O GLOBO – exclusivo – Tonia Carrero: “a diva para sempre diva”

Artigo: Tônia Carrero, a diva para sempre diva

Gerald Thomas destaca personalidade forte e libertária da atriz

 por GERALD THOMAS

Gerald Thomas dirige cena da peça ‘Quartett’, com Tônia Carrero e Sergio Brito – Arquivo

WENGEN, Suíça — A Tônia deve estar feliz da vida: subiu aos céus e está brigando lá em cima com o Sérgio Britto! Voltaram a discutir quem era melhor ou pior, quem era mais ou menos volátil nesse mundo medíocre que deixaram aqui embaixo. “Essa mulher é impossível” dizia ele, Sérgio, durante os ensaios de “Quartett” de Heiner Müller – tradução de Millôr Fernandes – “ela simplesmente não entende nada do que está falando”.“Ele é surdo. Completamente surdo, Gerald!”, berrava Tônia, a respeito de Sérgio. Estavamos todos numa espécie de guarda-móveis, guarda-roupas ou garagem na casa de Tônia no Jardim Botânico, Rio, onde ensaiávamos. O ano era 1986, Rio de Janeiro. A estreia estava perto e íamos inaugurar (acho) o Teatro Laura Alvim.Quando eu não estava em cima de uma estante (aos berros, por causa de um rato!) estavam eles – os dois atores, aos berros, um com o outro. Eu morria de rir. Eles se amavam. O que acontecia fora de cena, na verdade, é o que deveria acontecer dentro da cena.Se eles tinham conhecimento disso? Sim, o Sérgio Britto sim. Choderlos de Laclos havia escrito esse romance epistolar e sexual – “Ligações Perigosas”. Müller pegou a parte mais verborrágica e filosófica da coisa, mais “Tchecov e Hegel” da coisa e a colocou num acirrado confronto teatral. E, entre insultos escatológicos, os dois atores deveriam se amar, se odiando. E, na prática, era mais ou menos isso que acabou acontecendo.Tônia Carrero acabou ganhando o Prêmio Molière. E eu acabei entregando esse prêmio a ela. Muito orgulho! Ela cochichava no meu ouvido: “agora olha para o lado direito meu amor, porque assim você revela meu lado esquerdo” (risos).

Um ano antes, Tônia tinha ido a Nova York ir ver a minha encenação do mesmo “Quartett”, com Crystal Field e George Bartenieff no Theater for the New City, e tinha saído para jantar com o autor e comigo.

Ela e o Sérgio eram aquele rato de teatro que me perseguia naquela casa cheia de criados. “Geraldo!!!!!” (esse era o nome de um dos empregados)….”sirva já um café fresco para o seu xará americano”, ela dizia sorrindo enquanto saía da piscina. Eu chegava horas mais cedo.

“Chega mais cedo. Chega e almoça aqui. A gente conversa sobre o mundo. Sobre Nova York, sobre Paris. Quero ficar suja em cena como a Crystal Field ficava. Quero desmoronar essa figura que criaram para mim, Gerald. Quero me desmontar”, dizia ela.

Mas será que isso aconteceu? Nos anos 2000 encontrei com ela num spa no Rio Grande do Sul. Não, ela não se desconstruiu. E nem havia porque.

Caramba! Que loucura. Ela morreu. Quando recebi a noticia hoje de manhã aqui nos Alpes, fiquei aos prantos como estou agora. Sim, 95 anos. Noventa e cinco anos. Não importa. Ela era divertida, liberal, liberada, desbocada e inteligentíssima. Um “mulheraço” anos luz na frente do seu tempo.

Confessou, na minha entrevista da TV UOL no ano 2000, que fazia sexo a 3 ou a 4 nos anos 50 e 60. O que ela construiu com o Paulo Autran foi uma das mais lindas relações amorosas que existem na historia. Mesmo aqui na Suiça, estávamos sob neve e temperaturas sub zero há semanas. Os céus se abriram hoje, o sol raiou pra recebê-la. Vai meu amor de Laclos. Vai com Deus. LOVE.

Gerald Thomas

 

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