Luiz Carlos Maciel : “MACIEL ON GERRY”

 

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MACIEL ON GERRY

Quando comecei a ler Entre Duas Fileiras, levei um susto. Parecia um romance de vanguarda. Lembrei de Godard dizendo que um documentário fica bom quando se aproxima da ficção e um filme de ficção fica bom quando se aproxima do documentário. Achei que a ficção fica boa quando se aproxima da autobiografia e, por sua vez, a autobiografia fica boa quando se aproxima da ficção. Gerry é um escritor de vanguarda. Suas raízes estão em caras como Franz Kafka, James Joyce, Samuel Beckett e Haroldo de Campos. É um autodidata. Não consta que tenha feito algum curso de alguma coisa na vida. Sempre foi autodidata, professor de si mesmo. Sua liberdade para escolher seus mestres, seus guias, é total. Muitos deles fazem parte de suas relações de amizade pessoal, como Beckett, Campos ou Philip Glass. Aliás, em todo livro, o único cara que o chama de Gerry é Glass. Agora são pelo menos dois, eu também. Gerry tem raízes firmes na literatura, nas artes plásticas e na música. Aprendeu teatro, sua arte, na prática. Seus mestres foram os caras com quem trabalhou, ainda garoto. Não cita os teóricos da estética chamada de “espetáculo absoluto” pelos críticos, para marcar sua liberdade em face da base literária que dominou o teatro ocidental desde os gregos. Acho que menciona Artaud umas duas vezes mas não dá bola pra Gordon Craig, Meyerhold, etc. Me lembra Glauber por seguir, como o baiano, a própria intuição com fidelidade canina. Glauber sabia fazer um roteiro articulado para conseguir grana dos produtores mas, na hora de filmar, se abandonava totalmente ao que lhe ditava a intuição. Isso denunciava nele, como agora em Gerry, um artista nato, um artista superior, inspirado diretamente pelos deuses sem as mediações da cultura institucionalizada. Gerry é uma espécie de Jimi Hendrix do teatro, o palco é a sua guitarra. Li seu livro direto, comecei e não consegui parar mais. Nos artigos publicados no Encenador de Si Mesmo, Gerry ainda precisava atender as exigências da imprensa de uma articulação convencional nos textos que publica. Aqui não, está livre, leve e solto. Estou doido para ler seu primeiro romance. Vou botar na minha estante ao lado de Malone Dies, de Beckett.

Luiz Carlos Maciel

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