Revista Piaíu – “A Parte que me toca” – matéria de Paula Scarpin / Bob Wilson / Garrincha

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Foto: Crystal Field no meu Quartett aqui em NY, Theater for the New City (1985 – como veem, a Ilka… nenhuma luz lateral nesse bunker, somente o “túnel” de luz vindo de cima. Assinatura minha, saudações, GT

“A parte que me toca” –

Ref: a OTIMA matéria sobre Garrincha de Bob Wilson por Paula Scarpin

Na Revista Piaíu.

Em 2012, o jornal O Globo publicou trechos que teriam sido extraídos do seminário “Gerald Thomas fala e ouve”, realizado no Teatro Poeira, em agosto daquele ano. A certa altura, o diretor brasileiro diz: “Não me faça ir ao teatro assistir algo, pelo amor de Deus. Nem Robert Wilson, ou principalmente esse, porque ele me pergunta o que eu achei e eu falo a verdade. Ele está se plagiando pela milésima vez, nem está ali nos ensaios. Já me interessei muito pelo Robert Wilson, mas hoje eu pago para não ir.” Em entrevista por Skype à piauí, de seu apartamento em Nova York, Thomas desconversou sobre o assunto: “A grande magia do Bob é se repetir. Mozart se repetia, Wagner se repetia. Você acredita no que O Globo diz?”

Gerald Thomas iniciou sua carreira em Nova York nos anos 80, compartilhando referências e colaboradores com Robert Wilson – dentre os quais se destaca Philip Glass, parceiro constante de ambos. Já em sua primeira montagem no Brasil, em 1986 – a peça Quartett, de Heiner Müller, com tradução de Millôr Fernandes

GT – Erro da Paula: meu primeiro espetáculo no Brasil foi “4 Vezes Beckett” no Teatro dos Quatro, Rio, 1985 (com Sérgio Britto, Rubens Correa e Italo Rossi).

Meu segundo espetáculo no BR foi CarmemComFiltro (Fagundes, etc …justamente onde achei Bete Coelho, Luiz Damasceno, etc – e, de onde surgiu a “Cia de Ópera Seca”)

Quartett (que teve sua estreia americana aqui, através de minhas parcas mãos, no Theater for the New City, com George Bartenieff e Crystal Field – 1985….) teve sua estreia com a Tonia e o Sérgio na Sala Laura Alvim em 1986 no Rio.

Mas – o que mais me impressiona: (sorry Paula, ja que se coloca aqui algo sobre o meu passado….) é…NENHUMA referencia a Samuel Beckett que é (ou quem foi) em essência, quem me colocou no mapa, no inicio da minha carreira aqui no La MaMa, em 1984.

 … Thomas recebeu a seguinte crítica de Ilka Marinho Zanotto, do Estado de S. Paulo: “Estão lá, desde as luzes laterais enfrentando violentamente as personagens que se deslocam com extrema lentidão, em linha horizontal, copyright de Bob Wilson.” As comparações sempre foram frequentes.

GT- Se, de fato, a Ilka escreveu isso, só pode ser cega ou burra porque…o cenário era um BUNKER fechado e só havia dois “túneis” de luz que vinham de cima. (ai… ai….)

Anos mais tarde, em 1998, ao dar uma polêmica entrevista para a revista Época, o diretor do Teatro Oficina, José Celso Martinez Corrêa, disse que Wilson era “um grande artista que recebe rios de dinheiro para fazer as pessoas dormirem no teatro”, com a ressalva-provocação: “Apesar de entender a contribuição que ele deu principalmente ao trabalho do Gerald Thomas.” Irritado, Thomas rebateu em um artigo na Folha de S.Paulo que Zé Celso apenas ecoava uma opinião anacrônica da classe média, de que Wilson seria um artista incompreensível. “Adoro o Bob, mas não vejo nada em comum entre o meu teatro, em que os atores suam, e o dele, em que as figuras são completamente estáticas. Não admito uma leitura tão rasa e estereotipante”, escreveu.

Coincidência ou não, dois dos três atores convidados por Wilson para A Dama do Mar e Garrincha têm a trajetória intimamente ligada ao teatro de Gerald Thomas: Bete Coelho e Luiz Damasceno. Quando perguntei a Thomas se conversava com seus antigos colaboradores sobre a atuação deles com Wilson, o diretor se saiu assim: “Não tenho contato com eles. Não tenho contato com a minha avó que morreu em 1980. A Susan Sontag morreu, eu também não tenho contato com ela.” Dias mais tarde, postou um vídeo em sua página no Facebook com o texto: “Até bons atores/atrizes como Bete Coelho precisam de uma boa ‘condução’ como essa que demonstramos nessa passagem de Hamlet (1989), boas épocas de Cia. de Ópera Seca.” O vídeo, gravado com celular a partir de uma tela de computador, tem o título: Gerald Thomas – Hamlet – Bete Coelho sendo “conduzida por mim” 1989.

No final da conversa, Thomas fez uma única comparação de seu trabalho com o de Wilson: “Eu nunca trabalho por commission, sob encomenda. Eu só faço as minhas coisas, eu nunca vou aceitar um tema sem ser por paixão. Eu não trabalho por dinheiro.” Em seguida, ameaçou: “Você está gravando? Porque eu estou. Se você distorcer as minhas palavras, eu te mato. Tenho gente aí na Rocinha, e você acabou.” Ponderou por fim que artistas que ele admira, como o próprio Philip Glass e Pina Bausch, já criaram sob encomenda. Dizendo- se muito deprimido, Thomas falou que, desde que Bausch morreu, arte nenhuma o provoca. Pouco antes de desligar a chamada para seguir para o ensaio, completou: “Sou mais um bobo.”

Luiz Damasceno, um dos atores mais aplaudidos da noite, compartilhava essa visão: “Onde você viu o Brasil? Na música? Nos papagaios?” O veterano, que foi professor de dois dos atores do elenco jovem na Escola de Arte Dramática da USP, disse ter tido um trabalho especial com o texto. “O dramaturgo é americano. Talvez ele use expressões idiomáticas que, quando vertidas, não têm o mesmo sentido pra gente. Eu digo assim: ‘Sua cabeça eu tô vendo que já era! Seu pescoço tem uma boca enorme.’ Eu falo isso porque está lá, mas eu não entendo. O pescoço engoliu a cabeça? Que decepando a cabeça ficou um pescoço com um buraco grande? É quase abstrato.” Um dos fundadores da Ópera Seca, de Gerald Thomas, Damasceno vê muitas semelhanças no trabalho dos dois encenadores, sobretudo no que diz respeito à clareza do movimento corporal. O peso do ator na obra de Wilson, para ele, é muito menor. “Ele é um pintor, e eu me comporto como tinta. Ou um sofá. O texto é só um som que sai da minha boca”, disse.

PS: sim, sou um bobo mesmo  e acho que o Brasil tem mais com que se preocupar ! Um governo em frangalhos, uma Olympiada micada, tudo micado e em frangalhos, etc.

Gerald Thomas

New York – May 16, 2016

 

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