Lindíssimo artigo de Cacá Diegues: “AMOR a VIDA” (antes que o pau comeu, lá com ele e o Chico no Leblon, com os fascistas e neo-nazis que pregam a Krystalnacht!

Amor à Vida

Cacá Diegues

18 dezembro 2015

Eu sei que ninguém tem nada a ver com isso, que o problema é meu e eu que o resolva. Mas, para começo de conversa, devo confessar que estou de saco cheio desse mundo. Do mundo, não da vida. A vida, cada um cuida da sua e eu tento cuidar da minha o melhor que posso. O que não mais suporto é o mundo e o que acontece nele, aqui, ali e acolá.

Não aguento mais ouvir falar em Estado Islâmico; não adianta muito acabar com ele, outro fanatismo fundamentalista surgirá por aí, em qualquer canto do mundo onde exista um povo maltratado e faminto. Pouco me importa se Donald Trump for eleito presidente dos Estados Unidos; há muito tempo que sei que quem manda por lá é o capitalismo financeiro, onde o dinheiro só serve para comprar mais dinheiro, a Bolsa e a vida.

Que importa se o Irã tem ou não tem a bomba atômica, se as crianças iranianas são proibidas de cantar na escola e suas meninas não podem estudar? Que importa se Cuba alfabetizou toda a sua população e alcançou nível excelente de saúde pública, se eles não podem ler o que querem, nem levar seu corpo aonde bem entenderem? Que importa se a China cresce e se moderniza, se seu povo não consegue respirar nas ruas?

Também não quero mais saber de impeachment, de Eduardo Cunha e Renan Calheiros, da lama em Mariana e da lama no Congresso, da inflação e do desemprego, de PMs assassinos e PMs assassinados. Não quero mais ouvir o que já ouvimos desde tantos anos, o poder do pensamento mágico a nos falar de nossas palmeiras, sabiás e carnavais, a nos dizer que somos uma terra abençoada, o país do futuro. Já fizemos passeatas pela democracia, pelo clima e pela moralidade, pelo transporte barato, pelas baleias e pelos golfinhos. Agora, o mico leão dourado que se foda.

A linha reta não existe na natureza. O homem a inventou porque não consegue conviver com a curva e suas surpresas, não é capaz de entender o acaso, bênção ou maldição. Segundo Deleuze, o sentido de “Em busca do tempo perdido” não está na lembrança da madeleine, não é um esforço de recordação de um tempo que já passou. A procura de Marcel Proust é a do tempo que se deixa de usar para viver, como na expressão “perder tempo”. Ou o medo do que há de vir e a gente não sabe, o tempo mais perdido. O medo da vida.

Os humanismos todos nos enganaram com a promessa do happy ending triunfal do céu eterno, da sociedade sem classes, da mente sã, do domínio sobre a natureza. A história nunca terá fim, muito menos triunfal. Estamos condenados a um mundo de falhas, erros, defeitos e pecados. Só nos resta tirar, de nossas fragilidades, a nossa grandeza. Só nos resta conter a distância daquilo que, cheios de boa vontade, consideramos humano – Romain Gary diz que, o que havia de mais humano nos nazistas, era a sua desumanidade.

É à vida que devemos nos entregar regozijantes. A vida como um poema composto apenas de fenopeia (imagem) e melopeia (música). A vida onde a única regra é a do acaso, que pode ser graça ou desgraça. Não existe o Ser, só existe o Sendo, aquilo que as circunstâncias nos permitem ser ao longo de um tempo e assim sucessivamente. Se os Capuleto tivessem cremado Julieta, Romeu estaria a salvo e, mesmo amargurado, ainda viveria por muitos anos.

Tampouco existe na vida homem que possa ser considerado feliz ou infeliz, o que existe são momentos de felicidade e infelicidade; temos a obrigação de valorizar a experiência dos primeiros e, sempre que possível, evitar os segundos. Se eu quiser, paro de trabalhar e vou para a praia, fico nas areias de Ipanema, sobrevivendo do que ganhar nos semáforos da cidade. Ou então morro de fome à beira do mar e ninguém tem nada a ver com isso. Meu sonho de vida é ser objeto de um milagre qualquer.

Deus é o que não sabemos, o que não conhecemos, o que não podemos controlar e atribuimos a Ele para evitar a depressão do sentimento de impotência. Mesmo que Ele exista, Deus também está portanto dentro de nós, agoniado com o que se passa. Conheço alguém que defende a tese de que o Juizo Final é para que Deus nos peça desculpas pela cagada que fez.

Como a vida real nem sempre é bela e minha fantasia não faz mal a ninguém, às vezes a troco por ela. E me dou bem. Os protagonistas de minha vida são meus amigos queridos (um deles me disse que minha filha vai acabar nos fazendo acreditar em Deus), minha companheira amada e os quatro filhos que temos, todos fortes e bonitos, capazes de resistir ao acaso, esse deus ou diabo, sol e escuridão em nosso caminho. Talvez a vida seja tão simples assim, “surpreendentemente bela, mesmo quando nada nos sorri”, como está numa nova canção de Lenine.

Enquanto isso, Adriano de Souza, o Mineirinho, montado em sua prancha de campeão, levanta as mãos para os céus e comemora, com seu parceiro Gabriel Medina, a eterna primavera do espírito. Quero ser um deles.

Cacá Diegues

Artigo originalmente publicado em O Globo.

carlosdiegues2015@gmail.com

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