Por JARDEL DIAS CAVALCANTI (resenha de “Entre Duas Fileiras”)

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Gerald Thomas, uma autobiografia.

(Jardel Dias Cavalcanti)

“Tornei-me consciente de ser um – eu e a vida – o que significava, em meu caso, buscar uma expressão artística para minha existência.” A frase de Oskar Kokoschka poderia ter saído da boca de Gerald Thomas. A sua autobiografia Entre duas fileiras, editada agora pela Record, apresenta como o dramaturgo encontrou para sua vida o caminho da expressão artística. Nem a autobiografia escapou de ser, também, uma obra de arte, um exercício de escrita artística.

O que Gerald Thomas faz não é um relato de fait divers de sua vida (fait divers como o refugo desorganizado das notícias informes, segundo Barthes). Ao contrário, o que pressentimos é um mergulho do homem do presente, com suas angústias atuais, revendo o passado (e o presente) de uma forma, por vezes, impiedosa. Para ele e para os outros, como para os mundos onde viveu e vive.

GERALD THOMAS, BENVENUTO CELLINI E GOETHE

Estamos numa época narcísica, com as livrarias recheadas de biografias e autobiografias. Sintoma do caráter individualista burguês da nossa cultura selfítica? No entanto, não é de hoje que existem autobiografias, e nem sempre elas são apenas o reflexo de um narcisismo decadente. Para ficar em alguns casos célebres, temos Cellini, Goethe… e, atualmente, essa de Gerald Thomas.

CELLINI

Talvez a primeira autobiografia da história tenha sido escrita no Renascimento (sec. XVI) pelo ourives e escultor florentino Benvenuto Cellini, época onde já se havia superado o conceito medieval de que escrever as próprias memórias seria um ato de extrema vaidade. Cellini escreveu sua Vita quando o artista era sexagenário e, diferente das outras autobiografias da época, chamadas de libri di ricordanze, onde apenas se anotava a circulação financeira, batismos, casamentos, funerais etc, ou seja, registros de fatos cotidianos, sem a intensão de registrar uma determinada imagem de uma pessoa, diferente disso, Cellini acreditava estar escrevendo, ao narrar as suas memórias, uma obra literária.

Uma autobiografia para ser importante não deve fornecer dados apenas sobre a pessoa que escreve, ela deve ser culturalmente importante, sendo também uma reflexão sobre uma época. Outra questão que envolve a autobiografia, essa dada pelo próprio Cellini em sua justificativa de redação de suas memórias, é que são os homens que praticaram atos virtuosos, e já estando em alta idade, que devem deixar registradas suas experiências para a posteridade. Diz ele: “Todo homem que produz qualquer obra de mérito deveria, sendo sincero e honesto, escrever com o próprio punho a sua vida; mas essa empresa não deve ser encetada antes dos quarenta anos.” Em um soneto ele resumiu seu desejo: “Escrevo a minha vida acidentada// altas coisas eu fiz na minha estrada.”

Do ponto de vista da escrita, Cellini segui como inspiração a obra Le vite de Giogio Vasari, mas partindo de um modelo, buscou superá-lo, opondo-se ao estilo polido da narração clássica, escrevendo uma narrativa mais espontânea e agressiva. Outra questão que chama a atenção é que sua autobiografia foi escrita depois da fundição de seu Perseu e que a segunda parte trata justamente do processo de elaboração de sua obra prima e as agruras que teve que passar até concluí-la. Ou seja, trata-se do homem virtuoso que supera as agruras da vida para terminar sua grande obra. Por isso, pode tornar sua memória pública.

GOETHE

A proclamação da individualidade dos artistas e o culto ao gênio atormentado pelo Romantismo deu impulso ao acesso à Vite de Cellini. Goethe ficou muito impressionado com a autobiografia de Cellini durante sua viagem à Itália. Não só leu como a traduziu para o alemão e prefaciou em 1796 a obra do florentino, existindo inclusive entre os críticos a ideia de que a cena de uso de necromancia em pleno Coliseu para conquistar uma mulher, presente na obra de Cellini, influenciou o Fausto. Ou seja, a autobiografia de Cellini estava presente no berço do pensamento romântico alemão.

Goethe também escreveu suas memórias, cujo título é Memórias: poesia e verdade. O objetivo de sua autobiografia foi apresentar a história de sua formação interior, do seu intelecto, e as transformações a que passou ao longo da vida. Suas emoções íntimas, no entanto, não são expostas. Segundo observa o comentador da tradução brasileira “a biografia, segundo Goethe, deve apresentar o homem em relação com sua época, determinando até que ponto a situação histórica o contraria ou favorece, que tipo de cosmovisão decorre dessa influência e – quando se trata de um artista – como suas concepções se refletem em sua obra”. O que suas memórias revelam são as circunstâncias peculiares que deram origem a cada obra, expondo impulsos interiores, influências externas e etapas vivenciais vencidas na teoria e na prática, numa inter-relação tão estreita com sua obra poética que as fronteiras entre a escritura ficcional a autobiografia se perdem e o resultado é uma espécie de Bildungsroman da vida real.

O GÊNIO ACIMA DA LEI

Outro leitor romântico apaixonado pela Vita de Celinni foi Byron que a traduziu para o inglês, embora não tivesse publicado a sua tradução. A mais famosa tradução para o inglês foi feita por John A. Symonds. Na tradução de Symond algumas passagens foram retiradas. Uma delas chama a atenção. A ideia do artista como gênio acima da lei é mencionada quando Cellini, acusado de assassinato, é defendido pelo papa Paolo III nos seguintes termos: “Você não sabe que um homem como Benvenuto, único na sua profissão, não deve obrigações à lei.”

Na França a autobiografia de Cellini foi traduzida por Lamartine em 1866 e o compositor romântico Hector Berlioz compôs uma ópera em 1838 com o nome de Benvenuto Cellini. O autoretrato do artista elevado à condição de arte.

GERALD THOMAS

Chamei para esta resenha a presença de Cellini e Goethe porque vejo uma identidade entre a obra autobiográfica dos dois e a autobiografia Entre duas fileiras, de Gerald Thomas. Na verdade, no caso particular de Gerald se acentua o que neles é apenas ainda um anúncio tímido da liberdade de expor elementos da sua intimidade e personalidade, enquanto, pensando na identidade entre os três, o que os une é a ideia de revelar a constituição de sua formação pessoal, de suas obras e a crítica ao seu próprio tempo.

A não separação entre a própria vida e a obra (não que a obra derive diretamente da vida) é o que Gerald faz mais do que os outros. A vida, e não apenas as suas obras, tratada em suas façanhas como obra de arte, ou como algo excepcional, eis o que pretende a narrativa de Thomas. Um pouco mais além, a própria escrita de suas memórias sendo elevada à categoria de construção ficcional, o tal Bildungsroman da vida real, como me referi no caso de Goethe.

Explicar sua obra, elevando a própria vida à categoria de arte, é o que Gerald Thomas parece, no fundo, buscar. A autobiografia é mais um capítulo da vida do dramaturgo, um dos momentos em que quer continuar construindo-se, só que agora de dentro para fora. Construindo-se e criando uma ficção-vida tão interessante como sua obra.

CULPEM KAFKA

A trajetória cultural de Gerald Thomas impregna sua autobiografia. A importância atribuída aos livros lidos, às obras de arte visitadas, aos artistas conhecidos e admirados revela suas opções estéticas e suas posturas frente à vida. Revela como foi afetado por todo essa manancial. A sua formação é o resultado da vivência de uma cultura que vai do clássico ao moderno e às vanguardas, do erudito ao popular, em todas as áreas de interesse: música, dança, teatro, literatura, política, filosofia, ciência, com acesso a autores como Goethe, Rembrandt, Schiller, Kafka, Gertrude Stein, Joyce, Haroldo de Campos, Schoënberg, Wagner, Freud, Beckett, Phillip Glass, Sontag, Fernanda Montenegro, Hélio Oiticica, Alban Berg, Borges, Francis Bacon, Warhol, Duchamp, Kantor, Nelson Rodrigues, Zé Celso, Led Zeppelin, Roling Stones, Deleuze, Artaud etc. Basta visitar o índice onomástico do livro para se perceber a dimensão dessa praia.

As frustrações, depressões e irrealizações são tratadas na autobiografia como parte constituinte de Gerald Thomas tanto quanto as suas realizações invejáveis. Seu lado humano é acentuado a cada página, seja confessando sua compulsão sexual, seu uso de drogas, sua vida sexual bastante variada, suas fadigas existenciais, seu tédio, seu desejo de morrer, de viver, de foder, de criar… Sempre, em seguida à narrativa desses fatos relativos à sua vida e aos seus problemas pessoais, descreve, já em um código literário, o resultado reflexivo dessas experiências. Por exemplo:

 “O que importa é que a batida da vida parece ser marcada por um estranho relógio. E os ponteiros desse relógio não apontam para as realizações de alguém. Eles apontam para os desempenhos ruins, para as frustrações insolúveis e para a tristeza, e eu me pergunto porque é assim.”

Descrente da ideia de uma “realidade” (credos, guerras, ideologias, políticas falidas), Gerald Thomas dedica seu livro aos “ARTISTAS”, aqueles que fazem da arte e da utopia um compromisso. E é descrendo da “realidade” que decidiu escrever uma autobiografia não dos fatos apenas, mas a partir de sua mente atual, de seus sentimentos atuais, de suas observações críticas sobre o passado à luz do que é hoje. Por isso o caráter ficcional da escrita, esse jogo de sombra e luz sobre si mesmo, foi a forma mais apropriada para não cair numa descrição objetiva e linear dos fatos passados.

Gerald Thomas avisa aos seus leitores: “Embora meus sentimentos sejam obviamente pessoais, ao serem expressos e exteriorizados, eles passam a pertencer a vocês, e já não a mim.” A danação do leitor é também um desejo do autor. Expondo-se, está sujeito à crítica, ao ataque, ele que já sofreu todos os tipos de ataques (e todos os tipos de elogios). Mas também ataca, seja um grande músico como Luciano Berio ou apenas uma situação social por ele observada mas que não desceu pela garganta.

Sendo um “encenador de si mesmo”, aliás título de um livro sobre ele e com textos dele, ele sabe, ao provar da comida modernista de Rimbaud, que o artista é outro, “atuando” tanto fora como dentro da sua obra. Sua condição é a do judeu errante, envolvido na criação de um grande mosaico, gerado a partir de sua observação e participação no mundo. Como ele mesmo diz: “Este palco é meu rosto, e meu rosto é, acima de tudo, um lugar neutro, uma plataforma a partir da qual construir. Meus genitais são minhas salas de ensaio, a coxia é meu pau e minha bunda; minha mente, um mosaico abrangente de imagens se desdobrando em palavras, palavras, palavras sendo ditas”.

Esta autobiografia tende a ser polêmica, como sempre foi seu autor. Mas isso é a ponta do iceberg. Gerald é uma espécie de discípulo de Andy Warhol. Sabe que um pouco de lama faz bem para a fama. Sob a ponta do iceberg, existe, no entanto, um mundo de criação tão importante quanto esses “descaminhos do demo”. A polêmica é apenas “o tiro durante o concerto”, não tem nada a ver com a música mas nos chama a atenção. Mas logo passa, e o que fica é um universo mais amplo de criatividade.

Como bem disse Fernanda Montenegro, “Gerald Thomas existe por sua qualidade demolidora, por sua inconstância, por seu inconformismo (…) por ser um monstro de criatividade, por sua diabólica, eterna e inconformada Arte.”

Autobiografia como um retrato esfumado da existência interior (e externamente tumultuada) de um criador ousado, jamais tranquilizado por nada, que atordoou o teatro e a crítica brasileira com suas intervenções excepcionais, com um referencial de vanguarda que ora encenava Beckett, Kafka ou Wagner, como sua própria produção, também ousada.

A generosidade de Gerald Thomas suplanta sua vaidade (como não ser vaidoso com tamanha produção?). Pegue-se o caso da adoração do dramaturgo pelo poeta Haroldo de Campos (que era grande admirador do seu teatro). São infinitas as vezes em que Gerald Thomas expõe publicamente sua profunda admiração por Haroldo de Campos. Escandaliza-se com o fato de que um gênio desse porte tenha recebido (ou receba) um tratamento tão acanhado no Brasil. Como se a ausência de uma estátua em praça pública do poeta fosse um atentado suicida contra o próprio processo civilizatório do país – desse país que renega seus grandes talentos. Na autobiografia registra seu interesse pelo poeta que chamou de o “Fausto brasileiro”: “A vontade de conhecer Haroldo era mais que um capricho ou fascinação que eu sentia por sua obra. Era profundamente importante para mim. Eu queria sabe como ele se sentava, como bebia, e queria ouvir sua respiração.”

Atravessa aqui e acolá na autobiografia a verve pessimista do autor (a visão de quem viu a cara do mundo e conhece sua história e sabe de suas malditas tragédias diárias… centenárias, milenares). Diz Gerald: “O mundo de Fausto nos afeta em grande parte porque expõe nossa vulnerabilidade de merda e nossas vidas dispensáveis de merda.”

Vulnerabilidade que quase o levou à morte, numa tentativa (ainda bem que) fracassada de suicídio. Descrença absoluta nos rumos do mundo, da própria vida, do resultado de sua arte? Não fica claro na autobiografia. Mas juntando-se os fatos relatados na obra e como Gerald Thomas os percebe, as suas contrariedades pessoais (como artista), ter que aturar a cafonice do mundo atual, amigos que desaparecem, as traições, o consumir-se nas notícias diárias dos assassinatos de guerra e fome… diante de um artista à flor da náusea, o que resta?

A verve literária continua, ao longo do riverrun autobiográfico, em escritos irônicos como o seguinte, que traduz de alguma forma o lugar que ocupamos no mundo, esse mundo que ele ama e odeia em igual intensidade. Com esse texto terminamos nossa resenha:

“As janelas OLHAM de volta porque, no século XXI, cada janela olha para outra janela. E, na OUTRA janela, existe um ser, como eu, olhando para fora e se perguntando.

E, notando os milhões de olhos olhando para o nada e contemplando O TEMPO, o tempo da Terra, o tempo passando por nós nesta Terra, eu…

Eu mesmo. Meu rosto se obliterando.

A janela também se pergunta, me olhando nos olhos, pois o que é aquilo que vejo refletido nela?

Eu mesmo, e meu rosto, o tempo todo.

E que mentira tem sido isso.

Tchau.

Adeus e obrigado por permitirem que eu existisse – brevemente – entre vocês.

O FIM???

É claro que não.

Se precisarem de uma pausa para banheiro, drinques, e assim por diante…

Fiquem à vontade! Dez minutos, e estaremos de volta.”

JARDEL DIAS CAVALCANTI

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