Gerald Thomas – “Cidadão do Mundo” por Jardel Dias Cavalcanti – parte 4

 

it's a long goodbye

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Gerald Thomas monta aproximadamente 18 peças (algumas óperas) entre os anos 2000 e 2014. Um corpo de trabalho bastante significativo, demonstrando o vigor do autor e seu desejo de construir um universo teatral transgressor. Como sempre, rompe com a linha divisória entre as áreas da música, artes plásticas, dança, performance, cinema, ópera, texto literário.

Os procedimentos criativos do teatro contemporâneos, aliás, chega ao Brasil principalmente através de sua obra, como bem observou Silvia Fernandes, no seu livro “Memória e invenção: Gerald Thomas em cena”. Seu work in progress concentra-se na ideia de uma obra de arte total (Gesamtkunstwerk) em que texto cênico, performance, música e criação de imagens trabalham como um corpo único.

Em todas essas criações de Gerald Thomas há um dado a se explorar pelos pesquisadores/críticos e historiadores do teatro, que é o que, com certeza, o coloca como um dos maiores inventores do teatro contemporâneo. Trata-se da relação direta que ele estabelece entre texto e imagem, no sentido de que ambos correspondem a uma sintaxe única. Que sintaxe seria essa?

Seu fluxo da linguagem textual dialoga com a ideia de “invenção” (Pound) que pressupõe, antes de tudo, os movimentos erráticos do pensamento (como “as subdivisões prismáticas da ideia”, segundo Haroldo de Campos). Desde a hesitação, quando diálogos quebrados e (des)encontros de atores no palco propiciam uma desconexão no fluxo “normal” de sentidos até as drásticas interrupções no avanço da progressão do pensamento, onde elipses criam subentendidos ou combinações sintáticas incompletas ou distorcidas e, ainda, frases deixadas aos pedaços para desespero de qualquer cartesiano. E o que é mais radical: intercalações constantes (um elemento externo é inserido em meio a uma estrutura em desenvolvimento, deixando-a descontínua – em química, a intercalação é a inclusão de uma molécula entre duas outras moléculas induzindo a distorções estruturais).

O que podemos ver no seu teatro é que o que atribuímos à sua “gramática textual” também se aplica à sua “gramática visual”: o que ele pretende é subversão da ordem sintática “normal”, a quebra dos valores sintáticos esperados, a subversão das regras “normais” de pontuação e fazer um uso abuso de reticências. O objetivo é forçar a suspensão do entendimento, impedir uma óbvia e fácil escrita/ideia que se presta ao ordenamento lógico-cronológico de princípio-meio-fim. Em suma, provocar o surgimento do inesperado, evitando os chavões do discurso ordinário, que imporia a aceitação do discurso artístico como obviedade. O que jamais foi.

Além das peças criadas no período, Gerald desenvolveu uma atividade importante, dirigindo o Sesc Copacabana por um ano e meio. Apesar dos pesares (corte na verba), desenvolveu com Dominic Barter (ator inglês) leituras/debates sobre Beckett com sessões de vídeos e filmes de peças de Beckett encenadas pelo mundo. Ainda tornou o espaço residência da Companhia Ópera Seca. Nesse espaço, foi encenadas as peças Ventriloquist, Nietzsche contra Wagner, Esperando Beckett, O príncipe de Copacabana, Deus Ex Machina.

Dessa época, uma tensa relação com duas personalidades midiáticas, Marília Gabriela e Reynaldo Gianecchini: ela “ávida, viciada em estar no ar (…) depois que entrou no teatro via mim, só montou porcarias que não deram em nada”; ele “famoso na Globo, e todo mundo rindo na cara dele como um cara que não sabia atuar”. Além disso, seu desgosto com o Sesc Copacabana “o maior erro arquitetônico e teatral de todas as épocas. O Niemeyer não sabia o que ele estava fazendo, acho que estava tomando café mellita e fez aquele cone, e resolveu chamar de teatro.”

Sob efeito do 11 de setembro, Gerald vai produzir “Circo de Rins e Fígados” e, posteriormente, “Gargólios”. A destruição das torres gêmeas foi um momento traumático para o diretor. Recrutado como voluntário, participou por 21 dias trabalhando no Ground Zero recolhendo destroços, documentos e restos humanos: “eu peguei um sapato com o pé dentro. Cara! Foi fogo”.

Em seguida, dirigindo o La MaMa em Nova York, teve 12 dias para montar “Achorpectoris”. Gerald explica: “Archorpectoris ou United States of The Mind (Estados Unidos da Mente) é o termo psiquiátrico que se dava, ou dá, para dor no peito (…) ou seja, depressão. Eu achei o título lindo, e falava-se da mesma coisa que eu falo sempre. Por que estar no palco? Fazer o que?”

Próximo a esse período Gerald abandona o cigarro, lutando duramente contra o vício: “eu sofri muito, foram dois meses de choro. Eu chorava, não tinha fome, eu quase mordi as paredes do apartamento (…) até que um dia acordei e falei: Nossa! Estou conseguindo respirar. E já senti fome e a vida mudou integralmente depois disso.” Muitos anos antes, um uma entrevista, vi Gerald pedindo ao entrevistador para acender um cigarro e citou a frase famosa de Mallarmé: “É preciso uma cortina de fumaça entre eu e o mundo”. Hoje isso não o interessa mais. “a arrogância do fumante [que quer impor aos outros sua fumaça]. Hoje eu tenho repugnância total.”

Em “Um Circo de Rins e Fígados”, a parceria com Marco Nanini (que comemorava 40 anos de palco) foi ótima para Thomas. Diz o diretor: “O ´Circo` foi incrível porque achar um parceiro de palco como o Nanini é coisa raríssima para um autor. Ele cortava, me ajudava na edição do texto, recolocava trechos que eu havia cortado e a coisa ficou pronta em muito pouco tempo.”

Após as trilogias (comentados nas partes anteriores), Gerald decide criar uma tetralogia, ao qual deu o nome de “Asfaltaram o Beijo”. Então, obsessivo como sempre, o diretor monta ao mesmo tempo quatros espetáculos: “Brasas no Congelador”, Asfaltaram o Beijo”, “Um Bloco de Gelo em Chamas”, “Terra em trânsito”. Desde as sérias discussões sobre a guerra fria, o muro de Berlin, a própria participação de Thomas no elenco, até a brincadeira com o ator Serginho Groismann tentando mudar o horário do programa dele – vários mundos em ação, em cenários diferentes – os espetáculos conseguiram estrear no mesmo dia. Depois as peças foram apresentadas em dias alternados.

Em “Asfaltaram o beijo” o próprio diretor era o personagem, apresentando no fim da peça, fundo do palco, a foto em que mostrava seu encontro com Samuel Beckett. Era comoção pura. Diz o diretor: “(…) e eu falava: ´essa mão que eu apertei, essa mão`, apontando, e era muito emotivo. No final, eu chorava muito e falava: ´Happy Birthday, Sam` e caiai aos prantos. ´Você me deu a vida, você que me fez quem eu sou, você que eu agradeço`, enfim, era um texto realmente emotivo”.

“Terra em Trânsito” foi levada para Nova York, em 2007, para o La MaMa, apresentada em inglês. Teve boa crítica no Village Voice.

Ainda em 2007, Thomas produz a peça “Rainha Mentira”, cujo título é um jogo verbal com a peça de Shakespeare “King Lear”. A peça estreou no Rio de Janeiro, depois foi para São Paulo, Buenos Aires etc. Trata-se de uma peça onde o diretor evoca sua história familiar, acabando o espetáculo com uma carta que escreveu para o enterro de sua mãe.

A peça envolve emoções poderosas das lembranças de Gerald e causou sempre comoção em todas as suas apresentações, segundo relato em “Cidadão do mundo”. Diz o diretor: “Eu nunca consegui ver esse espetáculo sem um apertão na garganta. A carta gravada, no final, que eu mesmo li e rasguei ao ler, essa carta era reproduzida toda noite pelo operador de som. Foi terrível ver esse espetáculo. Ao mesmo tempo eu consegui exorcizar um monte de demônios, muito pessoal, mas, de novo, fica a pergunta: Quanto da sua vida pessoal você tem que colocar no palco e quanto deveria ser só ficção? Porque teatro não é realidade, arte vem de artifício que não é realidade, então eu suspendi o espetáculo”. Um dos trechos surpreendentes, de Rainha Mentira”, que pode ser visto no youtube, é o seguinte:

“Foi duro, muito duro, ver aquelas pessoas devolvendo as fantasias, uma a uma, uma a uma, uma a uma, aquelas fantasias pelas quais lutaram o ano inteiro, sonharam, se iludiram, mais uma vez com aquele dia, aquele único dia de brilho numa vida de MERDA. E agora? a pilha vai crescendo num desencanto terrível da derrota… (…) sabendo que a vida voltaria a ser o que não deveria ter sido, em primeiro lugar”.

Na próxima e última parte de nossa resenha de “Cidadão do mundo”, apresentaremos as outras produções de Gerald Thomas,como também algumas reflexões do mesmo sobre seu próprio teatro, tal como comentado no livro resenhado.

Hoje é seu aniversário! Parabéns ao mestre do teatro contemporâneo!

Jardel Dias Cavalcanti

direct link:

http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=4149&titulo=Gerald_Thomas:_Cidadao_do_Mundo_(parte_IV)

 

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