Monthly Archives: March 2007

critica da folha

Crítica/teatro

Gerald Thomas retoma o essencial
Em peça em cartaz no Oi Futuro, no Rio, diretor abre caixa-preta de memórias e faz seu teatro sem concessões

SÉRGIO SALVIA COELHO
CRÍTICO DA FOLHA

Em uma das gravuras dos "Desastres da Guerra", de Goya, sobre um fundo obscuro de cadáveres ou mascarados, um corpo em decomposição ainda segura uma pena. Com ela, escreveu seu bilhete para a posteridade: "Nada". Desde então, passados holocaustos e atentados, o desespero diante da falta de sentido do mundo ecoa por obras-primas, de "O Grito", de Munch, aos clowns de Beckett. Nestes dias, no Rio, pode ser encontrado na peça "Rainha Mentira" de Gerald Thomas.
Um humor macabro sempre esteve presente nas peças de Thomas, desde "Eletra com Creta". Porém, quando pôde contar com atores carismáticos como Fernanda Torres ou Marco Nanini, diluiu sua angústia em uma triangulação aberta com a platéia, ganhando um público mais amplo, mas perdendo um pouco a essência, a "secura" de sua ópera de imagens arquetípicas, na qual referências pessoais tornam-se um pesadelo coletivo.
Desta vez, porém, a morte de sua mãe, abrindo uma caixa-preta de memórias dolorosas, foi o ponto de partida para o diretor-dramaturgo retomar um teatro sem concessões. Um teatro de imagens desconexas, com personagens como que vindos do limbo da imaginação do autor, antes de estarem definidos; um teatro antes do teatro, feito de memórias uterinas ou de suposições do pós-morte, que se entende pela emoção.
O espetáculo no diminuto espaço do Oi Futuro começa com "Terra em Trânsito", a melhor das quatro peças apresentadas em São Paulo em 2006. Nela, Fabiana Gugli mostra toda a sua habilidade de malabarista do verborrágico fluxo de referências de Thomas, com o hilário contraponto de um ganso, agora feito por Pancho Cappeletti, com muito sabor.
No entanto, tudo soa como aperitivo para depois do intervalo, com essa "Queen Liar" da qual tão pouco se esperava. Aqueles que foram para rir ainda se prendem no início a cartuns nonsense, como Pancho, bombeiro em pleno incêndio, alucinando com um palhaço, feito com dignidade por Fábio Pinheiro -e que outro pesadelo podem ter os que convivem com o horror? Ainda se tenta romper a solenidade da ficção com a metalinguagem quando Anna Américo irrompe em cena como uma camareira tentando pôr ordem no espetáculo; sem deboche, porém.
Mas, pouco a pouco, guiado com serenidade e firmeza pela trilha e pela luz, o público é arrastado ao fundo, tocando a ferida do horror em seu estado puro, além do sofrimento. Falsas memórias, fragmentos de dados sobre um passado perdido, culminam em uma cena de morte com uma densidade que raramente se viu em um palco, nacional ou não, em sua simplicidade inesquecível. "Rainha Mentira" é uma peça para esquecer o "polêmico" Gerald Thomas, quer você simpatize com ele ou não, e reconsiderar o que já sabe sobre ele.
Anos atrás, em "Unglauber", um garçom trazia na bandeja um braço, que segurava um bilhete no qual o autor daria seu recado ao mundo. Nada estava escrito nele. Desta vez, também saindo de dentro de um corpo ferido, o bilhete deixa apenas ecoar rezas, de várias culturas, sem esperança de solução. No sarcástico palco de Thomas, ecoa o goyesco grito do nada.

RAINHA MENTIRA
Quando: sex., sáb. e dom., às 19h30
Onde: Oi Futuro (r. Dois de Dezembro, 63, RJ, tel. 0/xx/21/3131-3060)
Quanto: R$ 10
Avaliação: ótimo

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Estamos nos matando. Culpa?

ESTAMOS NOS CASTIGANDO
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Rio – Caramba! Parece que saí de dois Tsunamis ao mesmo tempo. A estréia maravilhosa dos espetáculos aqui no espaço Oi Futuro, onde fiz uma apresentação no domingo com a minha ex-sogra, a Fernanda Montenegro, na platéia. Foi um dos momentos mais comoventes nessas três décadas de carreira: afinal, esse espetáculo só aconteceu por causa de um email que ela me mandou após a morte da minha mãe: "transforme a sua angústia em criatividade e cante ela". Trocamos emoções com a platéia presente.

O outro evento devastador parece ter sido a minha coluna da semana passada aqui neste espaço. Nem tanto visava detratar São Paulo, mas reforçar aquilo que o Rio de Janeiro tinha de bom, de original. Gente! Que loucura! Quase que a caixa postal da America Online explodiu, o blog também e o "fale conosco" do próprio DR pediu arrego.

Chega disso.

Estamos em março de 2007. Há quatro anos eu estava em Londres marchando junto com um milhão de pessoas em direção ao Hyde Park, numa manifestação que tinha como utopia uma possível não invasão do Iraque pelos EUA e a Grã-Bretanha. Éramos tantos e tão pacíficos, quase não se ouvia ruído algum, mesmo no momento em que a passeata desceu a Charring Cross Road e atravessou Trafalgar Square para entrar em Whitehall e passar na frente de 10 Downing Strert. Mal sabíamos que lá dentro Blair a Alistair Campbell estavam forjando um documento que facilitaria o parlamento britânico a dar o OK para a invasão.

E hoje? É isso que voce me pergunta? E hoje? Como sair dessa fria? Como Walter Cronkite continua sabiamente dizendo, "entrar numa Guerra é a coisa mais fácil do mundo. Sair dela é a mais difícil".

Com os espetáculos em cartaz, esse breve retorno ao Rio esta sendo de certa forma comovente. Bagdad pode ser o umbigo do mundo no que diz respeito ao foco da tensão política mundial (é a guerra quente e fria ao mesmo tempo, caso os democratas consigam realmente uma diminuição de tropas americanas lá). Não há solução. Mas não há solução entre seres humanos enquanto houver lobbismo, lucrismo, mentiralha, pilantragem, tranformando a morte em dinheiro, ou enquanto houver supostos deuses de mentira para atrapalhar com seus extremistas, para metralhar aqueles cujos espelhos não refletem suas virgens ou seus santos divinos ou seus santos sepulcros. Santa sacanagem!.

Depois de uma estréia eufórica (um parto), estou, evidentemente, em depressão. Com a TV ligada na CNN e tentando colocar os pés no chão aos poucos, me lembro que o mundo não é um palco achatado que tem uma rotunda preta como fundo, e que a luz não se limita a refletores ligados a dimmers e racks, e que existe sim um sol de verdade. Só que mesmo de verdade esse sol está nos castigando. Fora o clima anormal nos dias de hoje, transformando as cidades do mundo em parques temáticos, esse sol está nos derretendo. Nossa cultura está derretendo.

Nós estamos nos castigando. Efeito Al Gore, como se brinca em NY. Nada disso. Defeito incorrígivel em nosso DNA. De tempos em tempos, nós temos que nos destruir.
Gerald Thomas
do diretodaredacao.com

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critica do Macksen Luiz do JB

A máquina teatral de Gerald
Macksen Luiz

Crítica Teatro: 'Terra em trânsito' e 'Rainha mentira'

No espetáculo duplo de Gerald Thomas, em cena no Oi Futuro, a força da imagem da contemporaneidade, em crônica desdobrada em manifesto teatral, o diretor despeja, como num fluxo de pensamento, aquilo que pensa e aquilo de que duvida. Se a encenação é obra do acaso total, como teoriza Gerald Thomas, a vida sob sua perspectiva cênica acompanha o mesmo fluxo, manifestada como forma operística, desidratada de verdades, massacrada por mentiras. Em Terra em trânsito, o que aparece está se movendo em torno de uma pasta de palavras, incapaz de compreender o que se está passando, mistura de fígados expostos à trituração da atualidade, preparada para ser servida como um patê autofágico de um tempo desesperado.

A cantora que se prepara no camarim para entrar em Tristão e Isolda se exalta, à custa de cocaína e de provocações radiofônicas de um Paulo Francis delirante, em diálogo com um cisne que andou por Woodstock e cita Haroldo de Campos. Esse cisne, um judeu de posições heterodoxas, faz contraponto à cantora que de si sabe apenas que há algo difuso que a persegue, um caudal de palavras que acossam seus sentidos, aos quais atribui migrações a lugares improváveis, como a cabeça de George Bush.

Repleto de referências, Terra em trânsito retoma o humor no teatro de Gerald Thomas, até então restrito a Um circo de rins e fígado, como atenuante da visão de finitude, na qual a morte individual é espelho da morte coletiva. Ao se ver usurpada de sua voz no palco, substituída por outra cantora, a mulher confronta-se consigo mesma numa aterrorizante perspectiva de chegar ao fim, de não ter mais lugar, de sucumbir ao que as palavras e as tentativas de agir não alcançam. A metáfora se conclui.

Fabiana Gugli, identificada com o estilo de Thomas de conduzir os atores, impõe coreografia nervosa e arrebatada, sem prescindir de humor sorrateiramente crítico diante da efusão verbal da personagem. A atriz vence, com a bravura de sua interpretação inteligente, as múltiplas referências, algumas delas quase secretas, como os comentários sobre o teatro de Harold Pinter, triturando-as num tom de maliciosa frivolidade. Pancho Capelletti, como a voz e o manipulador do cisne, tira o melhor partido da estranha criatura de tantas incertezas intelectuais.

Rainha mentira, a segunda peça do programa, é diferente, sendo o mesmo. Neste desabafo sobre uma perda, Gerald Thomas assume tom pessoal, dando nomes e significados próprios a episódio de sua vida, no qual não se furta de exibir sentimentos. Ao mesmo tempo, integra essa "história particular" à corrente da memória do século passado, em que fatos determinantes jogaram a vida de uma alemã a lugares perdidos, sem caminho de volta.

Aquele que deixa o café da manhã na mesa e parte, na véspera de grandes desgraças, para ser herói anônimo de diásporas, passa por bombardeios, sobe em trens lotados que trafegam de meia em meia hora, num "salve o que puder", percorrendo a escuridão do nosso tempo. Não há bombeiros que consigam apagar esses enormes incêndios ou impedir que torres de impérios, de meias-verdades ou de mentiras, de fantasias abandonadas e conhecimento acumulado, desabem como construções fictícias, deixando à mostra o vazio de mundos paralelos. Pela voz de Gerald Thomas, os atores falam de mortes em que a felicidade fugaz está na revisita às lembranças da geografia perdida e no aviso definitivo de que não é mais preciso viver.

Gerald Thomas modela essa despedida-depoimento na sua poderosa máquina teatral, impulsionada por imagens esfumaçadas e cinzentas de um tempo disforme e descolorido. No palco vazio, apenas com projeção, quase abstrata, de torres incendiadas, com flashes de declínio físico e pilhas de livros sugerindo paralelismos, a luz é um elemento decisivo para movimentar o poder desta máquina. Cenas como a das lâmpadas que descem em ritual de enterrar, e se apagam, ao anúncio de tantos mortos, compõem encenação que pulsa de teatralidade, que antes de se fechar num formalismo de repetições, reafirma-se como poética cênica única.

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de Carla Marques do Diretodaredacao.com

ANTI-TERAPIA EM GRUPO
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Tinha 15 anos quando assisti pela primeira vez "Esperando Godot", de Samuel Beckett, direção de Zé Celso. Saí do teatro (de arena) com um nó na cabeça. Melhor, um emaranhado de dúvidas no depósito acima do pescoço. Àquela idade, você quer respostas como gabaritos de vestibular. Afinal, as boas escolas particulares de hoje adestram; não questionam, não ampliam. É natural que as pessoas cresçam e continuem esperando gabaritos de vestibular. Elas foram treinadas para isso.

Daí uma rejeição ao que não é óbvio, neste caso, no teatro. Mas, para mim, funciona como uma anti-terapia em grupo: você se desestabiliza; fica inquieto, angustiado, pensativo em excesso. Depois, há ainda cenas que voltam em flashes numa síndrome do eterno retorno. Em "Rainha Mentira", de Gerald Thomas, colega de Direto da Redação, torres gêmeas de livros descansavam à beira do palco: "Não se constrói torres gêmeas com literatura", dizia a voz no alto-falante.

Em cima dos prédios, simbolicamente, foi colocada uma rosa vermelha, tirada da boca de um bombeiro morto estendido no chão. Ao fundo do cenário, a imagem inconfundível das Torres Gêmeas de Nova York imersas na fumaça. As referências ao 11 de setembro norte-americano coexistiam, no mesmo tempo-espaço, com outros conflitos mundiais e com um conflito específico da esfera familiar.

Neste último, o desfecho é o funeral de uma mãe, enterrada no palco com pás e terra. Uma mensagem à própria mãe do diretor ecoou com simplicidade pelo alto-falante. "Rainha Mentira" produz imagens lindas e uma exaustão emocional. Na platéia, lágrimas e aplausos comedidos, quase doloridos.

Já a primeira peça apresentada na noite, "Terra em trânsito", é bem diferente, permitindo uma certa comicidade. Nela, uma cantora lírica decadente (interpretação maravilhosa de Fabiana Gugli) alimenta, em seu camarim, um cisne judeu para fazer patê de foi-gras. Às turras com um rádio que emite a voz de Paulo Francis, dá voltas em temas antigos e imediatos, misturando-os em apenas um tempo. Pois a Terra está em trânsito… num camarim sem saída.

Sempre apressada, sempre neurótica, a cantora "chega" ao Rio de Janeiro e diz que adora a Barra da Tijuca, "concebida e desenhada por Oscar Niemeyer". Será que em Seul há também alguma Barra da Tijuca? Para quem acompanhou a polêmica sobre a coluna "São Paulo é a cara de Seul", publicada por Gerald Thomas, a idéia que deu as caras pela primeira vez no DR (enfurecendo os amigos paulistas) caiu na boca da cantora lírica. Uma inclusão feita, segundo Gerald, no próprio sábado.

Infelizmente, amigos mais antenados que eu me alertavam em um bate-papo antes da peça: "Quer ver Zé Celso? Vá a São Paulo!" São os boatos que rolam. Fico especialmente feliz com esta temporada de Gerald Thomas na cidade, que trocou seu repertório teatral por uma extensa programação de auto-ajuda feminina (é só conferir nos jornais). No sábado, finalmente pude sair do teatro, de novo, com a incrível sensação de nó mental, caos, beleza e cansaço.

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texto de Eliakim Araujo do Diretodaredacao.com

O GUERREIRO GERALD THOMAS .

A polêmica é tão velha quanto inócua. Mas ela não morre, fica adormecida até que alguém a desperte. E Gerald a despertou ao escrever aqui no DR em sua última coluna que São Paulo é a cara de Seul, cidade que ele confessa detestar. Ao afirmar que em São Paulo existe uma "falsa cultura, uma falsa idéia de "ser" e que as pessoas no Rio são autênticas e alegres dentro da catástrofe, mas conscientes dela", Gerald acendeu o pavio do barril de pólvora.

Historicamente, que eu me lembre, a rivalidade Rio-São Paulo tinha como causa principal o fato do Rio ser a capital da república. Apesar de mais rica, São Paulo não tinha a ressonância que o Rio projetava nacionalmente.

Fora isso, predominava a rivalidade no terreno do esporte. Na época da convocação dos jogadores da seleção, por exemplo, a imprensa esportiva de São Paulo cobrava com veemência a presença de seus craques, que eles julgavam injustamente preteridos. Problema que não existe mais hoje, pois nossos craques de seleção já não jogam em clubes brasileiros.

Mais tarde, no terreno da gozação, era comum os paulistas acusarem os cariocas de não gostarem de trabalhar, preferindo a boa vida da praia. Os cariocas respondiam que paulista trabalhava para gastar seu dinheiro no Rio. Os paulistas sempre se gabaram em afirmar que São Paulo é a locomotiva do Brasil e que o estado é tão rico que sustenta os demais.

De outro lado, os irreverentes cariocas sempre se referiram a São Paulo como o "túmulo do samba" (a frase é do poeta Vinicius de Morais), acusando seus músicos de "sambeiros" por tocarem o samba em ritmo de marcha. Gozação maior foi a do falecido humorista Busunda, que ao ser perguntado qual o local mais estranho em que tinha feito amor, respondeu: "São Paulo".

Atualmente, as gozações estão de lado. Hoje a discussão é mais séria, envolve questões que afligem o brasileiro onde quer que ele esteja. Cariocas e paulistanos discutem qual das duas cidades é mais violenta. Ou se acusam mutuamente de eleger políticos como Maluf e Clodovil, de um lado, e Garotinho e Rosinha, de outro.

O texto de Gerald reacendeu o orgulho paulistano. As mensagens lotaram a caixa postal do DR e a do blog do próprio Gerald, onde ele publica os textos que escreve para o Direto da Redação. Tentei escolher uma delas para publicar como direito de resposta no Espaço Livre, mas a maioria era absolutamente impublicável. Abri espaço para o leitor Romeu Prisco, depois de lhe recomendar que se abstivesse de usar ofensas pessoais em seu texto. E ele fez a crítica do texto de Gerald e a defesa de São Paulo, com elegância, embora em termos incisivos.

Gerald é assim. Polêmico, guerreiro, briguento, mas candente em defesa de seus pontos de vista. E foi assim, brigando, que ele entrou para o time de colunistas deste DR. Foi no finalzinho de 2005. Em resposta ao artigo de um de nossos colunistas criticando a Varig, Gerald escreveu ao DR pedindo direito de resposta. Publicamos então seu artigo "VARIG, Quando a Cultura Pesa", uma defesa veemente da empresa aérea. A repercussão foi tão grande que decidimos convidá-lo para o time.

Gerald Thomas é um inconformado com a mesmice. Está sempre experimentando, à procura do novo. Como as peças que escreve e dirige, seus textos aqui no DR são amados ou odiados. E é assim que ele gosta de ser lembrado.
Eliakim Araujo

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O Globo – segundo caderno do dia 12 de Marco 2007

Volta às origens

Gerald Thomas encena duas peças no Rio, começa a rodar filme em Londres, passa a ter seu próprio teatro em NY e quer retornar à experimentação.

Mauro Ventura Na quarta-feira passada, Gerald Thomas não parecia nem um pouco preocupado em estrear duas peças dentro de poucos dias. Ele tinha chegado ao Rio no domingo, conhecido o teatro na segunda e estava criando um dos espetáculos ali mesmo, na hora.

Para complicar, os ensaios tinham que ser interrompidos das 16h às 21h, por causa de outras duas peças que estão em cartaz no palco do Oi Futuro.

– Não falta pouco tempo? – quis saber o repórter.

– Falta nada. Já fiz peça em 12 dias, entre o tempo de recrutar ator e a estréia, sendo que não tinha escrito uma linha. E foi inacreditavelmente lindo.

Tratava-se de "Anchorpectoris", escrita num computador improvisado em cima de uma caixa de papelão instalada no chão, já que ele tinha se mudado de Londres para Nova York.

O autor e diretor de 52 anos volta ao Rio com "Terra em trânsito", já montada em NY e em São Paulo, e "Rainha mentirosa", que faz sua estréia na cidade.

Peças não têm nada em comum

As duas peças serão encenadas em seqüência – a partir de quinta e sexta-feira, para convidados, e sábado, para o público. Após "Terra em trânsito", com 40 minutos de duração, há um intervalo de 20 minutos, e aí começa "Rainha mentirosa", que dura… Quanto tempo mesmo, Gerald? – Não sei, ainda estou escrevendo, até a estréia a gente vai ensaiar de tarde aqui.

Apesar de serem mostradas no mesmo dia, as duas não têm nada em comum, a não ser a atriz Fabiana Gugli. A primeira peça, criada ano passado, ainda conserva uma boa dose de humor.

A segunda é bem mais sombria. É ela que está mais próxima do caminho que Thomas quer seguir agora. Um caminho que remonta às origens.

– Se alguém vier esperando uma peça como "Um circo de rins e fígados" (com Marco Nanini), esquece. Estou tentando justamente escapar dessas últimas peças, comédias para o grande público, mais acessíveis e fáceis de fazer. Amei fazê-las, mas não sou dessa praia. Sou da experimentação. Numa analogia musical, é como se eu tivesse feito alguns discos comerciais e agora voltasse à minha época John Cage e Stockhausen.

Os "discos comerciais" começaram com "Ventriloquist" (1999) e continuaram com "O príncipe de Copacabana" (com Reynaldo Gianecchini), "Esperando Beckett" (com Marília Gabriela), as peças no Sesc-Copacabana, as óperas – "Que sempre puxam para o engraçadinho", diz – e "Um circo…".

Um desvio de identidade

A virada de agora tem a ver com uma conversa com Ellen Stewart, que dirige, ao lado de Thomas, o teatro La MaMa em Nova York. Após ver "Terra em trânsito", ela disse: "Não estou entendendo essa sua fase. Por que esses apelos ao riso?".

– Ela me botou essa pulga atrás da orelha. Fui para casa pensando: "O que estou fazendo do meu teatro? Por que tentar ser acessível? Nunca me preocupei com isso na vida".

Comunicação com o público sempre tive, tanto que as casas vivem lotadas. Então, estou tentando entender direito quem eu sou. Houve um desvio de identidade no meio do caminho.

A busca pelo cômico era tanta que ele chegava a escrever na rubrica das peças: "Risos".

– Sentia-me ofendido e constrangido quando a platéia não reagia com risos – lembra.

A mudança tem a ver, de certa forma, com as imitações ao estilo de Thomas.

– Que imitem agora "Um circo…" – diz.

A peça com Nanini foi um sucesso de público – 103 mil espectadores.

Mesmo querendo distância da linearidade de espetáculos como "Um circo…", Thomas fala com carinho do trabalho ao lado do ator.

– Fiz "Um circo…" para ele, que foi um companheiro constante de palco. É como pegar um Diogo Vilela pela frente, o que aliás eu adoraria. Existe um namoro, uma possibilidade, mas não tem nada de concreto. Quem me dera.

Em 2006, Gerald Thomas apresentou quatro peças de uma vez só em São Paulo. Duas não vêm ao Rio por causa do tamanho do palco. Outra não será encenada porque era uma homenagem aos cem anos de Samuel Beckett, completados em 2006.

A única que será montada aqui é "Terra em trânsito". Ela traz a atriz Fabiana Gugli como uma soprano lírica, presa num camarim, que enlouquece lentamente.

Ela contracena com um "cisne" – na verdade, um boneco manipulado – e não pára de alimentar o animal com a finalidade de fazer foie gras.

– É como se o cisne fosse uma figura fictícia e ela estivesse tendo uma alucinação – diz Thomas.

Enquanto ela aguarda o momento de entrar em cena, os espectadores ouvem a voz de Thomas simulando Paulo Francis. A atriz, por sua vez, diz frases como "tentei engravidar de Mick Jagger e não consegui" e "estamos dentro da cabeça de George W. Bush, e dentro dessa cabeça vemos os presos de Guantánamo".

Os cariocas vão assistir ainda à estréia mundial da peça "Rainha mentirosa", também com Fabiana. É autobiográfica e sombria, misturando histórias da vida de Thomas – mais especificamente de sua mãe – com holocaustos da Humanidade, começando com uma cena que mistura o Terceiro Reich aos atentados do 11 de Setembro.

Na peça, carta que diretor escreveu para a mãe A peça fala de uma jovem linda que fugia de cidade em cidade, perseguida pela mãe mentirosa, que a acusava de ter matado o irmão, que se suicidou aos 17 anos, quando a menina tinha nove. "Mal sabia eu que um dia iria habitar o seu ventre", diz a voz de Thomas na peça.

A mãe de Thomas morreu em agosto passado e o autor não foi ao enterro. Fabiana leu na cerimônia uma carta que ele escreveu para a mãe. Na peça, é a voz do próprio Thomas que é ouvida lendo trechos como "a minha covardia é enorme, mas talvez ela possa ser entendida como medo", "eu nunca te vi feliz de verdade e isso sempre me assombrou, mas não foi culpa sua" e "quero que você saiba que eu estou aí dentro de você, ao seu lado, beijando sua alma".

O resultado é comovente.

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os varios gaps absurdos do Gigante roncando

SÃO PAULO É A CARA DE SEUL
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Rio – O Rio continua lindo. Mas não me refiro à natureza, Pão de Açúcar, praias e esse tipo de topografismos. Me refiro às pessoas.

Enquanto em São Paulo existe uma falsa cultura, uma falsa idéia de "ser" ou pretender ser algo brasileiro que ainda não existe, ou seja, vestir um uniforme bem passado num nordestino que não sabe conjugar um verbo e que abaixa a cabeça de vergonha quando vem te servir a bandeja, e que dirige um táxi mas não conhece nenhum caminho, no Rio as pessoas são os reais brasileiros. Autênticos, desbocados, opinativos, alegres dentro dessa catástrofe mas conscientes dela. Enquanto em São Paulo se vota em Maluf, no Rio se vota em Gabeira.

E qualquer motorista de táxi aqui tem cultura. Nao falo de ópera nem de Goethe, mas falo do streetwise, da política internacional. Tem parentes espalhados pelo mundo, ouvem notícias internacionais e desconfiam de tudo. Talvez resida aí o instrumento mais importante de suas personalidades: não acreditam no que lêem ou no que ouvem da mídia. Acreditam no que vêem, no que o dia a dia lhes conta e o que os passageiros – internacionais, nacionais e celebridades – lhes sussuram nos ouvidos. E não ficam quietos.

Aqui os técnicos dos teatros falam. E alto. E nos bares e restaurantes, os garçons nao têm medo dos clients. Ao contrário: o Rio tem muito mais a ver com as metropolis/cosmopolis do que esta que se gaba de ser a Chicago "turd" world (turd quer dizer cocô).

Não adianta revestir os prédios de vidro fumê e rearranjar os bairros com nome de Berrini e alargar as avenidas e inventar services: no máximo vai ter a cara de Seoul, Coréia do Sul, a cidade mais deprimente que conheço.

Já o Rio é o Copacana Palace, o táxi amarelo, a Praça 15, a Cinelândia, a Baixada Fluminense e o senhor digno, negro que mora em Irajá e tem uma cultura invejável. Pode te dar uma aula de brasileirismo de fazer chorar. Pode falar das origens da cidade com a mesma propriedade como fala dos êrros cometidos por Bush ao invadir o Iraque.

Esse mesmo Bush, que ao olhar de sua janela do Hilton de São Paulo deve ter pensado: What the hell am I doing in Seoul?
Gerald Thomas

do diretodaredacao.com

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