opera que está tocando

2- atenção no trânsito

3- tensão com o encontro

4- prestando atenção às pessoas na rua, aos detalhes dos loucos e não loucos que atravessam a rua, aos “tipos” que me chamam atenção….

5- a conversa que rola no carro

6- desconforto físico, o cinto de segurança que me estrangula, misturado ao cachecol por causa do frio

7- olhando sempre no relógio preocupado com o horário

8- a opera no CD player está chegando a um clímax e eu subo o volume e me emociono mais: isso me traz lembranças de quando eu..(não sei mais, dirigi essa opera em, a, b, c ou d e com quem eu estava nessa época, entende as ramificações?). Ou meus pais me contando sobre essa opera em alemão ou inglês quando menino etc….

Ou, ainda, como falhei ou fui um sucesso e a casa vindo abaixo e o que eu podia ter melhorado….quando dirigi tal opera…

TANTAS COISAS TANTAS COISAS…

Marcelo Rubens Paiva: Há uns tempos, criticavam uma obra de arte que tivesse começo, meio e fim, “detalhes” que indicavam acomodação e incapacidade de inovação. Podia até ter começo, mas meio e fim, era o fim! A regra: não facilitar para o público. Se quisessem algo mastigado, nem azedo nem amargo, que comessem pizza em frente à TV, gênero inferior e vendido por natureza, dizia-se. O lance era complicar, para indicar o ilogismo da vida e da morte, o lance era confundir, para baixarmos a guarda da audiência, penetrar com um jab nos lapsos, conquistá-la por desvios ao dissecar o núcleo dos mitos e arquétipos; imagens do inconsciente coletivo.

GT: Eu sei, mas isso foi demolido pelos iconoclastas ou pelos desconstrutivistas. Eu fui um deles. Ou o último vírus nessa grave epidemia. E agora? Body Parts? Ainda? Ainda destruindo. Não. Reconstruindo.

João Carlos: O teatro, e você pode desdobrar isso, aprofundar o que te digo, pede engajamento, mesmo que seja o mais superficial, pois a pessoa, dentre todo o universo de peças em cartaz, escolhe uma, organiza sua agenda para também se apresentar publicamente, pactua um tempo de entrega,

Marcelo R Paiva: Um escritor tinha de fazer o curso de mitologia do Juanito Brandão e ter em mãos o dicionário de símbolos de Juan-Eduardo Cirlot. A arte buscava os personagens de sua origem, mas se afastava de seu formato e se inspirava no caos.

GT: Mas o que é o teatro ou esse Pânico do mundo ou essa lucidez avassaladora? Não será uma vontade louca de olhar essa foto e transformá-la numa cena teatral onde a primeira frase diz assim: “amanhã, acordarei melhor, todos acordarão melhor, mesmo sem rins e sem fígados, ou com meio rim, com parte do fígado. Se um “deus” nessa nossa incógnita (não é surpreendente eu estar dizendo isso?) eu jamais teria estado no lugar certo na hora certa. É isso não é? O que me fez estar aqui nesse momento da vida foram as circunstâncias. Eu beijo as calçadas por onde andei por elas terem me dado a oportunidade de ter andado, aprendido a viver the rough side of life muito cedo, mas as beijo. Por isso, Saint Genet. Por isso, sai tão cedo de tudo, sempre saio cedo de tudo e não acredito em sucesso, não acredito nessa superficialidade de sucesso, uma vez que, colocado no CD player ….o Stravinski… “The rite of Spring” …com Leonard Bernstein regendo….e ensinando…., parece que o mundo pode, sim, ter um final feliz e em paz…..

Sim, Graças a tudo. Ellen Stewart está melhor agora, 10 da manhã de segunda nessa gélida New York. Pode piorar à tarde. Tudo me dá medo. São dias tensos. Mas já foi diferente? Quando leio, e com muito interesse, os comentários do Blog, e às vezes me irrito com o nível de agressão, penso em desistir.

Penso em cair fora e seguir os conselhos da Ellen: “escreva pra Teatro, Gerry, esqueça essa coisa de Blog”. Mas eu subo aqueles 67 degraus que me levam ao apartamento dela lá no 5º andar e penso nessa foto dos soldados e nas mortes e nas tantas explosões, e no fogo de uma lareira e na posse de Obama e nas economias falidas e nos seres humanos falidos porque é cão contra cão. Cão come cão!

E o teatro sempre foi o espelho disso: Hamlet, seu melhor expoente até hoje. Ah sim, o canibalismo verbal. Tem aqueles que amam chamá-lo de antropofagia. É que virou, digamos assim, “moda”, roubar e não devolver. Roubam vidas. Roubam identidades. Roubam-nos uma década. Uma década de inutilidades: e agora? Agora é remover o LIXO de nossos quintais. Praqueles que tem um quintal.

Gerald Thomas

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