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Gerald Thomas sai de cena – Folha de S. Paulo 17 Nov 2009

São Paulo, terça-feira, 17 de novembro de 2009
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Gerald Thomas sai de cena

Cansado da repetição nas artes, diretor diz que está se afastando do teatro por tempo indeterminado

“Acho meus últimos trabalhos péssimos; não consegui me entregar, ter tesão”, conta ele, que esboça roteiro cinematográfico

LUCAS NEVES
DA REPORTAGEM LOCAL

Cansado de jogar com “ismos” teatrais -experimentalismo, desconstrutivismo e conceitualismo, para citar três-, um artista contempla sua encruzilhada e divide o atordoamento com a plateia. Em 1996, esse era o “nowhere man”, o homem sem lugar da peça homônima de Gerald Thomas. Em 2009, esse é o próprio diretor. Com a diferença de preferir o silêncio cênico.
Thomas rompeu com o teatro por tempo indeterminado. No texto “Minha “Independência ou Morte” – Tudo a Declarar – “It’s a Long Goodbye'”, publicado em seu blog, ele lista as razões para o afastamento e crava: “Minha vida no palco acabou […] tenho que sair por aí pra redescobrir quem eu sou”.
O “estalo” veio em julho passado, em Amsterdã, ao bater os olhos num autorretrato de Rembrandt (1606-1669). “Ele tinha 55 anos quando fez aquele quadro. Eu estou com essa idade hoje. Alguma coisa bateu em mim, não sei o quê”, diz àFolha, por telefone.
“Comecei a pensar que muitos artistas, incluindo o próprio [dramaturgo irlandês Samuel] Beckett (1906-1989), não sabem a hora de sair de cena. “Rockaby” e “Enough” são textos tão menores, inúteis desse maior autor do século 20. Eu me pergunto se ele precisava realmente tê-los escrito. Ao mesmo tempo, o que ele poderia fazer? Tricô? Não, né?!”

“Encheção de linguiça”
Thomas avalia que “depois que você chega num pico, vira um repetidor de si mesmo”. O seu auge, ele crê, foi em 98, com a ópera “Moisés e Aarão”, de Schoenberg, na Áustria:
“Tudo foi uma preparação para aquilo. O resto é bobagem, encheção de linguiça. Acho meus últimos trabalhos péssimos. “Bateman” [solo que criou para os 20 anos da Cia. dos Atores, em 2008] é horroroso. Só o texto é bom. Não consegui me entregar, ter tesão.”
Outra experiência recente que o desencantou foi “O Cão que Insultava Mulheres – Kepler, the Dog” (2008), espetáculo surgido da “blognovela” que o diretor escrevia em seu endereço virtual -e transmitido ao vivo pela internet.
“Teatro não é tecnologia, é algo para que o público esteja na presença do ator, a metros dele. Se você tenta transformar em tecnologia, fica pretensioso. Essa integração de mídias é a maior mentira que já houve.”
Dono de um estilo que conjuga dramaturgia não linear e de forte carga simbólica, estética expressionista e uma mirada perplexa em direção ao mundo, Thomas se ressente da falta de novidades nas artes:
“É constrangedor ver o que as pessoas que mais admiro estão fazendo. Repetem-se horrorosamente. Não há nada novo, nem em moda, nem em design, nem em arquitetura. A não ser que você dê um pulo em Xangai. Aí vai ver um prédio maluco. Mas logo vai se lembrar dos Jetsons e pensar: eles fizeram um edifício tirado do desenho! De certa forma, é tudo pateticamente engraçado.”
Recolhido, o diretor esboça o roteiro do filme “Ghost Writer”, que pretende rodar entre Turquia, Inglaterra e EUA, e rascunha a autobiografia ficcionalizada “Suicide Notes” (notas suicidas). Os dois projetos podem virar um só.
A seu modo, Thomas atualiza a última frase de “O Inominável”, romance de Beckett: “I can’t go on, I’ll go on” (não posso seguir, vou seguir).

http://geraldthomasvideos.blogspot.com

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Um dia na (in)Justiça Brasileira

Quando se “vive” Kafka

New York– Há uns 9 anos eu devo ter cometido um enorme ERRO: falei a verdade.

E me “pegaram”. Logo eu que posso dizer absurdos no palco, onde não existem limites verbais ou visuais, fui “pego” numa entrevista coletiva em Curitiba. Mais especificamente: numa entrevista ligada ao Festival de Teatro de Curitiba, no ano 2000, quando o mundo ainda era outro e brincávamos de brincar. Já haviam se passado décadas desde a minha “Trilogia Kafka” (que viajou o mundo). Já haviam se passado mundos desde o meu encantamento por esse autor que transcendeu a figura humana logo na primeira página e, assim, Gregor Samsa, acorda um inseto.

Mas em Curitiba foi assim: cheguei, como sempre chego, daqui de NY, exausto, depois de baldeações, conexões em aeroportos e vôos atrasados. “Eu queria subir pro quarto e tomar um banho rápido, trocar de roupa, já que estou em transito faz umas 16 horas”.

Cheguei lá em cima e não tinha água quente. A cidade estava fria. A janela não fechava. E não tinha papel higiênico. Deixei a água do chuveiro (na verdade, uma jacuzzi), correr por algum tempo… e nada. Caguei, literalmente, sem papel, e fui me lavar na água gélida do tal hotel. Morri de frio, especialmente ao sair. Batendo os dentes, percebi que as antigas janelas não fechavam.

Bem, desci pra coletiva (uns 20 ou 25 jornalistas me esperavam) e alguém passava o aspirador de pó bem ao lado dessa sala. Além do mais, as janelas dessa sala também não fechavam.

Bem, eu não estava de bom humor.

Um jornal local noticiou passo a passo do meu mau humor e relatou as minhas reclamações, uma a uma.

Meses depois, no Rio, uma oficial de Justiça veio ao Sesc- Copacabana entregar uma intimação, ou sei lá como chama isso.

Liguei pra amigos (já que, na época, eu não tinha advogado no Brasil), e me indicaram alguém. Bem, relaxei.

Anos se passam e nada ouço. Nada.

Assim como no Processo de Kafka, durmo um sono tranquilo do Joseph K. quando sou acordado, em 2007, por uma voz alarmante dizendo que “minha conta havia sido bloqueada pela JUSTIÇA BRASILEIRA”.

Como?

Fomos falar com o gerente do banco, que, mexendo no seu computador, descobriu se tratar de um processo que “perdi” em Curitiba. Um hotel havia me processado. E havia processado o jornal que havia publicado que “não havia papel higiênico, as janelas não fechavam e não havia água quente”. Tudo isso num caderno cultural e não turístico, ou seja: ninguém iria deixar de ir ao maldito hotel por causa das minhas declarações.

Ah sim. O tal advogado que me indicaram. Um alcoólatra que perdeu todas as datas. Não foi a audiência nos dias certos e não isso e aquilo e.. portanto, perdi.

O resultado por me expressar? Algo em torno de 83 mil reais. Como não tenho esse dinheiro, coloquei um outro advogado atrás do erro do primeiro. Dias atrás, descobri que em TODAS as instâncias, não tem jeito mesmo. Nao poderei pagar e jamais poderei ter conta no Brasil.

Surreal? Kafkiano?

Tenham todos um bom dia Sarney Brasileiro!

.

.

 

Gerald Thomas

 

AGORA NOTEI QUE OS COMENTARIOS ESTAO DIVIDIDOS EM PAGINAS 1,2, 3 E 4. NOTEI POR ACASO

VAMOS MANTER A CALMA: ESTAMOS SENDO “RATOS DE LABORATORIO” DE ALGUM EXPERIMENTO BIZARRO

LOVE

G

PS de domingo 2 PM do BR

NAO ERA A TOA QUE EU ESCREVI UM POST KAFKIANO. AGORA ESTAMOS TODOS PRESOS.

PS 

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O Reality Show do Woodstock + materia do G1

 

 

New York – Pois é! Quarenta anos se passaram. Mas quarenta anos se passaram desde o homem na Lua, desde que os Beatles isso e aquilo, desde o assassinato de JFK, desde…

 

Quando é que vamos parar de contar ou contabilizar numericamente as coisas, os eventos? Daqui a pouco serão 50 anos.

 

Então, voltando  a Woodstock, sim, peguei o último dia. A maior parte já estava voltando e eu ia na contramão. Com 15 anos de idade nas costas (mas me sentindo maduro como uma Susan Sontag) subi a colina e coloquei os pés na lama e… e o quê?

 

Encontrei um lugar sereno, com menos de meio milhão de pessoas, onde “tudo era permitido”.

 

E esse “tudo era permitido” não é uma questão tão simples. Pelo menos não era. Um ano antes, 68, foi pauleira. As polícias do mundo inteiro pegaram estudantes e manifestantes do mundo inteiro de PORRADA!

 

“Como pode então uma polícia passiva?”, pensava eu, vendo todo mundo fumando seus joints e tanta gente nua, muitos trepando ali, em tendas abertas.

 

E hoje? Como estamos?

 

Estamos bem? Bem, não tivemos ainda nenhuma GUERRA MUNDIAL, então, por esse termômetro, estamos… razoavelmente bem.

 

Mas, culturalmente, estamos PÉSSIMOS! Duchamp, que morreu em 68, e que já havia ironizado a pintura e arte em geral, não podia prever que em 2009 estaríamos com 2000 (dois mil) canais a cabo mostrando merda. E qual merda? Reality shows do PIOR NÍVEL ou então, o que é mais triste ainda, quando comparado a Woodstock, o tal “Vale Tudo”, the Ultimate Fighting, onde homens enjaulados se atracam e partem pra cima dos outros com toda espécie de golpes e sangue e quebras de tudo que seria um avanço, aos urros do público! Uau!

 

Ficamos mais cínicos, mais hipócritas e mais imbecis: claro, os demographics do mundo duplicaram! A maior parte do mundo encaretou! E nem sabe direito que Woodstock não foi somente uma grande festa e celebração de uma geração que levava porrada por PROTESTAR contra a guerra do Vietnam e lutar pela PAZ. PEACE, Man, Peace! Não se tratava simplesmente de um conglomerado de meio milhão de pessoas celebrando a paz (e em paz), debaixo de chuva ou sol, ao som de Hendrix, do Who, de Crosby, Stills, Nash and Young e Joplin e Santana e Country Joe and the Fish e tantos outros: tratava-se de uma afirmação! Estávamos mudando o rumo do mundo.

 

Mudamos?

 

Nada.

 

O ser humano mata golfinhos, esses seres que falam conosco.

 

O ser humano mata racoons (espécie de cães: os dois posts abaixo) e lhes arranca a pele enquanto VIVOS, ao som de Hendrix.

 

Se mudamos o rumo do mundo, mudamos esse mundo por três dias. Ou nos nossos sonhos, assim como numa peça de Shakespeare. O encantamento dura enquanto o espetáculo dura. E foi somente isso. O resto? É a glorificação do passado. Somos, como sempre fomos, um Weapon of self Destruction. E isso não poderemos medir em quarenta anos.

 

 

Gerald Thomas

 

 

 

 

(Vamp na edição)

 

Matéria do G1: Gerald Thomas em Woodstock: ‘melhor show foram 8 violões e uma lata de lixo’

Dramaturgo diz ao G1 que esteve no festival quando tinha 15 anos.
Brasileiros que viveram a época refletem sobre efeitos na contracultura.

O diretor e dramaturgo Gerald Thomas (Foto: Agência Estado) 

 

 

“Cheguei no último dia, algumas pessoas estavam indo embora, mas eu encontrei muita gente ainda lá. Hoje se fala entre 400 mil e 500 mil pessoas. Na época, a gente não pensava assim – pensava: ‘meu Deus, quanta gente, que loucura!’”.
 
A recordação é do diretor e dramaturgo Gerald Thomas, que diz ter estado em Woodstock no último dia do festival (domingo, 17 de agosto de 1969). Nascido em Nova York, em 1954, o diretor de “Um circo de rins e fígados” e “Príncipe de Copacabana” veio ainda bebê para o Rio de Janeiro com a família. Aos 13 anos de idade voltou para a Grande Maçã e tinha 15 anos quando pegou a estrada rumo ao festival em Bethel, comunidade rural no estado de Nova York.

“Uma das lembranças mais fortes que eu tenho, além da lama e do fedor, foi a passividade dos policiais diante de tudo o que estava acontecendo. Pouco tempo antes, a polícia espancava pessoas em Berkeley. [Woodstock] foi o momento em que eu – e, acredito, muita gente – pensei: ‘Caramba, o mundo está mudando’. A impressão era nítida, como nunca tinha sido antes”, conta Thomas em entrevista por telefone ao G1, de Nova York, onde mora atualmente.

Fã de Jimi Hendrix e The Who (que tinha esperanças de ver ao vivo – o que não aconteceu, uma vez que a banda se apresentou no dia anterior), Thomas diz que sua apresentação musical favorita no festival não aconteceu no palco principal, no centro da fazenda. “Foi de um grupo de pessoas sentadas no gramado, não foi no palco. Acho que eram oito violões e uma lata de lixo virada ao contrário usada como tambor. E era um som absolutamente impressionante. Nunca vou saber quem eram.”

O diretor lembra que a cena era comum. “Durante a troca das bandas, a gente não tinha muito o que fazer, demorava horas, às vezes quase duas horas. E as pessoas iam se aglomerando em volta desses pequenos grupos. Fiquei perto desse grupo e achei uma coisa incrivelmente linda.” 
 


Público no Festival de Woodstock (Foto: AFP/AFP)

Paz, amor… e brigas
Por outro lado, Thomas não acredita que houve em Woodstock tanta paz e amor quanto é lembrado por alguns dos frequentadores. Segundo ele, havia brigas acontecendo na plateia. Como exemplo, ele cita o caso do ativista Abbie Hoffman, que foi expulso do palco pelo The Who, no sábado.

“Não vi porque cheguei no dia seguinte, mas foi o próprio Hoffman quem me contou a história mais tarde. Ele havia subido no palco para denunciar o Who como ‘vendidos’ e começou a fazer um discurso. O Pete Townsend [guitarrista da banda], que é um cara imenso de grande, deu-lhe uma guitarrada e jogou o Hoffman para fora do palco. Em 1971 saiu o disco ‘Who’s next’ com a música ‘Won’t get fooled again’ e o verso: ‘Conheça o novo chefe/ É igual ao velho chefe’”.

Thomas se mostra, em certa medida, decepcionado e cético em relação às mudanças provocadas pela contracultura. “O que aquela geração se tornou? Um bando de loucos que jogam na Bolsa de Valores e transformam a bolsa nisso que você viu acontecer em setembro, outubro do ano passado. Um monte de companhias falidas, uma economia desastrosa. Ou seja, nada mudou, porque o ser humano é assim.”
 
‘Sabíamos que a dor estava lá fora’
Assim como Gerald, outros brasileiros que viveram a época lembram de Woodstock como um marco, um divisor de águas. Joel Macedo, escritor e correspondente da primeira versão da revista “Rolling Stone” brasileira, entre 1972 e 1973, morava na Califórnia em 1969 e não conseguiu atravessar o país para chegar a Woodstock, mas sentiu seus efeitos.
 
Macedo enxerga no festival um componente político importante. “Woodstock até foi sexo, drogas e rock‘n’roll, mas foi também o grito de uma geração contra o sistema capitalista (…). As pessoas quebraram as cercas que afastavam o festival do povo, invadiram a fazenda e transformaram um evento que teria um lado comercial numa mega e mitológica celebração tribal. Não foram os superstars que fizeram do Festival de Woodstock um mito, foi o povo”.
 
De Bethel à Mooca
Com a barra pesando na ditadura no Brasil e as mudanças significativas que ocorriam no exterior – com Woodstock à frente, mostrando a nova força do movimento hippie –, muitos brasileiros partiram para o exílio, imposto ou voluntário. Foi o caso do artista plástico Antonio Peticov, que, preocupado com o regime militar nacional se auto-exilou em Londres em 1970, em partes, inspirado por Woodstock.

“Na época as informações chegavam lentamente para nós no Brasil, era complicado. Então, para um garoto de classe média baixa da Mooca (bairro de São Paulo) saber que aconteceu um festival daqueles, programado para 50 mil pessoas e para o qual chegaram 500 mil, foi um estalo: ‘somos uma nação!’.”

Peticov acabou indo ao festival da Ilha de Wight na Inglaterra em 1970, onde encontrou os amigos Gilberto Gil e Caetano Veloso. “Foi uma coisa mágica”, define. Mas, apesar dos ótimos shows e de conhecer uma “nação hippie” maior ainda (o público total de Wight foi de 600 mil pessoas), o artista percebeu que o clima já havia mudado. “Lá já havia o grande problema da questão do comércio. Todo mundo ganhando dinheiro às custas dos hippies”.

Thomas também concorda que Woodstock foi diferente de outros festivais. “Foi um evento quase espontâneo, eu não sei o que reuniu aquelas pessoas. Porque foi único. Altamont não foi assim, Monterrey não foi assim, o festival da ilha de Wight não foi assim. Ele foi único na sua vontade de mostrar para o mundo que a nossa geração tinha força.”
 


Americanos reunidos para a posse de Barack Obama, em janeiro de 2009 (Foto: AFP)
 
‘Obamastock’
O diretor acredita que o festival não foi só um marco mas que é algo que precisa voltar a acontecer. “George Bush foi um retrocesso tão grande que voltamos à uma época pré-Woodstock. Agora com Obama no poder a gente vai avançar de novo no tempo. Teria que haver um novo Woodstock”.

A referência ao novo presidente dos EUA não é à toa – Thomas trabalhou por um ano na campanha do democrata. E acha que encontrou seu próprio “novo Woodstock”, maior e mais inclusivo. “Com a vitória do Obama eu desci para Washington no dia 20 de janeiro (dia da posse do presidente) e chegando lá eu disse, por alguns minutos: ‘isto aqui é Woodstock no inverno’. Um Woodstock com um p… frio, mas ninguém estava sentindo frio, estavam todos sentindo um enorme calor humano. E era quatro vezes Woodstock, porque eram dois milhões de pessoas”, compara.
 

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Morre Merce Cunningham, o mestre dos mestres!

São Paulo, terça-feira, 28 de julho de 2009 
 
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Merce Cunningham morre aos 90

Conhecido por romper a relação entre música e dança, bailarino morreu no domingo, em NY 

27.jul.64/Associated Press
 

Merce Cunningham ergue Carolyn Brown em ensaio
no Sadler Wells Theatre, em Londres, em 1964
 

JANAINA LAGE
DE NOVA YORK 

O coreógrafo americano Merce Cunningham morreu anteontem à noite aos 90 anos, em Nova York, de causas naturais, segundo comunicado divulgado pela Merce Cunninghgam Dance Company.
Um dos grandes nomes da dança do século 20, ele influenciou cineastas, diretores e coreógrafos no mundo todo. Suas realizações não estão ligadas apenas ao estilo ou ao grande volume de trabalhos desenvolvidos (cerca de 200), mas também à criação de métodos de trabalho que produziram novas formas de movimento.
“Merce foi um artista de estilo próprio e o mais gentil dos gênios. Nós perdemos um grande homem e um grande artista, mas celebramos sua vida extraordinária”, afirmou Judith Fishman, que administra a fundação que leva o nome do coreógrafo.
Merce Cunningham nasceu em Centralia, Washington, onde começou a estudar dança. Ele iniciou sua carreira como bailarino e, de 1939 a 1945, atuou como solista na companhia de Martha Graham. Em 1953 fundou sua própria companhia. O coreógrafo manteve uma parceria na vida pessoal e profissional com o compositor John Cage.

Ruptura
Um dos principais destaques de sua carreira foi a ruptura na união entre dança e música. Nas obras de Cunningham, não é o som que determina os passos. Música e dança convivem de forma independente.
Mesmo nos últimos anos, Cunningham continuou a abraçar novas ideias. Em 2006, no espetáculo “eyeSpace”, o público recebia na entrada iPods com diversas opções de trilha sonora e podia escolher a que quisesse ouvir para assistir à apresentação. Em 2003, na estreia de “Split Sides”, as bandas Radiohead e Sigur Rós fizeram performances ao vivo.
O coreógrafo também lançou mão da tecnologia em suas criações. Na década de 60, passou a usar uma câmera para captar movimentos.
Nos anos 80, desenvolveu um software, chamado Life Forms (hoje Dance Forms), que criava movimentos e combinações de passos que foi incorporado ao seu processo criativo a partir de 1991.
Até 1989, Cunningham aparecia em todas as performances de sua companhia. Aos 80, dançou um dueto com Mikhail Baryshnikov no New York State Theater. Aos 90, coreografou “Nearly 90” (quase 90) no Brooklyn Academy of Music este ano. Disse que continuava a criar a dança em sua mente. Nos últimos anos, ele vivia em uma cadeira de rodas.
“Você precisa amar a dança para aderir a ela. Ela não lhe dá nada de volta, nem manuscritos para guardar, nem telas para exibir nas paredes e talvez pendurar em museus, nem poemas para serem impressos e vendidos, nada além daquele único movimento fugaz quando você se sente vivo”, disse.

Legado
No mês passado Cunningham divulgou um plano para a administração de suas coreografias e o futuro de sua companhia após sua morte.
De acordo com ele, a companhia deverá fazer uma turnê de dois anos e, então, se separar. O Merce Cunningham Trust, que faz o papel de administrador, terá o controle de todas as coreografias dele com o propósito de licenciá-las.
“Há realmente uma preocupação sobre como você pode preservar os elementos de uma arte que é realmente efêmera, que é como a água. Ela pode desaparecer. Esse é um caminho para mantê-la viva”, afirmou o coreógrafo na época. 

ANÁLISE

Coreógrafo deu liberdade para a arteRODRIGO PEDERNEIRAS
ESPECIAL PARA A FOLHA 

Merce Cunningham foi o nome que mudou tudo na dança no século passado. O coreógrafo foi o responsável por criar a ponte entre a dança moderna e a contemporânea, levando em frente, de uma maneira diferente, o que a bailarina Martha Graham (1894-1991) havia iniciado na primeira metade do século. Se Graham criou a técnica e estruturou um método didático para a dança moderna, trabalhando muito a partir da mitologia grega, Cunningham teve o mérito de ir além de uma metodologia e de permitir à dança uma liberdade muito maior, trombando de frente com regras e conceitos mais ou menos estabelecidos. Cunningham abriu as comportas para a liberdade na dança. Ele não via, por exemplo, a necessidade de se contar uma história a partir das coreografias, algo que perdurava desde o balé clássico. Para o coreógrafo, os movimentos não precisavam ter uma finalidade ou uma explicação. E experimentava de tudo. Foi provavelmente o criador de dança que mais ousou na história, levando a ela, inclusive, a possibilidade de explorar novas mídias. Entre outras coisas, conduziu elementos do vídeo para dentro das coreografias. Mas foi a parceria com o compositor John Cage (1912-1992), seu companheiro de vida e de trabalho, a responsável pela maior inovação na obra de Cunningham. Juntos, os dois levaram o silêncio para a dança e reviraram tudo para criar uma nova ordem. É possível dizer que hoje, na dança contemporânea, não exista ninguém que não tenha sido, de certa forma, influenciado por Merce Cunningham.


RODRIGO PEDERNEIRAS , 54, é coreógrafo do Grupo Corpo.       

PS meu, do Gerald: Nao tenho condicoes de escrever sobre o Merce, assim como tive sobre a morte da Pina, ha mais um menos um mes. O Merce esta muito muito perto. A Fabi Gugli ia la no studio dele, todos os dias as 6 da tarde, em Westbeth, fazer aula com ele, ou algum professor noemado por ele. Mas ele sempre estava la. Alem do mais, a gente via o Merce, sempre fragil, caminhando pelas ruas, passos minimos, minusculos, como um pato ferido. Foi-se. John Cage, seu parceiro de vida ja faleceu ha algum tempo.

Eles eram os “AHEAD OF THE GAME”,

livro de Calvin Tomkins

Chega. Eh isso. Nao consigo mais que isso.

LOVE

Gerald

POR FABIANA GUGLI

O homem que coreografava no silencio

Comecei a frequentar as aulas no Studio de Merce ha 10 anos.
Estava em Ny sozinha, queria aprofundar meus estudos, e fui parar numa aula por acaso, no ultimo andar do predio Wesbeth, na Bethune Street.
Um espaco incrivel, apesar de simples, com uma unica sala bem grande e outra menor para aquecimento. Das janelas gigantescas, podia-se ver Manhatan de um lado e New Jersey de outro. No inverno, via-se a cidade ficando toda iluminada, e no verao o sol demorava a se por, formando uma claridade natural linda que entrava atraves dos vidros.
Bailarinos vindos do mundo inteiro, do Japao, da Grecia, da Italia, da Colombia, da China, do Canada, da Dinamarca, uma mistura etnica e cultural que eu jamais havia experimentado. E todos com a mesma vontade e fome: aprender a tecnica, a danca desenvolvida por Merce ao longo de sua vida.
Sempre me perguntei o que havia de tao especial naquele lugar, que me fazia chorar de alegria no meio de uma aula, ao som de uma musica improvisada ao piano, ou ao som da percussao numa contagem em 5, ou em 9. Homens e mulheres que se encontravam diariamente, para realizar uma mesma sequencia de exercicios feita no centro da sala, com uma disciplina bela e ardua. Nas aulas, havia sempre uma aura de respeito, de vocacao e devocao. O Studio fechava tres ou quatro dias por ano somente, no Natal, ano novo, e outro feriado importante. E durante todo o ano, o mestre coreografo estava la presente, ensaiando diariamente sua cia, reensaiando coreografias passadas, cochilando de vez em quando, enquanto seu assistente corrigia sua criacao/partitura.
Para Merce, a danca nao era uma repeticao de formas e passos, mas uma recriacao do movimento feito por cada bailarino/criador, desafiando o tempo e o espaco
Merce apostava no risco, o risco como arte, a arte feita no instante presente, neste atimo de segundo, a danca do acaso, do acaso da vida…
Ensaiava suas coreografias no silencio, seus bailarinos sentiam o pulsar do corpo na batida da musica interna. Uma escuta absloluta de si e do corpo conjunto. O mesmo silencio introduzido na musica, por seu grande parceiro e colaborador John Cage. So mais tarde, as vezes so no ensaio geral, acrescentava a musica, o cenario e o figurino, e assim abria-se o pano para mais uma experimentacao diante do publico.
Com certeza, o mundo da danca ficou muito menos interessante nesse ano de 2009. Morreu Merce Cunningham e morreu Pina Baush. Que tristeza!!
Vou sentir muitas, mas muitas saudades.

 

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1001 Noites de Barack Obama

 

Não sou repórter! Não sou analista. Recuso-me até a ser chamado de blogueiro. O que sou então? Um dramaturgo apaixonado por um presidente que hoje completa seu centésimo dia no Governo. Ah, claro, com esse centésimo dia, vem as 1001 noites e um tapete voador. Mas isso é para quem sonha, assim como eu, e não liga muito para as estatísticas. Sonhar é para quem pode. Aqui, com Obama, a realidade se tornou sonho, Teatro se tornou realidade e a coisa se embaralhou um pouco. Estou “vendo” e “vivendo” o momento histórico mais precioso nesses 54 anos no planeta! Ou talvez, e muito provavelmente, em séculos.

 

JFK? Óbvio, mas teve pouco jogo de cintura com os soviéticos, veio de uma família “engajada” de Boston e (fora Bobby Kennedy, seu irmão, esse sim o branco mais negro da História) cometeu gafes famosas com a AFL CIO, o grande sindicato daqqui. Ah, não vou falar dele. Hoje, assim como todos os dias, é dia do meu “Royal Obama”. Exagero? Não, juro que não! Mas sou dramaturgo, sou de Teatro e se, por acaso exagero, sou pago para isso! Sim, porque quem liga para as estatísticas verá que Obama tem um “approval rating” de 81% (NBC + Wall Street Journal) e ganhou um extraordinário presente nesse dia de crise suína, ou seja, no seu 99 dia de presidência: 

 

Numa fantástica reviravolta de eventos, o Senador Arlen Specter, da Pensilvânia, anunciou (e paralisou Washington DC) que estava saindo do Partido Republicano (ao qual pertence há 29 anos, desde a era Reagan) e está se juntando aos Democratas. Isso afeta – obviamente – o balanço, ou a balança, ou melhor, o peso e medidas das coisas, já que cada número conta a favor do partido Democrata. Mas o gesto é mais simbólico do que qualquer coisa e Specter sabe que não se reelegeria pelo Partido dos Velhos! Então, seja bem vindo!!!! 

 

As 1001 noites de Obama. Não, certamente não serei eu, neste dia, que direi sobre o orgulho que sinto que a imagem de terror dos EUA no mundo já mudou e que a “verdadeira face” americana já começa a mudar. Qual face? A face de uma nação mulata. A face de uma nação mestiça! O resto eu deixo pros profissas, já que o IG me puxou a orelha noutro dia, quando recebi um e-mail da redação dizendo “o artigo do Gerald está errado: A gripe suína não é transmissível pela ingestão da carne de porco”. 

 

Mas tomo minhas liberdades poéticas. Aliás, esse é justamente o sucesso desse blog. E o sucesso da gestão Obama também está em não seguir o protocolo das redações! Quando um simulacro da Air Force One sobrevoou NY ontem e deixou todo mundo com as calças na mão, ele simplesmente foi  natural, assim como foi no G20, ou lá naquela inexpressiva reunião das Américas não sei das quantas, quando Hugo Chávez lhe apertou um livro nas mãos. Disse: “não sei o que aconteceu, não sei, mas não se repetirá”. Essa coisa de “medir” os cem primeiros dias da presidência vem FDR, ou seja, Franklyn Delano Roosevelt e, segundo os institutos (argh… as estatísticas!), nenhum presidente desde então conseguiu TANTO nessa centena de dias!!! Sim, desde a nova política com Cuba até um diálogo com o Irã, e por aí vai.

 

O mundo sempre será um lugar de gente nada simpática. E um lugar de predadores e de gente avessa! Eu que o diga! Imagino (ou melhor, não imagino) o que Obama não deva estar ouvindo de seus detratores diariamente. Gente escrota, como Rush Limbaugh, radialista de merda que quer que nosso Presidente falhe , um viciado em Oxy Contin, o porco que originou a “Swine Flu”, ou melhor, a Febre Suína, ou Gripe dos Porcos, na Baía dos Porcos, onde pouco porco há! Mas me atacam aqui no blog com seus próprios embustes (“sua bicha enrustida”, etc….). Pergunto-me: Por que sempre esse tipo de ataque? E porque enrustida? E se eu disser que saí hoje pra comemorar o 99 dia de Obama “dando por aí”? Ah, deixa pra lá! ESTOU MUITO FELIZ! 

 

BARACK OBAMA me deixa MUITO FELIZ e deixa o mundo mais feliz também! 

 

Em 20 de Janeiro deste ano escrevi um post intitulado “Ba-ROCK Obama” (volto depois):   

 

Carta para Mileny (8 anos)

Amor da minha vida,

Quando o ponteiro do relógio da sala da tua casa aí no Rio (ironicamente ela fica na Avenida Dr. Martin Luther King Jr.) apontar 3 da tarde, aqui em Washington DC estará sendo meio dia, o homem mais inteligente e glorioso deste planeta estará se transformando no nosso 44 presidente. O presidente dos Estados Unidos da América. Quem poderia pensar que isso aconteceria, mesmo há quatro meses? Você, Mileny, está vendo (pela televisão) as filhas dele? Parecidas com você (só que você é mais linda, óbvio!) sempre de mãos dadas com a mamãe Michelle ou papai Barack? Bem, trata-se de uma longa história que começou com alguém que teve um sonho. E desde o sonho foi assassinado. Muitos foram assassinados, Mileny, para que esse dia de hoje chegasse e meus olhos não parassem de chorar e de pensar em você e no mundo em que você estará vivendo e no qual eu já serei uma espécie de passado.

Mileny: aos quase oito anos de idade você tem a linda sorte de se enxergar pequena, linda e negra, exibir esses cabelos de trancinhas e notar que todos olham pra você com enorme ternura e carinho. Mas, quando você estiver com seus 18 anos, talvez lerá essa carta em outra perspectiva e terá uma conversa em perspectiva comigo. No que você terá se transformado? Numa linda bailarina? Numa cientista? Numa médica ou filósofa? Não importa. Ou melhor, importa sim, porque a mensagem que começou, essencialmente em 1963 quando um dos discursos mais COMOVENTES e mais ouvidos e mais imitados e mais INSPIRADORES da história da humanidade, “I had a Dream”, de Martin Luther King, nos foi “entregue” aqui nessa capital e nessas escadarias onde hoje bandas tocarão, pessoas tocarão… para comemorar seus quase 41 anos de seu… sim, assassinato.

Sim, Mileny: segregação racial. Ônibus para brancos e para negros. Bebedouros para brancos e para negros (que eu ainda peguei quando criança no mesmo Tennessee de Dr King). Ainda bem que você, meu amor, não sabe o que vem a ser isso.

Mas você certamente não notou, como tua mãe e tua avó notaram, quando, naquela tarde de feijoada no último andar do Ceazar Park Hotel, no Rio, no meio de dezembro passado, enquanto éramos cercados por olhares de brancos curiosos, como era estranho que “não cabíamos lá”. E realmente, como a tua mãe falou: “não cabíamos lá”. Por que será? O racismo camuflado no Brasil não deixaria revelar jamais um Dr Martin Luther King Jr? Será? Quero crer que sim. Mas, se isso não for possível e será difícil que surja, como surgiu, aqui, um Barack Obama. Mestrado pela Columbia e Harvard Universities, assim como sua mulher Michelle, a nova geração, a garotada afro americana ou simplemente ‘the black kids’ como a Oprah quer voltar a chamar e parar com essa coisa de Afro, agora vira uma página FUNDAMENTAL em sua história: percebe que não precisa mais se espelhar em atletas, como Michael Jordan ou Magic Johnson ou mesmo os músicos, como James Brown, Ray Charles, Stevie Wonder ou os milhares de rap ou hip hop que surgiram nas últimas décadas.

Agora o mais novo símbolo de “cool” é SER O MAIS inteligente e letrado e genial e culto político negro do mundo: e por quê? Porque entenderam that YES WE CAN. Sim, Mileny, A Gente Consegue!, Conseguimos se lutamos muito até conquistar a presidência dos Estados Unidos Unidos da América.

AMERICA IS BLACK AND IT’S PROUD.
AMERICA IS THE NEW BLACK

Mas chega de ufanismos!
Mas precisamos desse momento. E como!!!!!
Até a nossa cultura pop precisa.
Ah, Mileny, ontem foi feriado nacional: dia de Dr. Martin Luther King Jr. Sim, a nação inteira parou e se PREPAROU para hoje. E hoje? A nação acordou pra realizar, concretizar seu sonho de 45 anos atrás: “I have a dream” se torna I AM HERE NOW !

Um dia, talvez, por interesse ou por pura preguiça, você me pergunte por que o Dr King escreveu uma carta da prisão de Birmingham e que ficou tão famosa (“Letter from a Birmigham Jail”). Talvez eu te conte, talvez os eventos avassaladores do tempo que nos atropelam me obriguem a te contar coisas de outros períodos. Por quê? Porque até lá, Barack Obama já terá (se deus quiser), dois termos inteiros de administração na Casa Branca e terá sido o mais revolucionário Presidente Americano desde Abraham Lincoln (que aboliu a escravidão em 1862). Quem sabe, daqui a dez anos, quando você estiver com seus 18, as palavras do sonho de Dr King,  sonho visto e ouvido por 250 mil pessoas aos pés do Lincoln Memorial, em 1963, com aquela estátua de dar arrepios Constitucionais e Democráticos, dizia cantando de levantar cabelos:

“EU TENHO UM SONHO que um dia essa nação se elevará e viverá o verdadeiro significado do seu credo: que todos os seres são criados iguais.

E deixa a Liberdade tocar, soar. E quando ela tocar – e quando nos deixarmos que isso aconteça!- ela vai tocar em todas os vilarejos, em cada casebre, virá o som de cada estado e de cada cidade e seremos capazes de ACELERAR esse dia quando todas as crianças de deus – negros, brancos, judeus e góis, protestantes e católicos – e nos daremos as mãos e cantaremos as palavras daquele antigo ‘negro spiritual’: FREE AT LAST ! FINALMENTE LIVRES. OBRIGADO SENHOR, Thank God Almighty. WE ARE FREE AT LAST!”

Então Mileny, te escrevo isso na manhã do dia em que multidões esperam O MOMENTO mais IMPORTANTE da HISTÓRIA deste País. Te escrevo isso num momento em que duas milhões de pessoas se aglomeram na cidade para assistir a posse de um novo ídolo e presidente negro americano. E quero que você saiba quantas vidas isso custou, quanto de escravos ainda existe no mundo, de adultos e de crianças e quanta miséria humana acontece enquanto te escrevo com lágrimas nos olhos porque uma coisa eu sei: VENDO ISSO AQUI PERCEBO QUE NÃO HOUVE PASSO MAIOR dado desde que Neil Armstrong pisou na Lua e (pra te dizer a verdade), aquele passo pra mim nada quer dizer frente aos passos dados no campo da liberdade civil ou da conquista política.

Faltam algumas horas para que Barack Obama assuma sua posição de líder dessa nação. Vamos voltar a ter uma CARA e ALMA digna para o mundo! Espero que a nojeira da administração anterior passe logo.

E, quem sabe…? Daqui a dez anos, se alguém ai em cima der uma forcinha, você olhar a cor da tua pele e olhar tudo isso, as vidas perdidas e as guerras santas e essa loucura toda por causa de pigmentação de pele me olhará na cara e dirá: “será que você escreveu isso loucaço?”

E eu vou te responder, Mileny: não. Washington não era somente uma cidade aquele dia. Era também o espírito do primeiro presidente Americano, depois da Revolução, depois da expulsão dos Ingleses. E agora, como então, o clima está EUFÓRICO, e, pela primeira vez em muito tempo, nós aqui estamos nos abraçando, nos olhando nos olhos, nos dizendo GOOD MORNING, seja lá qual etnia, seja lá qual sotaque, seja qual vestimenta, pois essa é a verdadeira cara dessa imensa US of A. A cara de TUDO e portanto nela cabe o que você otimizar de melhor.

(faltam 3 horas)

Gerald Thomas” 

 

Faz 100 dias que escrevi a “Carta para Mileny (8 anos)” de Washington DC. Faz 100 dias que o mundo sacudiu a poeira e deu a volta por cima. Ainda tem muita, mas muita coisa errada. Mas mudou a coisa principal. Tiramos um TIRANO (com o Cheney DOIS) da Casa Branca e lá colocamos um ANJO! 

VIDA longa, meu presidente!

VIDA LONGA! 

LOVE

 

Gerald Thomas, 29 de Abril de 2009.

 

 

(O Vampiro de Curitiba na edição)

 

 

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TODO O APOIO A DAVID E SEAN GOLDMAN: A JUSTIÇA BRASILEIRA TEM DE REUNÍ-LOS!

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Em 16 de Junho de 2004, David Goldman se despediu de seu filho Sean, no Aeroporto de Newark. Ele não sabia que naquele momento sua esposa Bruna estava sequestrando Sean e o levando ao Brasil, sem intenção de retornar. De acordo com a Convenção de Haia, a qual Estados Unidos e Brasil são ambos signatários, este é um caso claro de rapto internacional de criança, também conhecido por sequestro, realizado por um dos pais. Durante os últimos 4 anos, David vem lutando incessantemente no Sistema Judiciário Brasileiro para recuperar a custódia de Sean e trazê-lo de volta para sua casa em Tinton Falls, Nova Jersey.

David está lutando a batalha de sua vida e tem batido de frente contra uma família poderosa e influente no Brasil, que tem feito tudo para evitar que ele e Sean vivam juntos novamente. David já tentou todas as opções legais disponíveis para ele tanto no Brasil, quanto nos Estados Unidos, a um alto custo emocional e financeiro. Após a inesperada e trágica morte de Bruna em 22 de Agosto, todos esperavam que David iria finalmente ver Sean e trazê-lo para casa. Infelizmente, ele está novamente no meio de uma batalha pela custódia de Sean, desta vez com o novo esposo de Bruna, João Paulo Lins e Silva.

Estes últimos quatro anos tem sido longos e dolorosos para David Goldman. David foi e é, em todos os aspectos, um pai carinhoso e zeloso que não merece este tratamento. É cruel e injusto, uma verdadeira afronta a um ser humano. Basta: precisamos da sua ajuda para garantir que o Sistema Judiciário Brasileiro aja corretamente corretamente e devolva Sean de volta para casa e para seu pai. BringSeanHome.org foi fundado pelos amigos de David; toda ajuda e esforço será unicamente focada no objetivo de trazer Sean para casa. Esperamos que vocês se juntem a nós, por carta, email ou telefonando para uma ou mais pessoas na lista que se encontra na seção Como Ajudar?

Convidamos a todos que leiam a carta de David explicando tudo sobre o sequestro, as partes envolvidas, e os eventos mais recentes. A História de David nos foi enviada do Brasil em 20 de Setembro.

O caso de Sean e David
National Broadcasting Company
The Today Show

David foi entrevistado por Meredith Vieira no Today Show, no canal NBC, quarta-feira dia 24 de Setembro. A texto da entrevista está “Dad battles for son taken to Brazil four years ago” no site do Today Show.

“Até que você tenha seu próprio filho…você nunca conhecerá o prazer, o amor atrás do sentimento que ressoa no coração de um pai ao olhar seu filho. Você nunca conhecerá o senso de orgulho que faz um homem querer ser melhor do que ele é e passar algo bom e cheio de esperanças para seu filho.”

Kent Nerburn

 

“From: “Senator Obama”
To: XXXXXXXXXX@comcast.net
Sent: Wednesday, October 29, 2008 2:29:30 PM GMT -06:00 US/Canada Central
Subject: Message from Senator Barack Obama

Dear Christopher:

Thank you for contacting me regarding David Goldman’s efforts to return his son, Sean, to the United States. I appreciate having the benefit of your perspective on this matter.

As a father of two young children, my heart goes out to the Goldman family. As you know, Mr. Goldman’s son, Sean, and his Brazilian wife travelled to Brazil in 2004 to visit with the maternal family. Once in Brazil, his wife decided to remain in the country with Sean without Mr. Goldman’s consent and filed for divorce. According to the Department of State’s Office of Children’s Issues and the U.S. Embassy in Brazil, the United States is working closely with the Brazilian Central Authority to pursue Sean’s return under the Hague Convention on the Civil Aspects of International Child Abduction. As this matter develops, you may rest assured that I will keep your concerns in mind.

Thank you again for writing. Please stay in touch in the days ahead.

Sincerely,

Barack Obama
United States Senator”

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 (O Vampiro de Curitiba na edição)

 

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Pânico do Mundo?

 

 

 

“Considerando o cenário contemporâneo”, escreve João Carlos do Espírito Santo, “no qual impera o hedonismo em detrimento da razão e das buscas do bem comum, é importante entender em que solo deitamos nossas sementes, aos olhos de quem nos apresentamos.”

Fiquei mudo por um tempo olhando a tela. Sim. Sim. João Carlos é uma pessoa com a qual me correspondo com frequência. Muita frequência. Mais que um ombro amigo, um psicanalista e intelectual que aprecia Rosa, Haroldo de Campos, Joyce e, obviamente, Freud.

Ainda olhando o cenário e tendo um certo pânico do mundo com o que está acontecendo depois que o nosso Governador Patterson anunciou: “O Estado de Nova York está num déficit de 15 bilhões, ou trilhões ou terrabites, ou a minha emoção em descer aqui pra Washington DC pra ver a Inauguration do nosso Obama em OITO dias no meio dessa tremenda CRISE econômica que afeta amigos, parentes, dentes, pentes e escovas de cabelo, caspas, aspas e tal…e Gaza e as mortes e Israel, e Ellen Stewart e as peças de teatro que tenho que entregar e não tenho tempo, tempo, tempo….O MUNDO me consome. Como responder, João? Como?

Respondo citando Artaud:

“Jamais, quando é a própria vida que nos foge, falou-se tanto em civilização e em cultura. Há um estranho paralelismo entre essa destruição generalizada da vida, que se encontra na base da desmoralização atual, e a preocupação com uma cultura que jamais coincidiu com a vida, e que é feita para governar sobre a vida.

Antes de retornar à cultura, observo que o mundo tem fome, e que ele não se preocupa com a cultura; e que é apenas de maneira artificial que se quer dirigir para a cultura pensamentos que estão voltados unicamente para a fome.

O mais urgente não me parece tanto defender uma cultura cuja existência jamais salvou um homem de ter fome e da preocupação de viver melhor, e sim extrair disso que se chama de cultura ideias cuja força viva seja idêntica à da fome.

GT: Aliás, citei Artaud, mas não sei se estou de acordo totalmente. Vou te dar um exemplo mais específico, João Carlos. Essa foto ai em cima, dos soldados se abraçando, o que significa isso? O que pode significar isso quando soldados (seja de onde forem) se abraçam e comemoram a vitória? Qual a dívida humana de inocentes do outro lado desse abraço? Quanto custa cada vez que um soldado toca no outro? E justamente nesse momento onde escrevo uma peça chamada Body Parts (Pedaços de um Corpo).

João: Nas buscas do bem comum, é importante entender em que solo deitamos nossas sementes, aos olhos de quem nos apresentamos.

Mas, há sempre uma trilha do meio, uma possibilidade de, sem perder nos princípios básicos, naquilo que nos constitui e nos dá sentido à existência, manter a travessia, coerentemente. Há uma patologia fomentada nos espaços da Internet, que permite, em função do anonimato, expressões que – no tête-à-tête – não aconteceriam, pois covardes não firmam posições, não dão a cara à tapa, são, por excelência CANALHAS.

GT: Vivemos várias vidas. Não vivemos linearmente. Não pensamos linearmente. Daí a importância de Joyce, daí a importância de Pollock. Enquanto dirijo um carro, e no CD player estudo uma opera de Wagner, me emociono com uma ária qualquer, mas não perco o foco de PRA ONDE estou indo e o movimento dos carros. Tenho que frear, quando os carros freiam. Sei que estou indo visitar alguém que me importa, uma visita/appointment que me trará algo de importante: um diretor artístico de uma opera. Portanto, estou nervoso. Tenho, digamos, dois amigos no carro. Eles conversam entre si. A conversa é política. Não posso deixar de ouvir o que dizem e, portanto, “sentir” e me envolver com o que estão dizendo.

1- emoção com a opera que está tocando

2- atenção no trânsito

3- tensão com o encontro

4- prestando atenção às pessoas na rua, aos detalhes dos loucos e não loucos que atravessam a rua, aos “tipos” que me chamam atenção….

5- a conversa que rola no carro

6- desconforto físico, o cinto de segurança que me estrangula, misturado ao cachecol por causa do frio

7- olhando sempre no relógio preocupado com o horário

8- a opera no CD player está chegando a um clímax e eu subo o volume e me emociono mais: isso me traz lembranças de quando eu..(não sei mais, dirigi essa opera em, a, b, c ou d e com quem eu estava nessa época, entende as ramificações?). Ou meus pais me contando sobre essa opera em alemão ou inglês quando menino etc….

Ou, ainda, como falhei ou fui um sucesso e a casa vindo abaixo e o que eu podia ter melhorado….quando dirigi tal opera…

TANTAS COISAS TANTAS COISAS…

Marcelo Rubens Paiva: Há uns tempos, criticavam uma obra de arte que tivesse começo, meio e fim, “detalhes” que indicavam acomodação e incapacidade de inovação. Podia até ter começo, mas meio e fim, era o fim! A regra: não facilitar para o público. Se quisessem algo mastigado, nem azedo nem amargo, que comessem pizza em frente à TV, gênero inferior e vendido por natureza, dizia-se. O lance era complicar, para indicar o ilogismo da vida e da morte, o lance era confundir, para baixarmos a guarda da audiência, penetrar com um jab nos lapsos, conquistá-la por desvios ao dissecar o núcleo dos mitos e arquétipos; imagens do inconsciente coletivo.

GT: Eu sei, mas isso foi demolido pelos iconoclastas ou pelos desconstrutivistas. Eu fui um deles. Ou o último vírus nessa grave epidemia. E agora? Body Parts? Ainda? Ainda destruindo. Não. Reconstruindo.

João Carlos: O teatro, e você pode desdobrar isso, aprofundar o que te digo, pede engajamento, mesmo que seja o mais superficial, pois a pessoa, dentre todo o universo de peças em cartaz, escolhe uma, organiza sua agenda para também se apresentar publicamente, pactua um tempo de entrega,

Marcelo R Paiva: Um escritor tinha de fazer o curso de mitologia do Juanito Brandão e ter em mãos o dicionário de símbolos de Juan-Eduardo Cirlot. A arte buscava os personagens de sua origem, mas se afastava de seu formato e se inspirava no caos.

GT: Mas o que é o teatro ou esse Pânico do mundo ou essa lucidez avassaladora? Não será uma vontade louca de olhar essa foto e transformá-la numa cena teatral onde a primeira frase diz assim: “amanhã, acordarei melhor, todos acordarão melhor, mesmo sem rins e sem fígados, ou com meio rim, com parte do fígado. Se um “deus” nessa nossa incógnita (não é surpreendente eu estar dizendo isso?) eu jamais teria estado no lugar certo na hora certa. É isso não é? O que me fez estar aqui nesse momento da vida foram as circunstâncias. Eu beijo as calçadas por onde andei por elas terem me dado a oportunidade de ter andado, aprendido a viver the rough side of life muito cedo, mas as beijo. Por isso, Saint Genet. Por isso, sai tão cedo de tudo, sempre saio cedo de tudo e não acredito em sucesso, não acredito nessa superficialidade de sucesso, uma vez que, colocado no CD player ….o Stravinski… “The rite of Spring” …com Leonard Bernstein regendo….e ensinando…., parece que o mundo pode, sim, ter um final feliz e em paz…..

Sim, Graças a tudo. Ellen Stewart está melhor agora, 10 da manhã de segunda nessa gélida New York. Pode piorar à tarde. Tudo me dá medo. São dias tensos. Mas já foi diferente? Quando leio, e com muito interesse, os comentários do Blog, e às vezes me irrito com o nível de agressão, penso em desistir.

Penso em cair fora e seguir os conselhos da Ellen: “escreva pra Teatro, Gerry, esqueça essa coisa de Blog”. Mas eu subo aqueles 67 degraus que me levam ao apartamento dela lá no 5º andar e penso nessa foto dos soldados e nas mortes e nas tantas explosões, e no fogo de uma lareira e na posse de Obama e nas economias falidas e nos seres humanos falidos porque é cão contra cão. Cão come cão!

E o teatro sempre foi o espelho disso: Hamlet, seu melhor expoente até hoje. Ah sim, o canibalismo verbal. Tem aqueles que amam chamá-lo de antropofagia. É que virou, digamos assim, “moda”, roubar e não devolver. Roubam vidas. Roubam identidades. Roubam-nos uma década. Uma década de inutilidades: e agora? Agora é remover o LIXO de nossos quintais. Praqueles que tem um quintal.

Gerald Thomas

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