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Fogo nos Teatros – parte 2 ("Ilustrada" de domingo- Folha de S. Paulo)

São Paulo, domingo, 07 de setembro de 2008 
 
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O que tenho visto no Brasil é de dar medo

GERALD THOMAS
ESPECIAL PARA A FOLHA

Quando eu perambulava pelo La MaMa, nos anos 80, dando workshops sobre o teatro da hesitação e sobre um novo fluxo de pensamento, me deparei com várias intervenções do NYFD (New York Fire Department). Estávamos no prédio de ensaios, um quarteirão atrás do teatro, no East Village. Na frente desse edifício, há uma estação de bombeiros. Tudo que eles tinham que fazer era entrar, tirar o cigarro de nossas bocas e dizer: “Aqui não se pode fumar!”. Anos depois, nos palcos europeus, a multa falou mais alto. A cada cigarro aceso, marcos alemães ou schillings austríacos ou libras inglesas eram descontadas do meu salário, mas eu só ficava sabendo ao receber o cheque na véspera da estréia. Fora um incidente com Fernanda Montenegro (aliás, dois), no complexo Kampnagel Fabrik em Hamburgo, em 1992, não lembro de ter sentido medo ou vergonha de encenar um espetáculo. Com a minha ex-sogra foi o seguinte: “Flash and Crash Days” estava em cartaz em uma das várias salas da ex-fábrica. Não havia banheiro perto. Disse ao diretor artístico: “Essa é a maior atriz de todos os tempos e não abro a cortina se não houver uma forma de banheiro portátil”. Depois de muito escândalo, provindenciou-se algo com um balde. A própria Fernandona insistiu e abrimos o pano. Palco do lado. No mesmo complexo, Sir Fernandona foi assistir ao ensaio da minha desastrosa “Saints and Clowns”. O banco em que se sentou “colapsou” com ela. Só notamos depois do ensaio. E a levamos ao hospital. Não são exatamente eventos que colocam em risco de vida um teatro. São problemas sanitários ou de gerência. O que tenho visto e vivido no Brasil nos últimos 25 anos é de dar medo ou querer fugir: desde o meu ex-assistente de iluminação quase morrer por bater com a cabeça num pedaço de ferro não-sinalizado no urdimento, até ratos enormes que corroem os multicabos de luz ou de som. Não há aterramento devido entre ambos. Os teatros do Rio (João Caetano e Villa Lobos, por exemplo) são os piores do mundo. Nós brincamos, irresponsavelmente, dizendo que eles fazem “plantação” de brie e camembert nas poltronas, de tanto mofo. O que tenho visto de rack de luz esquentando, de excesso de refletor por canal, de falta de grade na frente da lente, varas grudadas rentes demais, contra-pesadas com cordas quase no ponto de arrebentarem! Os bêbados de costume que nos dizem adeus e fecham o teatro… Não sei se por milagre ou desgraça o Cultura Artística e outros teatros não foram pra fogueira das meias verdades antes. Mas se querem uma resposta, perguntem pro Paulão, chefe de palco do Sesc Paulo Autran. É a ele que eu me rendo. Ele sabe que nenhuma medida é pouca quando se trata de uma mega-estrutura que pode desaparecer num abrir e fechar de olhos -ou num subir e descer de pano.


GERALD THOMAS é autor e diretor

 

PS.: O que está publicado acima é PARTE DE UMA ENORME REPORTAGEM (MARAVILHOSA) da FOLHA sobre a (in)segurança nos teatros Brasileiros.

 A reportagem toma conta de enorme parte do caderno e ocuparia um espaço enorme aqui no blog. Limito-me a publicar somente a minha parte, já que a Sylvia Colombo (editora interina do caderno) se pautou por esse blog para fazer a reportagem logo após o meu artigo “SOMOS TODOS RESPONSAVEIS”, relativo ao fogo que consumiu o Teatro Cultura Artística.
Congratulo o pessoal da Ilustrada por uma excelente reportagem.
É isso, gente!
REPORTAGEM CULTURAL INVESTIGATIVA É ISSO!
Voltamos aos tempos dinâmicos!
Parabéns mesmo!
LOVE
G

comentario

 

  1. 07/09/2008 – 14:17Enviado por: marcya oliveira del vallA situação das nossas casas de espetáculo estão como uma faca de dois gumes!
    Do sonho de um grande ator sem palco ,muitas vezes faz nascer casas de espetáculos alternativas que são como estás que foram fotografadas e colocadas na ilustrada.
    Por um lado grandes salas com acesso limitadissimo para apresentação de grupos teatrais devido ao valor cobrado …
    Qual ator,administrador de teatros ,diretor que nunca disse ou questionou em si mesmo :
    Como é duro viver de arte neste país?
    Então me pergunto como sair a caça as bruxas?
    E como tb deixarmos que isso nos tomem a conciência e continuarmos arriscando nossa cabeça em teatros que desmontam o teto com um simples arrastar de armário ,Fato este ocorrido no tbc durante a apresentação do nosso espetaculo a uns 4 anos atráz….
    Como exigir de uma administração a solução se no final do mês
    o dinheiro arrecadado mal da para pagar os funcionários do teatro.
    Então nos dizem :existe a lei de encentivo a estás casas a lei:8313/91
    que permite que os aprovados depois de um projeto com muitas burocracias,recebam doações de empresas ou de pessoa fisica ,que podem abater depois no imposto de renda…
    Com a burocracia imposta pelo governo estás leis são feitas para não serem vivenciadas,A dificuldade são tantas que muitos patrocinadores desistem do abatimento.
    Então quando nós pedimos um patrocinio parece que estamos pedindo esmola.
    O GOVERNO É UM SÓCIO EM NOSSA VIDA,QUE NÃO NOS DA NADA SÓ NOS TIRAM…Muitas vezes os donos destas casas optam em levar seu sonho em frente mais estão sem ação perante as circunstançias.
da Sandra
07/09/2008 – 16:31Enviado por: SandraGerald, é verdade. A desgraça na frente dos nossos olhos e a gente não quer ver. NUNCA vai acontecer com a gente. Lembro-me quando o cinto de segurança passou a ser obrigatório, o quanto alguns amigos se revoltaram.
E quantas crianças não estão com a carteira de vacinação desatualizadas? Ah! Nada vai acontecer!
E gente pescando onde foi detectado o vibrião do cólera? Ah! Conversa! Não vi ninguém ficar doente AINDA! O cara estava esperando algum filho morrer para acreditar.
Li seu artigo sobre Congonhas em sua home, mas para mim, aquele aeroporto, com menos de 2 Km de pista, cercado de cidade por todos os lados, é outro desastre esperando acontecer. DE NOVO.

 

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Teatro Cultura Artística em Sampa: tudo acabado: minhas imensas solidariedades!

THE DAY AFTER: NÓS SOMOS OS RESPONSÁVEIS!!!!!!!

CONHECENDO O INTERIOR DOS TEATROS NO BRASIL COMO EU CONHEÇO, ESSA TRAGÉDIA ESTAVA ESPERANDO PARA ACONTECER. OS RESPONSÁVEIS SOMOS NÓS MESMOS!!!!!

1- URDIMENTOS: FIOS DESENCAPADOS, REFLETORES AGRUPADOS EM DUPLAS NUM CONGESTIONAMENTO “SPAGETTOLÂNDIA” QUE SERIA PROIBIDO EM QUALQUER LUGAR DO MUNDO.

2- OS RACKS DE LUZ ESQUENTAM COM MUITA FACILIDADE: NÓS, OS RATOS DE TEATRO, NÃO FALAMOS NADA, NÃO FAZEMOS NADA. 

3- CONDIÇÕES NO RIO DE JANEIRO, ENTÃO! SE COMEÇASSEM A INVESTIGAR… ACABARIAM COM TODOS OS TEATROS! SALVARIA-SE UM OU OUTRO TEATRO, MAS O RESTO SERIA INTERDITADO. O PÚBLICO NÃO SABE DA METADE: SÃO AS CHAMADAS “GALHARUFAS” (uma brincadeira entre nós da classe teatral) mas é a PURA VERDADE: “ESSA NOITE SE IMPROVISA” nao é somente um texto de PIRANDELLO; é uma triste realidade TÉCNICA que pode acabar numa tragédia!

HOJE, segunda feira, É HORA DE PARAR COM O LAMENTO E DE SE PERGUNTAR O QUANTO NÓS MESMOS NÃO SOMOS RESPONSÁVEIS E “CO-CONSPIRADORES” PELO PÉSSIMO ESTADO DE NOSSOS TEATROS!!!

Apesar de termos “diretores de palco”, não existem no BR os “STAGE MANAGER” e os “PRODUCTION STAGE MANAGERS” e nem os “MASTER CARPENTERS” ou os “RIGGERS” !!!

 O QUE ESSAS PESSOAS FAZEM? CUIDAM DA SEGURANçA DO PALCO DEPOIS QUE TODO MUNDO JÁ FOI EMBORA!!!!! Nesses 30 anos de teatro no Brasil estou cansado de ver Racks deixados ligados, de mesas de luz e máquinas de fumaças deixadas ligadas a noite inteira.  (Instrumentos de luz APONTADOS FICAM QUENTES! APONTADOS SIGNIFICAM QUE ESTAO A 10% E NÃO A TOTAL. E ÀS VEZES UM SER HUMANO NÃO TREINADO NAO NOTA.

Material inflamável:

Em países de primeiro mundo: TUDO TEM QUE SER “SPRAYED” com material anti-chamas!!! Não é o caso no Brasil. Sim, está escrito na lei> mas ja vi serras elétricas, já vi LOUCURAS acontecendo debaixo das quarteladas do palco (nos fossos): deus me livre! agora que aconteceu é que a gente se dá conta de que SÓ NÃO CAI REFLETOR EM ATOR POR PURO MILAGRE!!!!!!!

 

 

(ESCRITO AO MEIO-DIA, horário de NY, por Gerald Thomas, 29 horas após o incêndio)

depoimento do ator MARCELO OLINTO DA CIA DOS ATORES QUE TRABALHAVA EM “O BEM AMADO”

18/08/2008 – 17:43Enviado por: Marcelo OlintoEstava trabalhando no Cultura Artística.
Como ator me sinto sem casa, literalmente, pois estava atuando em O BEM AMADO com o Marco Nanini e a minha companhia a Cia.dos Atores.
Os comentários levantados pelo Gerald procedem, porém devo dizer que tem muito profissional trabalhando duro pela manutenção e conservação dos nossos teatros e consequentemente das produções.
A situação dos teatros no Rio de Janeiro, minha cidade, não é das melhores.
Falta de equipamento, falta de equipe e falta de manutenção e conservação são apenas alguns dos muitos problemas que enfrentamos.
A situação é séria.
O teatro em geral conta com poucos apoios.
Infelizmente não contamos com um Ministério de Cultura ativo e atuante e devo dizer que o Ministro Gilberto Gil foi tarde.
Não vejo, da parte do governo, a associação entre educação e cultura – cultura e educação, mais isso é conversa para mais tarde.
A lista de teatros que estão fechados e/ou necessitam de reformas é enorme e citarei alguns: DULCINA, CACILDA BECKER, IPANEMA, COPACABANA entre outros.
A procura por espaços/teatros é grande.
A falta de espaços/teatros é enorme.
Salve Marieta Severo + Andrea Beltrão e Cláudia Lira e Leonardo Franco que levantaram teatros de altíssimo nível, oferecendo excelentes instalações para os artísticas e para o público.
Exemplos como esses deveriam se proliferar.
Infelizmente não é assim que a banda toca, infelizmente mesmo!!!
Me pergunto até quando assistiremos os nossos teatro serem destruídos para que alguma coisa aconteça, afinal é só lembrar dos incêndios que destruíram os teatro Casa Grande e o Sérgio Porto, o estado lamentável que se encontra o DULCINA e etc.
Este Tsunami nos pegou em cheio, comprovando que tudo na vida é efêmero e passageiro.
Estou, eu e meus companheiros de trabalho, tentando entender as coisas, levantar a cabeça e cantar para subir.
Tenho certeza que Marco Nanini e Fernando Libonati, da PEQUENA CENTRAL, vão se levantar e continuarão a produzir coisas maravilhosas.
É isso.
Marcelo Olinto
Cia.dos Atores

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(Escrito ONTEM, no calor (sem trocadilhos) da noite:

A TODOS! 

Caramba, juro que não sei o que dizer! É o que nós mais tememos: O fogo. É pior que tudo! Quando temos pesadelos, é sobre isso que estamos sonhando: “O teatro esta em chamas.” Para quem faz teatro nao há nada pior!

Fico chocado que um teatro ainda pegue fogo hoje em dia! Mas fico muitíssimo triste! Penso no Nanini, no Nando e na Cia. dos Atores que estavam lá, lotando com “O Bem Amado”.

Estou simplesmente CHOCADO!

CHOCADO e sem palavras!

O incêndio mobilizou os bombeiros às 5h deste domingo e 18 viaturas foram enviadas ao local para combater o fogo. Segundo homens da corporação, o piso onde as salas de espetáculos estão localizadas ficou destruído.”

LOVE

Gerald

PS – favor ler o comentario do leitor Heitor Bonfim na tripa abaixo.

escreve Alberto Guzik em seu Blog

“incêndio: o teatro cultura artística pegou fogo. salvou-se o painel de pastilhas de di cavalcanti na fachada. mas a sala esther mesquita foi destruída. e uma grande parte dos equipamentos internos também. penso em meus colegas que iriam atuar lá esta noite. penso nos concertos que iriam realizar-se lá nos próximos dias e semanas. e penso que a destruição do teatro dói em mim como se fosse a de alguém próximo que eu amo. um teatro não é apenas um prédio. e sua destruição não é apenas um incêndio. tem sempre uma carga de metáfora imensa. além das memórias que acorrem. a quantidade de coisas que eu vi e vivi nesses anos todos no cultura… espero que como a fênix ele possa renascer das cinzas. mas imagino como isso será difícil. a cultura em são paulo perde um “local de culto”, e tem de vestir luto.”

da Folha (Ilustrada)

“Estado de choque”
O incêndio no Cultura Artística destruiu a sala Esther Mesquita, onde o ator Marco Nanini estava em cartaz desde o dia 19 de abril com a peça “O Bem Amado”, de Dias Gomes. Nanini havia terminado a primeira temporada há duas semanas e iria fazer mais seis semanas extras de espetáculo. “Ainda estou um pouco em estado de choque. Apresentei-me muitas vezes lá, só com “Irma Vap” foram cinco anos. Mas a perda do teatro é a pior coisa, é irreparável, pois era tradicional, uma sala boa e grande”, declarou Nanini. Diretor-presidente da Sociedade Cultura Artística, que gerencia o teatro, o empresário e bibliófilo José Mindlin disse que o incêndio foi “um desastre que aconteceu inesperadamente”. “Um teatro como este desaparecer é uma grande frustração porque havia sido uma conquista, e a perda da instituição é uma tristeza para todos, não é tão fácil reparar. O teatro enfrentou muitos problemas, mas a gente vai em frente, não pode desanimar”, afirmou. Diretor artístico da Orquestra Sinfônica Brasileira, o maestro Roberto Minczuk foi vencedor, em 1985, como trompista, do Prêmio Eldorado de Música, do Teatro Cultura Artística. “A fachada está intacta, mas o interior parece ter sido completamente destruído. Fico triste, porque esse teatro é um dos mais importantes do Brasil, e um marco da vida musical de São Paulo”, disse.

Solidariedade
Diretor-Secretário da Sociedade Cultura Artística, e dono da rede de livrarias Cultura, Pedro Herz chegou ao teatro às 7h30 e em seguida foi ao hotel Maksoud Plaza, na região da avenida Paulista, onde a Sociedade criou um quartel-general para gerenciar a crise. “Dá vontade de chorar. Estamos todos abalados emocionalmente, tendo que enfrentar a situação e que resolver problemas enormes”, disse Herz. “Estou comovido com a solidariedade das pessoas, vinda através de telefonemas. O que mais peço é a compreensão dos assinantes e colaboradores.” 
(EDUARDO SIMÕES e KLEBER TOMAZ)

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