“Eu choro” (texto de 2013 © Copyright Gerald Thomas NYC)

Duchamp’s wheel tattooed on a leg

De Gerald Thomas © New York , April 2013

Eu choro de noite sentada na cama sozinha olhando o mar ou o teto ou os lençóis…e eu choro quando acordo, olhando a cômoda que me olha como se fosse um Kafka me olhando…(e, ca entre nós – eu também dou umas belas choradas entre o choro da noite e o choro da manha!).

Eu não choro os meu mortos não. Já se foram todos. Não sobra mais ninguém. O ultimo deles era tão excêntrico que uma cadeira de rodas não bastava: precisava de umas quatro! Eram umas quatro e a cabeleira dele se espalhava pelo quarto do Hospital de tal forma (e ele todos desdentado ali, respirando como se fosse o pulmão do universo, tadinho!) que eu disse assim: “vai querido, você ta acabando com a pouca camada de ozônio que nos resta! Deixa ela pra nós. Vai e vá em paz. E assim se foi o ultimo!

Eu tinha acabado de vir de um lugar que eu visitava muito na infância: a ladeira do Jerusalém, la na Vila do Holocausto, na Ilha do Governador. Eu era muito jovem, tinha uns 22 ou 23 anos e….me lembro bem, como se fosse ontem, anteontem, eu colocava um Black tie.
Eu pegava uma papelada imensa la dentro de um tal de Pavilhão 17 – um tal de Pavilhão Kaddish, administrado por um tal de Eichman (mais tarde preso na Argentina pela Mossad Israelense) e, com esses papeis eu pegava o 444, o ônibus da MORTE, como eles diziam.

Eu ria.

Naquele tempo eu ainda não chorava.

Chorava por outros motivos.
Um dia chorei porque….
Bem , deixa pra la.

Não, eu posso dizer aqui sim. Chorei porque senti uma tremenda náusea e o CALOR ESTAVA UM INFERNO e já estava no segundo mês de gravidez e vomitei em pleno ônibus e ninguém me ajudou.

Exceto um. Um homem me ajudou.
Um louco me ajudou.
Me ajudou a sair do ônibus e me acompanhou ate um bar onde me troquei, me limpei e ele me esperou. Ele me contou um pouco da sua vida. Tinha sido da Marinha Mercante e já tinha sido internado como louco e…pintava e bordava….e se chamava (como era mesmo o nome dele?)…Arthur ….Arthur Bispo….algo assim.

Mas naquele tempo eu ainda não chorava.

E, claro, eu tinha responsabilidades.

Eu tinha responsabilidades.
Eu tinha responsabilidades.
Eu tinha responsabilidades.
Eu tinha responsabilidades.
Eu tinha responsabilidades.
Eu tinha responsabilidades.

(desdeperada)

HOJE EU NAO TENHO MAIS PORRA NENHUMA
ENTENDEM?

TA TUDO UMA MERDA ! TA TUDO HORRIVEL E NAO TEM MAIS NINGUEM !

NAO TEM MAIS NINGUEM !

FORAM-SE TODOS!!!

EU VIVO AQUI MEU LUTO!

O QUE EU VIVO AQUI DENTRO…nao é muito diferente daqueles….daquilo….de um Auschwitz. Vivo o meu próprio Campo de Concentração.

Sim, vocês me ouviram e eu me ouvi também.
Eu vivo o meu próprio campo de concentração criado por mim, por vocês e por essa merda que é esse ciclo de vida ingrato, inumano, de ir perdendo gente, perdendo gente que se ama, de uivar do berço até o tumulo até o urro final , ate os dia INFELIZES em que so resta mesmo a CARA a mostra e o corpo já todo EN-TERRADO com nossas pequenas manias e pequenas posses em riste, punho em riste e pra que?

Pra que?

Pra revisitar a ladeira do Jerusalém, la na Vila do Holocausto, na Ilha do Governador. É porque estive la hoje pra visitar os netos dos bisnetos e recebi um bombom – de chocolate horrendo, flavorizante puro, tudo artificial, tudo derretido, tudo já pré-mascado por um doberman e eu, toda sorrisos, coloquei aquilo na boca pra não magoar ninguém enquanto os papeis que eu fui buscar DESAPARECIAM.

Puta merda. E agora?

E agora? Agora eu não sei se eu marquei com a Zeena aqui ou no qüinquagésimo sétimo andar daquele prédio do centro da cidade, entende? Ah, a Zeena. Claro que não é o nome verdadeiro dela. É nome de guerra. Guerra mesmo! Segunda Guerra Mundial, divisão de infantaria da Resistência Polonesa que vazava pras forças Aliadas os documentos importantes dos Nazistas praquele BUM retumbante que resultou no massacre de Dresden.

Nossa ! Que loucura.

2013 New York NY 10010 (Copyright) Gerald Thomas

Leave a comment

Filed under Uncategorized

Comments are closed.