Marcelo TAS e eu, quase 30 anos de amor, viadagem e..”gerald : voce esta errado em TUDO !!! “

 

IMG_0478Marcelo TAS e eu, quase 30 anos.

Voce Sabia? Nossa, então…Geeeeraldi…voce PRECISA SABER !!!

Uma das relações mais dinâmicas e engraçadas, além de fieis, que mantenho através das décadas, é com o Marcelo.

Olha, foi mais ou menos assim. Um dia, recebo aquele tapinha nas costas em plena fila do correio na Prince Street no SoHo em Nova York onde eu mantinha uma caixa de correio. Alias hoje (estranhamente) é onde fica uma das Apple Stores. Não, em se tratando de Marcelo Tas, não é “estranhamente”. Depois do tapinha: “Voce é amigo da Bete Coelho?”

Sim, sou”. Antipático como sempre, continuei virado pra frente. “É que estudei com ela no grupo do Antunes…. (como se isso fosse me interessar….)…e continuou….”e fundei o Olhar Eletronico lá em São Paulo…. e sou seu fã”.

Pronto. Me ganhou.

Dia seguinte, ou alguns depois, eu estava no fundo do fundo de um solitário “railroad apartment” (uma muvuca novayorkina, desses mínimos que o East Village tem, esse na East 7th Street, do lado do McSorley’s, um pub ), com o Marcelo, me mostrando dúzias de fitas do seu personagem Ernesto Varela, que eu não conhecia.

Tive a minha primeira GRAVE, gravíssima crise de risos. Tão grave que não conseguia mais respirar. Acho que desmaiei , não sei. É que, com o Marcelo, eu tenho um histórico histérico; desmaio muito. Conto mais adiante.

Bem, nessa única temporada dele em NY nos vimos muito. Levei-o a exposição do Saul Steinberg na Pace Gallery na Rua 57. Sim, ele se desbundou mas….MAS não o suficiente para se dar por vencido: até hoje sai por ai “catando” pelo mundo possíveis “pais” de Steinberg. Eu e a Bel Kowarick, sua mulher, morremos de rir. A ultima foi no final de 2014 quando estavam no Gramercy Park Hotel: “Geeeeeeraldi ! Geeeeeeraaaaldi eu descobri tuuuuudo! É o Egon Schiiiiiilerrrr

Marcelo meu amor. Não existe Egon Schieller com R. Existe Egon Schiele.”

Sim, esse ai

Nada. Schiele e Steinberg em nada se parecem mas o Marcelo tem sempre razão.

Gerald ! isso é sério! Voce precisa ir num shaman Holandes ser picado por um sapo sete vezes. É sinistro mas vai te curar”.

Marcelo e eu já declaramos um “caso” através de nossos Blogs no UOL. “Veados filhos da puta” gritavam os internautas. Nosso caso homossexual virou notícia na coluna da Mônica Bergamo. Ai ai ai. Levamos a brincadeira mais longe. Declaramos então que iriamos casar depois de descrições gráficas dos orifícios que penetrávamos e lambíamos.

Pois é. Somos do teatro. Fazer o que?

Claro, levamos a vida muito a sério. Alias, até demais. Tanto mas tanto que chega a doer. Tentamos (ele e eu) decifrar esse enorme enigma a cada dia, a cada momento e, assim como o universo Brooklineano de Woody Allen, nos frustramos em não conseguirmos resolver os terríveis dilemas humanos, as horrendas contradições em nós mesmos, nos outros e fora de nossas janelas.

Um dia, em pleno ensaio do meu “Flash and Crash Days” com as Fernandas, Claudia Kopke a ex mulher dele me liga em pânico: “Venha pro Hospital Samaritano: O Marcelo esta morrendo”. E estava. Driblei o Milton Gonçalves e outras pessoas “Oi Gerald”, dizia o Milton, feliz em me ver…. “Não Milton, estou aqui por causa do Marcelo Tas

Ah, é a ultima porta a esquerda

O Marcelo estava uma caveira. Havia sido vitima de uma medica charlatã em Copacabana que triplicou a doze de alguma coisa. E lá estava um Marcelo que quase não conseguia falar. Mas disse isso: “Descobri o meu amor pela Rua Viveiros de Castro! Amo Copacabana, Gerald

A coisa estava grave pra quem, dois meses antes, havia morrido de amores por…..Belo Horizonte.

Claro, Marcelo. A Viveiros de Castro! Mega rua legal. Voce vai se divertir e vai ficar bem!”

Não é isso Gerald. É que você não entendeu ainda o espirito da Rua Viveiros de Castro!”.

Eu segui o Marcelo por todos os canais de TV e programas por onde passou assim como me hospedei em todos os seus apartamentos (e cidades de sua escolha momentânea). Com ele é tudo tão , digamos, “pentapolar” que até a filha virou filho, Luc, garoto lindo e inteligente, advogado de direitos humanos baseado em Washington- DC. Ufa, que alívio, trangenders no sentido contrário acabam a cara da Barbara Heliodora.

Mas eu salvo o Tas de muitas situações e ele a mim. “O Gerald é um mentiroso” dizia ele a uma garçonete de um hotel em São Paulo onde eu estava hospedado, só porque eu usava a camisa da Guinness e ela me perguntou se eu havia estado em Dublin. “Sim, acabo de chegar de lá

Ele esta mentindo!”, dizia o Marcelo pra garçonete.

Fiquei intrigado. Por que eu haveria de mentir sobre uma miserável Dublin sendo que ele me visita sempre em Nova York ou sei lá onde? E ele sabe que dou aula em Cork e que a Irlanda é terra de Beckett, meu mestre…?

Enfim, com o Marcelo eu desmaio e eu sou o mentiroso. Pode-se dizer que é amor puro ou puro amor. Mas é também temor.

Desmaiei muitas vezes no mesmo dia. Foi na “Wolf’s Deli” enquanto eu tentava abocanhar um shrimp salad sandwich e ele me contava sobre a época em que era piloto da FAB e como eles vão ganhando altura e que tem um dispositivo (tipo uma seringa injetada na perna pra….Bem. Eles desmaiam também. Mas voltam a si. Não consigo contar essa….É …não consigo nem escrever que bum, estou no chão.

Quando eu voltei a mim já estávamos no metro da Lexington com a 57 e eis que alguém se jogou nos trilhos, frente do metro. Pronto. La fui eu de novo.

Nossa, Gerald. Voce dá um trabalho!!!”

Inundei alguns apartamentos do Tas. Num daqueles namoros cinemáticos, naquele auge sexual quase fingidos (nunca fui de acreditar em sexo debaixo do chuveiro até que vi a agua estragando o apartamento do Tas, o lindo apartamento Art-Deco na esquina da Jau com Haddock Lobo porque eu e a….eu e a tal da ( não devo mencionar o nome dela aqui) trepavamos alucinadamente debaixo do chuveiro e, quando acordamos do quinto orgasmo, a apartamento havia virado um pantanal.”)

Gerald ! Preciso da tua ajuda. Quando vc sair do teu ensaio me ajuda aqui no Tuca Arena

Ok querido, depois do meu ensaio eu passo la !”

Bem, assim, é. Eu passo lá onde o Marcelo esta. Logo um ano apos nos conhecermos, o Marcelo assistiu bem grudado a mim, atrás de mim, na primeira coxia da esquerda, opera MattoGrosso, que montei com Philip Glass.

Somos assim: apaixonados. E afirmo isso três décadas depois. Não sei quantas ou por quantas emissoras ele ja passou mas até um programa com o Lobão ele ja teve. E até dicas sobre hotéis em Buenos Aires eu ja dei nos primórdios do CQC.

De Terças Insanas a Sextas bem sacanas e calmas, somos um – com muito cabelo e outro bem careca. Parece o par ideal.

Mas tem momentos assim: Eu saio do Facebook por pura falta de saco. “Gerald, você esta fazendo o maior erro da sua vida!”

Ele sabe que eu tremo com essas ameaças. Imagina. Alguém que tem um shaman holandês e é picado sete vezes por um sapo e ainda consegue mandar uma coluna depois de tomar sete Camparis… e falar com o Arto Lindsay sobre o “Império das Meias Verdades” (espetáculo meu com a Fernanda Torres), e o ciúmes que eu fiquei sobre um comentário que o “pseudo” anti-musico fez no restaurante de um hotel em 1992, no Rio….tenho que temê-lo!

Ok. Dou um tempo. Volto ao Facebook.

Ah, Geralllldi. Saiba que tudo ali não te pertence mais. Pertence ao Facebook

Não, guardo tudo em Word

Então pertence ao Gates

Mas tenho cópia em papel

Um dia pega fogo !

Tenho copia em Concreto, enterrado junto ao bloco de Herodes embaixo do Muro das Lamentações! Pombas.

O Al Qaeda vai lá e pega. E explode!”

“ Eu tenho dispositivo contra o Al Qaeda, Marcelo! Eu mostro a minha BUNDA e eles somem. Morrem de medo de uma Bunda! Pronto!” UFA!!!!

E assim vai. Uma discussão sobre o ‘nada’ pode durar horas e termina em gargalhadas, meio assim como era o Seinfeld.

Estou apenas começando a descobrir o pergaminho!”

Gerald, o pergaminho não está com nada! Voce precisa descobrir o terno do Emporio Armani feito pelo papel virtual da Google desenvolvido pela Nasa no laboratório do Richard Branson numa rua paralela la naquela….. naquela……. (naquela, sabe? a Portobobello? Onde ficava a Virgin ?)”

No fundo da superfície do fundo, o Marcelo é uma pessoa profundamente triste. E não poderia  deixar de ser diferente. Triste, inconformado, deprimido…aquele que , como no desenho do Steinberg (que mostra o perfil de um sujeito como se fosse um raio X, tem um coelho triste lá dentro olhando por de trás, como se fosse uma segunda visão).

Já eu não sou muito diferente: também sou um desenho do mesmo Steinberg: “A Retrospectiva” que mostra o mesmo coelho sentado em cima da tartaruga. O bicho mais ágil sentado em cima do mais lento. A tartaruga se move para a direita e o coelho olha, passivo e triste, resignado, para a esquerda.

Num dos últimos encontros, me mostrava todo prosa, o APP “preto” do Facebook. Eu e a Bel chacoalhávamos a cabeça. “Tsk Tsk. Esse menino não tem jeito mesmo

O Twitter esta morto, Gerald, morto !!!“, dizia o Marcelo em tom de barítono fúnebre, em final de 2014, como se eu me importasse muito como isso. Mas depois, um ano depois,  a “ex secretaria de Estado” (e, quem sabe) futura presidente Hilary Clinton o citou como exemplo de Twiteiro. E aí? Pra mim o Twitter e um sanduíche de mostarda crua (?) e nada, significam a mesma coisa: nada. Mas, e então?

E então nada. Nada mudou. Somos como água e vinho e essa é a graça da coisa.

É uma vida, de esculhambações, decretos de mortes e avacalhações em publico. É quase uma parceria mas que não chega a ser. Nos “consultamos” e nunca nos deixamos de falar.

E o que predomina mesmo é essa incrível perplexidade tão melhor expressa por Hamm e Clov em “Fim de Jogo” (quando Clov olha as ondas do mar através da pequena janela e Hamm pergunta o que acontece) “Nada. É a vida tomando seu rumo”

 Um rumo com muito amor, diga-se de passagem.

LOVE

Gerald Thomas

Wengen, CH, Feb 14, 2016

 

 

 

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