Belíssimo texto de André Bortolanza ! OBRIGADO querido.

Quando eu entrei no primeiro curso de teatro aos 13 anos, o Gerald era uma referência forte pra mim. Eu lia todas as entrevistas, colecionava artigos e juntava as fotos das peças na minha imaginação. Assim tentava reconstruir, a minha maneira, aquelas montagens que eu não tinha visto. Na faculdade fui aluno da Sílvia Fernandes, que escreveu um livro sobre o Teatro do Gerald. Sempre ficava importunando a Sílvia com perguntas sobre ele. Já formado, fui trabalhar com a Bete Coelho e o Luiz Damasceno, atores centrais da Ópera Seca. Nos intervalos dos ensaios e nas coxias, sempre arrumava uma oportunidade de perguntar: “E o Gerald?” Um dia o Dama me emprestou uma caixa de fitas VHS das montagens da companhia. Um material bem editado que dava uma medida real das peças. Naquela época o Gerald já tinha sido casado com pelo menos três mulheres que eu respeito e admiro demais: a Daniela, a Bete e a Fernanda Torres. Eu pensava: “Mesmo que ele não tivesse feito mais nada na vida, já merece o meu respeito por esse trio”. Mas ele fez, e muito. Ainda tinha o Oiticica, o Beckett, o Julian Beck… e uma série de artistas, ataques de amor e ódio, paixões e incompreensões. Era um universo fascinante e desafiador. Um dia, em 2006, o Gerald abre teste de atores para a montagem de uma tetralogia chamada “Asfaltaram a Terra”. Foi assim que eu entrei pra companhia. Logo no início dos ensaios, numa conversa de camarim, contei pra ele do meu histórico e fui convidado pra ser assistente de direção. Eu hoje brinco com ele dizendo que um dia vou escrever um livro dos bastidores das montagens. O que acontece durante os ensaios é tão eletrizante quanto as cenas no palco. Acompanhar um processo do Gerald é uma aventura que só pode contar quem já viveu. Porque é preciso estar realmente vivo pra suportar. É impossível passar impunemente por isso. Assistir um autor dirigindo é sensacional. Presenciar o texto surgindo na hora da cena, para aquele ator específico, ressaltando as idiossincrasias daquela persona. E ainda assim, o Gerald está em todas as figuras que habitam seu universo. Não existem personagens nas suas peças, porque todos os atores em cena representam o Gerald Thomas. São muitas camadas sobrepostas. Os ensaios são por ora tensos, mas também hilários. Ele é muito engraçado e trabalha se divertindo. Isso é quase uma regra. Durante as apresentações, o Gerald fica na primeira coxia esquerda e eu, quando posso, fico do outro lado, de frente pra ele. Estou ali para ver o Diretor mudando a cena, criando textos que ele sopra aos atores durante a apresentação, com o público presente. Não conheço nenhum processo de teatro tão vivo. E ao mesmo tempo tudo é mentira, tudo é ilusão, uma grande brincadeira com uma torre segurando um elipsoidal e um sarrafo sustentando o cenário. Um dos livros que a Silvinha organizou chama-se “Um encenador de si mesmo” e o título de uma das suas peças é “O Império das Meias-Verdades”. É isso! Tenho muitas histórias, algumas registradas em centenas de e-mails que trocamos ao longo dos anos. Muitas delas sempre animam rodas de amigos. Como aquela em que eu tive que demitir na noite da estréia a acrobata que ficava pelada, pendurada e sangrando e contratar uma substituta para a apresentação da noite seguinte. Um dia ainda escrevo esse livro. Os processos do Gerald me deixaram grandes amigos e experiências que justificam o amor ao Teatro. Ele acolhe todos os julgamentos que projetam sobre sua persona pública e, ao mesmo tempo, não é nada disso. Desde o começo, por alguma mágica do meu olhar, eu pude vê-lo além dessa máscara que ele, a classe artística, a platéia e a imprensa construíram e alimentam ao longo dos anos. Tudo é teatro, não só o que está em cena. A arte transborda o palco e vinga a vida convencional, careta e conservadora. Não é fácil. É um desafio diário, mas pra quem está ganhando gosto pela intensidade da vida, vale a pena correr o risco Gerald Thomas. Dizem que a gente é muito diferente e muitos não entendem como essa parceria pode durar tanto. O fato é que não somos tão diferentes assim, são apenas disfarces das nossas personas. Ou talvez sejam essas diferenças que equilibram a loucura do outro. Não sei. A gente se entende no silêncio. O fato é que a gente se ama. É declarado. É um privilégio, um presente e uma Alegria estar ao seu lado. E ele ainda desenha daquele jeito! E toca! Trabalhar com o Gerald Thomas é Rock and Roll. Na próxima segunda-feira, começam os ensaios de DILÚVIO, a sétima peça em que trabalho com ele. Play.

André Bortolanza

São Paulo, 16 de Setembro, 2017

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