“ARTICULOSE” – trecho de um texto de Gerald Thomas de 1987 (do nada e para nada)

 

GERALD MANEQUIN

 

UMA PAGINA EM 20…

Esperança era sua última esperança, mas mesmo assim baixo demais

Para o ouvido dos mortais

E outras vezes imaginar um outro extremo tão duro de imaginar

Que uma segunda vez se comprimia tanto nesse extremo

Que uma corrente de esperanças e desesperanças se misturavam criando submissão.

s-u-b-m-i-s-s-ã-o, e nada dana em nada.

Tento esclarecer depois.

Imaginando outros murmúrios: pai, pai no céu, pai de deus,

Deus no céu, asa de pai, asa no céu, e outras combinações de cristo com jesus e outros complexos.

Outros nomes completos digamos números, digamos de amados, digamos de amaldiçoados, como a plebe subindo a montanha, ah, mas amados mesmo assim, interjeições inimagináveis, antigos filósofos gregos ejaculados juntos com seus lugares de origem, sugerindo, quando possível, conquista de conhecimento ELE NÃO ESTÁ AQUI, bem audível isso, bem audível. Mesmo assim não totalmente satisfatório, por causa das intermináveis duvidas, como por exemplo, QUAL DIÓGENES?

 

Reconheço a duvida de algumas pessoas quanto a isso ser ou não ser teatro. Reconheço essa duvida histórica sem a qual eu jamais poderia ter ultrapassado tantas etapas, a ponto de dizer: sim, isso é teatro, é mais teatro que qualquer teatro por ser menos teatro de historinha, de mentirinha, de situaçãozinha. Mas reconheço a duvida dessas pessoas, como reconheço a desaprovação dessas pessoas. Não que eu, como autor dessa façanha, dessa “trapaçada”, dessa “embustice” como dizem; não que eu aprove inteiramente. Tenho uns vinte críticos vivendo aqui dentro, aqui dentro da minha cabeça. E o que eles dizem não é melhor nem pior. Vai continuar havendo vida.

 

Posso até me convencer e achar tudo isso muito positivo. Isto é, crescer, se instruir e descobrir pequenas coisas no mundo e adaptá-las ao nosso íntimo, tendo a mais absoluta certeza de que somos únicos, de que importamos pro mundo, de que mais ninguém pensou nessa imagem, nessa coisinha, que ninguém mais incorporou isso. Posso até achar tudo isso muito positivo. Posso até tentar esquecer os vários momentos em que dou de cara com os verdadeiros gênios do passado e os de agora, que não só viram isso, como fizeram disso… uma mera fatalidade do meu passado. O que quero dizer é que posso até tentar esquecer que estamos aqui pra enfatizar algo, ninguém sabendo ao certo que algo, esse algo, pode ser. Alguns tentando de uma maneira descobrir esse algo. Outros tentando de alguma outra maneira descobrir esse algo. Mas estamos aqui só tentando algo. Se alguns tentam algo mais que o algo de formas que não são inteiramente favoráveis, vem logo a fadiga do algo, substituir o algo, mas fazendo algo. Ninguém sabe ainda de qual algo, por que algo, pra qual algo e por quanto algo.

 

Isso ainda ninguém sabe. Então, se alguns tentam fazer algo porque somente outros então se autodenominam os defensores de algo passado e impedem, ou tentam impedir a sequencia logica do algo, que permite acertos, erros e divagações do algo […] ou será que posso dormir tranquilo essa noite, sabendo que alguns sabem realmente de qual algo e pra qual algo e por quanto algo e pra quê? Se alguém sabe, então posso dormir tranquilo. E poderá dormir tranquilo o cerne do universo, com suas forças divisórias, dualistas, dialéticas, antagônicas desse algo. E poderá dormir tranquilo o conflito, a atenção que dizem residir no bom teatro, na boa música. E poderá dormir tranquilo o ocidente ocidental e o ocidente oriental. Não que eu não tente me dizer que escolhi bem ao sair pela tangente, ao ouvir uma suposta voz que me disse ser eu artista, algo assim, artista. Não me disse ser artista da musica. Não me disse ser artista do campo. Me disse só isso. Me disse também ser de uma certa clareza. Só isso. Não me disse ela ser uma clareza de ideias, ou de uma clareza de noite. Não que eu não tenha prestado atenção nessa clareza. Não que eu não tenha prestado alguma atenção a essa maldita clareza que me faz ver com ainda mais clareza que eu ainda não posso dormir tranquilo, e que ninguém ainda sabe algo, e nem chegou perto de algo. Que o resto são mesquinharias, meros passatempos, meros bordados. Das mais simples tapeçarias às teses mais complicadas. Bordados. Alguns padrões interessantes, alguns motivos não totalmente sem criatividade, mas bordados mesmo assim. E onde está a gargalhada? A gargalhada, hein? Onde está a gargalhada de um Shakespeare, por exemplo, ou de um Aristóteles, por exemplo, ou de um Joyce?

 

Não que eu não dê minhas gargalhadas. Não que eu não morra de rir às vezes quando não consigo dormir tranquilo. Não que eu não morra quando passo perto de um hidrante, por exemplo, ou passe diariamente no Bowery com a rua 3, que é onde fica um abrigo de velhos, pobres, bêbados, drogados, loucos. Não que meu riso não vire lagrimas. Não que eu não berre de alguma forma mais inibida quando eu fixo meus olhos no olhar vazio de um louco no Men’s Shelter. Não que isso não produza peças, produza textos, bíblias, mandamentos, verdades e mentiras. Não que tudo isso não produza algo. Pra mim e praqueles que dizem saber do algo e de suas estruturas.

 

Tento então por outros caminhos. Tento então admirar alguns fenômenos. Isso, alguns fenômenos. Assim, talvez, tudo isso passe mais rápido. Tento admirar o fenômeno do aprendizado por exemplo. Ou instruir os outros, que fenômeno! Não que eu não tenha minhas reservas. Não que eu não tenha minhas reservas em passar adiante, alguma coisa captada”. Não que eu não tenha profundas reservas em garantir o sucesso da história. Ou mesmo garantir a sequencia da história, hein? Na medida em que a veracidade é a mesma veracidade daquela que existe quando uma história é contada de pessoa pra pessoa pra pessoa. A decima primeira pessoa provoca o nó da história. O nó da história, e esse é o algo da nossa lógica. Não que eu não tenha reservas sobre isso. Não que eu não admire esse “processo”. Não que eu não tente passar adiante esses “conhecimentos eruditos” adquiridos impunemente em algum lugar e de onde já foram retranscritos inúmeras vezes de pessoa para pessoa. A décima-primeira transcrição provoca o nó da história. O nó da história. Não que eu não admire tudo isso. Reconheço, por exemplo, de nos mantermos “ocupados”. Reconheço o valor em estarmos ocupados, fazendo ou mesmo “almejando” coisas. Reconheço a importância de estarmos ocupados pra merecermos os momentos quando não estamos mais ocupados. Sei como é importante tudo isso. Sei como é importante terminar o dia tendo almejado alguma coisa. Sei como é importante terminar o dia tendo mesmo conseguido alguma coisa. Sei também que é importante deixar algo para ser almejado no dia seguinte, por exemplo. Reconheço o valor do descanso no fim de tanto almejo e tanto alcance.

 

Sei como o almejar tem sido importante desde os modernistas. Sei por exemplo da importância dos modernistas. De como eles mudaram substancialmente as nossas vidas. De como eles mudaram qualitativamente a nossa vida. Reconheço o valor dessa coisa chamada perspectiva. Reconheço o valor nisso. Reconheço a perspectiva de me enxergar como um completo idiota. Um completo idiota. Caminhando pelo mundo e pelas tangentes adaptando observações ao meu íntimo. Perfeito idiota. Reconheço a minha perfeita idiotice em acreditar, no fundo do fundo, existir realmente algum progresso. Perfeito idiota em achar que existe progresso no próprio frio, no mero fato de fazer frio. Perfeito idiota. Tenho perfeita noção de quanto progresso eu fiz, numa fase da minha vida quando fiquei obcecado por um fichário negro que vi numa vitrine a rua 8. Eu sabia que não conseguiria escrever uma só linha ou nenhuma fase completa se eu não possuísse aquele fichário. Me lembro também de umas canetas que ”almejava”. Sabia que sem essas canetas eu não conseguiria organizar o caos da minha vida. Um dia fui comprar um fichário e as canetas no dia mais rigoroso do inverno. A Mercer Street, onde eu morava, com quase um metro de neve, e poucas lojas abertas. Organizei toda minha vida com esse fichário. Portanto reconheço a importância de se fazer esses progressos. Mesmo eu u tenha perdido qualquer escrito que tenha originado desse fichário, reconheço a sua importância. Mesmo que os escritos não servissem pra nada, reconheço a importância desse fichário. Mesmo que ele tenha desaparecido, junto com toda época da minha vida, reconheço que algum progresso foi feito. Reconheço ser um perfeito idiota quando acho que devo anotar a cada minuto e cada preciosidade da minha vida. Reconheço tudo isso.

 

Não que eu não me vanglorie em saber pensar em inglês e em português ao mesmo tempo. Não que eu não me vanglorie até saber pensar em alemão ao mesmo tempo. Não que eu não me vanglorie em saber tudo profundamente sobre a pobreza de uma língua e a riqueza de outra. Como, por exemplo, a simples palavra vida. Seu similar em inglês, lifetime, tão mais completo. Tao mais completo lifetime, ou seja, vida tempo. Pois é exatamente assim. Pois é exatamente assim que percebemos o passar da vida. Ou pelo menos é o instrumento que usamos pra medir o passado da vida. Ou pelo menos um é a perspectiva do outro quando queremos um pouco mais de um, um pouco mais do outro. Não que eu não me vanglorie em poder usa-lo como metáfora, por exemplo. Não que eu me vanglorie em poder usa-lo na medida, já que eu não trabalho numa fabrica, já que eu não sou subordinado a um tempo dos outros, ou a de um senhor mesquinho, ou de um sistema mesquinho, que usa a minha vida pra medir o seu tempo. Reconheço como sou feliz por não fazer parte disso. Reconheço que sou feliz por notar que nem tempo nem vida fazem sons horrorosos na minha barriga.

 

Não que eu não ache certas invenções lindas, por exemplo. Não que eu não ache lindo, como ser humano que sou, os achados da ciência, da tecnologia, do progresso, da matemática e da física. Não que eu não ache irônico que o progresso nos leve à nossa extinção. Apesar de que isso não me deixa triste. Me deixa até um pouco encorajado. Reconheço a importância das nossas invenções na medida em que elas representam nosso contato um degrau a mais com, digamos, deus, digamos, com esse imenso enigma. Mas o que me deixa triste é que esses achados se tornam perdidos na própria vida daqueles que o acham. Não que eu não me encante com as teorias, por exemplo, me encanto. Me encanto com a teoria do barbante, da string theory, que ora reside em Princeton, e que voltou à base das coisas thing, tudo de coisa, por falta de uma substancia melhor, ou por economia de pensamento, bem como Getrude Stein fazia com literatura no inicio do século. Só que a criticavam como criticam a teoria do barbante. Reconheço até a beleza entre literatura e ciência. E finalmente reconheço até nessa beleza hipnotizante de que tudo um todo e todos, checando até a possibilidade de deus ser um concretista, no sentido mínimo e máximo desse enigma, que eu reconheço ser ate muito bonito mesmo, assustadoramente até, incalculável e sem resposta, e por que não dizer, sem cura.

 

Essa “strong thing”, como Princeton chama, é sem dúvida fascinante, principalmente o aspecto “thing” da coisa, o aspecto “coisa” da coisa; pra não mencionar o aspecto “forte” da coisa, o que me leva a pensar que podemos estar falando de monstros japoneses, ou de filmes de horror, ou de uma partícula que funciona em dez dimensões, o que é o caso, dez dimensões, e que une tudo. Isso é a strong thing que vem de New Jersey, pra quem não sabe, o além-mar de Nova York, o que representa o fascínio e a rejeição que todo além-mar representa. Não que não me fascine entender tudo isso. Não que não me fascine ler que dez dimensões é a teoria de agora e portanto não posso deixar de me entristecer quando percebo que no fim da vida, se eu sobreviver até lá, no fim da minha vida vou ler no mesmo jornal que agora são 78 dimensões e o que vem de Princeton é a “weak rope” ou o que valha. Não que eu não veja a ironia em tudo isso. Não que eu não reconheça a ironia de jogar com tudo isso, de especular com tudo isso de uma forma superior, como só os artistas conseguem, nesse momento de irreverencia e desrespeito. Não que eu não seja capaz de reconhecer a minha condição de irreverencia e desrespeito. E me arrisco até a dizer que me alegra um pouco essa irreverencia e desrespeito, mas por pouco, até perceber que alguém mais inteligente do que eu possa estar lendo esse ensaio e ter outras” ideias a meu respeito, ideias ainda mais angulares a meu respeito, ou de achar a meu respeito uma certa insignificância no que ele estaria realmente errado. Ou de saber muito mais sobre as minhas sabedorias e dizer por exemplo que me estilo de pensamento lembra George Duhuit, ou que meu estilo de literatura lembra Beckett ou Stein, e que esse alguém, com o ar apreensivo, e fecha então esse capitulo da sua história achando a sua própria inteligência muito mais inteligente que a minha, o seu estilo melhor do que o meu, suas apreensões mais interessantes que as minhas. Esse alguém, obviamente, só poderá ser eu mesmo no dia em que eu ler esse artigo impresso na Folha de S. Paulo, ou escutá-lo em alguma peça de teatro criada por mim mesmo com o único sentido de me superar. Não que eu não me vanglorie em entender a minha lifetime, ou a perspectiva da minha lifetime.

 

Não que eu não reconheça como é bom se ver na perspectiva. Reconheço. Reconheço até que deve servir para algum fim, algum proposito, algum bem-estar. E se é que existe algum proposito ou bem-estar, ele deve estar equacionado com a dificuldade profunda de se imaginar um bem-estar não se estando bem. Não que eu não reconheça a ironia do concretismo, como já disse antes, reconheço. O concretismo em si é profundamente irônico porque o chamamos assim, de concretismo. Chamamos tudo que temos de não concreto, tudo que temos de metafisico e metafórico e abstrato de concretismo e só porque dependemos da palavra e dos conceitos, isso em si só me deixa transbordado de depressão. Meu deus, não que eu não reconheça a virtude em dissecar qualquer ato e intenção em sílabas, não. Não que eu não reconheça a ironia da string theory sem ser trocadilhos um ato concretista.

 

Não que eu não reconheça o valor em não termos mais um mito. Não que eu não reconheça o valor em termos progredido para o pragmatismo básico que chama tudo de “coisa”, e se não chama ainda, vai chamar. Reconheço o grande passo dado em tirar, arrancar, a nossa existência de uma dimensão determinada e joga-la, violentá-la, contra outras. Reconheço a imensa virtude em aprender tudo isso, em perceber tudo isso como percebo e imagino, como imagino, que tudo pode ser mais um erro de conceito, uma outra língua pra fora, uma percepção cabeluda. Pode ser tudo mais um Harvard boy brincando com a gente, fazendo “arte” como eu faço; pode ser tudo artimanha de um físico exaurido, sem mais inspiração que chama tudo de “thing”. Ou pode ser um estrangeiro que num momento da conferência, no momento da pergunta vital falou “coisa” e isso então vira a modalidade para até, digamos, 95, 96, quando surgirá, fatalmente, a anti-thing. Reconheço a virtude de tudo isso.

Gerald Thomas

New York, October 1987

Papo livre com Haroldo de campos (1999)

 

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