“A MEDIOCRIDADE”, novo texto de Guilherme Zelig.

Guilherme Zelig

“A MEDIOCRIDADE”

Enquanto escutava aquele triste blues de Gary B. B. Coleman naquela noite fria, ainda com frases de Philip Roth em mente, a construir as relações de Casei Com Um Comunista em sua cabeça, e a apreciar um chá já frio naquela caneca branca de porcelana, Sérgio refletia também sobre a que ponto a mediocridade da vida se lhe acometera.

Duas horas antes, sua esposa ainda reclamava sobre sua inaptidão de ir ter com o filho, Miguel, que, pela terceira vez em menos de duas semanas de aula, havia brigado na escola com algum outro fedelho juvenil metido a durão. Ela só fazia-o recordar de que nunca na vida havia-se preparado para a paternidade, muito menos para a construção de uma família burguesa à brasileira.

O fato de todos os dias bater cartão em casa às nove e meia da noite, trocar muxoxos com Silvia – que geralmente assistia às telenovelas ou lia algum livro de romance do século XIX – e ter de relatar todas as frustrações, angústias, risadas, preocupações de seu dia na direção daquela editorial aporrinhava-lhe bastante. Havia momentos que gostaria de mudar de rota, sentar-se em uma mesa de bar e beber toda tristeza acumulada em seu cerne até aquele ponto de sua existência considerada banal.

Havia muito não conseguia fazer nada direito: não acompanhava a vida escolar do filho; não satisfazia as necessidades sexuais da esposa; na editora, prorrogara reunião com três tradutores e adiara o lançamento de quatro livros; às reuniões maçônicas já não comparecia; discutira com o padre na última vez que havia ido à missa; aos parentes, nem um sinal de vida. Percebia Sérgio que a vida transformara-lhe em um homem medíocre.

Levantou-se, a fechar o livro e jogá-lo sobre a mesa de centro. O disco na vitrola havia muito só estava a rodar – a agulha já estava em riste. Era uma e quinze da madrugada e percebeu Sérgio que lhe faltavam propósitos na vida. Dirigiu-se ao quarto do filho e assistiu por um determinado momento à sonolência do garoto. Embora devesse aparecer-lhe no dia seguinte de rosto fechado e a pedir explicações sobre o ocorrido na escola, um estranho orgulho preencheu-lhe o ser. Um valentão em casa. Em seguida, voltou à realidade. Fechou a porta, meio acabrunhado.

Apagou as luzes da casa e dirigiu-se ao seu quarto de dormir. Silvia dormia, de terna expressão à face. Acima de tudo, amava-a. Amava-a a ponto de aceitar que Silvia também percebesse a mediocridade que envolvia a existência do marido. Tudo aquilo era culpa unicamente dele. É de suma importância ressaltar a culpa, pensou ele enquanto acendia o abajur.

Deitou-se à cama – a sentir o peso de sua existência acometer-se-lhe enfaticamente. Sentia-se estar findando. Com isso, pensava, garantiria ali o que havia muito estava predisposto a fazer: terminar com sua mediocridade com a iminência da morte. O corpo começou a formigar. Suas mãos e pés adormeceram. Parecia ele entrar em um certo êxtase. Conseguiu desligar o abajur e sentiu-se engolido pelo negrume da escuridão e pelos cobertores. Pensava que morreria ali, ao lado de sua amada, a fazer algo que passar-se-ia longe de ser medíocre: passar-se-ia de ser a consumação de seu pleno estágio do ato de ser e existir à inevitabilidade da inexistência como força de sua intrépida vontade.

Uma tristeza profunda arrebatou-se-lhe quando, na manhã seguinte, viu-se desperto pelo barulho do despertador. A mediocridade vencera.

Guilherme Zelig

Fev/2019

Leave a comment

Filed under Uncategorized

Comments are closed.