Adriane Gomes escreve sobre “Entre Duas Fileiras”

“É impossível chegar ao fim deste livre e não dizer, admirado: como Gerald Thomas escreve bem.” 

Gerald Thomas entre duas Fileiras

Autobiografia
editora Record

“É impossível chegar ao fim deste livre e não dizer, admirado: como Gerald Thomas escreve bem.” Carlos Andreazza

Conseguir escrever sobre este livro me parece quase impossível, dada a trágica emoção que está ainda aqui entalada na minha garganta, e ainda dentro do meu estomago, e depois de semanas eu ainda penso neste menino que segura a mão de sua mãe ao atravessar a rua.

 Este livro não é tão somente a vida de um artista, este livro é uma performance, este livro é uma ficção de verdade, este livro é um quadro, um desenho, um rabisco com traços e assinatura única, onde Gerald desenha sua vida, onde acontece encontros, palavras criadas, performances, dança, e eu choro como criança lendo as linhas, as entre linhas e cada desenho e cena de uma vida real,  engolindo as salivas (o gosto da vida) que enchem a minha boca, porque meu corpo saliva, e meu corpo escorre suor a cada situação entre capítulos, e meus olhos se enchem de lagrimas, e me emociona. Agora pensar em tudo que li, e cada amor e cada mulher amada  e os seus dias em países entre fileiras de gentes nas portas dos teatros por onde ele passou me fazem pensar na minha própria vida.

 Me emociona este começo e este fim sem fim, e quando eu olho pro lado, ele esta aqui, me olhando e me pedindo um café nesta enorme xícara.

Sobre ler livros: nunca consegui ler livros em uma sentada somente, eu preciso ler pagina por pagina, eu preciso ler, eu preciso ler a cada dia, dia após dias, e foi assim que eu me entreguei e me senti parte desta incrível historia da arte, quando me enterrei completamente nos primeiros capítulos onde lí duas vezes seguidas porque aparentemente eu reconhecia aquele começo, sim sou dessas que viu todos os vídeos na biblioteca incompleta e virtual do site de Thomas, sim eu sentei e ainda sento e vasculho cada pedacinho da escrita e dos desenhos deste artista e sou dessas que se apaixonou pela voz, e por cada gesto, anti gesto, e então aquele começo me seduz e me emociona, este começo dos sete dias é como o primeiro amor, é como os seios de uma mulher amada.

É assim que eu me vejo quando o leio, sua escrita me torna  naquele personagem: eu sou a mãe, sou a mulher na calçada, e sou o menino, ele também é o menino que esta na rua e…  de fato eu não posso dizer mais nada alem disso, vocês precisam ler também, mas de alguma forma eu ainda sou essas pessoas e dentro de mim elas estarão sempre vivas desde aqueles dias em que lí por duas vezes esses sete dias.

Seguindo a logica, alguém me diria que é necessário ter cultura ou ser inteligente para ler Gerald Thomas, não creia nisso, qualquer pessoa pode ler e se encantar e depois dar um Google nos nomes citados nos teatros, nos festivais, nas citações, ele te leva a buscar conhecimentos é o vão da fileira que te faz crescer, e você vai ter mais conhecimentos, porque a escrita de Gerald é uma viagem e uma viagem é para todos.

Tenho certeza que falta muitas historias dessa Autobiografia, porque tenho ainda mais dúvidas após ler, a vida entre artistas é como um Jogo de Xadrez, e a cada dia as duvidas ao mover peças se tornam ainda maiores, este livro é para qualquer pessoa que goste de historias, mas principalmente para artistas, que sonham com coisas impossíveis, que buscam esperança, que mesmo tremendo sonham em utopias, e que imaginam, o palco como casa, o palco como sagrado, o palco ao lado das maiores estrelas entre elas Fernanda Montenegro, e todo seu respeito por um ensaio, o palco seu local sagrado, e ele aprendendo com esses mestres se torna tão humilde nas suas escritas que me choca, reconhecer esse Gerald de muitas historias e varias facetas.

E a cada dia que eu olho para sua escrita eu enxergo gentes, e mesmo na minha miopia e confusão interna eu penso no Machado de Assis, eu penso nesse jogo psicológico que o Machadão criava, e como toda humildade e com meu pouco conhecimento, penso que suas escritas tem algo em comum, e que os Deuses me perdoem, mas se você olhar mais de perto, entenderá esse vazio, esse amor, e essa verdadeira paixão pelo jogo (playing), e é nesse sentido que eu vejo nestas escritas algo, esse mesmo algo de diluvio, ou esse algo incomunicável, que as vezes pode ser enfadonho, porem jamais você perdera o desejo de continuar na historia. Não dá pra fechar o livro, não há cartomante, nem historia com fim é um eterno recomeço. Recomeço com novas histórias, com desejo de mudança, como um olhar para esse mundo, e ao acordar ainda deseja mudar o mundo, e isso o angustia, recomeço com desejo de ajudar pessoas todos dias, quando seu telefone começa bem cedo a apitar, e uma eterna angustia de perceber que sozinho ele não vai mudar o mundo. Esse homem do livro nem de perto é o homem generoso, e angustiado ao qual encontro todos os dias ao acordar, esse Gerald do livro é muito mais desencanado e sofre menos, na vida real ou na vida real da sua ficção criativa, Gerald é o menino que desenha sua historia aos cinco anos pensando nas suas angustias e imaginando seu futuro. Ele é o mendigo, o catador de lixo, o peixe no copo mergulhado na água. Algumas historias serão contadas agora e outras amanha, e talvez amanha venham ainda as melhores historias, mas para isso ler essas historias hoje é o começo e começar é o princípio da criação. Para que depois haja recomeços com sabores de inícios.

Adriane Gomes

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