GUIA OFF – Critica de “F.E.T.O.”

por Ferdinando Martins

No conto “O Aleph”, de Jorge Luis Borges, há um ponto do espaço que abarca toda a realidade do universo, inusitadamente localizado na narrativa no porão de uma grande casa em Buenos Aires que está para ser demolida. Algo assim passou a existir no Sesc Consolação, no histórico Teatro Anchieta, com a estreia de F.E.T.O. – Estudos de Doroteia Nua Descendo a Escada, novo trabalho de Gerald Thomas.

Assim como o protagonista de Borges, o espectador é sugado por um buraco negro de imagens, sons e temporalidades diversas. Ao menos três tempos históricos coexistem nos cem minutos do espetáculo: a efervescente cena cultural do início do século XX, quando Duchamp quebrava os cânones do fazer artístico, realizando o que os impressionistas não tiveram coragem fazer; o cenário bélico e desesperançado do pós-guerra em meados do século passado, período em que Nelson Rodrigues escreveu Dorotéia e que Samuel Beckett produziu suas obras mais icônicas; e o mundo pós-pandêmico que estamos compulsoriamente imersos.

Em F.E.T.O., além do quadro Nu descendo a escada no nome, Duchamp está presente com uma reprodução ampliada de Roda de bicicleta e alusões a O grande vidro, sua última pintura. O universo de sentidos deslizantes do dadaísmo combina-se com uma paisagem onírica, acentuada pela dança aérea de Lisa Giobbi. Bonecos com a forma de um feto saído do quadro No tempo e na terra I, de Iberê Camargo, fazem parte dos objetos de cena. Em conjunto, essas obras revelam a frustração de uma promessa de modernidade não cumprida, alusão à atual onda conservadora, a um Brasil que não deu certo ou ao retrocesso das leis sobre o aborto nos Estados Unidos.

Assim como Doroteia que busca um moralismo tosco como forma de expiação de sua vida mundana, todos nós estamos imersos em um tempo de obscurantismos apaixonados, em que se aplaudem torturadores, genocidas e milicianos e uma arma vira objeto de culto na Marcha para Jesus. Ao descer a escada, o nu cai num vazio, num nada. As contradições, porém, aparecem sub-reptícias, como o desejo que se manifesta pelas brechas do inconsciente. O figurino assinado por João Pimenta, ao contrário da proposta original de Nelson Rodrigues de vestes que enfiam as personagens, traz formas voluptuosas, sensuais, ainda que feitas de tecidos pretos e encobrindo os corpos.

A temporada de F.E.T.O. será pouca, somente quatro semanas. Merece ser vista e revista, como uma experiência rara. É ar fresco para espanar a poeira das janelas fechadas pela pandemia. É biscoito fino para as massas e para todos nós.

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