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O que temos "aprontado" no SESC Av. Paulista e também vai virar a BlogNovela

 

KEPLER, O CÃO ATORDOADO

 

Reflexões… (observações dos ensaios)

 

Por Ruy Filho

 

Tentar diagnosticar nossa identidade, já seria um desafio imensurável. Tratar o diagnóstico, então, pelo prisma da arte, associando esta ao poder, torna a abordagem ainda mais complexa.

 

Tudo inicia na exposição de corpos dependurados. Escolha anunciada do próprio criador. “Porque eu coloquei ali”. Mas há mais no que aparenta ser apenas um início de espetáculo. Não são meramente atrizes de ponta-cabeça. Os corpos, expostos como estão, re-significam-se no que possuem de mais óbvio e, portanto, menos percebível ao primeiro olhar já viciado em traduções: são corpos, meramente. Como as figuras de Francis Bacon.

 

Bacon traduz não a mera perda da identidade contemporânea, pois esta seria facilmente confundida com o que há de superficial na maneira como agimos, pensamos e nos mostramos. O que apresenta é nosso interior degenerado, corpos sem pele, cuja estrutura horrível dá imagem, cor e berro a nossas neuroses e solidões desde de sempre, em contínuo.

 

Os dois corpos no fundo do palco são, como se mostram, então, os mesmos e seus próprios duplos espelhados; o corpo sem pele e a casca solta, a voz e o silêncio do próprio criador. E, ao se auto-arremessarem sobre a parede sem exigir qualquer dramaticidade que não o mero gesto, reafirmam sua condição de corpos.

 

Espelhados igualmente, dois outros assumem o palco. Kepler se funde ao seu cão e entrega a este sua reflexão. Tornam-se o mesmo e outro. Enquanto o cão representa a razão, o homem se mostra adestrado e submisso a dar rotina ao animal. Como se estivéssemos cada vez mais voltados a priorizar nossa sobrevivência instintiva ao invés da nossa capacidade em conduzir a outros caminhos, outras possibilidades.

 

A repetição do texto inicial sugere estarmos ainda na mesma cena. Uma reapresentação da primeira. Assim, o animal e seu dono são os mesmos. Tanto quanto os dois corpos dependurados são apenas um. Feito a criação que serve para representar o criador e este a si como própria criação…

 

À razão do cão, contradiz a expurgação descontrolada da merda. Dejeto limitado a existência de um desejo concreto. O corpo absorve o necessário e devolve o que há de mais impróprio pelo resto, pelo lixo. A merda traduzindo, assim, a vida. E, segundo Artaud, representando o divino em nós, pois lembra nossa capacidade em nos purificarmos, a tentativa de sermos melhores do que somos deixando para fora de nossos corpos o que se faz desagradável, e que há algo além. Ou alguém. A merda, portanto, serve de prova da existência de Deus. Deus, entendido aqui, como o maior ou primeiro criador.

 

É disso que tratou Piero Manzoni ao expor seu próprio excremento como obra de arte, ou a Madonna de Chris Ofili, pintura ornamentada por fezes. O que esses artistas estão apresentando é a tese de que o sagrado não existe além e sim no próprio homem, na experiência concreta do corpo que traduz em si mesmo criação e criador. Pois somos o todo e o único, todos e ninguém.

 

Como responder, então, o paradoxo entre “a arte tem a cara do poder” e “o poder tem a cara da arte”? O que parece ser a mesma coisa, expõe uma problemática crucial para chegarmos a tal da identidade. Na primeira questão, a arte é colocada como artifício, instrumento de determinação de uma ordem pela subjetividade da estética; na segunda, o poder se fantasia de subjetividade para esconder sua manipulação. Mas nem tão distantes estão. Equilibram-se na existência do próprio homem como fruto responsável por ambas, já que tanto arte quanto o poder são atributos da necessidade humana de superar o meio, seja ele simbólico (e portanto cultural e natural, entendendo que a origem etimológica das duas palavras são a mesma) ou político.

 

E é esse homem, essa figura, transformada em mulher, que vemos surgir da figura do cão. Se deus é o criador de tudo e todos, então a mulher é responsável pela continuidade da vida. É ela igualmente criadora. A humanidade se configura, portanto, na existência da criação como instrumento de adoração do criador. Adoração exposta em desejo ao próprio corpo, como o streptease do ator (metáfora da necessidade de abdicarmos de nossas máscaras sociais para nos reencontrarmos puros e originais), como a idolatria ao inacessível, ao inquestionável, ao que cala, representado pelo Santo Graal (face existencial de criador supremo).

 

O Homem se afasta de seu duplo. Tem esquecido de compor sua humanidade pela junção do ser e do existir. E a individualidade solitária faz com que, ao nos afastarmos de nós mesmos, nos afastemos de nossa capacidade crítica em ouvir e comparar.

 

Não se trata de valorizar morais ou fundamentos éticos religiosos. Pelo contrário. A peça avança sobre a condição iconoclasta de maneira mais vertical, propondo o próprio homem (criador de si mesmo) como ícone a ser desconstruído ao reivindicar sua capacidade de se recriar e re-significar. Desconfigura a face sagrada e ri de sua face animalesca.

 

A questão, agora, é compreender onde nos reconhecemos então. O que resta deste homem transformado pela história em representação da própria história? Na solidão autodestrutiva, na surdez descomedida, como encontrar nossa identidade?

 

Estamos, como Kepler, isolados por e em nossos próprios discursos. Sem deuses, sem diálogos, sem respostas, pois perdemos a capacidade de fazemos perguntas. Silêncio e ausência. Se tivesse que resenhar sobre nossa identidade hoje, a partir do espetáculo, diria que estamos fadados a fracassar em sermos nós mesmos.

 

 

 

Ruy Filho

 

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Vem aí o Inferno anual e o Império da Manipulação das Emoções. Quem sofre mesmo? Quem viveu DE FATO o 11 de setembro?

Contagem anual:  9, 10, 11… de setembro dos INFERNOS!!!!

E a cada ano fica pior. Eu achava, lá no inicio, digo, em 2002, 2003, que iria melhorar. Nada. Essa merda só piora! Vem mais um aí. A data está dobrando a esquina. E a lista de pedidos de entrevista são os mesmos ou um pouco diferentes, mas o martelo bate como se fosse o personagem Clov na cabeça de Hamm em “Fim de Jogo”, de Beckett. Som de lata! Sim, aquele dia foi um final de jogo, um fim de mundo, um final das contas, o holocausto ao vivo. O holocausto dentro dos EUA. Para aqueles que não estiveram em Kosovo, ou no Vietnam, ou em Sarajevo, Uganda, Ruanda, sim, esse aqui foi o que nos atingiu. Não me falem em Hiroshima, Nagasaki, Dresden, Auschwitz, Dachau, Buchenwald porque os ossos de meus parentes estão em cinzas lá. Sem lágrimas. Na boa!

Também vi Vigário Geral!

11 de setembro e as ruínas onde fui trabalhar e, ao voltar empoeirado, massacrado e sem fibra, escrevia meu depoimento para a “Folha”.

Mas o que veio depois foi ainda pior: A política de Bush. Não posso acreditar que estou em 2008 escrevendo isso. Leiam o que quiserem e acreditem em quem quiserem, juro que não agüento mais discutir como estrelar um ovo. Você agüenta? Não, não agüenta. Tenho aqui na minha frente todos os livros de Woodward e o 9/11 Commission Report e o livro de George Tenet e o de Frank Rich e uma pilha de livros que nem eu mais agüento ver ou ler. Náusea. Não, nada a ver com o Sartre, não.

Não posso acreditar que estou em 2008 me vendo diante de John McCain e Sarah Palin e sua pequena vila pentecostal no Alasca. Essa radical quase fundamentalista que transborda “pecados” por todos os lados. Transborda? Como assim? Sim. Marido bêbado que é pego dirigindo “sob a influência”… “DUI”, chama-se isso aqui.

Deus quis”… Ai, meu deus! Qual deus? Qual deus? “Deus é o maior problema, não a solução”, dizia um grafiti numa calçada em Brooklyn, nos dias após os ataques.

Não. Esse jogo de novo, não. Sou de teatro, mas odeio a repetição!

Será que escrevo sobre os ingressos do show da Madonna na Argentina que esgotaram em questão de horas? Digo, a mesma Argentina que vaiava Madonna por interpretar Evita Perón na sacada da Casa Rosada… Não, não irei entrar nessa de falar sobre a Madonna. Vou tentar me distrair com a ótima entrevista concedida por Alec Baldwin ao “60 Minutes” de domingo último, em que demonstrava ser  “outrageous”. Um cara de coragem singular por ter se “excluído” de Hollywood. Sim, e por quê? Porque sim! Porque George Bernard Shaw diria que ele seria um caso muito “peculiar” e que pertenceria ao equivalente a Fabian Society ou que ele atrairia muito mais atenção sendo um excluído! Faz sentido. Pouco. Tanto quanto Palin, Deus, Jews for Jesus ou campanha eleitoral onde VALE TUDO, ou seja, nada!

De volta a realidade, Gerald! Volta!  O ex-pastor, ministro, sei lá como se chama isso, da igreja de Sarah Palin (a Wasilla Assembly of God) falam em jivês, em gírias. Não, gírias, não. Falam como se fala no candomblé. Ou seja, quem é de fora não entende. É para não entender. É que nem o meu teatro. Epa! O ex-pastor de lá, o tal de Brickner, dos Jews for JESUS (Judeus por Jesus) acha que os ataques a Israel são justificados pelo seguinte: Ouçam bem: porque os judeus não procuraram por JESUS!!!

OLHEM o NÍVEL de loucura em que está metida a nossa potencial VICE presidente! E eu, tentando fazer o meu anual memorial sobre o 11 de setembro que vem sombrio, sóbrio, frio, estúpido, como todo setembro vem! ESTÚPIDO!

Olhem o potencial nível de loucura ao que chegou o Jihad propagandístico da políticaÉ um deus contra o outro.

O que eu vi da minha janela na Kent Avenue em Williamsburg, naquela terça-feira de manhã? Os aviões batendo no WTC, os prédios em chamas, os prédios caindo… muita gente morrendo e eu indo trabalhar em GROUND ZERO por VINTE E UM DIAS. Foi o que eu vi e vivi. Mas o que foi que aconteceu, por trás das paredes políticas dos que escrevem o DRAMA?

E, fora o petróleo, e a indústria bélica e a indústria do lucro, qual outra intenção? A de estabelecer uma nova ordem religiosa, a new religious RIGHT no mundo, usando Bin Laden (ex Cia nas Afghan mountains contra os russos)… Será? Não, estou sendo um Hamletzinho. Agora que o Musharaff nem “está” mais no Paquistão e o marido da Benazir pegou o poder… o que será? Caos total? A ordem é essa?

Para que liberassem um bando de mentiras?

E que construíssem uma CONSTITUIÇÃO paralela, mentirosa, ilegal… Não, não foi para isso que engoli kilos de asbestos, de amianto. Não foi para isso que segurei sapato com um pé dentro ou camisas… Chega!

Palin mudou de igreja, mas, como pergunta Larry King, “o que nós temos a ver com isso?” Por que isso determinaria o futuro do Commander-in-Chief? Desde quando isso é assunto? Agora ela freqüenta outra pentecostal , mais parecida com uma pipeline (oleoduto), a coisa mais cobiçada pelo estado do salmão, dos esquimós e do bacalhau negro!

Ah, a igreja agora é a outra, do outro lado da rua, e os pastores mudam de nome, vão de Tim McGraw até Larry Kroon, mas são todos a favor desse abominarrável Jews for Jesus, Jesus for Cheese, Cheese for Jesus, Jesus for Cristus, I for Isus, Pumpkins for Ravolis, Ricotas for Veal and so on, e assim por diante e com essa CARTA BRANCA se entra em qualquer país, se destrói, se desmonta, se mente em nome do santíssimo. E se sorri marotamente, assim como Madonna (olha o nome, que ironia!) sorria nos balcões da Casa Rosada com um sorriso amarelo quando a população portenha queria expulsá-la porque a sua santíssima Evita Perón havia sido manchada de um sangue impuro, assim como Brunhilde havia sido manchada com o sangue dos planetas e no desmanchar do castelo de Walhalla… E a Sarah Palin ainda vai me pertencer a uma organização obscura????? (sim, ela existe) Que acredita  QUE O MUNDO ESTÁ PERTO DO SEU FIM!!!! E QUE O ALASCA SERÁ O ÚNICO LUGAR SALVO PARA AQUELES QUE ACREDITAM EM JESUS. Caramba! Está uma coisa muito… o que mesmo?

Isso ultrapassou os limites de uma campanha presidencial. Isso aqui virou uma verdadeira AMEAÇA!

Gerald Thomas

Sobrevivente. Contagem regressiva e ainda sofrendo de Post Traumatic Shock Syndrome!

 

(Na edição: O Vampiro de Curitiba)

09/09/2008 – 23:29Enviado por: Tene ChebaGerald Thomas, sinceramente, o Iraque foi uma disponibilidade que não poderia ser dispensada, na minha opinião.Também para mim, foi um consenso político entre os Democratas e Republicanos, não se gasta o PIB do Chile por ano com uma alçada apenas.No meu ponto de vista,(coisa mais antiga, propaganda de ótica, Ponto de Vista, a melhor), o Iraque serviu para três coisas, desmobilizar um estado com tendências muito perigosas, criar uma barreira geográfica para proteger Israel, Arábia Saudita e menores laterais, vizualizar o Irã mais proximamente.Eu não acredito, que com as poderosas ferramentas disponíveis para tomar decisões, o despropósito ocorreu.A Jordânia vendia petróleo iraquiano, furando o bloqueio da ONU, Kofi Anan, este sim, através do seu filho, deitou os cabelos, e depois foi réu confesso.Não sei, alguém teria que alterar aquele absurdo, 5.000 curdos, mais os xiitas, um motivador e tanto. Gostei, só para variar, do seu texto, incrível que seus textos sempre nos desorganiza, ficamos atordoados, as quatro estações, rir, chorar, feliz e triste, perplexos, no parágrafo final, beijamos a lona. Você é demais.

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