Monólogo final de Marco Nanini em Circo de Rins E Fígados (minha autoria – 2005), tão propicio pros tempos de hoje:

Monólogo final de “Um Circo de Rins e Fígados” que escrevi (e dirigi) pra Marco Nanini em 2005.

NANINI
Olha, gente….

eu…moro no Brasil.

Vivo e trabalho no Brasil

com muito orgulho.

É irônico porque,

apesar de querermos brincar, trabalhar,

sempre parecem querer…

querer colocar algum obstáculo,

alguma pedra no nosso caminho.

Desde Sófocles, por exemplo,

sobrevivi a tantos tribunais,

a tantas Inquisições,

tantas Guerras Mundiais,

conflitos locais,

emboscadas culturais,

ditaduras,

proibições de todos os tipos

e, no entanto…

continuo de pé,

e tudo aqui nesse pais maravilhoso das chacinas e do racismo não assumido.

E de tantas outras atrocidades e injustiças.

Sou como o Brasil:

não tenho solução.

Sou um problema.

Mas sou um problema sensacional.

Assim como um belo gol,

a mais bela literatura dramática do mundo,

a literatura de Nelson Rodrigues.

Não há ninguém melhor no mundo.

E mesmo ele, levou ovo e tomate na cara quando….ah…

Deixa pra lá.

Causo muita dor.

O Teatro causa muita dor.

Mas somos como a própria natureza:

belos como o nascer e o por do sol,

e devastadores como um Tsunami,

um terremoto,

um furacão.

Destruímos,

desconstruímos,

brincamos de estilhaçar tudo.

Mas essa lucidez toda vale a pena:

afinal, é ela que sobrevive através de todos esses séculos, mesmo com essa tecnologia toda agora

entrando como se fosse um pontapé no nosso estômago.
Eu fico assim,

como o berro silencioso de Munch,

ou um Álbum de Família

e quando dizem que ator não se emociona, estão errados.

A gente se emociona sim.

(Nanini é envolto na bandeira brasileira)

 Arranjo do Hino em samba de Ivo Meirelles. Fabiana Gugli Abraça Marco Nanini envoltos na Bandeira do Brasil e a luz cai em 30 segundos Pano fecha,

Gerald Thomas

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