ARTiculose Copyrighted (Gerald Thomas © ) versão para teatro

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ARTICULOSE – ARTiculose

 

Gerald Thomas –

Banho de sangue, eu sustento essa imagem por algum tempo, algum tempo, tem que durar algum tempo, tanto quanto durou a prosa ao navio naufrago, o afundado. A prosa ao Titanic durou isso. Durou 75 anos. É uma tragédia que não virou opera, não virou peça. Mas uma bela ópera, sem duvidas. A tragédia em dois atos: a viagem  e o desastre no primeiro e o estupro no segundo no segundo ato. Imaginem isso. A soprano, braços abertos, de costas para o publico, um sopro linear no ponto mais alto de sua voz, pequenos gestos úmidos, coro e atores flutuando suas presenças em pequenos círculos concêntricos e o navio, gigante deitado, violentado pela curiosidade náutica do maestro e sua orquestra. Sustentei essa imagem. Ela durou algum tempo. Depois perdeu qualquer significado lírico e virou metáfora.

 

Banho de sangue, um vírus mutante mais rápido que a velocidade da luz , eu sustento essas imagens agora, apesar de que não vai durar.

 

Sou jovem ainda. Isso eu sei. No inicio de um crepuscular lindíssimo. Isso, por exemplo, me dizem. Tenho tido atrás de mim varias etapas ganhas. Com isso, por exemplo, especulam. Atraindo para o presente presentes de outros tempos, verdadeiros catálogos mesmo, imensos verbetes até. Nisso, por exemplo, poucos creem.  Não que eu não entenda os que não creem. Não que eu não entenda o que eles querem me dizer, apesar de eu saber que isso vai passar, tem que passar, primeiro eles, depois eu. Essa é a sequencia lógica. Essa é a logica: alguns dizem para, outros dizem para poucos, outros, ainda, definem o que o que uns disseram pros outros.

 

Vou vivendo a vida seguindo a vida seguindo meus próprios passos, os reconheço, sei que são esses que vejo pincelados no chão, apesar de serem, ora pequenos, ora grande demais para os meus pés. Vou vivendo a vida sustentando essas imagens.

 

Agora, o banho de sangue, um pouco do navio naufrago, mas só isso, apesar de bem diferentes ainda, alguma coisa amarrotada. Não que o banho de sangue não esteja amarrotado. Não que que todas as outras imagens inconsequentes não estejam amarrotadas . Estão. Mas essa ultima ainda não é uma imagem em si, só uma textura, ela vaio assim, fazem alguns dias, pouco antes do sono. Essa parece só ter textura e mais nada, nem mais uma imagem.

 

Apesar que um termino infelizmente ainda não será um termino pra tudo.  Vai continuar havendo vida. Apesar, alguma vida. Apesar disso o desdobramento dessa sequencia indeterminável ainda propõe alguma música, alguma grande abertura sinfônica. Apesar de continuar havendo vida, não a nossa mas alguma vida, tenho certa facilidade em continuar a multiplicar, subtrair, adicionar, dividir, todas essas coisas de uns pra outros.  Tenho até certa facilidade em aceitar que vai continuar havendo vida.  Nossa sabedoria é solida, disso sabemos. Isso poucos contradizem nos dois ocidentes . Apesar de, na minha ignorância, em saber mais saber mais da nossa sabedoria, sei que ela tem estrutura, ela não é a toa. Algo deve viver.

 

Não que eu não reconheça o valor em acordar em acordar, entrar dia adentro, atravessar o dia em pânico, brigando com tudo, sonhando com o repouso e a vingança depois de deitar, cheio de rancores ódios mortais e grandes esperanças. Não que eu não reconheça o valor nisso. Não que eu não reconheça o valor em nascer, entrar vida adentro, brigando com tudo e depois morrer, cheio de rancores , ódios mortais e poucas esperanças.

 

Não que eu não reconheça um pouco de “missão” em tudo isso.

 

Não que eu não reconheça quando algum critico me diz ser incompreensível quando duas figuras amarrotadas da tragédia ocidental se encontram no palco e a mais alta e magra das duas figuras estrangula a mais baixa e velha. Essa é uma sequência repetitiva de Eletra com Creta. Não que eu não reconheça quando algum critico me diz ser repetitiva essa e outras sequencias de Eletra. Não que eu não entenda exatamente o que eles querem dizer com acordar, atravessar a vida em pânico, examinando o sexo de seus pais, encontrando muitas vezes nenhum e colocando em duvida a própria existência. Não que eu não tenha compaixão por tudo isso. Não que eu não entenda a ininteligibilidade dessa memnon, baixa e velha, quando enforcada esboça verbalmente seus últimos relâmpagos de ansiedade e humor e confusão e ignorância e misturas ocidentalizadas, e num ultimo esforçado fôlego diz:

 

Esperança era sua última esperança, mas mesmo assim baixo demais

Para o ouvido dos mortais

E outras vezes imaginar um outro extremo tão duro de imaginar

Que uma segunda vez se comprimia tanto nesse extremo

Que uma corrente de esperanças e desesperanças se misturavam criando submissão.

s-u-b-m-i-s-s-ã-o, e nada dana em nada.

Tento esclarecer depois.

Imaginando outros murmúrios: pai, pai no céu, pai de deus,

Deus no céu, asa de pai, asa no céu, e outras combinações de cristo com jesus e outros complexos.

Outros nomes completos digamos números, digamos de amados, digamos de amaldiçoados, como a plebe subindo a montanha, ah, mas amados mesmo assim, interjeições inimagináveis, antigos filósofos gregos ejaculados juntos com seus lugares de origem, sugerindo, quando possível, conquista de conhecimento ELE NÃO ESTÁ AQUI, bem audível isso, bem audível. Mesmo assim não totalmente satisfatório, por causa das intermináveis duvidas, como por exemplo, QUAL DIÓGENES?

 

Reconheço a duvida de algumas pessoas quanto a isso ser ou não ser teatro. Reconheço essa duvida histórica sem a qual eu jamais poderia ter ultrapassado tantas etapas, a ponto de dizer: sim, isso é teatro, é mais teatro que qualquer teatro por ser menos teatro de historinha, de mentirinha, de situaçãozinha. Mas reconheço a duvida dessas pessoas, como reconheço a desaprovação dessas pessoas. Não que eu, como autor dessa façanha, dessa “trapaçada”, dessa “embustice” como dizem; não que eu aprove inteiramente. Tenho uns vinte críticos vivendo aqui dentro, aqui dentro da minha cabeça. E o que eles dizem não é melhor nem pior. Vai continuar havendo vida.

 

Posso até me convencer e achar tudo isso muito positivo. Isto é, crescer, se instruir e descobrir pequenas coisas no mundo e adaptá-las ao nosso íntimo, tendo a mais absoluta certeza de que somos únicos, de que importamos pro mundo, de que mais ninguém pensou nessa imagem, nessa coisinha, que ninguém mais incorporou isso. Posso até achar tudo isso muito positivo. Posso até tentar esquecer os vários momentos em que dou de cara com os verdadeiros gênios do passado e os de agora, que não só viram isso, como fizeram disso… uma mera fatalidade do meu passado. O que quero dizer é que posso até tentar esquecer que estamos aqui pra enfatizar algo, ninguém sabendo ao certo que algo, esse algo, pode ser. Alguns tentando de uma maneira descobrir esse algo. Outros tentando de alguma outra maneira descobrir esse algo. Mas estamos aqui só tentando algo. Se alguns tentam algo mais que o algo de formas que não são inteiramente favoráveis, vem logo a fadiga do algo, substituir o algo, mas fazendo algo. Ninguém sabe ainda de qual algo, por que algo, pra qual algo e por quanto algo.

 

Isso ainda ninguém sabe. Então, se alguns tentam fazer algo porque somente outros então se autodenominam os defensores de algo passado e impedem, ou tentam impedir a sequencia logica do algo, que permite acertos, erros e divagações do algo […] ou será que posso dormir tranquilo essa noite, sabendo que alguns sabem realmente de qual algo e pra qual algo e por quanto algo e pra quê? Se alguém sabe, então posso dormir tranquilo. E poderá dormir tranquilo o cerne do universo, com suas forças divisórias, dualistas, dialéticas, antagônicas desse algo. E poderá dormir tranquilo o conflito, a atenção que dizem residir no bom teatro, na boa música. E poderá dormir tranquilo o ocidente ocidental e o ocidente oriental. Não que eu não tente me dizer que escolhi bem ao sair pela tangente, ao ouvir uma suposta voz que me disse ser eu artista, algo assim, artista. Não me disse ser artista da musica. Não me disse ser artista do campo. Me disse só isso. Me disse também ser de uma certa clareza. Só isso. Não me disse ela ser uma clareza de ideias, ou de uma clareza de noite. Não que eu não tenha prestado atenção nessa clareza. Não que eu não tenha prestado alguma atenção a essa maldita clareza que me faz ver com ainda mais clareza que eu ainda não posso dormir tranquilo, e que ninguém ainda sabe algo, e nem chegou perto de algo. Que o resto são mesquinharias, meros passatempos, meros bordados. Das mais simples tapeçarias às teses mais complicadas. Bordados. Alguns padrões interessantes, alguns motivos não totalmente sem criatividade, mas bordados mesmo assim. E onde está a gargalhada? A gargalhada, hein? Onde está a gargalhada de um Shakespeare, por exemplo, ou de um Aristóteles, por exemplo, ou de um Joyce?

 

Não que eu não dê minhas gargalhadas. Não que eu não morra de rir às vezes quando não consigo dormir tranquilo. Não que eu não morra quando passo perto de um hidrante, por exemplo, ou passe diariamente no Bowery com a rua 3, que é onde fica um abrigo de velhos, pobres, bêbados, drogados, loucos. Não que meu riso não vire lagrimas. Não que eu não berre de alguma forma mais inibida quando eu fixo meus olhos no olhar vazio de um louco no Men’s Shelter. Não que isso não produza peças, produza textos, bíblias, mandamentos, verdades e mentiras. Não que tudo isso não produza algo. Pra mim e praqueles que dizem saber do algo e de suas estruturas.

 

Tento então por outros caminhos. Tento então admirar alguns fenômenos. Isso, alguns fenômenos. Assim, talvez, tudo isso passe mais rápido. Tento admirar o fenômeno do aprendizado por exemplo. Ou instruir os outros, que fenômeno! Não que eu não tenha minhas reservas. Não que eu não tenha minhas reservas em passar adiante, alguma coisa captada”. Não que eu não tenha profundas reservas em garantir o sucesso da história. Ou mesmo garantir a sequencia da história, hein? Na medida em que a veracidade é a mesma veracidade daquela que existe quando uma história é contada de pessoa pra pessoa pra pessoa. A decima primeira pessoa provoca o nó da história. O nó da história, e esse é o algo da nossa lógica. Não que eu não tenha reservas sobre isso. Não que eu não admire esse “processo”. Não que eu não tente passar adiante esses “conhecimentos eruditos” adquiridos impunemente em algum lugar e de onde já foram retranscritos inúmeras vezes de pessoa para pessoa. A décima-primeira transcrição provoca o nó da história. O nó da história. Não que eu não admire tudo isso. Reconheço, por exemplo, de nos mantermos “ocupados”. Reconheço o valor em estarmos ocupados, fazendo ou mesmo “almejando” coisas. Reconheço a importância de estarmos ocupados pra merecermos os momentos quando não estamos mais ocupados. Sei como é importante tudo isso. Sei como é importante terminar o dia tendo almejado alguma coisa. Sei como é importante terminar o dia tendo mesmo conseguido alguma coisa. Sei também que é importante deixar algo para ser almejado no dia seguinte, por exemplo. Reconheço o valor do descanso no fim de tanto almejo e tanto alcance.

 

Sei como o almejar tem sido importante desde os modernistas. Sei por exemplo da importância dos modernistas. De como eles mudaram substancialmente as nossas vidas. De como eles mudaram qualitativamente a nossa vida. Reconheço o valor dessa coisa chamada perspectiva. Reconheço o valor nisso. Reconheço a perspectiva de me enxergar como um completo idiota. Um completo idiota. Caminhando pelo mundo e pelas tangentes adaptando observações ao meu íntimo. Perfeito idiota. Reconheço a minha perfeita idiotice em acreditar, no fundo do fundo, existir realmente algum progresso. Perfeito idiota em achar que existe progresso no próprio frio, no mero fato de fazer frio. Perfeito idiota. Tenho perfeita noção de quanto progresso eu fiz, numa fase da minha vida quando fiquei obcecado por um fichário negro que vi numa vitrine a rua 8. Eu sabia que não conseguiria escrever uma só linha ou nenhuma fase completa se eu não possuísse aquele fichário. Me lembro também de umas canetas que ”almejava”. Sabia que sem essas canetas eu não conseguiria organizar o caos da minha vida. Um dia fui comprar um fichário e as canetas no dia mais rigoroso do inverno. A Mercer Street, onde eu morava, com quase um metro de neve, e poucas lojas abertas. Organizei toda minha vida com esse fichário. Portanto reconheço a importância de se fazer esses progressos. Mesmo eu u tenha perdido qualquer escrito que tenha originado desse fichário, reconheço a sua importância. Mesmo que os escritos não servissem pra nada, reconheço a importância desse fichário. Mesmo que ele tenha desaparecido, junto com toda época da minha vida, reconheço que algum progresso foi feito. Reconheço ser um perfeito idiota quando acho que devo anotar a cada minuto e cada preciosidade da minha vida. Reconheço tudo isso.

 

Não que eu não me vanglorie em saber pensar em inglês e em português ao mesmo tempo. Não que eu não me vanglorie até saber pensar em alemão ao mesmo tempo. Não que eu não me vanglorie em saber tudo profundamente sobre a pobreza de uma língua e a riqueza de outra. Como, por exemplo, a simples palavra vida. Seu similar em inglês, lifetime, tão mais completo. Tao mais completo lifetime, ou seja, vida tempo. Pois é exatamente assim. Pois é exatamente assim que percebemos o passar da vida. Ou pelo menos é o instrumento que usamos pra medir o passado da vida. Ou pelo menos um é a perspectiva do outro quando queremos um pouco mais de um, um pouco mais do outro. Não que eu não me vanglorie em poder usa-lo como metáfora, por exemplo. Não que eu me vanglorie em poder usa-lo na medida, já que eu não trabalho numa fabrica, já que eu não sou subordinado a um tempo dos outros, ou a de um senhor mesquinho, ou de um sistema mesquinho, que usa a minha vida pra medir o seu tempo. Reconheço como sou feliz por não fazer parte disso. Reconheço que sou feliz por notar que nem tempo nem vida fazem sons horrorosos na minha barriga.

 

Não que eu não ache certas invenções lindas, por exemplo. Não que eu não ache lindo, como ser humano que sou, os achados da ciência, da tecnologia, do progresso, da matemática e da física. Não que eu não ache irônico que o progresso nos leve à nossa extinção. Apesar de que isso não me deixa triste. Me deixa até um pouco encorajado. Reconheço a importância das nossas invenções na medida em que elas representam nosso contato um degrau a mais com, digamos, deus, digamos, com esse imenso enigma. Mas o que me deixa triste é que esses achados se tornam perdidos na própria vida daqueles que o acham. Não que eu não me encante com as teorias, por exemplo, me encanto. Me encanto com a teoria do barbante, da string theory, que ora reside em Princeton, e que voltou à base das coisas thing, tudo de coisa, por falta de uma substancia melhor, ou por economia de pensamento, bem como Getrude Stein fazia com literatura no inicio do século. Só que a criticavam como criticam a teoria do barbante. Reconheço até a beleza entre literatura e ciência. E finalmente reconheço até nessa beleza hipnotizante de que tudo um todo e todos, checando até a possibilidade de deus ser um concretista, no sentido mínimo e máximo desse enigma, que eu reconheço ser ate muito bonito mesmo, assustadoramente até, incalculável e sem resposta, e por que não dizer, sem cura.

 

Essa “strong thing”, como Princeton chama, é sem dúvida fascinante, principalmente o aspecto “thing” da coisa, o aspecto “coisa” da coisa; pra não mencionar o aspecto “forte” da coisa, o que me leva a pensar que podemos estar falando de monstros japoneses, ou de filmes de horror, ou de uma partícula que funciona em dez dimensões, o que é o caso, dez dimensões, e que une tudo. Isso é a strong thing que vem de New Jersey, pra quem não sabe, o além-mar de Nova York, o que representa o fascínio e a rejeição que todo além-mar representa. Não que não me fascine entender tudo isso. Não que não me fascine ler que dez dimensões é a teoria de agora e portanto não posso deixar de me entristecer quando percebo que no fim da vida, se eu sobreviver até lá, no fim da minha vida vou ler no mesmo jornal que agora são 78 dimensões e o que vem de Princeton é a “weak rope” ou o que valha. Não que eu não veja a ironia em tudo isso. Não que eu não reconheça a ironia de jogar com tudo isso, de especular com tudo isso de uma forma superior, como só os artistas conseguem, nesse momento de irreverencia e desrespeito. Não que eu não seja capaz de reconhecer a minha condição de irreverencia e desrespeito. E me arrisco até a dizer que me alegra um pouco essa irreverencia e desrespeito, mas por pouco, até perceber que alguém mais inteligente do que eu possa estar lendo esse ensaio e ter outras” ideias a meu respeito, ideias ainda mais angulares a meu respeito, ou de achar a meu respeito uma certa insignificância no que ele estaria realmente errado. Ou de saber muito mais sobre as minhas sabedorias e dizer por exemplo que me estilo de pensamento lembra George Duhuit, ou que meu estilo de literatura lembra Beckett ou Stein, e que esse alguém, com o ar apreensivo, e fecha então esse capitulo da sua história achando a sua própria inteligência muito mais inteligente que a minha, o seu estilo melhor do que o meu, suas apreensões mais interessantes que as minhas. Esse alguém, obviamente, só poderá ser eu mesmo no dia em que eu ler esse artigo impresso na Folha de S. Paulo, ou escutá-lo em alguma peça de teatro criada por mim mesmo com o único sentido de me superar. Não que eu não me vanglorie em entender a minha lifetime, ou a perspectiva da minha lifetime.

 

Não que eu não reconheça como é bom se ver na perspectiva. Reconheço. Reconheço até que deve servir para algum fim, algum proposito, algum bem-estar. E se é que existe algum proposito ou bem-estar, ele deve estar equacionado com a dificuldade profunda de se imaginar um bem-estar não se estando bem. Não que eu não reconheça a ironia do concretismo, como já disse antes, reconheço. O concretismo em si é profundamente irônico porque o chamamos assim, de concretismo. Chamamos tudo que temos de não concreto, tudo que temos de metafisico e metafórico e abstrato de concretismo e só porque dependemos da palavra e dos conceitos, isso em si só me deixa transbordado de depressão. Meu deus, não que eu não reconheça a virtude em dissecar qualquer ato e intenção em sílabas, não. Não que eu não reconheça a ironia da string theory sem ser trocadilhos um ato concretista.

 

Não que eu não reconheça o valor em não termos mais um mito. Não que eu não reconheça o valor em termos progredido para o pragmatismo básico que chama tudo de “coisa”, e se não chama ainda, vai chamar. Reconheço o grande passo dado em tirar, arrancar, a nossa existência de uma dimensão determinada e joga-la, violentá-la, contra outras. Reconheço a imensa virtude em aprender tudo isso, em perceber tudo isso como percebo e imagino, como imagino, que tudo pode ser mais um erro de conceito, uma outra língua pra fora, uma percepção cabeluda. Pode ser tudo mais um Harvard boy brincando com a gente, fazendo “arte” como eu faço; pode ser tudo artimanha de um físico exaurido, sem mais inspiração que chama tudo de “thing”. Ou pode ser um estrangeiro que num momento da conferência, no momento da pergunta vital falou “coisa” e isso então vira a modalidade para até, digamos, 95, 96, quando surgirá, fatalmente, a anti-thing. Reconheço a virtude de tudo isso.

 

Reconheço tudo isso, como reconheço que nada disso deve ser realmente impressionante para muitas pessoas. Reconheço que tudo isso deve ser coisa de praxe para muitas pessoas. Como deve ser coisa de praxe acordar, passar o dia todo achando tudo isso coisa de absoluta praxe. Como deve ser coisa de praxe se pegar um avião, reclamar das marchas do carro, erguer um prédio, ir para Newark, saber que tudo é só uma questão de matéria. Tudo isso é praxe. Crescer, viver, morrer, tudo praxe. Mas reconheço que tudo isso ainda me impressiona profundamente. Reconheço que tudo isso, além de impressionar, apavora completamente.

 

Falo com a Austrália daqui e, se quiser, falo com 12 pessoas ao mesmo tempo em 12 lugares diferentes. Não que me choque muito que essa praxe faça parte da vida de uma pessoa; não, isso não me choca. Tento, inclusive, não me chocar muito quando percebo – e não são raros esses momentos – que grande percentagem do mundo não percebe sequer que a praxe é praxe. Não que isso me choque. Só me deixa um pouco sem aspiração.

 

Não que estar sem aspiração seja uma coisa totalmente ruim. Não que não ter aspiração seja, em si, totalmente desencorajador. Ao contrário, é até digno, é até um pouco zen. Como é zen – ou deve ser – não haver uma preocupação com estilo, não haver a paranoia modernista de se “montar” palavras e, a partir dessa montagem, um texto. Não que eu não queira ser zen, mas espero não ter assim tanta preocupação com estilo. Não que eu não queira ser zen, mas escrevo como a minha cabeça ouve esses sons e, certamente, os ouve com estilo. Mas algo a esse respeito é triste, afinal não falo assim. Só escrevo assim. É triste que não se fale como se escreve. Raramente damos ouvidos ao que falam.

 

Não que eu não dê ouvido ao que falam. Não que eu não dê ouvidos ao que falam. Inclusive traduzo para o papel o que falam. Busco sempre uma impressão quando traduzo para o papel o que falam. Impressão, claro, refiro-me ao ato de “impressionar”, impressionismo; relatar uma ideia através de um impacto emocional, auditivo, visual, racional, tudo. Esse é o triste xis do problema. A ninguém foi dada a graça divina de impressionar por inteiro, então cria-se o fenômeno do modernismo, o fenômeno do estilo, de ultrapassagem de estilo, de rapidez e durabilidade de estilo ou de impressão, tudo compactado concisamente nessa lifetime. Meu Deus, como é triste. Somos todos assim. Uns impressionam mais, outros impressionam menos. Uns têm maior número de palavras, maior vivência. Esses, como eu, podem “justapor” coisa com coisa, criando uma “falsa perspectiva” (perdão) e, como grande parte da população ainda não viu essa coisa com coisa, saem impressionados. É assim.

 

É assim, por exemplo, com a palavra humilhação. Essa palavra pode ser usada livremente. Mas ela só tem um gosto especial pra quem a sofre ou já sofreu e como tem um gosto pra quem a inflige, manipula. E, pros outros, o que fica é a impressão que e puramente uma referencia própria, às vezes adquirida, até, mesmo, um clichê. Não que eu não reconheça a virtude em termos tantos códigos, tantos clichês. Reconheço. É o que faz o teatro funcionar, por exemplo, então sou profundamente ao clichê. Sou grato também ao estilo, pois ele redimensiona o clichê. Obrigado, portanto, clichê e estilo e todos os outros códigos.

 

Obrigado também por deixarem eu viver aqui na terra. Não sei se estamos realmente na terra. Mas estamos nesse planeta que imaginamos estar. Tudo isso vai parecer inteiramente ridículo daqui a alguns tempos. Quando o ser humano descobrir o enigma mais de perto e se não desaparecermos por inteiro, também conseguir manipular tudo do inicio. E até esse termo vai parecer ridículo então. Mas obrigado mesmo assim. Só em saber que não estou inteiramente só, já é em si encorajador. Esses pensamentos que ora coloco no papel são obviamente originários de um ser humano em depressão. Mas como dizer “depressão” sem ter que utilizar essa palavra, depressão. Deve haver outro estilo.

 

Não que eu não ache necessário termos estilo pra contornarmos certas coisas como culpa, por exemplo, como solidão, rejeição, orgulho e outras manifestações calcadas no nó da garganta e que chegam à face ligeiramente deturpados graças ao estilo. Não que eu não reconheça o valor na culpa, no orgulho ou na solidão. Reconheço que são os únicos sentimentos possíveis às vezes. Tendo a duvidar profundamente dos entusiastas, dos otimistas, dos que correm para cima e pra baixo bradando felicidade. Duvido profundamente daqueles que querem recomeçar e que falam bem da própria vida, que se engajam em qualquer projeto com devida facilidade. Duvido, basicamente, daqueles que “defendem”. Pois, defender o quê, meu deus? Quando se trata de um país, por exemplo? Defender o quê? Quando se trata de um Brasil, por exemplo, defender o quê? Duvido dessa típica mentalidade chauvinista, pobre, obviamente enrustida de sentimentos de inferioridade, como quase todo chauvinista latino-americano, asiático, africano. É uma barra ser terceiro mundo, eu sei. É uma barra viver às margens de uma capital. É uma barra essa interdependência quanto a gosto, moral, moda, arte, economia, verdades, mentiras. É muito mais barra ainda para aqueles que nem isso percebem e que sentem na barriga essa defasagem. Duvido profundamente daqueles nacionalistoides babacas que ainda são capazes de latir e não morder. Essa é a distribuição cultural do mundo. É uma barra. Não gostou? Faça algo a respeito. Não gostou? Mostre o que você sabe fazer. Não adianta, vão sempre dizer que “sofrem” repressões internas, falta de destaque, que o colonizador tem mais espaço na imprensa. É uma barra. Mas não se esqueçam do fator qualidade. Não se esqueçam também do fator relevância.

 

Tendo dito isso, o que fazer? Eu não reconheço as frases acima como sendo inteiramente minhas. Por quê? A ordem das palavras… o conteúdo. A ordem e o conteúdo não equivalem à complexidade da minha memória, do meu pensamento. Claro que quis dizer o que disse, mas não é bem assim. Então, o que fazer? Bem ou mal, esse é o trauma de todos que escrevem bem ou mal. Então, como fazer? Começar tudo de novo? Não será tudo em vão? Não?

 

Mas não é tudo pra baixo como a corda progenital Por alguns momentos do dia, a pretensão vai almoçar, descansar, e nesses momentos de não vigilância, chego a ler livros de Tom Wolf ou John Updike, por exemplo. São momentos esporádicos, espontâneos, e e que me conduzem a um lado interessante do que é escrever. Eu digo, esse calculismo conciso de paginar pensamentos, de garantir a sobriedade, quase sem divagações como essas, mesmo que esses pensamentos não sejam em si coisas que duram mais algumas horas.

 

Não que essa problemática em si, de se misturar tudo e extrair uma essência de disparidade de assuntos que pontuam nossas vidas, não seja em si calcada nos desesperos modernistas. Ou pós-modernistas. Ou conservadoramente semióticos. Não que a disparidade em si seja uma meta a ser concluída. Lacan, por exemplo, achava que ela não poderia ser concluída. Não sei o que acha Derrida, e não posso perguntá-lo. Pois lendo o que escreve, bem ou mal, não sei o que pensa. Não que a disparidade do mundo contemporâneo não seja em si a meta, e portanto já concluída há muito, muito tempo. Reconheço a disparidade e a lógica dela. E reconheço, sobretudo, o que tentamos fazer o tempo todo não sendo cientistas, mas mero bullshitters (embromadores), nós, mendigos da tangente, vamos “esclarecendo” as etapas existenciais. O problema é que essas análises são sempre post-mortem. Mas não é tudo pra baixo, como a corda progenital WOW. Mas o que fazer dessa postura, digamos, renovação desse, digamos, WOW, desespero de ser criativo, WOW, desse emblema modernista de superar o passado recente para ressuscitar o mais remoto e transformá-lo no futuro… o que fazer disso tudo? É obvio que tudo isso não cabe no mundo yuppie. É obvio que foi uma etapa (em si uma denominação moderna), uma mera etapa, como diria a Sorbonne, há há, acham que eu não sei…acham que eu não sei? Sei SIM. Sei SIM !! É na Sorbonne SIM. E se não for na Sorbonne então é em outra qualquer! O que importa?

 

Essa fome de revolução cultural não chegou ao fim. Nunca chegará pois sempre haverá um ou dois engraçadinhos. Mas uma revolução cultural hoje me parece plausível, digamos, por dois lados antagônicos. Um através da exposição de ideias ou termos baseados na imbecilidade e ignorância totais. Como um idiota e analfabeto que começasse a viver hoje e não conseguisse conter a sua boca. Talvez seja essa a solução. Ingenuidade genuína. Ou, pelo outro lado, os estudos elaborados arqueologados, reescavados das estacas da “espécie humana”, como por exemplo a Mahabarata, ou tentativas bocejantes, como a minha, de unir concretismo com a penitência grega em Eletra com Creta. Mas se estou certo, devo estar errado. E surgirá algo assim do vácuo, do nada, algo espontâneo, como uma nova cor, por exemplo, ou mesmo só um filtro de cor, por exemplo, e religiosamente embarcaremos.

 

Não que o “problema” seja em si um sinal verde para prosseguir. Não que o “problema” seja em si um símbolo de euforia ou de descaso. Não que seja o problema em si um problema moderno, ou mesmo símbolo de retórica. Duchamp foi muito irônico quanto ao problema. Duchamp soou bem durante algum tempo, quando dizia que não há solução porque não há problema. Mas só durante algum tempo, pois, afinal, qual a retorica em determinar se solução ou se problema, partindo da própria premissa de “não solução” porque “não problema”. Entenderam? O que quero dizer é que temos vários problemas, metafísicos ou não. Podemos nos encabular por termos problemas. Podemos evitar de equacionar coisas com coisa na procura de uma solução. Podemos recorrer à ciência para explicar (sempre em períodos que duram dez anos) a viabilidade da matéria dessa coisa ou da impraticabilidade dessa outra coisa. Mas nunca estivemos tão vorazes quanto a uma solução (veja o desespero da aids por exemplo). Nunca estivemos tão desencantados quanto a uma direção (veja o crescimento do “estilo” no mundo). Nunca estivemos tão próximos de dizer nunca, como eu e milhares de manifestos sempre disseram. Isso é histórico. Sempre houve o “nunca estivemos…” Em breve teremos padres e rabinos nos altares com tubos de ensaios.

 

Não que eu não ache superimportante que nos forcemos a chegar, sempre, às margens do alarmismo. Não que eu não entenda que talvez seja esta a única linguagem que entendemos. Dizer que “nunca estivemos numa fase” não deixa de ser uma perspectiva interessante a um passado não empírico. Como sabemos o que foi 1929, 1918, 1888, e outras datas catastróficas pra cima ou catastróficas pra baixo? Sabemos o que lemos. E o que lemos não é o que falamos, muito menos o que sentimos. Não que não me agrade esse certo cinismo pós-68. Não que eu não ache até gradualmente conservador esse cinismo de agora. Acho que até o alarmismo de agora vem anunciado por uma voz que imita outra voz, digamos, de um locutor alarmista da década de 50. É fantástico! Mais ou menos achamos todas as formulas de como “não queremos ser”. O problema é achar o que seremos quando crescermos. É simples e fantástico – apesar de não ser incrível – expressarmos qualquer sentimento, amor, ódio, um desabafo, usando uma postura canastrona de, digamos, Clark Gable (sobrancelhas, olhos e consciência da câmera) para expressá-lo. Tudo fica perspectivado. Como o kitsch foi uma perspectiva interessante na época da contestação ao establishment, da contracultura.

 

Não que a aids não seja uma perspectiva interessante também. Principalmente aqui em Nova York. Noventa por cento das pessoas com as quais convivo aqui são gays. Passaram, no início dos anos 80, pela advertência de que tal doença existia. Passaram, pelo meio dos anos 80, pela constatação de que os impulsos instintivos, percorridos e defendidos nos anos 60, chegavam a um deadlock, um beco sem saída. E começou-se a chegar à conclusão que se encerrava um ciclo de libertarianismo individualista e começava, mais uma vez, um período de junção social que tentaria “desvendar os mistérios da fatalidade”.  A formação, e consolidação, de grupos gays, instituições, aids hotlines (um serviço telefônico de 24h que dá apoio a pessoas com aids ou relacionadas a pessoas com aids), publicações, palestras, workshops envolvendo sistemas de nutrição como a macrobiótica, por exemplo. E agora, em 87, tendo essa institucionalização toda vingado, ou seja, esses serviços fazem tão parte do nova-iorquino como o sistema de transportes ou suco de laranja Tropicana, OU QUALQUER PIRRA DE SUCO DE LARANJA QUE VALHA !!! CARALHO !!!! … (ufa, exagerei, perdão), sim, baixa na população a consciência de que a promiscuidade afinal não é tão perigosa assim – tomando-se algumas precauções, é claro – e que se o sistema existe, ele já pode ser desafiado. Não há mais histerias em torno do assunto. Há poucas surpresas. A coisa está nas margens de se tornar mais um complô politico.

 

O que dizer de um breakthrough, SIM, VOCES ENTENDERAM : BREAKTHROUGH !

 

Não entenderam ?

 

Não entenderam? Ok….Não entenderam.

 

É quando….

 

É quando se fura o tempoespaço e é quando se INOVA PORRA!!!! É quando se INVETA E INOVA!!!

 

Estou suando. Agua, agua. Estou aos prantos. Não. Prantos não. Lagrimas. Não, nada disso….

ESTOU é muito……

 

Muito……..

 

Antenada……pra…. quando….essa descoberta for feita….ou seja, quando a grande descoberta for feita, isto é, se a grande descoberta for feita, vai ser, se não a maior, uma das maiores descobertas biológicas, ou da engenharia genética, em uma porrada de tempo. Ou seja, nunca houve tantas pessoas sob pressão e pressa pesquisando imunologia ao mesmo tempo no mundo. Ou seja, nunca houve uma pesquisa tão desvairada pelo próprio cerne da questão – o nosso mecanismo de defesa e a própria constituição do que finalmente somos. É temeroso pensar no que pode acontecer, se levado na direção errada. É temeroso perceber o que já acontece nesse sentido, ou seja, no sentido da engenharia genética, suas conotações filosóficas e morais, além do fato biológico em si. É temeroso pensar no que os homens poderão “construir” se descobrirem realmente o que faz esse relógio bater. Ao mesmo tempo não há saídas. Tem que haver esse breakthrough. Quase um trocadilho histórico onde fatalidade pressiona a cirscunstância e desemboca em arte moderna.

 

 

SIM, ESTOU AOS PRANTOS SIM !!

 

Pensem na magnifica história de Kafka, A Metamorfose, em que o herói, Gregor Samsa, um vendedor ambulante, acorda percebendo que havia virado um enorme inseto. Essa transmutação já está presente em Heine, em Goethe, ou em qualquer intelectual do passado que aceitasse a metáfora como um símbolo maior de comunicação entre seres humanos na medida em que fatos e linguagem comuns não invocam, nem podem invocar, os nossos temores máximos, a nossa existência microcósmica, e quem sabe o nosso próprio destino. O que falar da engenharia genética?

 

Não que os rumos da humanidade não sejam em si um assunto interessante para um domingo de manhã ensolarado. Não que desembocar em arte moderna não venha embutido daquele cinismo que havia falado.

 

AGUA

 

AGUA

 

PELO AMOR DE DEUS

 

Eu preciso de lagrimas artificias, entendem?

 

Eu preciso CHORAR!!!!

 

Caralho, eu preciso CHORAR!!! Porque…

 

Porque… Como dizer que qualquer conteúdo vai se tornar obsoleto mesmo que para o ser humano individual ele ainda vai ter a mesma importância epicêntrica que sempre teve. Mas como dizer que qualquer epicentro individual tenderá a se tornar cada vez mais fundido com a inversão de valores tal, que finalmente se apropriará de um epicentro alheio e o usará para rechear o conteúdo vazio deixado por um ego em partida.

 

Eu já joguei xadrez uma xadrez uma vez. NOSSA !

Eu já joguei xadrez uma xadrez uma vez. NOSSA !

 

Que loucura foi aquilo !

 

Quando voltei a mim…. me dei conta disso tudo aqui… vi vocês todos ai…

e…senti que era o xeque-mate.

 

É que é tudo ao contrario entendem…?

 

 

Eu deveria então ter dado um tiro na boca. Mas …. se fosse assim eu…certamente, não teria nascido.

 

Gerald Thomas

 

Versão em texto para a Folha de São Paulo – 1987 (New York)

Versão para teatro, Março de 2016 (New York)

 

 

 

 

 

 

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