“SIR FERNANDA MONTENEGRO”, 90 anos no dia 16; minha musa, ex-sogra, companheira de palco e grande amor

FERNANDA MONTENEGRO

Sir Fernanda Montenegro

(um dos capitulos mais importantes da minha vida; um dos capitulos mais importantes da minha autobiografia “Entre Duas Fileiras”)

Um dos momentos mais emocionantes da minha vida foi encontrá-la no palco pela primeira vez. Cheguei a passar mal na noite anterior, pensando cá com os meus botões: “Como é que se dirige Fernanda Montenegro? Dizer o que para ela? Como dizer o que para ela?”

Para mim, ela não era somente a maior atriz do mundo. Era também, ao contrário da maioria dos atores com quem já trabalhei, a atriz mais lúcida do mundo.

E assim, lúcida, amorosa, intelectual e instintiva como um animal faminto, ela transformou o ritual diário do ensaio e da representação teatral num exercício de extremas emoções e alegrias, com uma facilidade praticamente inimaginável.

Não sei mais como chamá-la. Já perdi as contas. “Minha melhor companheira de palco?” “Minha maior musa?”Minha eterna ex- -sogra?” “Minha grande e enorme amiga?” Tudo isso junto? É. Tudo isso junto e muito mais.

Não sei! Quando ela foi indicada ao Oscar, a Folha me pediu um artigo, e eu achei um título que ainda cabe: “Sir Fernanda Montenegro”. Claro, essas coisas de títulos jamais revelam a pessoa em si, e quase nunca chegam perto da figura pública. Em se tratando desse monstro, existem umas 3 mil entidades entre o que é publico e o que é pessoal, e os trinta tons de cinza são de difícil definição.

Durante os ensaios de The Flash and Crash Days, “clicamos” de cara, e… o resto do elenco nos olhava meio pasmo. Fernanda e eu ría- mos e ríamos, só de olhar um para o outro — às vezes por 45 minutos. Motivo? Nenhum. Quero dizer, sim. Sabemos o divino e o ridículo que é a seriedade com a qual se encara essa monumentalidade que é o teatro, e usamos o riso como aperitivo, porque, caso contrário, os nossos estômagos não nos deixariam em paz. Morreríamos de úlcera no terceiro ato! Então, rimos.

Metade santa e metade palhaça, Fernanda Montenegro tem a medida exata do sublime e do ridículo que é representar a vida num palco.

É impressionante. Toda maquiada e de figurino passado, ela aparecia em pé na entrada do palco, morrendo de rir do seu personagem e da situação insólita que essa arte ao vivo oferece.

Pois quem acha que Fernanda Montenegro é um show a cada vez que a cortina sobe não imagina a delícia que é vê-la na coxia, se prepa- rando ou mesmo disputando com os outros atores um espaço naquele pequeno vão na cortina, pelo qual se vê o público.

Mas existem os acidentes. Eles não são tão engraçados. E foi com a Fernanda que eu aprendi e experimentei e chorei os piores acidentes no teatro, nessas quase quatro décadas, desde a perna que ela quebrou (e, mesmo assim, entrou engessada), desde o olho que ela furou (e, mesmo assim, entrou com um tapa-olho)… e desde um ensaio que nem era o dela, mas sim o da filha, Fernanda Torres, na época, minha mulher, em Saints and Clowns, uma peça desastrosa, que encenamos em plena Kampnagel Fabrik, em Hamburgo, quando a minha sogra se sentou na escuridão de uma imensa plateia vazia, escorregou e caiu no chão. E lá ficou. E não deu um pio.

— “Eu não quis atrapalhar o ensaio, meu filho. O teatro é mais importante.

É tão importante que beira o sacro. Mas, olhem vocês! Minutos antes do sinal que dá a partida ao espetáculo, ela brinca com todos, conversa livremente sobre qualquer assunto (de preferência algo sobre a vida prática), ri de si própria e ainda tenta combinar alguma mudan- ça de cena de última hora. Ah, e pede um frango de padaria, dois de preferência, que devora como um imperador romano, ossos pra todos os lados! Coxia do teatro, uma “ossada Montenegrada”!

Eu tremia enquanto uma van do teatro nos levava para o Hospital da Universidade de Hamburgo. Permaneci a noite inteira lá com ela. Sentávamos juntos entre um exame e outro, e eu sabia a extensão da dor que passava. Mas ela não dava um pio.

Vou começar pelo fim ou, ao menos, pelo meio, já que a minha história com essa fascinante mulher começou em 1990 e dura até hoje. Somos cada vez mais íntimos, cada vez mais calados, cada vez mais… Não, não há termos que nos definam.

Mas existem algumas cenas em nossas vidas e turnês… que nos definem:

Estávamos em cartaz com The Flash and Crash Days, em Copenhaguentalvez a cidade que mais frequentemente nos chamava de volta —, e, nos dias de folga, eu alugava um carro e íamos pela costa leste até Helsingor (onde fica o tal castelo de Kronborg, que Shakespeare usou como “locação” para o seu Hamlet). De repente, a minha eterna ex-sogra diz:

Pare aqui, meu filho.

Parei. Encostei o carro, ela desceu, tirou os sapatos, pediu pra que nós (Nanda, Fernando) ficássemos no carro esperando e seguiu por um declive tortuoso, uma descida até preocupante para o mar em frente ao museu de arte moderna, o Louisiana Museum of Modern Art.

Lá de cima e de fora do carro, eu fiquei olhando aquele ser pequeno e frágil entrando na água, molhando os pulsos, as canelas, jogando um pouco da água do mar nórdico sobre a cabeça e fazendo o que me parecia ser uma espécie de oração. Abaixada, com a palma da mão encostada na água, ela era uma miragem de algo sublime, impossível de descrever. Essa cena jamais deixará a minha memória. Não me atrevo a imaginar o que ela pensava. Mas foi lá que eu a chamei, silenciosa- mente, pela primeira vez, de Sir Fernanda Montenegro. Foi lá que a vi pequena, sozinha, vulnerável, mística. Acho que foi lá que entendi sua relação com Deus, a humildade e extrema gratidão por sua existência. Aquele momento mudou a minha vida.

Lentamente, ela voltou, silenciosa como sempre, e disse:

— A gente faz isso, meu filho, quando quer voltar sempre a um lugar maravilhoso como esse.

Segurei as lágrimas por um tempo, mas não deu. Percebi que, no carro, a Nanda chorava também.

— Ih, olhe aquele ali. Parece um dos coveiros!!! — sussurrava ela, com a mão encobrindo a boca, como se quisesse esconder o riso sapeca. Eufórica e até um pouco encabulada, como uma criança, Fernanda apontava para um escandinavo velho, desdentado e corcunda, envolto numa manta marrom, que parecia ser uma sentinela do castelo de Hamlet.

Estávamos no Castelo de Kronborg, aquele que serviu de inspiração a William Shakespeare para a maior peça de todos os tempos.

— Vamos embora, meu filho, antes que ele resolva nos enterrar! — brincou ela, rindo.

Foram oito países, mais de trinta cidades em quase quatro anos de vida em comum. E, em cada um dos mais de cem espetáculos, eu vibrava, morria de rir e chorava, sempre como se fosse a primeira vez. Agachado no canto escuro da coxia esquerda, nunca deixei de pensar: “Meu Deus, essa aí é a Fernanda Montenegro… veja você!”

Até hoje seguro as lágrimas, sabendo que ela não segura as dela porque… ah, não importa. Porque… o tempo corre, o tempo é uma merda, o tempo corrói tudo quando estamos em plena forma e sabendo de tudo. E aí? E aí vem essa merda dessa tempestade, essa merda desse Flash, essa merda desse crash, e nos derruba numa cova, assim como derrubou o Yorik, e mesmo assim, sabendo disso tudo — vinte e cinco anos mais que eu —, em meio a uma emoção incontrolável, ela estará sempre completamente lúcida e consciente de todo o processo, sem jamais se lamentar. Sem jamais reclamar.

Obrigado, minha sogra. Muito obrigado por tudo.

FELIZ 90 anos. Um super – super feliz e pensante e intelectualmente devorador 90 anos minha querida!

Gerald Thomas

NYC – Oct 9, 2019.

 

 

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