PTSD – eu sofro dessas letras. Voces sabem o que é isso? Sabem !

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PTSD

Um dia, quem sabe, alguém poderá me explicar a cor do monstro que reside atrás daquela porta. “Mas qual monstro, Gerald ?” . Pois é. Nenhum.

Um dia, quem sabe, alguém haverá de me explicar porque eu tremo, choro, me encolho, desapareço por dias, invento desculpas, desmarco encontros importantes, crio dores que não existem, durmo demais, durmo de menos, como demais ou não consigo comer e torno a chorar convulsivamente por…. nada. Ou quando vejo uma cena que já me comoveu inúmeras vezes antes: Refugiados, desterrados, aqueles que sofrem numa guerra e nada tem a ver com ela.

Sim, a injustiça é FODA ! É uma cena comovente sempre. Não há mesmo como escapar. Mas por que ficar “preso nela e preso por ela?”. É aí que entra o tal do PTSD.

Ao ver uma cena assim – como de fato eu via em outros momentos da minha vida (nos anos em que trabalhei pra Amnesty International e o Russell Tribunal e a Liga dos Povos), eu ia pra ação: pegaria o telefone, telex, fax, o diabo a quatro e faria doações, telegramas, ou entraria online e…enfim…seria o ativista politico que já fui.

Hoje não.

Hoje eu simplesmente caio. Choro. Reclamo. Tenho piedade de mim mesmo. Que merda isso.

“Não se culpe, Gerald. Não é você. É o PTSD ou melhor, a síndrome do choque pós traumático. É o que me dizem. Ficou mais claro depois de 11 de setembro (que presenciei da minha janela, ao vivo, sem muitas cores, em Brooklyn, naquela horrível manhã).

É ! Desde aquele dia as coisas foram ficando piores e o medo… a insegurança… de perder tudo foi ficando mais forte.

Já não era muito bom. Cresci com meus pais dizendo “Rápido! Pegue tudo! Estamos de partida em 5 minutos”. Eu relato isso na minha autobiografia. Sempre achei que eu tinha nascido numa família de criminosos mas não. Eram refugiados de guerra. Ou melhor, sobreviventes do holocausto e…sofriam de PTSD e achavam, naturalmente, que regimes políticos depois da guerra, iriam voltar a persegui-los também.

“Rápido! Pegue tudo! Estamos de partida em 5 minutos”. Eu também sou assim. Guardo tudo em sacos plásticos até hoje. As coisas mais sem importância.

Fazem três dias que tento embarcar de volta pra casa em NY. Mas não consigo. Fico na cama, sem comida pois nem pro supermercado eu consigo ir. Tenho exatamente uma única fatia de pão (sem gluten, note-se) na geladeira, e um pacote de ravióli ainda pra ser usado. É pior que patético. Não faço barulho pra que os vizinhos (uns amores) não me ouçam pois tenho medo que batam na porta, oferecendo ajuda.

Não quero ser visto.

Quando me vi no programa “Roda Viva”, no ultimo 23 de Janeiro, desmoronei. Não me perguntem porque. Tudo mudou. Desmoronei. Não era eu ali falando, gesticulando. E o pior (ainda pior) é que esse é justamente um texto que escrevi em 2004 pra Marco Nanini chamado “Circo de Rins e Figados”. Agora, pareço estar vivendo dentro desse momento da peça.

Síndrome do Choque Pós Traumático (imagino eu) ainda deve ser algo pouco estudado. Confesso que ainda não coloquei no Google, mas já vi muita coisa na TV a respeito pois vivo nos USA e aqui é lugar de veterano de Guerra do Vietãm, da Coreia, Afganistão, enfim…das Guerras Mundiais. Aqui as pessoas trazem memórias horrendas que….deixa. Era a minha neura que precisava de explicação pois eu não estive em guerra alguma senão a GUERRA CONTRA as GUERRAS.

Será que a minha PTSD é a síndrome da covardia? Ou da abstinência?

Tenho medo das respostas que virão. Assim como tenho medo das 2 milhões de respostas que vem quando coloco “benefícios dos antioxidantes” “os perigos ou benefícios do Omega 3, 6 e 9” ou algo assim.

Esse artigo (obviamente) é um work in progress.

O problema agora é conseguir abrir a porta. Tomar um Rivotril, abrir a porta e esboçar um sorriso. Esse é o dia 4. Nenhum sucesso ainda.

Gerald Thomas

 

 

 

 

 

 

 

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