Monthly Archives: February 2011

Today’s O Globo article on Throats

Gerald Thomas volta a Londres com o espetáculo ‘Throats’

LONDRES – Ninguém realmente esperava que Gerald Thomas fosse voltar de seu período sabático, ou de suposta aposentadoria, como anunciou em setembro de 2009, um homem mudado. Sobretudo depois de tantos anos ignorando solenemente a opinião alheia. Ainda assim, sua volta ao ofício traz uma experiência de surrealismo dessa vez não restrita ao palco: “Throats”, seu mais novo espetáculo, estreou sábado longe tanto da geografia física quanto mental mesmo da cena mais alternativa de Londres: o Pleasance, um teatro independente localizado num beco de Islington, bairro do norte da capital britânica, e que há 14 anos já nasceu na corda-bamba financeira por não fazer parte da lista de estabelecimentos que recebem subsídios do governo.

O dramaturgo brasileiro voltou à capital britânica – onde iniciou carreira, nos anos 70, com o grupo performático e multimídia Exploding Galaxy – despejando sobre um público de 280 pessoas mais um atropelamento de sentidos. Quase literalmente, pois “Throats”, produção de 90 minutos, começa justamente com um diálogo gravado em que paciente e terapeuta fazem um exercício de imaginação envolvendo estradas perigosas e uma muralha. No palco, um cenário minimalista com ferros retorcidos que faz bem em não apresentar muitas tentações à atenção do público.

Pois a peça transpõe para o palco o inevitável turbilhão de ideias que é a cabeça de Thomas. Dessa vez, por sinal, há até a alegoria de uma cabeça pensante, incomodamente presente a uma Santa Ceia metafórica localizada ou numa espécie de purgatório ou no subconsciente de um narrador de pretensões divinas e sádicas. O elenco de sete atores, que inclui a portuguesa Maria de Lima, suja-se de tinturas que simulam vinho e sangue enquanto se engaja num debate de temas que se alternam sem aviso e sem motivos. Da ceia, tendo como pano de fundo um horizonte que em muito lembra os escombros do World Trade Center (em seus comentários, incluindo blogs, Thomas nunca escondeu o impacto de ter testemunhado o 11 de Setembro da janela de seu apartamento em Nova York), mas que gira para se transformar numa crucificação, com direito a judeu ortodoxo negro tomando o lugar de Jesus Cristo.

A trupe de atores, que em conversas após a apresentação admite a falta de familiaridade inicial com o trabalho do brasileiro, esforça-se para merecer a confiança de Thomas – ele diz ter testado pelo menos 600 pessoas para formar sua Dry Opera Company. No elenco, cujas biografias incluem passagem por seriados policiais e de ficção científica da TV britânica, roubam a cena o escocês Angus Brown, no papel do que parece ser um dublê de mordomo e carcereiro, e Lucy Laing, ainda que vista somente do pescoço para cima.

Tudo isso em meio a uma trilha sonora assinada por ninguém menos que John Paul Jones, músico mais conhecido pela pilotagem do baixo do Led Zeppelin, que assistia a tudo ao lado da mulher, Maureen. Jones é um admirador de longa data do dranaturgo, e trabalha para se transformar em parceiro no projeto de uma ópera com previsão de estreia para 2013.

Outros compatriotas mais desavisados pareceram estranhar a experiência no Pleasance. Um sinal foi o comentário, cheio de sorrisos, de uma das administradoras do teatro no coquetel pós-peça oferecido a atores e convidados, e que teve Thomas como uma das ausências.

– Queremos sempre fugir do óbvio aqui. Mas preciso confessar que não sei nem por onde começar a promover essa peça para o público. É um bom desafio – brincou a moça.

Pelo menos por enquanto, o Pleasance tem apostado no endosso do maestro Philip Glass, cuja entrevista sobre Thomas está em destaque no site do teatro (pleasance.co.uk). Há também vídeos das produções anteriores do dramaturgo, singelamente acompanhadas de avisos sobre palavrões e conteúdo explicitamente adulto, ainda que “Throats”, em cartaz até 27 de março como parte de uma série de espetáculos batizados de “Uma noite menos ordinária”, tenha idade recomendada de apenas 14 anos.

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Today’s Folha de S Paulo article on Throats…


SYLVIA COLOMBO
ENVIADA ESPECIAL A LONDRES

Um ano e meio depois de dar adeus ao teatro, com uma catastrófica carta de despedida em que dizia que essa arte já não faz mais sentido nos dias de hoje, Gerald Thomas, 56, está de volta.
“Throats” (gargantas) estreou na última sexta-feira no Pleasance Theatre, em Londres. Trata-se de uma peça sobre o mundo pós-11 de Setembro. Há um atentado terrorista, que se confunde com um acidente de trânsito.
Depois dele os mortos se encontram numa espécie de banquete, onde o vinho servido é o sangue de outros atentados e de outras datas de conflitos históricos.
É a primeira obra da companhia de teatro que o dramaturgo montou na capital inglesa aos moldes, e com o mesmo nome, daquela que o tornou célebre no Brasil nos anos 80, a Ópera Seca.
Agora batizada de London Dry Opera (www.londondryopera.com), é composta de sete atores, escolhidos por meio de audições que contaram com a participação de mais de 600 candidatos.
Thomas justifica o retorno dizendo que não aguentou ficar muito tempo longe dos palcos e por não saber fazer outra coisa. “Se existisse um “rehab” para alguém se curar do vício do teatro, eu me internaria nele.” Porém, afirma que tudo o que disse em seu manifesto segue valendo.
“O teatro como o conhecíamos não existe mais. Cada vez menos as pessoas se interessam por ele”, diz. E culpa as novas mídias. “Há uma diluição no consumo das artes e das informações, uma personalização da percepção. Todos estão dentro de seus iPods ou iPads, cada um com aquilo que lhe interessa, não há espaço para uma arte mais aberta num mundo como este.”
Também critica a “idiotização geral” do planeta. “Aqui e em Nova York, o que mais vejo é a popularização desses programas tipo “American Idol” ou “Britains Got Talent”. É o show do Chacrinha globalizado; está acontecendo uma “brasileirização” do mundo.”
É por sentir-se assim, meio perdido em seu próprio universo, que Thomas se incluiu em “Throats” na forma de um personagem que cruza a trajetória dos outros.
Há um garoto cego, com um nome de origem muçulmana, Yussef, que busca um endereço em Nova York. Pergunta por ele a várias pessoas. Leva nas mãos um bilhete (referência a Samuel Beckett) e uma rosa morta (referência a Jean Genet). “O menino sou eu, e o endereço é o do La MaMa, teatro onde me formei e onde está a fonte de tudo o que fiz.”
A Folha acompanhou um ensaio e a estreia da montagem. Apesar de seu discurso pessimista, o diretor age como sempre.
Orienta os atores com vigor, dá broncas e faz piadas, irrita-se com a baixa qualidade da produção, improvisada às pressas. Orienta pessoalmente a entrada da luz, da trilha sonora e da fumaça, marcas pessoais de sua obra.
O cenário é montado entre ruínas das Torres Gêmeas, reforçando a mensagem política. “Meu teatro sempre foi político de certa forma. As pessoas no Brasil parece que nunca entenderam. Acham que faço teatro surreal e hermético, mas não é verdade.”
Apesar disso, Thomas diz que o teatro tem pouca chance de mudar a realidade. “É arte de elite, portanto ineficaz nesse sentido. Se Augusto Boal ou Zé Celso achavam que podiam promover revoluções, estavam errados. Nem Bertolt Brecht mudou a Alemanha de Hitler.”
Thomas se mostra desinteressado pela política brasileira atual. Crê que Lula “institucionalizou a burrice no poder” e não se conforma com os escândalos de corrupção que envolveram o PT.
Diz, porém, que não tem uma opinião formada nem de Dilma nem de Serra. “Estou afastado, nem me lembro bem as siglas dos partidos, prefiro assim.”

Primeira noite lota teatro para 280 pessoas

DA ENVIADA A LONDRES

“Throats” estreou na última sexta-feira, uma noite gelada do inverno londrino, num teatro alternativo da cidade, o Pleasance, em Islington. O espaço, para 280 pessoas, estava praticamente lotado.
Na plateia, uma presença ilustre, John Paul Jones, do Led Zeppelin, responsável pela trilha sonora e com quem Thomas está montando uma ópera.
A peça tem todos os elementos que caracterizam o teatro do diretor, ingredientes operísticos, repetições, música alta, fumaça, texto cheio de citações, referências a Samuel Beckett (com quem Thomas trabalhou na juventude).
O palco giratório oferece dois espaços. No primeiro, acontece o banquete dos mortos após o atentado. No segundo, a crucificação e o local do acidente.
O elenco, variado, conta com dois destaques, Angus Brown, que interpreta o “garçom” do purgatório, e Adam Napier, que lembra muito o humorista Stephen Fry. A atriz portuguesa Maria de Lima canta trechos de uma canção de Cesaria Evora assim que chega à mesa do banquete.
Thomas conta que o título original era “Heaven Sexual Victims”, mas que depois achou que isso “espantaria o público”.
O texto foi escrito depois de escolhido o elenco, e terminado apenas dias antes da estreia. O diretor ainda estuda cortes de cenas e eventuais mudanças com relação ao que foi mostrado na sexta-feira.
Há planos de levar o espetáculo a São Paulo mais adiante, e o local escolhido seria o Sesc, mas tudo depende do desempenho dessa temporada londrina, que vai até 27 de março, com apresentações de terça a domingo.

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