R.I.P. Jacó Guinsburg by Gerald Thomas

 

Profundamente triste com a morte de Jacó Guinsburg. Aqui vai meu texto para O Globo:

“Como se as coisas no mundo já não tivessem um tremendo horror”, explicava eu no ensaio de hoje, acreditem ou não, eu segurava na mão um livro de Haroldo de Campos, “A Cena de Origem”, da Editora Perspectiva, quando me chega a terrível noticia: “Jacó Guinsburg morreu”.

Pensei logo na Gita. Meu Deus! Nas mais de duas décadas de convivencia intima que tive com esse homem fantástico. “Como se as coisas no mundo já não tivessem um tremendo horror”. Sim, cai num tremendo vazio.

“Eu nasci na Bessarábia”, ele sempre dizia, “comi o pão que o diabo amassou e depois que desembarquei aqui no Brasil, tive que engoli-lo de novo”. Dizia isso com um enorme sorriso escandaloso. Um sorriso que logo ficava tão funebre quanto o do Haroldo ou o de Boris Schneiderman. Era essa turma que trouxe um vasto conhecimento – um que eu nem tento alcançar. Mas eu ouvia. E ouvia.

Foi o Jacó que publicou meu primeiro livro “O Encenador de Si Mesmo” (ideia de Haroldo de Campos), e veio o segundo – assinado por Silvia Fernandes – e os constantes jantares no apartamento da Rua Padre João Manuel, quando eu estava no Brasil.

Não se pode encaixar o Jacó em nada. Era mais que ensaista, mais que critico, mais que um editor, mais que um judeu professor imigrante, mais que um semiologo, muito mais que um homem da Resistencia progressista. Muito mais que um simples filosofo e homem: Jacó Guinsburg construiu um império literario e apostou nele, dentro de um país que sempre o traiu (agora mais que nunca), trazendo de volta o reacionarismo terrivel. Ironicamente, o poupando disso, meses antes da posse de um novo president graças, quem sabe, aos estranhos Zaratustras de seu tanto amado Nietzsche e a origem da tragédia: a sua propria morte

Gerald Thomas
NYC – October 21, 2018

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