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Folha de S Paulo: Kazuo Ohno dead (Portuguese and English) Theater is not only larger than life…

Kazuo Ohno, the master of death: dead.

It’s an exaggeration of life (and death).

São Paulo, domingo, 06 de junho de 2010

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OPINIÃO

Ao mexer com nossa alma, Kazuo Ohno sacaneou a morte

Artista japonês fazia mistura singular de arte oriunda da dor do pós-guerra somada a um tipo decandomblé

GERALD THOMAS
ESPECIAL PARA A FOLHA

Se você me perguntar qual foi a minha experiência mais mística no teatro em todas essas décadas, afirmo sem hesitar: Kazuo Ohno, que morreu na última semana.
Foi aqui em Nova York, no La MaMa, que o recebemos pela primeira vez. Deve ter sido no final dos anos 70 ou dos 80. Alguns anos depois, eu o vi de novo, num beco de Ropongui, em Tóquio, fazendo o ritual da morte, o seu próprio butô (diferente do de Min Tanaka ou do de Sankai Juko).
Kazuo incorporava algo: Qual algo? Ah… Quem explica a arte? Quem explica a arte que faz você engolir a sua própria essência e sentir uma dor no peito por dias e dias? Já com 70 e poucos anos, um mulher/homem (em “La Argentina” -versão Dietrich que ele viu certa vez na Alemanha), Ohno provocou tumultos aqui na rua 4, os ingressos esgotaram.
O butô de Ohno era a dança que transcendia a morte, como em “Tristão e Isolda” de Wagner. Kazuo era o “Liebestod” [ária final da ópera, onde o amor transcende a morte e vice-versa]. Meio vivo-morto em cena, tínhamos a impressão de que vinha carregado de “entidades”.
E vinha mesmo. Quando eu o vi mais uma vez, no Sesc Anchieta, fui carregado pra fora do teatro, desmaiado.
Sim, desmaiei, porque lá, em cima de sua cabeça e ao redor do seu corpo contorcido em dor e molecagem, eu vi os corpos dos “meus” mortos: Julian Beck, meu pai, Artaud e tantos outros.
Cada um via várias entidades nesse japonês que fazia uma mistura singular entre uma arte oriunda da dor do pós-guerra e do teatro Nô somado a uma espécie de candomblé. Ohno era a versão japonesa do caboclo véio.
Nossa! Não posso dizer que era de arrepiar. Era mais que isso.
E ainda agora, no voo que me trouxe de Londres pra Nova York, eu vinha escrevendo sobre as entidades que compunham a edificação da arte do nosso tempo.
Pina Bausch, Merce Cunningham, Bob Wilson, Philip Glass e Kazuo Ohno.
Ohno morreu 11 meses depois de Pina. Começo a acreditar que é extraordinário como os deuses do teatro conduzem a mão e contramão do que deixara um legado. Um tremendo legado. Como Beckett em “Ato sem Palavras 1 e 2”, Kazuo era o “Ato sem Palavras número 3”.
Suas mãos ainda cavam fundo na alma algo que nunca acharei. E por quê? Porque o butô celebra a morte. Celebra o único contrato que temos em vida: a morte. E Kazuo Ohno foi uma mistura de Rembrandt e Andy Warhol a sacaneá-la mexendo com a nossa alma e a alma da própria história do teatro para sempre.
Adeus, querido. Sayonara.

GERALD THOMAS é diretor e autor teatral.

In English:

Kazuo Ohno dead.

IF you were to ask me what was the most mystical experience in the theater in all these past decades, I can say without shivering or even taking half a breath: Kazuo Ohno.

It was here in New York, at La MaMa, that we hosted him for the first time. When was that? Must have been at the end of the seventies, early eighties. A couple of years later I saw him perform again, at the very end of a twisty alleyway in Ropongui, Tokyo. Ohno made out of his art, the ritual of death. Yes, his Butoh was different from that of Min Tanaka’s and Sankai Juku’s.

Ohno incorporated something or, rather, ‘someone else’. What that was exactly, is difficult to tell. There’s the rub: Who will ever be able to really explain art? Who will ever be able to explain that which makes you (willingly or not), swallow the essence of what you are and feel it with all its pain beating as a heart at the core of your chest?

In his late ‘progressive age”: 70 or older, this female of a male performer who got his inspiration from something I recall was titled La Argentina ( a Dietrich version of a piece he had seen in post war Germany), Ohno  caused an uproar here on East 4th Street. Within minutes, the Box Office had sold out.

Ohno’s Butoh is the dance which transcends death, just as in Tristan Und Isolde, it is love which transcends death. Kazuo Ohno was Liebestod himself, i.e. an incarnation of the Celtic Idea that ephemeral matters, matter but only on another level. Which level I dare not…

Liebestod is the last aria sung by Isolde, with her Tristan dead on her lap. Half dead, half alive on his stage, my impression is that his solo act was accompanied by a heavy load of ‘entities’.

Seriously. That’s how it was.

I saw him once again at SESC Anchieta, in São Paulo and I was literally carried out of the theater (for, I had fainted). Yes, I must have fainted after having cried a river and because I saw, hovering over his head and all around his contorted body, a mixture of pain and an attitude of a trickster of a boy: I saw the bodies and souls of MY dead loved ones such as Julian Beck, my own father and the likes of Artaud, as well as so many others….

Each one saw his or hers entities through the ritualistic art put on stage by this Japanese master who blended Noh and an the modern art derived from a painful end of a Second World War. Yet, there was something ‘candolmble’ (the Afro-Brazilian religion and ritual), about him. My God! I cannot describe the degree of  how shockingly beautiful and strangely spooky this was. It was, in fact,  far more than that. Ohno was the Japanese version of the old Black voodoo creature. And to think that, still now, on this flight which brought me from London to NY, I was jotting down some thoughts about those entities who have edified the art of our time:

Pina Bausch , Merce Cunningham, Bob Wilson, Philip Glass and Ohno. Strange thoughts went through my mind.

Ohno died exactly 11 months after Pina Bausch.

I am beginning to seriously believe how extraordinary it is how the Gods of the theater drive against the one way system and the currents of those who leave a legacy behind. And a tremendous legacy it is/was.

Just as in Beckett’s  “Act without words, 1 and 2”. Kazuo was definitely Beckett’s unwritten “act number 3”.

His contorted hands still dig deep into my soul something I am sure I’ll never find. And why won’t I? Because Butoh celebrates the only contract we have with life: death. And Ohno, as a mixture of Rembrandt and Warhol teased the crap out of death, yet moved us to tears with his

strange and estranged soul and the soul of theater itself for ever.

Goodbye my loved one.

Who will evoke you?

Sayonara.

Gerald Thomas

June 2010

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Um Oswald Em Plena Antropofagia

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 (Junkie, 32 anos, mas com um corpinho de 33)

 

Dos países baixos! 

A algumas centenas de quilômetros abaixo do Castelo de Elsinore… 

Amsterdam– Ou Amstel Dam – Paro de tão exausto. A cidade está impossível de se andar, tamanha a horda de pessoas se espremendo nas ruelas. Algumas delas como se estivessem num conto de Beckett (The Lost Ones), comendo “batata frita com maionese”, assim como se fossem gado, umas seguindo as outras e todas na mesma direção, ou em direção alguma. 

Sempre que venho aqui me pergunto por que fiz essa escolha.

São verdadeiros comboios de turistas e junkies e indonésios e turcos e uns poucos holandeses que restam (simpaticíssimos) e as milhares e milhares de bicicletas. Mas parei nessa esquina onde todos param. Na Praça Dam, onde a garotada senta e olha o nada, ou se entreolham ou… vêem os bondes passarem ou simplesmente fazem uma pausa pra andarem de novo ou ficam olhando o nome do hotel mais misterioso do ocidente: Krashnapolski. Tem o Kempinski de Berlim, claro, mas esse ganha todas. 

Ir na contra-mão do fluxo é impossível. Como aqui se toma muito ácido, o negócio é tomar um antiácido! Um Mylanta, Omeprazole, algo assim. Nexium é o melhor.

Sim, os velhos hippies, as lojas de produtos pornôs, uns mais pornôs que os outros, uns com cavalos, cachorros e outros animais (com mulheres, anões, etc.), outros com os ânus dilatados onde entra até hidrante. Sim, a Amsterdam de todos os fetiches, todos.  

A configuração é mais ou menos assim: uma loja pornô, uma de pizza, uma de parafernália de drogas e uma de cerveja (espécie de pub, Heineken, Amstel e Grolsch) e uma de batata frita com maionese. É só seguir essa fórmula por quilômetros e quilômetros que se chega a Centraal Station (com dois aa mesmo). 

Claro, a cidade é linda, tem uma história linda e triste e quem sabe o que Hitler fez aqui, bem, deixa isso pra lá. Tem o lindo entrelaçado dos canais (sim, assim como Veneza, A’dam também está afundando aos poucos). 

Nada mudou desde os primeiros anos em que comecei a vir aqui: 1971. Nunca parei de “pousar” aqui por um motivo ou outro. Quando a Amnesty International fazia suas enormes convenções… ah, que nada, chega de Amnesty!

A Europa inteira é um único cenário: pessoas espremidas, num enorme empurra-empurra, andando em ruelas, seja aqui, seja lá, seja em qualquer monarquia ou república. É tudo gado! O cheiro enjoativo de maconha no ar prova uma coisa: não há porque não legalizar essa erva ou droga. A cidade aqui é a mais pacífica do mundo. Nada acontece. O pior é justamente isso: está todo mundo chapado e NADA acontece. 

Mas não sou guia turístico e não vou descrever a cidade. Quem quiser que venha aqui pra ser empurrado! Falo com algumas pessoas. Poucas conhecem, de fato, a história da Holanda. Mesmo os que moram aqui, e isso sempre me deixa pasmo. O oportunismo do mundo rápido de hoje, de quem pisa e vive numa terra e pouco ou nada sabe sobre ela, me deixa boquiaberto. 

Rembrandt? Mondrian? Van Gogh?  A escola Flemmish toda? Nada! O auto-retrato, o homem se olhando no espelho e se pintando pela primeira vez e exclamando “eureka” num silêncio de Anne Frank, o cálculo minucioso dos navegadores, os importadores de chocolate, enfim, até Spinoza que veio parar aqui. 

E hoje, Segunda, tomo conhecimento de que um otário, de nome “my nerd”, difama Chico Buarque de Hollanda, justamente quando estou na Holanda. 

Pergunto-me: por que, nerd? Por que construir uma carreira difamando pessoas? Que tipo de gente é essa? Não, não é gente. Sofre do mesmo ditatorialismo que tanto criticam. Nunca saberiam lidar com países livres, como esse aqui. Não é à toa que não agüentou Veneza. Precisam viver em países pobres e incultos para soltarem seus venenos, aspirantes de celebs que são. Mas não serão, jamais, celebs,  já que não se constrói uma obra em cima dos destroços da outra. 

Enquanto isso, Waldecy, agradeço às menções honrosas. Ah, quem não sabe quem é Waldecy… ele era o cameraman do Ernesto Varela (Marcelo Tas). Montou a produtora O2 e viveu bem de comerciais. Até que lhe chegou um bom roteiro nas mãos, aperfeiçoado pelas mãos de ouro de Bráulio Mantovani. Esse filme chama-se “Cidade de Deus”.  

Bem, já são quase 11 da manhã e a horda de junkies lá fora me chama! Todo dia elas fazem tudo sempre igual, me acordam às seis horas da manhã. Não, não pra me injetar com heroína ou nada, não. É que parece, assim me dizem (as “Mulheres de Atenas”), tem uma nova droga pra ser experimentada t-o-t-a-l-m-e-n-t-e pura e inquestionável (e que dá um enorme barato: batata frita com maionese, levemente picante, na veia.

Há tempos que eu queria escrever sobre o mais avançado sistema de transporte urbano de toda América Latina, o TransMilenio, em Bogotá.

Por que na Colômbia, com todos os seus problemas, e não em Sampa, por exemplo? Mas isso fica pra próxima, depois que o Sarney e o Daniel Dantas já tiverem dado seus pulinhos aqui em Amsterdam junto com o Lula e todos os outros milhões de safados do mundo. Quem sabe um bom baseado, uma fileira de cocaína e uma injeção de smack e três ecstasys não fazem esses caras falarem logo o que tem que ser dito?

 

Gerald Thomas

 

 

(O Vampiro de Curitiba na edição)

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TOP CHEF

 

 

Top Chef e Projeto Runway

 

New York – Tudo no Brasil começa em outro lugar. Tudo é imitado. Chega a ser irritante como nada é original. As pessoas me dizem (com dez, vinte anos de atraso), “agora no Brasil também já temos …”. Sim, mas até hoje, São Paulo não tem um metro que preste e não enterrou seus fios. Os postes não são somente risíveis. São deploráveis. Os postes são uma anomalia urbana. Há quem venha de “fora” (aliás, esse conceito de “fora” e de “dentro” também é muito peculiar) para fotografar esses postes e seus fios em plena paulicéia, com seus pesados transformadores, etc. Um horror!

 

Mas faço esse prefácio da imitação por causa desse Big Brother Brasil, essa catástrofe. Nem nome brasileiro tem. “Big Brother”. Sei! Não sabem nem quem foi George Orwell e  esse “abestalhamento” monumental que joga o país meio século para trás. Olham a televisão bestificada para ver “quem está com quem”. Cacete!

 

Mas nem todos os realities shows no mundo são imbecis.

Top Chef e Project Runway são interessantes. Claro, dentro da medida do possível.

 

Top Chef é um entre tantos programas na TV americana que lida com a situação “Restaurante”: Cozinha, assistentes, frentista, garçom, etc. Julga-se entre os times participantes. Vão-se reduzindo o número dos que estão vencendo. Entramos na vida emocional deles. Aprendemos sobre a vida particular deles, sobre seus sofrimentos e ambições e, obviamente, tomamos partido e começa uma torcida fervorosa.

 

E como não poderia deixar de ser, odiamos os críticos: afinal, quem são eles? Bandas de rock? Modelitos de fashion? Um único crítico da Zagat ou da Vogue ou Vanity Fair? Unfair.

 

No final de uma rodada de programas, a equipe de quase vencedores é trazida para New Orleans e a challenge é que se façam pratos ”cajum”, ou seja, da cozinha creole/francesa, apimentados (coisas do Sul dos USA). Enfim. Não importa. O que importa é que o julgamento é rigoroso e que, no final, sairão equipes ducaralho desses programas. Ambiciosos, talentosos e hábeis. Às vezes, futuros gênios da cozinha.

 

O mesmo acontece com “PROJECT RUNWAY” (tradução possível seria: Projeto Passarela) onde a mesma coisa acontece com jovens que virarão estilistas, costureiros, desenhistas como o Galiano, Herchcovitch, McQueen, etc. As equipes são levadas para as lojas de gente famosíssima como a Furstenberg e é dado o start no cronômetro: eles têm 3 minutos para pegar o quanto tecido quiserem. Depois, mais 3 horas, ou sei lá quanto, para modelarem algo em torno de um tema ou uma época e está cada um por si: de novo, aprendemos um pouco (através de entrevistas individuais) quem é quem, de onde vieram, o quanto são ou não ambiciosos, e no final temos um “winner” para a próxima etapa. Ah sim, tanto no Top Chef quanto no Project Runway, participamos das discussões entre os críticos. Ficamos a par dos critérios de eliminação ou de adoção, etc.

 

Já o mesmo não acontece na política ou no que é publicado a respeito de resoluções políticas! Por exemplo:  a queima de pneus! Sempre queimam pneus. Por que isso, não sei. Mas virou um símbolo! Será que se comeria um pneu queimado, com o molho apropriado? Oficiais americanos afirmam que têm a prova de que existem links diretos entre o Talibã e o Paquistão. Dizem que vem de informantes confiáveis e de “electronic surveillance” (aquilo que George Orwell descrevia como sendo Big Brother, já que ninguém nunca pode provar). Está ai! Os militares paquistaneses e os líderes civis, ambos negam publicamente que tenham qualquer conexão com esses grupos militantes. Ha! Como provar qualquer coisa? Nada prova nada! Então se invoca “electronic surveillance” e pronto. Não resta mais dúvida numa possível próxima invasão militar e sua justificativa perante o Senado. Oh, Jesus!

 

Vamos voltar pro Top Chef? Não. É bonitinho e tal, mas depois de ver o cara ou a menina tremendo, montando o peixe que já caiu do prato quinhentas vezes e o doce que cozinhou demais e fracassou, que diabos!!!!! Queremos mesmo o quê? Investigar as centenas de incógnitas que ainda permanecem obscuras no verso da nota de um dólar? NÃO, não, não! Deixa aquela pirâmide cortada com aquele olho que emite raios (linda), pois é aquela nota que rege as regras do mundo: desde os pneus queimando até quem vai ganhar o Top Chef ou se o Drug Lord da Rocinha, agora alojado na ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, irá sobreviver ou não!

 

Olha, uma sugestão: Vamos investigar a vida de Freeman Dyson.

 

Quem é? O que faz? Venham-me com as respostas. Estou exausto ou então… fica para o próximo artigo, isso é, se não me colocarem num desses eternos pneus que queimam ou se um Top Chef da vida não resolver fazer um prato de inverno meio primavera intitulado “Salada de putos, veados e vagabundos regados a balsâmico”. Ah, estaria me banhando de balsâmico de Modena agora, se o Top Chef fosse gente boa!

 

 

 

Gerald Thomas, 26/Março/2009

 

 

 

(Vamp na edição)

 

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TUDO SOB CONTROLE

Hotel em chamas na cidade de Pequim
 
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ARTIGO DE SAMUEL BUENO ESPECIAL PARA O BLOG DO GERALD

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 “Estou em férias em nossa amada pátria tropical e, para comentar, minha estada novamente me serve para confirmar minha antiga convicção de que este país é realmente uma dádiva maravilhosa da natureza, na maior parte de nosso território o clima é agradável, a comida em geral muito boa, a população é saudável, o idioma melodioso, etc e tal. Ao mesmo tempo, porém, constato que a sociedade brasileira continua profundamente insana e está piorando em alguns aspectos, embora melhore a olhos vistos em outros. Com tantos anos morando no exterior, confesso que já estava meio desacostumado com a maluquice “espontânea” que permeia toda a vida brasileira.

 

Ainda que meu dia-a-dia no país em que resido seja a defesa dos direitos humanos dos ´brazucas´, alguns em situação social bem precária, e me tenha habituado a tratar com um amplo espectro de problemas sociais, confesso que não estava preparado para o “baque” da atmosfera de permanente confusão e violência potencial que se respira hoje em algumas cidades do Patropi. O que ouvi e presenciei em apenas uma semana entre Brasília e São Paulo supera as descrições que me acostumei a ler na imprensa lá fora sobre a criminalidade rampante, acidentes de tráfego, incúria das autoridades, burradas e mau-caratismo de algumas figuras que fazem as manchetes do Jornal Nacional, etc. Para mim é muito chocante, por exemplo, que, apesar de tantas denúncias de casos anteriores, mais e mais pessoas neste país continuem a morrer de intoxicação alimentar, eventualmente agravada por impericia médica ou contaminação bacteriana hospitalar. Estranho também que fraude e corrupção persistam sendo uma espécie de “método” de escalada social, sobretudo em ãmbito político, enquanto com malemolência seus efeitos se espalham e multiplicam, em diferentes formas, como péssimos exemplos para outras áreas, sem que isso desperte uma repulsa ativa da maioria da população comum, para não mencionar que em princípio deveriam acarretar a certeza de sanções daqueles que teriam por obrigação prevenir e punir tais comportamentos. Estupefato, escuto relatos sobre assassinatos que provavelmente ficarão para sempre impunes, sobre grupos de estilo mafioso que impõem regras em vários campos de atividades, sobre parlamentares de passado criminoso que são guindados por seus pares a postos em que um mínimo de ética seria pré-condição inescapável para ocupar o cargo – e minha conclusão é de que ninguém quer, de fato, mudar nada ou corrigir o que quer que seja, o escândalo diário serve apenas como espetáculo. Muitas são as denúncias, mas noves fora não resultam em nada. E tudo isso em meio a uma crise econõmica global cujas labaredas começam a lamber a estabilidade precariamente alcançada pelo país na última década …

 

Em contraponto a esse quadro impressionista de horror, no entanto, a impressão que recolho visualmente é de que a sociedade brasileira avança e está melhorando, sim, apesar de tudo, graças a gente vibrante, intelectualmente preparada e acima de tudo interessada em construir um ambiente civilizado nestes trópicos. É verdade, os desafios são imensos, há uma juventude pobre e sacrificada que se sente economicamente excluída, da qual saem os kamikazes da criminalidade para atacar sobretudo uma classe média consumista e endividada, enquanto as elites doidivanas prosseguem em sua loucura moral, pisoteando com seus privilégios os mais elementares padrões da decência, mas há igualmente progressos sociais significativos, muitos dos quais viabilizados pelo governo Lula, que teve a sabedoria política de não mexer naquilo que herdou da era FHC e estava dando certo, mas alterou perceptivelmente o enfoque dos programas sociais. O resultado é que, apesar das respectivas contradições e inconsistências, a gestão pública no Brasil se aprimorou sob o regime petralha, daí o entusiástico apoio das massas. Não obstante, com a crise financeira tantas vezes anunciada, mas que parece ter pegado a todos de calças curtas, as incertezas sobre o amanhã aumentam agora exponencialmente. 

 

O Brasil é dialético demais, seus contrastes são agudos demais, como poderemos saber quais serão as sínteses que nos reservará a história? Será que vamos nos submergir fundo por causa do tsunami financeiro mundial ou a atual conjuntura vai alavancar a definitiva emancipação econômica do país, com afirmam alguns amigos meus da esquerda ufanista? A direita está exageradamente quieta porque está intimidada pelos avassaladores índices positivos de popularidade de nosso supremo mandatário ou porque prefere matreiramente fingir de morta, deixando o previsível desgaste dos duros tempos que se avizinham para quem suceder o atual presidente? Muitos devem estar sentindo saudades daqueles projetos salvacionistas que no passado ofereciam conforto aos mais atemorizados diante das preocupantes nuvens que se condensavam no horizonte… 

 

De minha parte, não tenho mais certezas, elas ficaram em passado distante de minhas experiências existenciais, perdi as ilusões revolucionárias mas ainda estou à busca de uma utopia aplicável para sonhar um futuro melhor para o Brasil, já que a meu ver as “tradicionais” não têm a mínima chance de servir para explorarmos prospectivamente uma transfomação efetiva de nossa realidade… O país é de uma complexidade e esquizofrenia tal que não pode ser reduzido a formulações triviais ou ser explicado por sistematizações teóricas esquemáticas. Aqui vamos ter de reinventar todas as ideologias sociais, ou não haverá mesmo jeito de consertarmos o que os doidos de nossos avós nos legaram.” 

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Samuel Bueno

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10/0220:29hs

Sistema de blogs do iG enfrentou problemas técnicos
Instabilidade de três semanas afetou colunistas e leitores

Caique Severo

O sistema de blogs destinado aos colunistas e colaboradores do iG enfrentou problemas técnicos em alguns dos seus servidores nas últimas três semanas.

Muitos blogs não foram impactados, mas para alguns o serviço encontrou-se intermitente: os colunistas afetados não conseguiram publicar novos textos regularmente, os usuários não puderam postar comentários e até mesmo os blogs ficaram inacessíveis em alguns momentos. Neste momento, o serviço foi restabelecido e funciona bem.

Pedimos desculpas e paciência a nossos usuários e colaboradores.

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Caique Severo
Diretor de Conteúdo

 

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( Vamp na Edição)

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Surtos De Individualismo

 

Não, não… não é o que vocês estão pensando. Não, não é isso. De certa forma… quero dizer, de alguma forma, é  o que vocês estão pensando, sim. Não posso negar. De alguma forma, o que vocês estão vendo agora, confirma exatamente isso (o que está no palco, vida, política, jornais, etc), e confirma também o que vocês estão pensando.

Engraçado. Triste. O desmoronamento. Várias obras de arte têm essa cara. Melhor, o PODER tem essa cara também.

O Poder e a Arte tem a cara da destruição!”

E por aí vai a narração inicial de “O CÃO QUE INSULTAVA MULHERES, Kepler, the dog” que estreou semana passada (apresentação única) em Sampa e pelo IG.

Muita coisa pessoal aconteceu na minha vida desde que comecei a ensaiar o espetáculo. Muita coisa aconteceu desde que ela foi ao ar.

 Às vezes devemos dar uma parada em tudo. Zerar. Lubrificar o corpo. Postar a alma diante do espelho como o mais angelical dos seres ou o mais diabólico deles e perguntar: “o que estamos fazendo aqui? Pra quem e pra quê? Quem são nossos amigos? Quem são os oportunistas? Quem são nossos inimigos?

 As respostas podem vir na hora. Outras podem demorar algum tempo. De uma forma ou de outra, quem vive uma ‘vida pública’  assim como eu,  já deve dormir com um olho aberto. Quem se aproxima… hummm, deve se aproximar porque deve querer alguma coisa.

INÍCIOS DE TUDO

Vejo uma geração (aliás, duas) inteira de pessoas fingindo que estão acontecendo coisas. Uma, a mais velha, FINGE que há um NOVO INÍCIO de TUDO, como se os tempos de hoje fossem a nova Gênese. Bosta. Não tem nada de novo acontecendo além do fingimento oportunista desses alguns que querem estar desesperadamente correndo em busca de um tempo perdido.

E tem de fato a geração de hoje, a nova, que não sabe porra nenhuma mesmo e que olha qualquer negócio com aquele olhar bestial de novidade. Dá preguiça? Não sei. Dá pena. Mas sempre foi assim. Schoenberg já escrevia sobre isso. Outras dezenas também. E sei lá quem escrevia que o “tempo contemporâneo traz memórias pra serem preenchidas”. Ah, tem cara de ser Wittgenstein, mas posso estar chutando.

“Hedonismo perverso”

Mesmo assim, exausto da estréia do Cão que insultava e insulta, fui ver o espetáculo que Jô Soares montou no “Teatro Vivo” com o Wilker e cia. E o quê? Me surpreendi como  o Wilker está ÓTIMO, como o Jô deixou o texto de Albee de pé, sem pretensões de querer cultuar um manifesto em torno de si mesmo. Ah sim, nem tudo é perfeito, mas… quem sou eu para estar escrevendo sobre perfeição ou cultos sobre o diretor, etc.?

Encontrei no camarim um Jô Soares tão doce, tão simpático e tão aberto a tudo que, complementar ao texto do Albee e a interpretação inesperada de Wilker, deixa em aberto se não devemos nos olhar mais no espelho todos os dias um pouco menos. Vou repetir. Olhar MAIS no espelho um pouco MENOS (essa frase é melhor em alemão). Olhar menos no espelho e testar nossas idioTsincrasias e daqueles que consideramos amigos, inimigos ou da tchurma ou da antiTchurma ou de pessoas que consideramos hostis ou da nova FASHION Actor ou Fashion ACTRESS ou do Pink is the new Black. E por quantos anos olharemos para fora ao invés de para dentro para constatar uma coisa, uma única e só coisa?

Sylvia, a cabra, é uma paixão impossível porque ela não existe.

A questão mais profunda e mais dolorosa entre nós da humanidade seria: temos realmente alma suficiente para amar ou entregar, para colocar nosso coração à disposição de alguma outra pessoa em qualquer momento de nossas vidas? Ou o MOTTO do “Kepler the dog” está mesmo certo: ”Não, nao é o que vocês estão pensando. Sim, é o que vocês estão pensando, sim. O que está colocado na frente de vocês e na minha frente agora é isso! E se está colocado na sua frente, tem que ser comido, atacado, digerido, possuído e depois… CAGADO FORA!

XEQUE-MATE!

Gerald Thomas,

Depois de uma longa conversa sobre “amizades da oportunidade” com João Carlos do Espírito Santo.

 

(O Vampiro de Curitiba na Edição)

 

PS: “O CÃO QUE INSULTAVA MULHERES, KEPLER, THE DOG”, AO QUAL O TEXTO SE REFERE, PODE SER VISTO AQUI:


 

 

 

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Deprê parte 2: o que fazer? Ou: "O Dia em que fui processado por Tom Cruise"

 

Este post deve ser lido com o de ontem, o da “depressão”, etc., aqui embaixo. O que eu tenho feito nesses anos todos? Qual tem sido meu trabalho direto e indireto nos palcos do mundo desde que trabalhei na Amnesty International em Londres? Fácil de responder? Difícil?

Não. Acho que não. Os que me chamam de hermético, polêmico, controverso, etc., devem ter lá suas razões. Mas já passei por todas as provas. Oitenta e tantos espetáculos e óperas depois, por sei lá quantos paises, o substrato vem a ser esse: fácil atacar!!! Eu mesmo ataco em blogs. Ataco em entrevistas! E, para quê?

Pra nada. Pra absolutamente nada.

Meu trabalho nos palcos de teatro do mundo nada mais tem sido senão uma tentativa de integração de culturas. E por quê? Porque venho de uma cultura fragmentada. Venho dessa coisa chata chamada Iconoclastia e Desconstrutivismo. E um povo que se afastou ou foi afastado: Yin e Yang. Na balança final, um atrai o outro.

Acabou. Há anos venho tentando somar os cacos do que sobraram para formar um novo mosaico: mas sobrou alguma coisa?

Vejo como se torna simples ATACAR pessoas, ferir pessoas. Eu mesmo sou um mestre nisso. Mas, para quê?

Quando, em 1999, escrevi uma resenha sobre o filme não tão genial do Kubrick “EYES WIDE SHUT”, que assumia que um casal não trepava mais, para fazer a metalinguagem numa estória de Schnitzler (sobre um casal que não conseguia mais manter relações sexuais) , fui violentamente contra-atacado pelos agentes de Tom Cruise e Nicole Kidman.

Quando ameacei que iria adiante e revelaria o que eu sabia sobre suas vidas pessoais, pararam imediatamente com o processo.

Mas isso tudo é tão imbecil visto em retrospecto. O que me interessava era o jogo que eles (o casal) haviam topado fazer com um Kubrick já em estado terminal.

Hoje, em Kabul, capital do Afeganistão,  uma corte suprema sentenciou o jovem jornalista Sayed Parwiz Kambakhsh a 20 anos de prisão. Um jornalista!!!!! Por pouco ele não leva a pena de morte. Isso deveria REPERCUTIR em todos os veículos do mundo, assim como a cabeça degolada de Daniel Pearl (até filme virou!). A jornada de Seymour Hirsch pelo Cambodja virou filme também!!!

Afinal, quando digo que São Paulo virou uma província, eu errei.

Nós viramos uma província desgraçada.

Aqui dentro de nossas cabeças! Enquanto não nos libertarmos desse MONSTRO que ATACA um ao outro sem parar, como se fosse uma farpa desprendida de qualquer EMOÇÃO, uma coisa desprendida de qualquer alma, nunca conseguiremos ser algo, um ser íntegro. E isso nada tem a ver com qual país, qual cidade.

Sim, atacar sempre será muito fácil.

Mas, manter-se “antenado”, antenado no MUNDO, nu, despido e antenado, prestando atenção, sim, isso sim quer dizer algo. E o quê? Quer dizer que nossas almas serão mais generosas e mais abertas e nosso JUÍZO será um pouco mais HUMILDE porque, afinal de contas, somos somente humanos. Não somos e não podemos brincar de ser… deus.

Gerald Thomas

Parabenizando a todos por 5 meses de BLOG aqui no IG

(O Vampiro de Curitiba na edição)

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Depressão: ou pessoas que se reúnem e não conseguem mais conversar

Nesses dias que antecedem a eleição americana e essa tensão doida (na qual me incluo, não apenas como especulador, mas como militante maluco e doador de sangue!), vou me permitir uns segundinhos a falar de outra coisa. Algo que raramente se lê em algum periódico ou raramente se comenta em alguma roda social: a frieza com que um trata o outro (e nem ouve mais o outro).

O uso descarado de uma máscara (antigamente somente presente nos meios teatrais, agora difundida em todas as latitudes), e que faz gelar o mais gélido dos nórdicos, mesmo que em climas tropicais.

Seja nas coxias de um teatro no final do espetáculo de uma amiga ou num encontro com um correspondente de jornal ou num ‘encontro” casual na casa de alguém, parece que tudo se transformou numa aberração. Ninguém parece querer mesmo ouvir. Ou não tem raça ou peito para isso, ou não tem mais interesse. Os egos estão tão, tão, tão inflados que enquanto um fala o outro está preparando o seu discurso ao invés de estar prestando atenção a uma coisa que usávamos chamar de diálogo!

Acabou?

Não sei. Mas as pessoas estão tão tortas ou entortadas de bebidas ou outros entorpecentes que me pergunto: qual é o sentido social desses encontros? Por que “estar junto”? No final ou no dia seguinte, será que estão felizes de terem segurado tanta bandeira de nada e por tanto tempo e dado tanta risada e tanta risada de si mesmos? Será que suas bocas continuam borradas e tortas ou será que agora se olham no espelho e… se lembram de uma só frase????

Esse circo de horrores  pode também ter outro nome: depressão. Isto é, onde as auto-imagens não se agüentam mais e precisam ser superadas com clichês absurdos. Claro, com tanto “google” isso, “google” aquilo, ninguém precisa mesmo saber quem era quem, “Quem mesmo?”… Gente que não sabe o que diz, mas fala aquilo que ouviu em algum lugar. Repetem o nada já repetido, como um telefone sem fio.

Papagaiam (sim, como verbo) coisas ridículas, e acham lindo as besteiras que papagaiam, e morrem de rir, ou se empostam, como postas ou bostas de peixe,  assim como estátuas de bronze de tão rígidas em seu discurso nulo, vazio.

Damien Hirst tem razão! Chega a ser político, ás vezes. Hirst deveria esquartejar a sociedade agora ou colocá-los debaixo d’agua. Torpedos, mosquitos, carrapatos, cães que latem e não mordem, ou vomitam de tanto beber.

Juro. Estou impressionado (ainda) com o não entendimento dessa BABEL nessa virada do século, milênio, que seja.

Depressão não significa, necessariamente, um ser humano metido debaixo das cobertas, não conseguindo abrir a porta num ataque de pânico. Depressão pode ser quando duas ou três pessoas acham que estão conversando mas, se traçadas num gráfico, essas três linhas de conversa vão para três pontos diferentes do universo e não formam um triângulo. E quando acham que estão se olhando nos olhos, que olhos porra nenhuma! Pior que peixes mortos. Peixes vivos, esperando o abate, vivos, mas já em postas!

Gerald Thomas em São Paulo, onde, nos restaurantes, ao contrário de outras capitais mundias, todo mundo só fala um idioma, inclusive os garçons: que província!

PS: Sempre houve isso, óbvio, mas talvez agora tenha piorado: a classe teatral está menos teatral e o resto da população adotou o que há de mais podre na classe teatral.

 

 

 

(Vamp, meio deprê, na edição)

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