“Agachada no banheiro” – um texto maravilhoso de Adriane Gomes.

Adriane Gomes

...no banheiro agachada lavando os pintos (material cênico) penso no número de homens que passaram na minha vida e no quanto eu era uma putinha. Putinha? Eu me lembrei de algumas cenas rápidas de sexo, me virei, olhei no espelho, e vi (pausa) uma senhora magra, seca, de olhar triste, e pensei nas dores de hoje, peguei um dos pintos, enxuguei, andei na direção do quarto quando aquela maldita dor me acometeu o quadril, e eu pensei: que merda viver com tantas dores, viver dói demais, (pausa dramática) eu chorei mesmo, e resolvi sentar aqui e escrever: eu não quero falar da senhora do espelho e nem dos olhos esgotados de muitos sentimentos e uma vida estranha.

A minha vida é estranha, a minha casa é estranha, eu sou estranha.

Eu decidi estar aqui, e essa foi a minha opção… (sem palavras) Estou em crise, e não sei ainda o que está acontecendo. Você chama de surto, eu de depressão, tristeza profunda, não sei… medo. Estou muito cansada confusa e a única coisa boa que aconteceu nesses últimos tempos, foi aquela conversa que tivemos sobre gênero e identificação.

Isso foi bom porque abriu outras referências de vida, e me deu alívio falar da sensação que tenho sobre a identificação com os dois sexos e isso é muito confuso e eu nunca tinha pensado sobre esse ponto de vista.

E sobre isso me vem as seguintes imagens:

Quando eu era criança eu queria fazer xixi em pé.

Eu sempre queria tomar banho com os meninos.

Eu andava na beira do rio seguindo os meninos mais velhos e tinha uma pinguela bem fininha era parecida com uma corda bamba, Corda Bamba, A CORDA BAMBA (lembrei)

O rio enchia e fazia enxurrada nas ruas,

quando adolescente eu morei na casa de dois irmãos que moravam com um amigo, todos eles eram Gays, ou Bi, era uma casa diferente e eu sempre participava como modelo para as makes. Eu era uma travesti, uma travestizinha. Eu era a ADRIENNE, assim a Gerus (amigo do meu irmão) Falava.

Corta para a vida (corta a Verteria (jeito que meu pai se referia a Artéria da galinha) (impulso de morte)

meu estado: Ansiosa

(Preciso sair para resolver coisas… mas…)

Antes de sair para resolver problemas fico andando indo e voltando para o mesmo ponto, não tenho vontade de falar

sensação no meio do peito como uma dor constante, medo?

Sabe quando a gente vai entrar em cena que dá aquele frio na barriga? imagina isso direto, imagina esse sentimento o dia todo….

se você conseguir ler tudo isso… você sempre lê… eu tenho certeza! com amor sua sempre  Adriane Gomes (carta escrita respondendo um questionamento do telefone).

Adriane Gomes de Brito

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