Lavando os pés (Angústias Revisitadas) (© Gerald Thomas 2005)

 

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Eu realmente não estou tranquila. Alias, eu estou….. desesperada! Eu cai na idiotice de achar que uma mulher em pleno final do século XX seria capaz de ser compreendida como mulher, você me entende?

MAS NAO!!!

PORRA NENHUMA!

Apesar de todas as tais chamadas conquistas feministas e essas besteiras dessas bandeiras içadas, tudo não passa de uma bela farsa.

Fui maltratada.

Sou maltratada.

O mundo eh cada vez mais machista.

Cada vez mais dos homens.

E os homens nos olham cada vez mais como se fossemos.

(olhando pra uma televisão que so mostra uma boca em movimento)

 FALA COMIGO CARALHO!

Tá vendo? Até o caralho aparece no xingamento!

A poesia veio como um cobertor pra aquecer, ou melhor pra fazer esquecer a realidade e a mulherada se contenta com o carinho dado, as vezes, no final do dia, depois de traida com uma putinha qualquer….assim como se ela fosse um cachorro vira lata.

Ninguém mais fala com o meu coracao.

Isso já tem vinte anos.

Virei…..

Não sei o que virei

Não sei o que viramos.

Um Paul Gauguin no original talvez

Ou o Nú descendo a escada, so que sem aquele cubismo Bric- a-Braque lindo do Duchamp.

A poesia já existiu por si só, sem ser uma metáfora mentirosa, uma cilada pra encobrir mentiras machistas, num mundo de artistas e políticos machistas, num mundo bélico machistas de paus pequenos e complexados.

Que merda.

Que bela merda.

E quanto aos fetiches!

Eles já serviram tão bem na era da fantasia quando ERAMOS TODOS REPRIMIDOS! DIGO, TODOS, e TODAS, entendem?

De tempos em tempos, pego o catalogo telefônico e ligo desesperadamente pra um bando de gente, so pra ver quem atende. Oitenta por cento são homens. Não, não era isso que eu queria dizer. Homens com aquela voz de homem que nenhum respeito tem por mulher. Da pra sentir pela voz.

Sinto saudades de Auschwitz. Não me choco dizendo isso. Mesmo sendo uma descendente de pessoas que foram assadas la. Saudades mesmo. Visitava aqueles pavilhões, assim como militava em varias facções aqui da luta armada brasileira, mas nunca me deram a oportunidade de uma liderança. Porque? Eu no era inteligente bastante? Como assim? Ouvi direito?

Eles não toleraram a Hannah Arendt porque ela manteve uma liderança intelectual através dos tempos, assim como Simone de Beauvoir. Mas ambas ficaram mais conhecidas pelos amantes que tiveram, Heidegger e Sartre, respectivamente. Não eh incrível?

Eu me pergunto. De quem é a culpa?

A culpa é minha.

Não, não é só minha. A culpa vem da Inglaterra, ou da China, ou de ambos. Ou de nenhum dos dois lugares. Mas ela é mesmo celebrada de quatro em quatro anos nisso que se chama de COPA DO MUNDO.

Explico. Ah, explico porra nenhuma. Ninguém explica mais nada. Querem saber quem separou de quem. E quem…ah, deixa pra lá. Coisas de Facebook.

Nós, mulheres, somos a bola de futebol. Redondas ou magras, somos a bola de futebol.

Onze de um lado, onze de outro nos chutando pra tudo que é canto e sendo chutadas pra tudo que é canto e com uma forca e raiva tremenda….e MILHOES TORCENDO! E, no fim de tudo, quietinho lá parado, somente um pra nos abraçar, pra nos dar carinho: o goleiro.

Um mísero goleiro que chamamos de….”amor”.

Patético.

 Mas não por muito tempo. Já já ele nos devolve aos leões. Assim eu me vejo. Assim eu nos vejo. É triste o que rolamos mundo afora. Nelson Rodrigues já dizia “mulher adora ser chutada em campo”.

Merda. Não era nada disso que ele dizia. Já tomei tantas drogas que nem memoria eu tenho mais.

 VOCE NAO ME OUVE MESMO NE????

Pois, tudo bem.  Não precisa!

Ninguém jamais me ouviu.

Quando fui espancada pelo meu terceiro marido, ninguém me ouviu. Fui ate a delegacia e o delegado sequer me olhou. Disse que aquilo era um caso que “nos tínhamos que resolver entre nos”. Eu sangrava da cabeça ate os pés. Não tinha dinheiro pra ir a um hospital bom. A fila no pronto socorro era enorme. Sentei na calcada e chorei ate desacordar.

Não me lembro onde fui parar.

Acho que acordei num casebre de um traficante.

(no fundo do palco alguns bonecos (realistas se possível) mortos, baleados)

Já estava lavada, e cheia de curativos. Todos cheiravam muito em minha volta. Mas eu percebi que estava presa. Uma pergunta me veio a cabeça: “Se cheguei ao planeta em plena idade média, como é que eu não conseguia sair dela?” Não se sai de uma idade mental, não eh verdade? Ou será esse um problema meu? Eu fiquei ali um bom tempo, olhando o mar. Pensava na poesia de Pessoa, e no que a agua representa em nossas vidas e na vida da poesia e na literatura. Apesar de impressa no papel, a era das conquistas foi a mais poética. Como diz o Bloom, ali foi a “invenção do humano”………Mas……

A poesia virou concreta. A arte virou instalação. Autodestrutiva. Autofágica. Autodepuradoras. DESTRUTIVA! TUDO FICOU TAO IRONICO , meu deus! Nada era, de fato mais romântico. Perdemos a nossa inocência. Vivemos dos estilhaços daquilo que autopsiamos dos séculos que nos mesmos desconstruímos. Vivemos numa espécie de Iraque poético e agora? Fazer o que desse mosaico? Como juntar as pecas? Ninguém sabe como a figura total se parece, então, não tem guia, não tem um formato. Esquecemos, antes de iconoclasticamente destruirmos, perguntar assim: escuta aqui gente…..alguém aqui tem uma planta disso tudo pra….sabe assim…..caso a gente queira…..reconstruir depois? Como no caso de Dresden, por exemplo?

Porra nenhuma!

Ninguém tinha.

(aos prantos)

Eu amo ele tanto! Porque ele me abandonou? O que foi que fiz pra ele? Foi a roupa? Ele arranjou outra? Nunca me deu um motivo? Nem fez a mala. Me deu um tapa na cara, me deixou no chão e bateu a porta. E eu nunca mais o vi. (mais prantos). Faria de tudo pra te-lo aqui. Era como se fosse meu filho. Não sei explicar. Era como se fosse meu pai.  Eu o perdoaria na hora, agora, se ele entrasse aqui e começaríamos tudo de novo. Eu amava ele. Tragédia faz parte da humanidade. Quando bebia ficava assim.  Quando não bebia, trupávamos tão bem. Tao bem….. que saudades……volta pra mim cara…volta pra mim………Eu nao sou transparente, não sou transparente.

Os homens.

Todos em total comando da coisa.

Todos sempre querendo uma guerra pra achar um motivo pra sair de casa. Pra escapar de nos. Entendem?

Todos guerreiros artistas e sabiam o que faziam. Todos com a enxada e o pau na mão. Mas tudo incompetente.

O mundo de hoje eh incompetente porque será? Porque tudo aquilo que nos fazíamos durante a guerra era ficar escrevendo cartinhas pra eles e mandar fotos de nossos filhos desdentados…..Um horror. Eh a formula certa pra manter qualquer homem a 8 mil quilômetros fora de casa e achar a primeira puta e propo-la em casamento: veja o que aconteceu no Vietnam por exemplo. Ou nas Filipinas.

Não, não estive lá no Monte das Oliveiras quando Jesus foi crucificado. Não levo o menor jeito pra religião. Mas sou supersticiosa, arrogante e segui as leis que comandam o senso comum daqueles que dizem: “Não se envolva: a vida é uma cilada, assim como as palavras, assim como o jogo de xadrez, assim como o farol de transito, assim como a corrupção no mundo corporativo ou na policia, assim como nos governos, assim como na própria figura humana, capaz de se corromper ao se olhar no espelho de manha e dizer “meu deus, estou horrível! Vou fazer uma plástica!” ou “meu deus, que olheiras, bebi demais, preciso me cuidar, dar um jeito na vida” .

Que jeito na vida cacete. QUE JEITO NA VIDA, se ela só tem um principio de principio, um meio de meio e um FIM degradante? Que jeito na vida.

Fica todo mundo evitando o essencial o tempo todo, e eu formigando nas extremidades. Não, não tenho mais tempo. Meu tempo corre contra Kronos, assim como o tempo de Borges corria a favor das aguas do Nilo. Não sei mais o que digo. Estou nervosa porque algo esta acontecendo e eh algo ruim. Nada de muito bom pode se esperar de uma humanidade desumanizada que se comunica por computador e celular e respira monóxido de carbono e vive sob o fogo cruzado das balas da policia e dos bandidos e do G20 e do FMI. Podem nos tirar tudo. Ate a terra debaixo de nossos pês.

(cochichando pra plateia)

— e não ha nada que se possa mais fazer sobre isso. A revolução esta controlada por dentro! Ha!

Quando eu era criança, eu tinha tanto orgulho em ser brasileira. Queria mostrar pro mundo inteiro que nas ruas do Rio e de São Paulo nao andavam cobras nem elefantes, então eu tirava fotos da Avenida Atlântica e do Copan, da Avenida Paulista…….Do Forte Copacabana. Meu pai me levou ao Forte, me segurava pelos braços e eu sentia um tesão enorme quando passava por aqueles soldados

Eu passava por aqueles soldados, todos homens e me perguntava porque não haviam mulheres lá. E ele me dizia que o único exercito do mundo que permitia mulheres era o Exercito de Israel. E agora estamos aqui, eu e você. Nao eh estranho isso. Eu estava tão eufórica com a imagem que eu queria projetar do Brasil, ainda criança e, no entanto, na minha cabeça, eu idealizava nessa minha cabeça, a mulher no exercito de Israel. Que loucura.

Só sei que lavo os meus pês. Fico aqui nessa lavação porque….Porque mesmo?

Não sei. Esqueci. Alguém muito importante vai morrer essa noite e essa eh uma homenagem que eu presto a um homem que genuinamente amava as mulheres.

Porque será que matei justamente o único homem que realmente respeitava as mulheres? Será por desrespeito pela Historia? Será por respeito? Li Nietzsche demais e me tornei uma ciclista da Filosofia?

Ah sim. As mulheres. Vim na idade media pra acabar com elas. Mas era só uma experiência. Nao sabia que iria dar certo. Achava, sinceramente, que iria vir uma revolução atrás da outra e que, sinceramente também, os próprios homens, não iriam tolerar essa burrice que eles mesmo criaram. Mas, me enganei.

Essa teoria de Hegel do escravo e do senhor, ou melhor, da escrava e do senhor acabou vingando. Incrível. Incrível como machuca. Empetecam a gente, no colocam um salto desconfortabilíssimo, humilham a gente de tudo que eh jeito e depois nos cospem na cara, como se fosse o ultimo tapa. E o que a gente faz? Agradece. Isso em pleno século XXI.

Que nojo.

Que pena.

Acho que ele morreu.

Posso enxugar meus pês.

Não ha respeito mesmo.

Mesmo entre as mulheres

O problema reside entre os seres humanos e ponto final.

Ponto final

Ai…os meus seios doem tanto antes da menstruarão.

Minha cabeça doe muito muito muito antes da menstruarão.

Não me aguento e não culpo aqueles que não me aguentam

(O tenente levanta ela, conduz ela ate o meio do palco. Ela vira de frente pro publico, tira as calcas e revela um pênis)

Ha ha! E vocês acreditaram que eu era mulher o tempo todo!

Como homem eh idiota mesmo!

(elas viram de costas: ouve-se o som de uma execução)

Gerald Thomas

Maio de 2005

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