Monthly Archives: May 2008

Nao existe mais o teatro, cinema, porra nenhuma assim como era

New York – No aviao da JAL vim lendo o "Incendio" que o Nanini havia me dado de presente (desde Londres). E hoje eh o aniversario de nosso melhor ator. E vim pensando na questao do ator.

Nanini eh Nanini e nao concorre a categoria de ator: eh um pensador de teatro. O ator, per se, perdeu completamente o sentido, assim como o bailarino ou o cineasta ou o diretor. Estamos ja – faz 8 anos – pra "dentro" desse seculo 21 e, no entanto , com toda essa nova tecnologia rasgando nossos tendoes do pensamento, nossas fronteiras, se limitam a pensar besteiras.

Ator? Aquele que interpreteta? Aquele que representa, que faz de conta, aquele que decora papel e que acaba sendo seduzido sentimentalmente por aquele ser que ele mesmo produziu? Quanta asneira.

Morremos. Alguns ainda nao entenderam.

Alguns custarao a entregar – de verdade – o bastao – e continuarao a ludibriar o publico nos festivais "Daniela Thomas na capa do JB d'outro dia (sim , Ziraldo, seu pai, eh o editor do Caderno) a colocou na capa falando pra atriz que ganhou o premio "querida, vc esta em nossos coracoes",

Deu saudade da Dani. O que vivemos e vivenciamos juntos. Nao sao coisas de serem jogadas fora. O dia em que batemos na casa do Sergio Mamberti e descobrimos que o Helio Oiticica estava morto. Os cafes interminaveis que tomavamos no Le Figaro ou no Reggio aqui no Village ou em Swiss Cottage (moravamos em Crouch End, lugar inospito!),

Saudades daquela franja que ela usava e a briga que eu tive com ela quando ficou uns dias mais na Alemanha visitando a irma, a Fabrizia e voltou pra NY de cabelos cortados.

Tudo isso antes do Fagundes colocar a gente num apart hotel que ficava em cima de uma churrascaria e onde hoje funciona o Satyros.

Mas porque a nao importancia do teatro assim como esta? Ou do cinema? Essas industrias podem continuar se perpetuando por mais "maus" 100 anos , mas e dai? E DAI?
Nenhum unico MINIMO impacto na sociedade. Sao clubinhos minimos que se bajulam, passam as maos nos ombros e cabeca num jigsaw puzzle politico pra lubrificar a maquina. Bobagem.

Reves-Lucao!

O ator revolucionario esta naquele que nao esta treinado com os truques repetitivos, assim como o politico revolucionario esta bombando e metendo medo por nao estar TREINADO a se "safar" atraves de jargoes.

Obama nao vai ter vida facil ate novembro.
O Brasil se perpetua atraves de uma CORJA patetica govervanemental e nem aguento mais falar sobre isso: mas ai, nas capitais brasileiras, que brincam que serem refugios de 1 mundo, nao passam de um 3 mundo corrupto,

O taxista que me trouxe, negro, investidor imobiliario, me chocou: "Nao gosto do Obama: gosto da Hillary. Quem estava por tras dos 8 anos de Bill no Oval Office?"

Como se fosse tao simples assim.

Hoje, o ex spokesperson da Casa Branca, Scott McLellan lancou um livro (mais um deles) dizendo COMO foi ludibriado, enebriado, embriagado pela Bubble de Washington e pelo fracasso de Bush , seu livro? "What Happened?"

Botou a boca no trombone

Estamos em plena era do cinismo. Esses sao os players na international arena, assim como Shakespeare. Ah, querem mostrar a pobrezinha brasileira pra circuito de festival, colocar um monte de grana na Cia das Letras pra que ela publique seus amigos Salles? Os Bancos brasileiros estao com tudo: mais nao sei quantas novas salas: es un filantropista de primeira.
Viva o Meirelles com sua Cegueira assumida num patamar arriscado! O do mainstream. Os atores hoje estao por tras das cameras e poucos se deram conta porque nao sabem quantos caralhos e bucetas uma puta tem que encarar por noite pra pagar seu aluguel EDICAO DE DOMINGO:
so problemas: Porto Rico vota por superdelegates depois que a Florida passou grande parte do dia ontem (junto com Michigan) tentando entrar num acordo (e entraram!) sobre quantos votos cada delegado teria!
Vai Scott MccLellan, diz pro povo, Tell them, spell out your guts, not only for publicity reasons! Tell them what were the real reasons for going into Iraq.
E agora Jose?
Stephen Toulmin deve poder explicar
Sera?
Ninguem mais explica porque os Republicanos estao messing around com a campanha democratica pra poder…em november…..
(nao preciso mais terminar any sentence, nao eh?
o Vamp ou o Carlos ou o Gustavo de Gainsville terminam por mim
estou numa tremenda exhaustao!
Bom domingo
LOVE
G
Gerald Thomas

comment
Oi, Gerald, deixo aqui uma sugestão para uma polêmica no blog: o gesto dos Kaiapós de passar o facão no engenheiro da Eletrobrás foi antropofágico? Para mim, foi. Abraços do Lúcio Jr.
Lúcio Jr

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a volta pra NY e a tripa dos comments

Vai virar assunto pra cia de teatro do sesc av paulista Keplao!
Daremos o devido credito eh claro, mas….tenho que dizer algo: cometi um enorme erro: no Rio sintonizei um canal de noticias brasileiras e vi aqueles….horrendos parlamentares brasileiros Inocencios..Oliveiras…..falando aquele portugues HORRENDO…..e gente falando de um tal de Paulinho (um outro parlamentarrrrrr) e uma certa comissao de etica (ETICA??? Nao me faca RIR!!!) que estava "perambulando"…….Tomei um horror! Hoje ao desembarcar aqui o radio do taxista Jamaicano , a 1010 WINS ja estava dando same sex marriages e coisas do tipo: e me senti – por alguns momentos, fora do nordeste brasiliense que domina o gigante moribundo! Ah sim, um GUINDASTE (mais um) caiu em cima de um predio aqui na Primeira Av com rua 91) Tem sido moda esses cranes cairem aqui em NY nesses ultimos meses! Nao sei o que eh, mas eh melhor que o parlamento brasileiro, ah isso eh. Mais "modernista" que a semana de 22!
Gerald
PS: tem mais eh que se enlouquecer e fazer homenagem com tenis e cracha mesmo (o resto do corpo nu, a nao ser por um cocar de indio!) relembrando os modernistas de 22!!! Viu FDR? Quem eh mais retrogrado ai????

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O Carnaval se aproximando

Voces nao sentem? Eu sinto. Pois, maio esta acabando e eu ja sinto uma especie de Carnaval Universal acontecendo. Dificil explicar: eh assim: qualquer um muda as regras de qualquer jogo, Intepreta o que quizer de quaisquer fatos, Escreve-se besteira apos besteira e mesmo assim, existe um clima exuberante no ar. Algo aqui nessas paginas estara mudando logo, Logo. Ontem tive uma longa e triste conversa com a minha nova troupe la no SESC da av Paulista. Rimos um pouco do Ze Celso rasgando a roupa de todos (como sempre) (la, o negocio eh ficar nu, e pronto!) e o Ze nao apoia o Sesc mas precisa dele (!!!) e quanto a minha troupe….nao sei, eh realnente estranho: algo diz que nao estamos nos mesmo registro,
Mas o Carnaval vem ai e quem sabe, com as novas fantasias e a um lindo batuque as coisas nao tomam outro rumo?
Gerald

PS aqui nesse blog, sr Carlos David or David Carlos QUIZER se escreve com Z ! entendeu? Nao gostou? Tem milhoes de outros blog por ai – literalmente (o mundo tem mais blog do que gente ou peixe) que escreve QUISER com S, Mas aqui sera com Z.
Pronto.
Gerald
depois da sessao sesc de hoje, lanco (viu? sem cedilha) mais um mini manifesto a la pato no tucupi)

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Zuenir


"Continuo um otimista", diz Zuenir

Autor nega em debate na Folha que exista melancolia em "1968 – O que Fizemos de Nós" na comparação com livro de 20 anos atrás

Renato Janine Ribeiro diz que protagonistas de 68 dão, hoje, a impressão de que "tudo o que havia para ser feito já foi feito"

DA REPORTAGEM LOCAL

O professor de ética e filosofia política da USP Renato Janine Ribeiro veio com a provocação: "Zuenir, achei seu livro novo um tanto melancólico". Foi a deixa para o jornalista Zuenir Ventura, que acaba de lançar "1968 – O que Fizemos de Nós" (Planeta), rebater: "Continuo um otimista incorrigível".
Foi entre dois extremos de interpretação sobre o ano bissexto que se tornou sinônimo da rebeldia juvenil que transcorreu o debate realizado na última terça no auditório da Folha. Integraram a mesa ainda os jornalistas Roberto D'Ávila e Mário Magalhães (mediador).
Para Zuenir Ventura, ainda é um mistério aquela "sincronia" que fez com que em um mesmo ano, em países diferentes como França, EUA, Tchecoslováquia e Brasil, os jovens deixassem o cabelo crescer, ouvissem as mesmas músicas, desconfiassem de todos com mais de 30. "1968 não desaparece e é lembrado como se fosse uma pessoa porque foi um ano com um caráter, dado pela rebeldia generalizada naquele momento."
Segundo o professor Renato Janine, "a menina poder transar com o namorado na casa dos próprios pais tem a ver com o legado de 1968. Como também tem a ver, claro, a perda do recato -o piercing nos órgãos genitais, por exemplo".
"1968 – O que Fizemos de Nós" é continuação de "1968 -"O Ano que Não Terminou", do mesmo Zuenir, lançado há 20 anos (os dois livros são comercializados juntos, ao preço médio de R$ 75).

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Israel

Gerald, coloca aí um texto pra gente comentar, pô! Qualquer um. "Não quero nem saber de quem é o enterro, quero é chorar"! A gente tamos louco pra cortar, mas você não levanta a bola… Olha, se demorar muito, já vou avisando que vou começar a avacalhar com o Piauí, depois não adianta reclamar!
(O Vampiro de Curitiba)

Eh Vamp, ta dificil. Essa coisa de falar sobre Israel realmente eh muitissimo delicado. Delicadissimo. Hoje, num almoco, fiz, sem querer, obvio, uma das pessoas que mais amo, Mary Ventura, chorar, por causa de palavras mal escolhidas (minhas) sobre essa confusao que da quando se fala na constituicao do Estado de Israel e e os sobreviventes do Holocausto. Abracei a Mary e me expliquei e espero que a coluna do Mauro na revista de Domingo do Globo desse proximo fim de semana coloque finalmente os pingos derradeiros "i".

Tive muitos parentes assassinados em campos de concentracao. Isso nao me da a autoriade e nao me desautoriza a falar em nome de milhoes de pessoas que foram desterradas por causa de um demonio do terror (Hitler). Mas a discussao eh, ainda hoje interessante porque aquela area do mundo ja era muitissimo complicada antes de 48, antes da instalacao de Israel.
O problema do mundo eh que nao nascemos ontem e nem a Historia comecou na semana passada.
Meus sinceros, os mais sinceros SENTIMENTOS e SORRIES se falei algo que tenha machucado alguem.
Gerald

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Altas Horas amanha de noite OTIMO

NAO DEIXEM DE VER!!!!!!!!
Ficou otimo o programa, nao deixem de ver!
LOVE
G

Vamp
Não perco o Altas Horas de hoje por nada. Ahh, a Fabiana estava ótima no programa de ontem na Globo. Muito divertido!
O Vampiro de Curitiba


FINAL DA NOVELA DE MAU GOSTO BRILHANTEMENTE DESCRITA NO ZERO HORA

Evento
Línguas sem fronteiras

Performances de Fernando Arrabal e Gerald Thomas no Fronteiras do Pensamento dividem opiniões e criam polêmica

Imagine uma peça chamada Vaidade sem Fronteiras. O enredo seria mais ou menos assim:

Cena 1

Restaurante classe A de uma grande cidade à beira de um lago que todos chamam de rio, domingo à noite. Reunidos em torno de uma mesa, dois artistas trocam idéias, se vangloriam dos grandes nomes que conheceram em suas andanças pelo mundo. Ao falarem de política internacional, um dos artistas, aquele de cabelos crespos e longos, diz algo como:

– O senhor não considera o general Franco um ditador?

O outro, baixinho e puxando de uma perna, reage com violência. Levanta-se intempestivamente, pega um livro de uma mochila e o joga no interlocutor, gritando algo como:

– Meu pai foi morto pelos franquistas.

Pano rápido.

Cena 2

Sala de conferências de um hotel, segunda-feira à tarde. Barulho de repórteres, máquinas fotográficas pipocando durante uma entrevista coletiva. Perguntado sobre o outro artista, o baixinho assume uma pose blasé e ressentida:

– Não sei, nunca ouvi falar.

Sai de cena o baixinho, entra o crespo. Que define seu colega de maneira acre:

– É um sujeito famoso por apenas uma peça, ainda por cima plagiada.

Pano rápido.

Cena 3

Um grande auditório lotado, segunda-feira à noite. Primeiro, o baixinho faz sua palestra, arrancando risadas ao acariciar um pequeno crocodilo de plástico. Depois, entra o crespo, arrancando vaias da platéia ao atacar minorias, ao proclamar que o teatro morreu.

O final da peça fica em aberto, restando apenas o risco de o crespo e o baixinho se encontrarem em algum aeroporto do mundo.

O que você achou deste roteiro? Original? Chato? Frustrante? Os personagens são canastrões? Ou gênios? Você pagaria para assistir? Você entenderia isso como uma provocação ou uma palhaçada? Uma coisa é certa: o argumento não é original, ele narra de maneira fragmentada como foram os poucos dias que os dramaturgos Fernando Arrabal e Gerald Thomas passaram em Porto Alegre, como palestrantes convidados pelo ciclo Fronteiras do Pensamento, no início desta semana.

Depois de segunda-feira passada à noite, a discussão se transferiu para blogs e páginas de jornais (inclusive neste Cultura), felizmente sem conclusão. Porque assim ganhamos mais tempo para tentar definir as fronteiras entre arte e vida. Tanto Arrabal, dramaturgo reconhecido internacionalmente por textos como Cemitério de Automóveis e O Arquiteto e o Imperador da Assíria, além de filmes como Viva la Muerte, quanto Gerald Thomas, responsável por boa parte da renovação que beneficiou o teatro brasileiro nos anos 80 e 90, em montagens como Eletra Com Creta e Carmen com Filtro, são artistas respeitáveis e reconhecidamente provocadores. Tudo certo para que estrelassem uma discussão pacífica e conseqüente sobre teatro, certo? Nada mais errado.

Thomas e Arrabal têm um traço em comum, que é explosivo – ambos parecem desconhecer fronteiras entre o indivíduo e o artista. As conseqüências disso são imprevisíveis. Por um lado, são artistas que se entregam a uma expressão essencialmente autobiográfica, visceral, que condiciona a transformação de si próprios à transformação do público. E isso é muito bom, e é pura arte. Mas também são artistas que se expõem de maneira deliberada e muitas vezes exagerada, parecendo interpretar personagens de si, prisioneiros de uma imagem pública que eles mesmos ajudaram a construir.

Na noite de segunda-feira, frente ao sisudo público do Fronteiras do Pensamento, eles foram fiéis a si mesmos, agiram de improviso e sem pensar nos resultados. Arrabal, eternamente convencido de que os paradoxos podem ser uma ferramenta da arte conseqüente, atuou como um artista que não tinha nada a dizer de importante. Não foi ele mesmo que disse que provocação e humor se confundem? Thomas, e isso é forçoso anotar, em confessa fase depressiva e de profundo autoquestionamento, apelou para o papel de enfant terrible, vestindo dolorosamente uma persona que talvez o ajudasse a enfrentar um compromisso público quando ele talvez desse a vida para estar só. O pacifista Thomas engatilhou sua metralhadora giratória e mandou bala. Mesmo sendo judeu, e tendo praticamente toda a família morta em campos de extermínio nazistas, criticou o Estado de Israel. Mesmo (ainda) artista, decretou a morte do teatro (e nisso ele não foi nada original).

Um dos efeitos colaterais mais nefastos da performance de Thomas e Arrabal foi atiçar uma acusação que paira sobre os artistas, tachados como pessoas que sobrevivem apenas pela exibição orgulhosa dos próprios egos. Bobagem: até para escrever uma coluna ou um comentário em um jornal é necessário que se exponha o ego – e que este esteja bem vitaminado, senão será destruído pelo primeiro pigarro na platéia.

Um dos melhores efeitos da performance foi a de constatar que a uma obra interessante e brilhante (caso dos dois artistas) não corresponde necessariamente um criador interessante e brilhante (pelo menos, não o tempo todo, pelo menos não com horário e local marcados). Na verdade, a dupla Arrabal/Thomas (xi, capaz de eles brigarem para inverter a ordem dos nomes) interpretou personagens que talvez todos nós quiséssemos interpretar: sarcásticos, irreverentes, infantis, onipotentes. Que inveja, né? Ser ator e interpretar a si mesmo.

Dá vontade de vaiar. Ou aplaudir.
RENATO MENDONÇA

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Contardo Calligaris e Strange Tribe


CONTARDO CALLIGARIS

Solidariedade a Ronaldo e Hemingway

É difícil ser homem, sobretudo
quando a virilidade é imposta
e carregada como bandeira

A ILUSTRAÇÃO da coluna de Ancelmo Gois, no "Globo" da segunda-feira passada, era a fotografia de uma "faixa de solidariedade" a Ronaldo, pendurada perto do túnel Zuzu Angel, no pé da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. A faixa dizia assim: "Ronaldo, a Rocinha acredita na sua inocência, você sempre será nosso Fenômeno".
De que inocência se trata? Afinal, Ronaldo não é acusado de crime nenhum. Segundo a versão inicial dos travestis com quem ele foi para um motel da Barra, ele não teria aceito pagar o combinado e teria encomendado droga para apimentar o encontro. Mas duvido que os autores da faixa pensassem nessas eventuais "culpas" do jogador.
Igual, mesmo se uma parte qualquer da dita versão fosse verídica, por que Ronaldo deixaria de ser o Fenômeno? Isso não deveria depender de sua atuação no campo? O jeito de entender a inscrição do túnel Zuzu Angel parece ser o seguinte: ao levar um travesti para um motel, o jogador teria comprometido sua própria imagem ideal aos olhos dos autores da faixa.
Para eles, o Fenômeno não é só jogador de futebol, ele é também o macho ideal; a fim de continuar acreditando nesse ideal, eles precisam proclamar a "inocência" de Ronaldo, ou seja, por exemplo, acreditar que, se o jogador escolheu um travesti, foi por engano.
Acabo de ler "Strange Tribe" (estranha tribo -uma tradução em português seria bem-vinda), de John Hemingway, neto do escritor Ernest Hemingway. O livro está sendo transformado numa ópera, com libreto do próprio autor e direção de Gerald Thomas (mais informações em www.geraldthomas.blog.uol.com .br).
John Hemingway conta como ele conseguiu se salvar da espécie de maldição que assolou a linhagem dos Hemingway: suicídios (a começar pelo pai de Ernest e pelo próprio Ernest) e psicose maníaco-depressiva. Em Gregory Hemingway, pai de John e filho de Ernest, as oscilações entre depressões profundas e crises maníacas eram complicadas por uma constante incerteza da identidade de gênero.
Gregory se sentia melhor quando se vestia de mulher. Essa fascinação pela identidade feminina não implicava um desejo homossexual. Gregory não parava de se apaixonar por mulheres e de cultuar os traços mais óbvios da masculinidade americana (assim como ela havia sido inventada, aliás, por Ernest, seu pai). Gregory amava caçar búfalos e elefantes na África e viver na natureza selvagem do Estado de Montana (onde, ao mesmo tempo, vestido de mulher, aventurava-se pelos bares).
Já na terceira idade, Gregory quis se tornar mulher. Passou um tempo com o implante de um seio só; aliás, casou-se, pela quarta vez, em 1992, durante essa fase, já transformado parcialmente em mulher (imagem exemplar de uma divisão impossível de ser resolvida).
Em 1995, Gregory completou as cirurgias necessárias para mudar de sexo. Não por isso ele terminou seu casamento.
Ao longo do livro, John Hemingway descobre que a estranha divisão de seu pai já estava em Ernest, o escritor, seu avô. Ernest aparece vestido de menina em fotos de sua infância, e há, na obra do grande escritor, passagens tocantes em que um homem e uma mulher que se amam são tentados por uma inversão de papéis pela qual o homem se tornaria mulher nos braços de sua amada.
Ernest Hemingway fez de sua vida uma espécie de protótipo de hipervirilidade (boxeador, voluntário na Primeira Guerra, correspondente na Guerra da Espanha e na Segunda Guerra Mundial, aficionado por touradas, caçador, bebedor, pescador de alto-mar, sempre apaixonado por mais uma mulher).
Talvez seu show de virilidade fosse uma maneira de conter a fascinação pela feminilidade. Ou talvez sua androginia íntima fosse uma maneira de fugir da mascarada masculina que havia erigido em regra de vida e em ideal literário.
Seja como for, o livro de John Hemingway é uma leitura imperdível para quem queira entender um pouco a complexidade da identidade de gênero. Mas, antes disso, é um extraordinário documento sobre a dificuldade de ser homem, sobretudo quando a identidade masculina se torna uma bandeira ou, como no caso de Gregory, é transmitida e imposta como uma bandeira.
A história dos Hemingway não tem nada a ver com o episódio de Ronaldo. Mas "ser Hemingway" ou ser "um Hemingway" deve ser tão difícil quanto ser "o Fenômeno" da faixa solidária do túnel Zuzu Angel.


OBS: Abriremos uma nova sessão de comentários, no post acima desse, amanhã ou depois, com uma seleção dos melhores comments.

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