Sergue ! 82 anos , com R$ 76 na conta, passando fome! .

Folha de S Paulo, ILUSTRADA 

Com R$ 76 na conta, cantor Serguei passa dificuldades

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER

ENVIADA ESPECIAL A SAQUAREMA (RJ)

Expectativa: Serguei faz o que pode para se tornar uma lenda viva. Até transformar o casarão de dois andares onde mora em Saquarema (litoral do Rio) num museu, o Templo do Rock. Com boca e alma de Mick Jagger, deitou na cama para fazer sua fama. Em 2013, desfilou no Sambódromo com a camisa “Eu Comi a Janis Joplin”.

Até hoje, aos 82, gaba-se: conhece Janis de outros Carnavais. Mais precisamente o de 1970, quando a levou para a boate Porão 73. Ela, descalça, por pouco não foi barrada -o segurança a tomou como mendiga. Alcione e Tony Tornado estavam naquela noite.

Serguei

Serguei


Na terça (23), “O Globo” noticiou que o roqueiro passa fome. No mesmo dia, a Folha foi recepcionada por ele com braços abertos e geladeira vazia. “Tenho R$ 76 no banco”, diz. Recebe R$ 880 de aposentadoria, mais R$ 1.200 da Prefeitura de Saquarema para manter seu museu, num terreno doado pelo município em 2006 -para visitá-lo, basta chegar lá, não há cobrança de entrada.Realidade: a casa não caiu, mas mofou. O Templo do Rock acumulou limo por anos. Dias atrás, amigos rasparam as partes mais deterioradas por infiltrações e tascaram tinta por cima -como na parede acima da cama onde Serguei dorme em travesseiros de oncinha, sob a guarda do painel do Jim Morrison (que, ele jura, já passou a mão em sua bunda).

Parte do orçamento vai para suplementos vitamínicos como Prosso e Centrum. O artista está com “pulmão e garganta ruins”, diz o produtor André Kaveira, 52. “O software é de 27, mas o hardware é de 82. Está debilitado, não consegue cantar. Ele vai pagar o maior mico se arrumarmos um show.”

O bolso também dói. A dívida na padaria chega a R$ 500. De café, Coca-Cola e pão com margarina. “Vou levando.”

Sai do quarto com bata florida e o jeans rasgado (trocou “pelas calças de um hippie” cinco décadas atrás). Bufa, impaciente com o iPhone usado para gravar a entrevista.

Folha – Tá tudo bem, Serguei?

Serguei – Isto [aponta para o aparelho] é uma idiotice! Sua geração descobriu essa babaquice. São os olhos nos olhos que importam.

Os dele, bem azuis e encobertos pela cabeleira, têm resquícios de anos de maquiagem pesada. O homem que no passado vislumbrava um futuro mais “transviado” e “psicodélico”, cantando sobre sua “calça apertadinha” em “As Alucinações de Serguei”, assume ter um probleminha com o presente. Isso ele deixa claro no primeiro minuto de conversa.

Como você está, Serguei?

Mais ou menos. Esta geração de agora, nunca vi geração tão sem cor. Deus me livre, os caras cortam o cabelo todo arrumadinho, bando de idiotas. A gente fez uma revolução para chegar a esta bosta?

Por uma hora e meia, ele recorda a vida “a.B.”, “antes da Bosta”. Já nos anos 1950, Sérgio Augusto Bustamante, filho de técnico da IBM e dona de casa, usava batom roxo e beijava meninos em público. Em 1966, a revista “Intervalo” publicou reportagem sobre o rapaz que protestou pelo “direito de ser jovem e lindo”.

Serguei (apelido dado por um amigo russo incapaz de pronunciar seu nome) foi comissário de bordo da Panair. Nesse vaivém internacional, conheceu a emergente cultura beatnik -que teria pautado seu comportamento ao longo da vida. Acabou demitido por derrubar sangria numa passageira, a atriz italiana Gina Lollobrigida (“A Mulher Mais Bela do Mundo”).

Seu voo foi mesmo no rock, onipresente na casa onde vive na companhia dos vira-latas Joelma, Elis e Fiuk. Próxima a um quadro de Serguei com asas de anjo, uma foto dele com Jimi Hendrix e Janis -o “affair” que “gostava de comer biscoito à noite”, lembra. “Já acordei e gritei ‘Jesus fucking Christ’. O corpo dela estava coberto de farelos!”

Serguei lamenta que o rock tenha perdido espaço entre os jovens. “‘Sertanojo’ é uma coisa pavorosa, é gente com muito dinheiro -uns tais de ‘Teteca e Titico’- que paga para aparecer na TV.”

Da tríade “sexo, drogas e rock ‘n’ roll”, o primeiro foi o que mais pegou na imagem projetada por Serguei. No passado, diz, até garoto de programa foi. “Tenho alma de puta, mas [o ofício] nunca me dominou.” Hoje, se está cabisbaixo, amigos o levam à boate gay Le Boy. Em casa, recebe visitas de garotões como o “22” -referência à idade “do bofinho” para quem disse: “Realmente não sou tão grande, mas você tem que respeitar o quanto eu sou sexy”.

Para Kaveira, Serguei “caiu no folclore” quando deu entrevistas contando que transa com árvores -um cajueiro em particular. Ele produz uma trilogia para mostrar mais facetas desse dinossauro do rock (dez anos a mais que Mick Jagger): “O Último Beatnik” (ficção com Eriberto Leão, que fez Jim Morrison no teatro), a chanchada “100 Anos de Sacanagem” e “Fícicodelia”, documentário com nome que funde “ficção e psicodelia”.

Algo bem no espírito de Serguei, diz o amigo. “Em alguns momentos, o cara não vai saber se aquilo aconteceu mesmo ou se foi uma viagem.” 

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