Cidadão do Mundo – last part (última parte): por Jardel Dias Cavalcanti.

Gerald Thomas: cidadão do mundo (parte final)

 

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O final do livro “Gerald Thomas: cidadão do mundo”, organizado por Edi Botelho, é reservado para o comentário de algumas peças e óperas montadas pelo dramaturgo nos últimos anos, como também para Thomas falar e refletir sobre si mesmo.

Há uma parte um pouco melancólica, denominada “Todas!”, em que Gerald Thomas comenta os problemas que envolvem a sua imagem pública. Visto como “polêmico” (há tantos episódios externos à própria obra do diretor que geraram esse adjetivo), rebate logo dizendo: “Polêmico, na imprensa, para mim significa que o jornalista é preguiçoso.” Com certeza, evidentemente, o adjetivo “polêmico” não resolve (muito menos resume) o significado de uma vida inteira dedicada ao teatro, à criação e à reflexão sobre o “mundo em transe” ao qual o diretor sempre esteve atento.

Os adjetivos variam do péssimo ao pior: grosso, viciado, alcoólatra, come todas e todos, mitômano, narcisista e por aí vai! Contra essas denominações ordinárias, há uma obra construída, que requer tempo, atenção e cultura para ser entendida. Jornalistas não têm tempo para isso, como pessoas “ordinárias” também não. Gerald Thomas reclama disso: “No entanto, tudo isso parece evaporar-se como a fumaça que uso no palco. O que parece sobreviver é a imagem de um monstro.”

Além da imprensa, novos amigos revelam ao diretor parte dessa imagem terrível criada sobre ele. “Nada como sentar com um amigo recente. Ele revela tudo aquilo que você mais temia a respeito da tua imagem girando por aí, mas tinha medo e perguntar. (…) Você não tem ideia de como é visto pelas pessoas, ou melhor, você não tem noção de como é sua imagem por aí.”

A resposta que o diretor dá a esse “espelho torto” de sua imagem é dura: “Então, que assim seja, (…) vou começar a satisfazer a imagem pública que fazem de mim. Chega de me desculpar. (…) O jeito mesmo é ficar antipático, arrogante, orgulhoso. Já que não importa mesmo que as pessoas não me conheçam na intimidade e não saibam dos meus sacrifícios diários de sobrevivência… entendi de uma vez por todas que uma pessoa pública é assim mesmo: uma coisa, um produto. E produtos não choram lágrimas e nem se despedem!”.

Outro tema apresentado pelo dramaturgo é a sua relação de admiração e respeito por Haroldo de Campos e Beckett, bem como pela obra de Wagner, que montou em vários momentos, e sua relação tensa com dois outros grandes criadores que são o compositor Luciano Berio e o dramaturgo Heiner Müller.

Sobre Haroldo de Campos, revela: “ele foi uma das pessoas mais importantes da minha vida e obra”. Sobre Beckett, a dívida pelo contato, amizade e influência fatal: “A prosa de Beckett que montei no início, na verdade, era uma porta – uma chance – para que eu começasse a formar um vocabulário próprio.”

Sobre Heiner Müller, apesar da aproximação com três montagens de “Quartett”, Gerald diz: “eu não faço mais Heiner Müller, não acredito nas peças dele, não me convence mais como dramaturgo. É um ótimo escritor de manifestos e Hamlet Machine é uma coisa que nunca me apeteceu (…)”.

De Richard Wagner, o diretor montou “O navio fantasma” e “Tristão e Isolda”, e não polpa admiração ao compositor:”Superlativo no sentido ariano mesmo da palavra: perfeição, além da vida, aquilo que inspirou Nietzsche a escrever homem, Super-homem, e criar o ser imortal. Não há nada como Wagner. Eu choro enquanto dirijo. Lacrimejo, descubro a cada dia, a cada récita, a cada ensaio, uma nova camada. Nunca tivemos um gênio assim, e não haverá outro.”

Com Luciano Berio a relação não foi boa, no momento de direção da obra “Zaíde”, de Mozart, a convite de Bob Wilson, quando juntou-se para Gerald Thomas duas coisas desagradáveis: “Mozart é o compositor que menos gosto. Juntando com o que eu mais detesto que é Luciano Berio, deu no que deu.” Berio descobriu a relação próxima de Thomas com o compositor Philip Glass, que ele não tolerava, quando começou a demonização do diretor e de Glass. Quando Gerald, em um encontro com Berio, exigiu do compositor a música, recebeu de volta o questionamento: “Quem é você para exigir alguma coisa de Luciano Berio?” Sobre a música que Berio levou seis meses para compor, Gerald Thomas não poupa crítica: “Nossa mãe, que coisa horrorosa! O cara precisa de seis meses para compor uma bosta dessa.”

 


Além desses temas, o final de “Cidadão do mundo” trata de trabalhos como a “Blog Novela”, para o universo virtual do site IG, que foi transmitido no Brasil e pelo mundo, com 55 mil espectadores aproximadamente. A peça acabou com o nome de “Kepler, o cão que insultava mulheres”, sendo transmitida via internet, no teatro e na Av. Paulista, por um telão que o Danilo, do SESC, instalou para o público da rua.

A montagem de “Dr. Fausto”, ópera de Ferruccio Busoni, em 1995, é um dos assuntos retomados no final do livro que resenhamos aqui. Montada na Graz Ópera, na Áustria, foi uma felicidade para Gerald Thomas. Suas palavras são radiantes sobre essa montagem: “Ótimo, maravilha, um dos melhores trabalhos que eu já fiz. (…) É um dos que eu mais me orgulho, esse realmente… O Fausto é uma coisa impressionante. O tema é Goethe, e Busoni é um compositor que o Schöenberg criou, então é uma música schoenberguiana com um tema goethiano. É lindo, lindo, lindo! Tem todos os elementos de modernismo (…) eu trouxe os elementos da Bauhaus e Duchamp, a roda de bicicleta, enfim, eu coloquei tudo aquilo que não quis olhar para trás, só quis olhar pra frente e teve que arcar com essa consequência. Foi a luz mais brilhante que eu já fiz até hoje.”

A ópera Tristão e Isolda foi montada em duas versões, uma para Weimar e a outra para o Rio de Janeiro. A de Weimar foi no Deutsches National Theather, na Alemanha Oriental, em frente ao museu da Bauhaus, na Weimar de Goethe, “onde aconteceu todo o modernismo do século XX”. Segundo Thomas, “as críticas foram boas, algumas excelentes. Foi parar na TV e no Japão e China”. Rompendo com o modelo tradicional de apresentação da ópera Thomas inovou, usando até passarela de moda no palco.

No Rio de Janeiro, o diretor teve que partir do zero. Apresentada somente nos anos 50 ou 60, pelo neto de Wagner, com produção da Bayreuth em tournée mundial, a ópera retoma nas mãos de Gerald Thomas, numa leitura ousada e com o grand finale polêmico da bunda do diretor sendo exposta. Além disso, Gerald introduz Freud na peça, o elixir do amor virando cocaína, criando divergências e cortes por parte da direção artística, na pessoa de Helena Severo (governo Rosinha e Garotinho).

No dia da estreia, Gerald recebe a notícia da morte do seu amigo e mentor intelectual Haroldo de Campos. Tensão total, ainda mais com as primeiras fileiras compradas por gente do Richard Wagner Fórum (que não admitem nenhuma mudança no conceito original de Wagner), vindos da Alemanha, Inglaterra, Áustria, Bolívia, Argentina… Atrás dessa fileira, artistas como Caetano Veloso, Cacá Diegues, Fernanda Montenegro, Francis Ford Copolla, Denzel Washington, Zuenir Ventura.

No final da apresentação, vaias irrompem das primeiras fileiras e Gerald Thomas decide mostrar a bunda para esse grupo, o que faz com que ninguém entenda seu gesto, pois estava sendo ovacionado pelas outras fileiras, o que gerou incompreensão da razão do desabafo anal do diretor. “O fato é que mostrei a bunda e fui preso”.

Notícia mundo afora, o fato é que o diretor foi detido, sob processo de Rosinha e Garotinho, sendo levado algemado para a 15ª Delegacia. O resultado para Gerald foi um gasto de 22 mil dólares com advogados e viagens para se apresentar ao juiz, só podendo entrar no Brasil com habeas corpus. Para o juiz, Gerald disse o certo: “Não vou aqui, como artista, colocar um precedente para meus colegas artistas. Eu não cometi nada de indecente, eu estou dentro de um teatro onde a nudez é permitida. No mesmo teatro onde Nelson Rodrigues levou ovo e tomate na cara em Vestido de Noiva, em 1943. Eu, em 2003, me recuso a aceitar que vocês vão me processar por ato indecente, indecoroso, obsceno, sei lá.”

 


ENDE HERE

Gerald Thomas é um dramaturgo do mundo e de “nenhures” (como disse Haroldo de Campos). Não lhe basta apenas o ambiente do teatro, como não lhe basta apenas o ambiente de um país ou de uma cidade, como não lhe basta também apenas uma língua.

Sai sempre em defesa de seu teatro e suas ideias por todos os meios possíveis, dando entrevistas ou escrevendo artigos, ensaios sobre seu trabalho ou sobre autores que lhe importam, livros, blogs etc. Nunca se furtou de frequentar a grande mídia e opinar sobre a situação do teatro e das artes como sobre a política mundial ou a condição humana. Nunca deixou de discutir com outras personalidades ou com o público (em eventos, palestras, workshops) sobre seu projeto de teatro e de outros artistas que admira ou rejeita.

Por dar a cara à tapa, não se furtando a transitar por áreas pouco convencionais, tem sido sempre admirado e/ou criticado. Seu temperamento, embora difícil (quem conseguiria viver com um artista, esse “esquizofrênico que deu certo”?), não o afasta de uma legião de admiradores. Em geral, quem conhece o trabalho do diretor o admira. Talvez a frase de Barthes explique um pouco o diretor: “Eu escrevo para ser amado”. Nem tanto, às vezes o diretor parece criar para ser odiado. É, por isso, mais mal entendido do que conhecido profundamente, onde deveria ser de fato reconhecido: no seu teatro.

Desde suas montagens de Beckett no La MaMa, em Nova York, Gerald Thomas tem levado o teatro para o campo da experimentação, da criação de uma prática próxima ao “experimentar o experimental” de Helio Oiticica, sem cair em chavões vanguardistas fáceis. Amante da ópera, principalmente wagneriana, faz de sua dramaturgia uma busca pelo ideal da “arte total”, uma conjunção cósmica de teatro, música, cenografia inspirada nas artes plásticas, performance, dança. Jamais conformado com a linguagem “normatizada”, do que quer que seja, faz da estranheza do discurso – “Oh! A palavra que me falta!”- uma forma de “invenção”.

Gerald Thomas não espera Godot, acaba de escrever sua autobiografia “And dead, we walk”, que em breve será lançada… E os debates recomeçarão.

Jardel Dias Cavalcanti

link direto: http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=4156&titulo=Gerald_Thomas%3A_cidadao_do_mundo_%28parte_final%29

E, POR HAROLDO DE CAMPOS PARA A FOLHA DE SAO PAULO CADERNO MAIS 1996

São Paulo, domingo, 27 de outubro de 1996
O homem de nenhures

HAROLDO DE CAMPOS
ESPECIAL PARA A FOLHA

Uma falena preta, negrejante, abre asas em trapézio e borboleteia: dança. Está nua, e o triângulo de terciopelo entre suas coxas móveis (ela dança) replica, em miniatura, às asas trapezoidais do vestido alçado. Ela dança, Carmen Miranda cambaleante, ao ritmo de um samba de Chico Buarque cantado na língua nórdica de Ingmar Bergman. Das velaturas vocálicas e das angulosas consoantes do sueco emerge, aos poucos reconhecível, um refrão familiar: “Canta samba Brasil!”, ligeiramente “estranhado” pelo sotaque. Ao fundo da cena, em azul e branco, nuvens sobre céu, um telão radiante corta o escuro do palco. Compõe uma paisagem à Magritte e à Duchamp. Com cinco latrinas brancas enfileiradas como esculturas vacantes. Cinco retretas que sinalizam aqueles mallarmeanos “lugares absolutos” (na fala comum e nos grafitos dos lavabos públicos, “lugares solitários”…). Cinco viúvas sedentárias, porcelanizadas, prenhes do mistério freudiano, grávidas do (agora não mais retido) ouro fecal. Três enfermeiros e duas nurses, todos vestidos de branco hospitalar, acabaram de fazer escoar, para o mais profundo fundo dessas higiênicas tubulações hidráulicas, sua propiciatória (e demasiadamente humana) oferenda aos deuses inferiores, num ritual não mais que metaforizado, em fundo de cena.
Um bebê gigante (Luiz Damasceno), um macroneném, avermelhado ainda do sangue parturial -acabara de sair de um útero borrachosamente complacente, hiante buraco púrpura perfurado no tampo de uma mesa rococó (escrivaninha de dramaturgo? távola filosofal? berço de embalar neonatos e tálamo para a cópula conjugal dos genitores?). Acabara de nascer e/ou renascer. Não muito antes, por falar em Magritte, havia desfilado contra um friso gris, um rodapé de fundo de cena, uma severa silhueta de guarda-chuva, enquanto uma fogosa dama de amarelo-canário (Raquel Rizzi), emperiquitada sobre saltos altos da mesma cor, se esforça por barganhar a mesa-totem com um magote cochichante de compradoras potenciais, na tentativa desesperada de salvar da ruína as falidas contas domésticas…
Aparentemente, essa mercadejante matrona é a mãe-esposa do bebê nu e sangrento (diretamente extraído de uma tela de Francis Bacon) e se reveza nessa posição com a falena dançarina (Milena Milena), agora de branco vaporoso, com manchas sanguinolentas no vestido de noiva, abandonada sobre a mesa-cama, cabeça, cabelos e um braço pendentes, uma figura finissecular de bela-adormecida, recém-saída do pincel pré-rafaelita de Dante Gabriel Rossetti ou de seu colega Burne-Jones.
Estou tentando recapturar em palavras alguns dos mais fascinantes momentos (“cenogramas”) de “Nowhere Man” e dou especial destaque à cena final, misto de balé mortuário e rito de ressurreição, em ritmo de samba sueco-tropical. Já havia visto no Rio a nova peça de Gerald Thomas, mas uma falha de computarização prejudicara naquela ocasião a estudada iluminação de cena. Revê-la agora, no Sesc da rua Clélia (Lapa), deu-me a possibilidade de avaliá-la mais completamente.
Mas não somente pela sedução da visualidade (arte na qual é mestre) prende-nos Gerald Thomas nesse seu novo espetáculo. Nele se acentua um traço sempre rastreável na dramaturgia geraldiana: o cômico, a farpa irônica, o farsesco levado até a auto-ironia.
O macrobebê edipiano é também um “trombone” (como se diz em gíria teatral italiana), um ator canastrão (a exemplo do Hamm de Beckett), atônito e agônico, aguilhoado pela consciência crítica e atormentado pelos aplausos (platéia de pé!) que recebe quando menos espera, ou seja, quando lhe parece evidente ter fracassado monumentalmente em seu desempenho. O “mundo às avessas” quevediano (e hegeliano) se instala em cena. E o perplexo ator ora se metamorfoseia -destino de filósofo cínico?- no cachorro domesticado de “Quincas Borba” de Machado de Assis, para melhor fugir de tudo e de todos, ora se divide, derrisório e vaníloquo, entre Fausto e Mefisto. Ambos, no fundo, uma só personagem em duas “personae” complementares, mefistofáusticas: “die Faust”, o “punho” em alemão; “the fist”, o “punho” em inglês, não por mera coincidência as duas línguas de Thomas, além do seu português-brasileiro, de menino carioca crescido sob a asa instigante de um parangolé monocromático de Hélio Oiticica.
A acentuação do veio cômico (ou da veia histriônica) no teatro geraldiano, que vem sendo ressaltada pela crítica desde a primeira apresentação da nova peça no último Festival de Teatro de Curitiba, provoca risadas na platéia. Descontrai-se e desreprime-se assim o público, levado à perplexidade pelas turbulências vermelhas que o diretor desencadeia em cena aberta, num jogo obsessivo de humor/amor/morte, no qual engaja o excelente elenco da Ópera Seca: estupenda performance de Damasceno, à cuja arte experimentada e arguta o espetáculo muito justamente é dedicado; frisantes desempenhos de Milena e Raquel, bem coadjuvadas por Ludovaldo e Marcos Azevedo.
No caso da escritura “grafocênica” de Gerald Thomas, dessa escritura que se escreve encenando-se, vale dizer, à medida mesma que se vai pondo em cena, em luz, em voz (as intervenções em “off” do diretor, como sempre, pontilham ironicamente o espetáculo), parece-me, cada vez mais, que à crítica cabe mais uma função propedêutica. Quero dizer, uma função de introduzir o espectador à singularidade “verbi-voco-visual” da peça, um papel de “aperitivo” (do latim, “aperire”, “abrir”), de instigação a assistir o que só no palco se passa e se explica (de “ex-plicare”, desdobrar). Muito mais do que uma tarefa exegética, que exija do crítico uma análise exaustiva de conteúdos, do fragmentário campo semântico desse teatro, cujos sentidos em dispersão -esfiapados, experimentais- muitas vezes não são claros nem mesmo para o próprio diretor-dramaturgo, tão perplexo com suas construções/desconstruções como os próprios atores que põe em cena (sem falar do desnorteado auditório).
É o valor que dou a estas anotações sumárias, registros impressionistas de pós-espetáculo. Que sirvam como uma calorosa recomendação aos frequentadores de teatro para a prática desse exercício de abertura mental e desfrute sensível que é presenciar o “Homem de Nenhures” (Nowhere Man) em suas aventuras e desventuras a-tópicas, de quem não foi a Portugal e perdeu assim mesmo o lugar. Já que, como profetizou o velho timoneiro náufrago Stefauno Malamado, nesse espaço lúdico de andanças e errâncias (ou vida, ou teatro) “nada terá tido (ou haverá de ter) lugar senão o lugar”…
Aproveito para assinalar que a montagem entre nós da nova peça do dramaturgo anglo-carioca-alemão ocorre exatamente no momento em que, com o apoio do departamento regional do Sesc, a “trintenária” Editora Perspectiva lança, em primoroso trabalho gráfico, “Um Encenador de Si Mesmo”, ampla coletânea de ensaios de e sobre Gerald Thomas, volume criteriosamente organizado por Sílvia Fernandes e J. Guinsburg.

 

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