EZRA POUND (meu prefácio de “Os CANTOS” : edição de 2006 – editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro)

“Cantar um poema já é uma coisa sublime, difícil, quase impossível. Agora, escrevê-lo sem cantá-lo, mas chamá-lo de Cantos, como se escrevê-lo cantado, assim como um compositor surdo, Beethoven, tendo que imaginar sua sinfonia inteira naquelas cinco linhas de uma partitura… ah, isso é trabalho de um Hércules! Ou de um Ulisses ou qualquer outra odisséia qualquer galaxiana, física, metafísica, já que não se pode “quedar” (uso o espanhol porque o português não me parece apropriado: ficar, parar, cair…) nas meias verdades ou nas meias palavras ou meias intenções de um trabalho tão completo, mas tão completo que ele se torna VITAL.
[…]
Pound era um escritor, um poeta, um artista com um peso e VÁRIAS medidas: um predador e, ao mesmo tempo, um perseguido, um foragido. Fugia do quê? Só ele sabia. Um monstro de homem. Me sinto ridículo por ter que compará-lo a um Dante ou um Milton do século XX. Prefiro reconhecê-lo como um Noé, aquele que construiu a arca antes do dilúvio e colocou sua nau, generosamente, a disposição da sobrevivência da espécie animal. Mas Pound não foi Noé. Sua arca é mais concreta, porém impalpável, só conseguimos enxergar seus Cantos através das palavras e da rima, e da FÚRIA e da tempestade (não, não é o Sturm und Drank do século passado, pois Pound era um INDIVÍDUO e não um movimento), e mesmo essa tempestade parece não ter um fim, nunca, nunca.
Mas, como todo gênio, ele tinha a certeza concreta de que a raça humana teria que passar por um dilúvio e começar do zero. Seus Cantos são o berro primal de que tudo aquilo criado pelo homem é torto, sem nexo, pretensioso, já que Aristóteles decretou uma ordem, um início, um meio e um fim que nada valem quando confrontados com a poesia de Yeats ou um país imaginário onde quis passar seus últimos momentos de vida, o Brasil, um lugar moderno, concreto, concretista, totalmente enCANTADO pela obra dele, um lugar chamado imaginário, sobrevivente do dilúvio, aberto pr’aquilo que é novo, mesmo que predador e sofredor, cego e visionário, o refúgio definitivo das contradições do modernismo, FrutoFilho de Pound. Um lugar dos dilúvios constantes onde os Monstros são esquecidos ou onde seus berros se perdem na natureza: esse estranho país chamado nunca, onde tempestades duram pouco e a literatura nunca e o teatro pouco e a música abunda e a natureza tanta e tonta e canta e como! Como numa galáxia, aquela de Haroldo que começou aqui, nos Cantos ou em Ovídio ou em Homero ou chega!
Gerald Thomas, na apresentação do livro “Os cantos”, de Ezra Pound. [introdução e tradução José Lino Grünewald; apresentação Gerald Thomas]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

_______ORIGINAL TEXT IN ENGLISH –—————

“Singing a poem is already a sublime and difficult thing, bordering on the ‘almost impossible’. Now, writing it without singing it and yet calling “Os Cantos” , well,  from all four (I said 4) corners, as if writing by way of singing, just like a deaf composer, a  kind of Beethoven, having to imagine his entire symphony!!! Yes,  in those five lines of a score sheet… oh well, that’s herculean! Or a  Ulysses of sorts or any other odyssey which the likes of Haroldo de Campos and his masterpiece “Galáxias”, a physical, metaphysical, metaphorical and almost spiritual 85 page long poem, an ode to the Universe, binds one to to one’s very core of human existence through language and the usage of words. 

I’ve been told that one  cannot “fall” into a trap of half truths or half words  (or – maybe… only into a ‘half trap?) or half intentions of a job SO so so complete as OS CANTOS , but so complete that it becomes VITAL. Os Cantos is vital. It’s one of those masterpieces, you know? One of ‘those”!!!!

Pound was a writer, a poet, an artist who’s name alone means  weight and currency: He was a Predator and, at the same time, a persecuted victim , an outlaw, a rebel and a stunningly weird figure adored by the stunningly weird. Always on the run. But running away from what? Only he knew. A monster of a man. I feel ridiculous to have to compare him to any other but so it goes. Whether it’s Dante or (…..) a twentieth century writer or  Milton. I prefer to recognize him as a Noah. Yes,  the one who built the ark before the flood and placed his ship, generously, the disposition of the survival of the animal species. But Pound wasn’t Noah. His  ark is more concrete, impalpable, we can only see its corners through the words and the rhyme, the Fury and the Storm (no, it is not the Sturm und Drank of the last century, because Pound was an individual and not a movement), and even this storm seems not to R an end, never, never.

But, like every genius, he had the concrete certainty that the human race would have to go through a flood and start from scratch. His chants are the primal bellows that all that man created is crooked, without nexus, pretentious, since Aristotle decreed an order, a beginning, a means and an end that nothing is worth when confronted with the poetry of Yeats or an imaginary country where he wanted to spend his last moments of life: Brazil, a modern place, concrete, “concretista”, totally enchanted by his work, a place called imaginary, survivor of the deluge, open PR ‘ What is new, even if predator and sufferer, blind and visionary, the definitive refuge Of the contradictions of modernism, FrutoFilho of Pound. A place of the constant deluges where the monsters are forgotten or where their cries are lost in nature: this strange country called never….

Pound and Brazil

A “country called never”

Where storms last long and the literature never and the theater little and the music abounds and the nature so and dizzy and sings and how! Like in a Haroldo de Campos’s “Galaxias” (not possible without Pound’s existence), where storms last long means: “Ovid and Homer have  arrived! “

ENOUGH!

Gerald Thomas

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