Tag Archives: atores

GERAÇÃO CARETA

GERAÇÃO CARETA

Tem uma espinha de peixe entalada na minha garganta”, me conta uma atriz. “Já fui várias vezes no otorrino e ele diz que não tem nada ali… mas eu sinto ela lá”. Já um dos atores, quase quieto ou cabisbaixo, diz que gostaria de dizer tanta coisa , mas tanta coisa, mas não sabe como e nem por onde começar.

Olha só que loucura! Estou cercado de gente na faixa dos 25 pra 30 anos. Nunca me senti cercado por gente tão careta em toda minha vida.

Careta? Como definir?

Sim. O artista tem que merecer estar no palco. Tem que merecer estar ali no foco de luz enquanto a platéia está escura. E, para isso, tem que ter experiências de VIDA que gente da platéia não tem, não tem CORAGEM de ter (barreiras de todas as formas, tabus, sexualidade mal resolvida, etc).

Hoje em dia as coisas mudaram. A PLATÉIA parece ser mais interessante que o pessoal do palco. Não é difícil entender porquê. Numa sociedade disfuncional como a de hoje, onde cada um vem se rastejando de um canto e se segurando onde pode, atores e gente de palco deveriam estar SEMPRE léguas na frente. Experiências na frente. Para poder contar ou contra-propôr esse “algo” que está proposto pelo status quo.

Não é o caso. Os atores se chocam com as mesmas coisas que a Da. Maria do Interior das Pratarias se choca. Se despedem com a mesma distância que Da. Maria se despede ao sair da Igreja aos domingos e encaram a vida no palco como se fosse uma ciência: não é!

Existem MUITAS E VÁRIAS crises no teatro. Ás vezes não se tem o que dizer mesmo. Ás vezes não nos deixam dizê-lo. Ás vezes existem tantas coisas para serem ditas que é necessário acionar um freio de mão para que a coisa não se torne hemorrágica. E agora, nesse instante, EU SINTO, que estou batendo com a cabeça na parede criando galos que não cantam, galinhas que não chocam, ovos que não estalam. “Eu tento, entende Gerald? Eu tento chegar… mas não consigo.”

GT: “Tenta chegar? Mas como? Você já não está aqui?

Tento chegar a essa coisa proposta” , me conta uma outra atriz, “mas ela está longe de mim”.

Medo. Muito medo. Medo de se arriscar. O pior é que a arte nunca existiu sem RISCO. Melhor ainda: a arte vive do próprio RISCO!

O resto, o mundo lá fora resolve.

Ou não, como sempre foi o caso.

Gerald Thomas

Num engarrafamento existencial de São Paulo

(Vamp, com saudades, na edição)

172 Comments

Filed under artigos