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Os Dois Baracks e Uma MaMa

                                              

 

 (Foto de Gerald Thomas, do celular)

Há cerca de um mês estava tudo tranquilo. Quer dizer, tranquilo…Nunca nada, ever, está tranquilo. Mas Ellen Stewart, a fundadora do La MaMa ETC (Experimental Theater Club, que cunhou esse termo, ‘teatro experimental’), estava em seu apartamento, no 5 andar acima do teatro onde comecei minha carreira ‘oficial’ com as peças de, bem, vocês sabem de quem. De um irlandês famoso, o mais genial: Sam Beckett. E, até semana passada, nosso presidente Barack Obama ainda estava no Havaí de férias e o bombardeio entre Israel e o Hamas ainda não havia começado. Não era Natal ainda. Jesus ainda não havia nascido.

Bem. Os dois Baraks, ou Baracks, saíram de seus refúgios e Ellen Stewart entrou, em estado grave, para o hospital, para o refúgio de uma UTI. Algum paralelo? Talvez. Ontem, ao visitar a minha mamma, a pessoa a qual devo toda minha vida teatral, ela me dizia: “temos dois Baraks, dois Baracks, você precisa escrever sobre isso. E precisa escrever sobre como os judeus sefaradins são perseguidos por vocês!”

Eu, Mamma? Eu não persigo….

“Você, é maneira de dizer… vocês ashkenazis”

Ela se referia aos milhões de judeus Yemenitas, Etíopes e Somalianos ou  Egipcios ou Iraquianos e aqueles nascidos em solo “palestino” de cor escura. “São tratados como nós, negros, éramos, ou ainda somos, pelos brancos, aqui e no mundo”.

Sim, Ellen sabe tudo sobre racismo. Vinda de Chicago para New York nos anos cinqüenta pra trabalhar como estilista na loja Sack’s Fifth Avenue, ela tinha que entrar pela porta dos fundos. Era a única estilista negra. Lutou, berrou, esperneou e ralou até que chegou onde chegou: Fundadora do mais reconhecido teatro experimental do mundo, aquele que trouxe (da Polônia) Jersy Grotowsy e Tadeuz Kantor ou, do mundo, Peter Brook, Kazuo Ono, ou de paises confinados,  ou reduzidos a trapos, dezenas de artistas do palco  pra cena do East Village e deu ‘voz’ pra companhias como o ‘Mabou Mines” (de onde surgiu Philip Glass), e tantas milhares de outros, como Sam Sheppard ou até Robert de Niro e Bob Wilson….Ellen é, como diz Harvey Firestein (autor de “Torch Song Trilogy”), “Ellen é responsável por 80 por cento do que está nas telas e nos palcos americanos” (entrevista a Vanity Fair de anos atrás).

Estamos confinados.

Até semanas atrás, Ehud Barak, ministro da defesa de Israel e ex- Primeiro Ministro (deposto em 2000 ou 2001, não me lembro), era considerado um homem praticamente morto na vida política israelense. Ele é membro do mesmo partido trabalhista (o de Golda Meir e Ben Gurion, o fundador do Estado de Israel)…. ah, e, by the way, Barak é sefaradim , portanto não muito popular entre os “brancos” como Benjamin Netanyahu, também ex-primeiro ministro, educado aqui nos States, um perfeito sotaque inglês americano, um cara que era visto jogging em Central Park, digo, o Natanyahu.

Bem, ninguém está mais falando assim de Ehud Barak agora, nesse momento. Essa guerra contra o Hamas ou contra os palestinos, depende de como vocês queiram ler, é uma guerra ‘tida como pessoal’. Paralelos com George W Bush e o Iraque? Sim, já que o Pai, George Bush “Senior”, dono da guerra Desert Storm deixou o ditador Saddam Hussein, intacto? “W” foi lá e, crau! Estamos onde estamos. E a dívida? E a dívida humana?

Paralelos? Ontem, conversando pausadamente com a Ellen (nome da minha mãe biológica também), no hospital – (e não riam) – “Beth Israel”, ao sair para comprar uma barra de chocolate pra ela, perguntei pra alguns médicos judeus orthodoxos o que achavam do atual conflito: “DISGUSTING ! “Em tantos anos de intelligence gathering, deveria se achar uma outra maneira de desmantelar um grupo terrorista como o Hamas”. Já outro me dizia…”Crush them all” (massacrem, amassem todos!).

Barak está todo prosa: vestido com seu casaco de couro ele está respeitadíssimo entre seus pares no Knesset (parlamento) Israelense. Barack Obama está morando provisoriamente num hotel em DC. Faltam 12 dias para sua inauguração. Todo prosa, e com razão, ele está com seu terno e gravata tentando dar um jeito na economia americana que está um trapo: parece uma dessas fotos que se vê saindo de Gaza. Me desculpem pela péssima analogia, mas era evidente que um paralelo gráfico teria que ser feito.

Ellen Stewart apertava minha mão. Dificuldade em respirar. Mão enfaixada pelas injeções de insulina, etc. Ás vezes encostava a cabeça no meu ombro. Essa cena me é comum há três décadas, afinal, essa é a pessoa que me deu a vida no palco e comemora NOVENTA anos de idade. E me diz….”genocídio de crianças eh imperdoável…sob qualquer circunstancia….e a perseguição entre vocês….”. A enfermeira interrompeu. Era hora dos procedimentos médicos. Saí do quarto. Fiquei em pé no corredor pensando nessa mulher que passou metade de sua vida profissional amando Israel, montando um teatro lá.

Hoje, com o ataque do Hesbollah, ela já está em casa, sempre com a televisão ligada. “Gerald, escreve o que você tem que escrever, mas escreve para o palco. Não entendo isso de Blog que você fala”.

Essa é uma homenagem a Ellen Stewart.  Essa é uma homenagem a todos os que têm uma opinião, seja ela qual for. Mas cuidado: para se ter opinião mesmo, deve se saber onde, porquê e quando. E não arrotar ou reciclar bobagens.

Gerald Thomas

PS: Este artigo só faz sentido se lerem  antes “Israel Sexy”, no post abaixo, com seus quase 700 comentários.

 

(Vamp na edição)

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Fogo nos Teatros – parte 2 ("Ilustrada" de domingo- Folha de S. Paulo)

São Paulo, domingo, 07 de setembro de 2008 
 
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O que tenho visto no Brasil é de dar medo

GERALD THOMAS
ESPECIAL PARA A FOLHA

Quando eu perambulava pelo La MaMa, nos anos 80, dando workshops sobre o teatro da hesitação e sobre um novo fluxo de pensamento, me deparei com várias intervenções do NYFD (New York Fire Department). Estávamos no prédio de ensaios, um quarteirão atrás do teatro, no East Village. Na frente desse edifício, há uma estação de bombeiros. Tudo que eles tinham que fazer era entrar, tirar o cigarro de nossas bocas e dizer: “Aqui não se pode fumar!”. Anos depois, nos palcos europeus, a multa falou mais alto. A cada cigarro aceso, marcos alemães ou schillings austríacos ou libras inglesas eram descontadas do meu salário, mas eu só ficava sabendo ao receber o cheque na véspera da estréia. Fora um incidente com Fernanda Montenegro (aliás, dois), no complexo Kampnagel Fabrik em Hamburgo, em 1992, não lembro de ter sentido medo ou vergonha de encenar um espetáculo. Com a minha ex-sogra foi o seguinte: “Flash and Crash Days” estava em cartaz em uma das várias salas da ex-fábrica. Não havia banheiro perto. Disse ao diretor artístico: “Essa é a maior atriz de todos os tempos e não abro a cortina se não houver uma forma de banheiro portátil”. Depois de muito escândalo, provindenciou-se algo com um balde. A própria Fernandona insistiu e abrimos o pano. Palco do lado. No mesmo complexo, Sir Fernandona foi assistir ao ensaio da minha desastrosa “Saints and Clowns”. O banco em que se sentou “colapsou” com ela. Só notamos depois do ensaio. E a levamos ao hospital. Não são exatamente eventos que colocam em risco de vida um teatro. São problemas sanitários ou de gerência. O que tenho visto e vivido no Brasil nos últimos 25 anos é de dar medo ou querer fugir: desde o meu ex-assistente de iluminação quase morrer por bater com a cabeça num pedaço de ferro não-sinalizado no urdimento, até ratos enormes que corroem os multicabos de luz ou de som. Não há aterramento devido entre ambos. Os teatros do Rio (João Caetano e Villa Lobos, por exemplo) são os piores do mundo. Nós brincamos, irresponsavelmente, dizendo que eles fazem “plantação” de brie e camembert nas poltronas, de tanto mofo. O que tenho visto de rack de luz esquentando, de excesso de refletor por canal, de falta de grade na frente da lente, varas grudadas rentes demais, contra-pesadas com cordas quase no ponto de arrebentarem! Os bêbados de costume que nos dizem adeus e fecham o teatro… Não sei se por milagre ou desgraça o Cultura Artística e outros teatros não foram pra fogueira das meias verdades antes. Mas se querem uma resposta, perguntem pro Paulão, chefe de palco do Sesc Paulo Autran. É a ele que eu me rendo. Ele sabe que nenhuma medida é pouca quando se trata de uma mega-estrutura que pode desaparecer num abrir e fechar de olhos -ou num subir e descer de pano.


GERALD THOMAS é autor e diretor

 

PS.: O que está publicado acima é PARTE DE UMA ENORME REPORTAGEM (MARAVILHOSA) da FOLHA sobre a (in)segurança nos teatros Brasileiros.

 A reportagem toma conta de enorme parte do caderno e ocuparia um espaço enorme aqui no blog. Limito-me a publicar somente a minha parte, já que a Sylvia Colombo (editora interina do caderno) se pautou por esse blog para fazer a reportagem logo após o meu artigo “SOMOS TODOS RESPONSAVEIS”, relativo ao fogo que consumiu o Teatro Cultura Artística.
Congratulo o pessoal da Ilustrada por uma excelente reportagem.
É isso, gente!
REPORTAGEM CULTURAL INVESTIGATIVA É ISSO!
Voltamos aos tempos dinâmicos!
Parabéns mesmo!
LOVE
G

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  1. 07/09/2008 – 14:17Enviado por: marcya oliveira del vallA situação das nossas casas de espetáculo estão como uma faca de dois gumes!
    Do sonho de um grande ator sem palco ,muitas vezes faz nascer casas de espetáculos alternativas que são como estás que foram fotografadas e colocadas na ilustrada.
    Por um lado grandes salas com acesso limitadissimo para apresentação de grupos teatrais devido ao valor cobrado …
    Qual ator,administrador de teatros ,diretor que nunca disse ou questionou em si mesmo :
    Como é duro viver de arte neste país?
    Então me pergunto como sair a caça as bruxas?
    E como tb deixarmos que isso nos tomem a conciência e continuarmos arriscando nossa cabeça em teatros que desmontam o teto com um simples arrastar de armário ,Fato este ocorrido no tbc durante a apresentação do nosso espetaculo a uns 4 anos atráz….
    Como exigir de uma administração a solução se no final do mês
    o dinheiro arrecadado mal da para pagar os funcionários do teatro.
    Então nos dizem :existe a lei de encentivo a estás casas a lei:8313/91
    que permite que os aprovados depois de um projeto com muitas burocracias,recebam doações de empresas ou de pessoa fisica ,que podem abater depois no imposto de renda…
    Com a burocracia imposta pelo governo estás leis são feitas para não serem vivenciadas,A dificuldade são tantas que muitos patrocinadores desistem do abatimento.
    Então quando nós pedimos um patrocinio parece que estamos pedindo esmola.
    O GOVERNO É UM SÓCIO EM NOSSA VIDA,QUE NÃO NOS DA NADA SÓ NOS TIRAM…Muitas vezes os donos destas casas optam em levar seu sonho em frente mais estão sem ação perante as circunstançias.
da Sandra
07/09/2008 – 16:31Enviado por: SandraGerald, é verdade. A desgraça na frente dos nossos olhos e a gente não quer ver. NUNCA vai acontecer com a gente. Lembro-me quando o cinto de segurança passou a ser obrigatório, o quanto alguns amigos se revoltaram.
E quantas crianças não estão com a carteira de vacinação desatualizadas? Ah! Nada vai acontecer!
E gente pescando onde foi detectado o vibrião do cólera? Ah! Conversa! Não vi ninguém ficar doente AINDA! O cara estava esperando algum filho morrer para acreditar.
Li seu artigo sobre Congonhas em sua home, mas para mim, aquele aeroporto, com menos de 2 Km de pista, cercado de cidade por todos os lados, é outro desastre esperando acontecer. DE NOVO.

 

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