Dedicatória – Acknowledgement – Autobiografia Entre Duas Fileiras. Between Two Lines.

Portuguese and English

Em Nov 2016, foi lançada a minha autobiografia “Entre Duas Fileiras” (ed Record). Acho que nunca a li em Portugues, Aqui está a dedicatoria do livro. Taí. Gostei. Vou posta-la e viver isso que escrevi. 

Dedico este livro a todos os artistas, vivos e mortos, a todos aqueles que defendem uma utopia, já que essa coisa que chamam de “realidade” só nos leva a credos e guerra entre credos, ideologias e guerra entre elas, políticas falidas e corrupções em todas as áreas. Mas existe a arte. E, através dela, entramos em contato com algo que vocês, os leitores, muitas vezes, chamam de “mentira”.

Claro que é uma espécie de mentira porque, enquanto recitamos a “verdade” e fazemos vocês rirem, chorarem etc., estamos vendo os sarrafos que seguram o cenário, estamos vendo toda a fiação, as varas de luz que nos ilumina, estamos vendo toda a movimentação na coxia (ou aqueles técnicos que assistem TV e cagam pra nós enquanto nos esforçamos em dar tudo…).

Sim, então, essa ilusão, a de grudar a retina de nossos olhos num refletor elipsoidal — pra que nossos olhos sejam vistos num tamanho maior do que realmente são e passem a ideia do vazio do vasto univer- so negro… ah, isso tudo é técnica. Técnica, assim como é técnica estar pronto quanto bate o terceiro sinal, às 9 da noite e a cortina abre, e, não importa em qual estado a gente se encontre, temos que dar tudo e passar esse encanto pra vocês, essa utopia que vocês chamam de “ah, ele foi tão verdadeiro, não?”.

Em inglês é melhor: chamamos a arte de representar ou a de in- terpretar simplesmente de “playing” ou de “to play”… ou seja, brincar, assim como uma criança brinca. Só que a criança não ensaia por dois meses essas frases que não são dela, marcações de deixas que não são dela e uma delicada e precisa coreografia que não é dela.

Mas é através desse “playing” que nós, escondidos em papéis assu- midamente falsos e mentirosos, podemos sonhar, talvez até dormir. E, ao dormir, sonhamos que entramos num território utópico que nada tem a ver com essa realidade miserável cotidiana que nos mata horri- velmente, passo a passo, minuto a minuto.

No palco, morremos todas as noites quando o pano fecha e renas- cemos todas as noites quando o pano abre, e rimos e choramos, mas de mentira enquanto nossos corações sentem sempre o contrário daquilo que representamos!

Não é incrível?

O único compromisso que temos é com a utopia, com a vida, em trazer “a vida é um sonho” pra vocês, seja através de uma sinfonia, através de uma tela, através de uma peça ou de solo de dança. Aí sim, Zeus ou Zaratustra fala com todos. É a vez do eterno sublime, do eter- no retorno, e, no final de tudo, quando colocamos as mãos na cabeça e choramos, é a única coisa que importa, fora o sarrafo que segura o cenário e aquele monte de refletores que (para nós, no palco) parecem estrelas que nos cegam mas que, para vocês, nos iluminam. No teatro é quase tudo o contrario do que se parece. Mas paro por aqui antes que eu entre em Pirandello ou em Shakespeare, nosso grande contemporâneo, afinal, essa dedicatória é sobre a Utopia e, portanto, raspa em Thomas More… Mas eu não queria ter ido tão longe.

 

Fui.

Gerald Thomas Wengen, agosto de 2016

 

In English – the language it was written in.

From my “Autobiography” (Between Two Lines). It was published a little over a year ago and, quite frankly, I’ve never actually bothered to read it (why should I ?) . However, here is my ‘acknowledgement’ – or dedication. And now that I’ve finally read what I’ve written, I might as well go and live it.

I dedicate this book to all ARTISTS alive or dead, to all those who have defended a UTOPIA, a dream, life as a dream, and have voiced their lives as a dream and turned their entire thing into the utmost bizarre concept, the most inconceivable of all notions since it is this horrible realism that assails our quotidian—our daily realities. What notion? The reality of life, this nightmare, this horrible assault on our brains and intelligences.

I dedicate this book to all ARTISTS who have taken upon them the duty to go to HELL and put their feet in the mud—or in deep shit and walk the high ropes without a net underneath. Such is the risk because of this ridiculous demand to succumb to credos and credos that lead to wars and wars between credos and (yes!) these unbearable cycles of madness!

It’s all failed, failed again, failed better, but actually failed WORSE and there is ART after all and AFTER ALL through ART, yes, THROUGH ART we—you, reader, and I—can come to grips with what they call the ultimate “lie” or illusion.

Bizarre? Yes.

Of course, we call it a lie because while we proclaim or shout out or even just whisper the lines of some “truth,” we make audiences laugh, cry and reflect, brood and tremor with fear and suspense. At the same time, we, the actors and playwrights, are actually watching the sticks, the 2x4s. While the “shticks” and the plywood hold up the set, we’re looking at all the lighting power cables and all those pipes and, to distract our “truth” even more, we’re actually observing the intense movement of our colleagues and stagehands in the wings.

It’s technique plus the transgression of this technique and a plot to kill this technique, you see? There is no truth here, so they say. I beg to differ. I do beg to differ. Why? Because I’ve always wanted to change the world.

With this weird willpower of wanting to “CHANGE THE WORLD” every day (as Julian Beck said to me every day) and this agony and pleasure of doping and dipping our retinas into this soup of lighting instruments hanging up there on the grid as we perform—caressing our eyes, our pupils, enlarging them so they can be YOUR mirror of horror or pleasure, while those people in the wings don’t give a flying fuck about us, we…get off on the technique and belief that our DREAM and utopia are so MUCH LARGER THAN LIFE!

Is it really all a matter of just good technique? I mean, when the curtain goes up at, say, 7pm and no matter what state you’re in…one simply HAS TO give one’s ALL, one’s BEST for your pleasure and delight and belief only, so that you can leave the theater and say: “WOW, HE WAS SO…REAL TONIGHT, WASN’T HE?”

Yet, it is by playing ( just like a child) that we, hidden behind obviously false, sometimes alarmingly ridiculous, enlarged roles, that we’re able to dream, to dream perchance to…

to sleep…and by sleeping we enter this utopian and bombastic territory that bears no resemblance whatsoever to our miserable minute-by-minute assassination of ourselves.

On stage we die every night when the curtain comes down and are reborn every day when the curtain opens. We laugh and cry and it’s all fake and on cue and, mostly, quite the contrary to what we’re feeling!

Bizarre? Yes.

Our ONLY commitment is with Dame UTOPIA, this strange lady, the lady of All Flowers, the lady Genet described so well, this tramp, this beggar Chaplin inherited as if, as if nothing. And…well, Beckett himself, while staring out his window and saying “I watch the world go by” described so well his utopia “of dying yet again for the last time on earth.” That was their utopia.

Mine?

Mine is to see yet another day, another play, another hour and a half, another line, another two, another few, a few more lines, between them two, say, between two lines.

Gerald Thomas

New York October 2016

BETWEEN TWO LINES

 

 

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