Pequeno “teaser” da minha autobiografia “ENTRE DUAS FILEIRAS” (Editora Record , lançamento 21 Novembro, Rio)

ancelmo-pdf-2

Capítulo 4

Dia três: material pesado (Pessoa na cama, desligando o alarme e estendendo a mão para um copo d’água).

Levar a vida de um duplo não é exatamente agradável. Não sei se estou sendo operado, se ainda estou deitado sobre meu próprio sangue, com pessoas me encarando, ou se me tornei meu próprio Bait man, pendurado de cabeça para baixo, querendo descobrir ou revelar caixas contendo garrafas de vinho transformado no sangue de filósofos. No entanto, começo a perceber que, em algum momento, devo ter sofrido uma perda parcial de memória. E essa perda de memória escolheu apagar precisamente minha missão, o que ela deveria ser, o que eu deveria fazer. Obviamente, fui trazido para este enredo a fim de interpretar. Há outro dentro de mim, alguém me penetrou. Desde aquela orgia… (O quê? O que estou ouvindo? Sem menção a orgias? Quem está dizendo isso? De onde vem essa voz?) E, entretanto, consigo visualizá-la perfeita e vividamente. Casais, héteros e gays, fodendo noite e dia e consumindo todo tipo de drogas, levando seus fetiches a limites extremos e quebrando todos os tabus. E eu estava lá. É a última coisa de que me lembro antes de caminhar pela Cornelia e pela Bleecker Street.

Enquanto tento retraçar minha visita prévia àquela orgia ou a qualquer outra memória em meu cérebro, penso que estava apenas caminhando pelas ruas. Ninguém me disse para caminhar. Caminhar me atrai e ataca a atenção de várias pessoas que me temem, me avisam sobre um perigo qualquer ou tentam me matar. Essas são sensações que tive e ainda tenho, mesmo agora. São instintivas.

Mas são inúteis, pois presumem que o garoto cego já sabia o que eu fazia ou estava predestinado a fazer. Ele começa a suspeitar, baseado em provas circunstanciais, que pode ser um assassino profissional. Um garotinho e, mesmo assim, um assassino em potencial.

Pelo amor de Deus! Por que alguém quereria me matar?

Talvez eu precise apenas voltar aos dias em que devorava todos os livros de todas as prateleiras da Sala de Leituras do Museu Britânico e começar do zero: Império romano, Toynbee, Hobsbawm, gregos, inquisidores, Antigo e Novo Testamentos e Cabala. Não, essa não é a ordem correta. Descartes, Hegel, Kant, Goethe, Marx e Engels, Zola, Gertrude Stein, Joyce, Mallarmé, Adorno e… e… e… e… até chegar a Barthes e Derrida, que morreu recentemente, assim como Haroldo de Campos, marcando o fim de uma ilusão, de uma era de utopia, da arte concreta ou da poesia concreta – que deu à nossa era um conteúdo, a esse conteúdo uma forma e a essa forma o corpo que ela merecia. Sim, o modernismo, sofisticado demais, desajustado demais ou “inadequado para publicação” neste nosso bravo Novo Mundo. Preciso vomitar.

Gerald Thomas

Leave a comment

Filed under Uncategorized

Comments are closed.