Esse é o DEPOIMENTO MAIS EMOCIONANTE que já li e recebi de uma pessoa que amo, respeito e espero que vocês leiam com a mesma emoção: por WILLIAM OLIVEIRA

William Oliveira

William Oliveira

...e William Oliveira

…e William Oliveira

Gerald,

Por favor, acalme-se. Eu não tô fugindo de você. Tô apenas isolado sim com minha família, que funciona totalmente em outra frequência — parece que colocaram fotos no Facebook e me marcaram, então você pode ter uma ideia. Não estou me queixando; estou bem aqui, na medida do possível.

Como ninguém é cerebral na minha família, é mais fácil pra eu me “adaptar” e não enfrentar tão fortemente as consequências de uma cabeça como a minha, quando imersa nisso a que chamam de racionalidade.

Não foi o XXXX que me deixou assim, Gerald. Eu já estava nesse processo de desistência muito antes. O que aconteceu no processo com o XXXXX é que eu enxerguei aquilo como uma miragem no meio dessa terra devastada. Numa esfera em que tantas vozes parecem desconectadas ou gladiando-se entre si, afogar-se numa paixão carnal e mental parece ser a saída mais adequada. E de certa forma covarde também. Ou de quem já está cansado demais.

Esse tipo de barbárie que assusta você e a suposta classe pensante do Brasil, como a que aconteceu com Cacá Diegues e Chico Buarque, é testemunhado por mim já desde que me entendo por gente. A diferença é que como vocês vivem num mundo rarefeito, de algum modo acabam se protegendo disso. Experimenta só ir a qualquer almoço de domingo num subúrbio. Ok, você me dirá das oficinas que ministrou em Vigário Geral e tantas outras atividades empreendidas junto à “população carente”. Mas cadê a continuidade disso? Não há continuidade porque não é apenas uma avalanche de conceitos sobre o despertar da subjetividade que irá ter alguma relevância significativa nessas pessoas que se afogam na barbárie.

E você sabe disso.

E ao mesmo tempo não tô desmerecendo o trabalho que você fez lá. O que tô tentando dizer é que eu mais do ninguém, como fruto desse meio, posso dizer que as ditas instituições civilizadoras estão muito longe de chegar aqui.

Um primo meu de vinte e poucos anos (esse que tirou foto comigo embaixo do guarda-chuva com meu padrasto) tá fugido do bairro em que mora, pois se envolveu com “amizades erradas” e, se ele aparecer de novo lá, os policiais locais o matam. Simples assim. E com a maior legitimidade possível. E sem o menor questionamento de ninguém da minha família, pois eles sabem que se recorrerem à “justiça comum” pra tentarem provar que esse meu primo é inocente, essa instituição vai rir da cara deles. Não é à toa que eles não acreditam nas instituições.

Esses mesmos policiais, aliás, que ameaçam matar meu primo caso ele volte à vizinhança, são também a garantia pra essa vizinhança (e também pra minha família) de que a violência inconsequente do tráfico não retornará pra lá. São os chamados milicianos, como você já deve ter lido a respeito.

Então minha família faz parte do jogo, como se isso fosse um preço a se pagar: calam-se diante da intransigência autoritária policial (inclusive apoiando o pagamento de taxas aos oficiais) e conformam-se com a barbárie organizada resultante disso.

Não por acaso vez ou outra os homens da minha família dizem, quando veem manifestações de rua a favor dos “grandes valores”: Tem que atirar logo em todo mundo pra acabar com essa bagunça!

E não por acaso as mulheres reproduzem o discurso da igreja evangélica: Bastam um pastor eficiente e muita fé pra que todos os problemas sejam resolvidos.

Isso é apenas uma parte do cenário, mas imagino que a partir daí você já forme uma vaga ideia.

E no meio disso tudo tem eu: o primeiro sobrinho/filho a ter entrado pruma universidade federal, blablabla, que hoje é editor e frequenta outras rodas que minha família jamais vislumbrou — ou, se o fez, foi de longe, atuando como serviçal ou coisa do tipo.

E é claro que por um bom tempo eu banquei o condescendente com eles e tentei “levar a civilização” a eles, como uma oficina de teatro em Vigário Geral (ou mesmo uma oficina de música clássica que ocorreu uns anos atrás numa favela de São Paulo chamada Paraisópolis).

Mas não dá pra se ter continuidade, Gerald. E digo isso não por preguiça ou desistência. É uma constatação triste na verdade — de que se as bases de um sujeito não foram “bem trabalhadas”, qualquer desenvolvimento no meio do caminho vai sempre ser canhestro.

O texto do Cacá Diegues, que você republicou em seu blog, expressa exatamente essa derrota que sinto já há muito tempo — com a diferença de que como vocês vivem num mundo rarefeito, essa sensação não é tão evidente todos os dias. E não adianta mobilizar a história da guerra, Gerald, dos pais refugiados, da perseguição ditatorial ao Chico e tantos outros — pois de algum modo, por mais que vocês tenham sido vítimas da barbárie (e lutado contra ela), de algum modo vocês atingiram uma posição social que os protege disso — por mais informados, engajados e bem-intencionados que sejam. Daí, quando são confrontados numa esquina do Leblon por essa barbárie que ainda sobrevive ferrenhamente, vocês se assustam e danam a escrever e gritar aos quatro ventos pelos valores outrora defendidos por vocês.

Convenhamos: essa barbárie esteve aqui o tempo todo, e a racionalidade de vocês foi incapaz de vencê-la.

A gente pode entrar aqui no jogo das energias humanas, de ying e yang, de Freud e Lacan, mas não é este o caso.

O caso é que no meio dessa comida envenenada, da sensação de fracasso e inadequação que me persegue (lembra que uma vez eu te falei que os livros que eu publicava não chegavam à favela onde minha prima mora?), surgem você e o XXXXX.

E daí eu começo a acreditar em alguma coisa outra vez. Em outra possibilidade de existência que não seja essa de “sorrow” e “wasteland”.

Em uma possibilidade de satisfação micro, e não mais macro como eu vinha defendendo e me frustrando sempre.

Com o Marty não demora muito pra eu perceber que tudo é uma cortina de fumaça, mas as energias já haviam sido direcionadas, e retornar ao estado anterior demora um pouco — daí eu me isolar. Daí eu pedir esse tempo a você.

E com você há essa demanda constante da sua parte e eu nunca sei afinal quando é o bastante. Eu não sou o Cacá Diegues, Gerald, que não precisou ir pra “barra da saia da mãe” pra chorar as pitangas. E por mais que eu entenda o meu ato de covardia (e narcisismo) em fazer isto, eu simplesmente não tenho o background que você, Cacá e tantos outros têm pra lidar com revezes parecidos. Eu posso ter lido o mínimo pra entender alguns mecanismos, mas não tenho a meu favor a vantagem da experiência de vida. Por mais que você diga que tô com 33…

Cada um tem seu processos, Gerald.

É uma pena que através dessa minha reação diante de tudo, você coloque no meio termos como “confiança”, “profissionalismo” ou coisa que o valha. Pra mim esses termos não têm nada a ver. Eu apenas fiquei vulnerável demais, mas isso não quer dizer que eu tenha deixado de te amar ou pensar em você.

Mas aparentemente tudo precisa ser do seu jeito.

E não, não estou brigando com você. E tampouco tentando fazer terapia reversa. Tô apenas tentando trazer um pouco de relativização pra cá.

Se depois disso tudo o que escrevi, depois de toda essa energia que despendi aqui na casa da minha tia em Campo Grande, você ainda continuar alimentando sua birra a meu respeito, será então mais um fracasso que terei de encarar daqui pra frente. Mais uma relação que ficou no meio do caminho; mais uma conexão significativa que se perdeu… (a menos é claro que pra você seja fácil conseguir isso que temos, pois pra mim definitivamente não é).

E não, ao lançar mão disso, não estou sendo um chantagista barato.

Por favor, repense, Gerald. E deixe de melindres. Quer que eu banque o Paulo César Pereio e grite “Eu te amo, porra!“?

Abraços,

William Oliveira

GT- Sim William: EU TE AMO PORRA! 

PS: quando recebi esse email, chorei, fiquei completamente desnorteado, no chão, aos prantos e sem saber o que fazer. Tenho um vôo hoje pra Londres mas pensei em cancelar pois, depois de um depoimento desses, NADA mais faz sentido. Nada. 

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