De William Oliveira (um dos textos que me deixou aos prantos, de imediato)

Ela tem cheiro de Teatro Municipal. Não o cheiro do teatro em si, mas do burburinho do intervalo entre as apresentações. Aquela mistura suficientemente sóbria e embriagada que define uma classe – a dominante.

Ele a conheceu numa triagem de psicoterapia. Na verdade ela foi a terapeuta responsável pela avaliação dele, pela denúncia do sintoma que revelaria a patologia dele e com a qual a categoria dela continuaria dando sentido a própria existência. “Ganham dinheiro com a nossa angústia”, ele riu entredentes ao se lembrar da fala de um personagem do filme russo Stalker.

Ela precisou de ajuda para se sentar na frente dele; ele poderia ter encarado isso como uma fraqueza da parte dela, mas estava desesperado demais para ponderar sobre um analista ideal e infalível.

Sete sessões depois, ele sugeriu que ela estaria sendo maternal com ele, e ela alertou que ele seria um sujeito obcecado por atenção. “Inclusive a dela?”, ele ensaiou questionar, percebendo a ironia da situação.

Ela, evidentemente, está a favor do status quo. Ele, por outro lado, por achar que não cabia no status quo, procurou alguém que pudesse convencê-lo que sim. Ou adaptá-lo ao sim.

Ele, afinal, já está com 32 anos e tem medo de não conseguir mais amigos, até porque esses eventuais futuros amigos vão se assustar quando constatarem que ele não tem amigos. Ou quando começarem a contar histórias sobre os outros amigos e chegar a vez dele e ele ser obrigado a mudar de assunto. Ele não tem histórias para contar e espera poder aprender na terapia como transformar o simplório em consagrado e ter assim várias histórias para contar. Para vários amigos.

Ela, como manda o figurino, certamente tem histórias para contar. Suas e dos outros – que ela, ele suspeita, vai relatar de maneira sub-reptícia. Seus potinhos de porcelana no banheiro (como uma cenografia de casa de avó) e um quadro de Klimt (o mais significativo e óbvio deles, é verdade) são alguns itens que dizem muito a respeito dela. E revelam a história exatamente como ela quer contar para ele.

Mas ele não quer contar a história nos termos dela, embora ela o interrompa com frequência em despudorados comentários que se findam num suspiro sorridente. Surge aí sempre um pestanejar de ansiedade, como se ela tivesse acabado de atirar inúmeras verdades para o ar e ele precisasse se levantar rapidamente para equilibrá-las nas mãos como um malabarista de neuroses existenciais.

Ele pensa que ela fez questão de ser a terapeuta dele depois da triagem. Ela disse que passaria a ficha dele para a direção da clínica e de lá eles o remanejariam a um profissional apropriado. Mas quando a secretária da clínica mencionou no começo do telefonema, alguns dias depois e ligeiramente hesitante, que coincidentemente a terapeuta dele teria o mesmo nome da profissional responsável pela sua avaliação, ele imediatamente constatou que a vida dela deveria estar realmente sem grandes sobressaltos emocionais. Afinal de contas, que tipo de paciente ela devia ter que a fizesse criar este estratagema só para atendê-lo? Sujeitos cujo maior padecimento é não sofrer de qualquer tipo de padecimento.

Foi fácil então para ele concluir que sua dor muito provavelmente era a mais genuína com a qual a terapeuta poderia ter se deparado. Até porque, ela tinha cheiro de Teatro Municipal.

O personagem que ele interpreta para ela a cada sessão é o de um moleque tímido e de olhos fugidios. Ela sorri quando ele cita um verso de um poema de Baudelaire (“A dignidade me entedia”) e parece incrédula quando ele sentencia que o matrimônio é um coma social no qual ele esteve imerso por dez anos.

Para ele tudo é uma questão de repressões malfeitas ou aplicadas pela metade. Para ela tudo é uma questão de não se repetir eventos e obsessões. O jogo dele é o do poder; o dela, o de um estoicismo abstrato que cita o bolero de Ravel como metáfora da vida.

A narrativa dele não chega a ser original: negro, ele foi o clássico filho da empregada cuja educação se viu financiada pelos patrões. Como consequência, teve acesso a artigos que não necessariamente poderia adquirir por conta própria, mas acabou disciplinado a respeitá-los como tabus. Assim, ao contrário do pivete que rouba da burguesia para satisfazer seu capricho por um tênis Nike, ele aprendeu a experimentar o desejo como algo vago, irregular e desnecessário. Ele até poderia assistir à tv da sala de estar, mas era adequado que se mantivesse sentado no tapete, e não no sofá, e saísse de fininho toda vez que algum dos patrões pusesse a chave na porta de entrada anunciando sua chegada.

O consultório dela exibe prateleiras submersas numa camada cinzenta e seca de poeira. Ele tem vontade de perguntar se ela está precisando de uma faxineira e conjectura o absurdo que seria sugerir sua mãe como diarista – embora a ideia se apresente maravilhosamente promissora em termos de quiproquós narrativos. A mãe dele, que jamais saberia lidar organicamente com a dor dele, limpando eficientemente a sujeira sólida da alcova onde uma vez por semana ele e tantos outros vomitam suas sujeiras emocionais.

De fato, sem sombra de dúvida, ele é o paciente mais interessante que essa terapeuta poderia ter encontrado.

William Oliveira

 

 

Comments Off on De William Oliveira (um dos textos que me deixou aos prantos, de imediato)

Filed under Uncategorized

Comments are closed.