Jardel Dias Cavalcanti (part 3 ) Gerald Thomas – Cidadão do Mundo por Edi Botelho

Terça-feira, 9/6/2015
Gerald Thomas: Cidadão do Mundo (parte III)
Jardel Dias Cavalcanti

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“Estou persuadido de que, quanto mais incomensurável e difícil de ser compreendida é uma obra, tanto melhor ela é.” (Carta de Goethe a Eckermann)

A resenha do livro Gerald Thomas: cidadão do mundo , que me propus fazer, é longa (já estamos na terceira parte), mas isso se deve ao meu interesse em divulgar grande parte do conteúdo de um livro extremamente importante para a memória de nossa cultura e que, infelizmente, está censurado. O que nos interessa aqui é acompanhar a trajetória exemplar de Gerald Thomas como diretor/criador de teatro e pensador da cultura. Então, vamos lá!

O relato de Thomas no livro organizado por Edi Botelho tem uma característica particular, há na memória do diretor um calor emocional que nos faz pensar na memória involuntária proustiana: determinadas imagens de seu teatro leva-o a retomar algumas emoções, que por sua vez o faz retomar as ideias que povoaram sua mente no momento da elaboração dos espetáculos – tudo isso se aglutinando a partir de uma mélange emocional e crítica que vai tecendo o texto para o leitor.

É assim, por exemplo, quando Thomas se lembra da peça Saints and Clowns (1992). Considerada fracasso pela crítica, no entanto para o diretor “era um espetáculo sensacional”. Encomendado para Hamburgo e Laussane, teve recepção diferente em cada cidade. Laussane aplaudiu e Hamburgo vaiou. Enquanto Flash and Crash Days havia sido aplaudido de pé em Hamburgo por 16 minutos contínuos e filmado pela TV alemã, Saints and Clowns foi recebido friamente. Segundo Thomas, “tivemos o gosto doce do sucesso e depois o amargo gosto do fracasso em um dia”.

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Saints and Clowns, para Thomas, é um espetáculo com uma ideia boa: “É o discurso de despedida do Gorbachev ao Parlamento soviético, que eu transformei numa história de amor”. A avaliação que o diretor faz da sua recepção negativa é de que houve durante sua concepção muita briga e ninguém se entendia, e isso prejudicou o espetáculo. O pior, os atores não defenderam o espetáculo, e para Thomas é “muito importante o ator defender o espetáculo. (…) ele já sabe que vai ser agredido, já sabe que o espetáculo vai ser controvertido, e o ator tem que ser responsável por defender o espetáculo também, não só o diretor e o autor”.

Um dos espetáculos emblemáticos para Thomas é O Império das Meias Verdades (1993), que teve sua estreia no CCBB, no Rio de Janeiro, e que depois foi apresentado em Lisboa, Copenhagen, Curitiba, Santa Maria, Porto Alegre, São Paulo e Belo Horizonte. Com a participação genial de Edi Botelho, Fernanda Torres, Luis Damasceno, dentre outros, ficou marcado pela cena da mesa, uma espécie de Santa Ceia trágica e absurda.

Outra peça cara a Gerald Thomas é Unglauber, de 1994. Há no livro organizado por Edi Botelho uma seleção belíssima de fotos da peça (aliás, todo o livro é recheado de fotos sensacionais). Em “Cidadão do mundo” o diretor revela duas coisas quando comenta Unglauber: primeiro, seu desejo (nostálgico?) de remontar alguns trabalhos a partir da reconstituição da Companhia da Ópera Seca original, que lhe trouxe ótimos resultados e emoções muito felizes; segundo, o lado difícil e quente da sua relação com Damasceno, que é um dos mais frequentes atores de sua Companhia. A ideia de desconstruir o ator em Unglauber, com o Damasceno tirando o braço, vai além da peça. Como podemos ver no comentário de Thomas: “O Damasceno não é um ator muito generoso, não é um ator que se abre, tem essa coisa. Existem atores generosos e não generosos. Eu e o Damasceno não nos comunicamos e ponto final. Alias, eu e o Damasceno tivemos algumas brigas. Me lembro uma vez em Campinas, que ele quis jogar uma cadeira em mim, e até hoje eu não sei o motivo. Nós estávamos ensaiando Metamorfose e, de repente, o Damasceno: “Você está colocando palavras na minha boca” e pegou uma cadeira e, se o Domingos não agarrasse ele naquela hora, eu não estaria falando com você hoje. (…) O Damasceno é estouradíssimo. Eu não aguento mais ator por causa disso (…)”.

Em seguida Thomas monta Don Juan, de 1995, a partir do texto de Otávio Frias, que trouxe a presença do grande ator Ney Latorraca, junto com Fernanda Torres, Luis Damasceno e Edi Botelho, entre outros. A relação com o autor da peça, não podia ser diferente, foi conflituosa. Diretor-criador, Thomas parece ter tido problemas com o texto de Frias. Para ele a peça era constituída, segundo ele, “de diálogos de novela (…) e eu pensava: não sei encenar este tipo de coisa, não sei, não é meu trabalho, não sei fazer isso.”

A novidade era a presença de Ney Latorraca chegando ao teatro de Gerald Thomas. Depois de vê-lo em O Médico e o Monstro e Irma Vap, Ney Latorraca participa de “Don Juan”, Trilogia da B.E.S.T.A, Quartett” e em uma de suas últimas peças, Entredente”. Segundo o diretor: “Ney pra mim era um ator insuperável, inacreditável”.

Em Quartett (1996), Ney Latorraca e Edi Botelho trabalham juntos, dirigidos dentro de uma espécie de açougue, construído a partir de uma plasticidade cara a Gerald Thomas, que unia Rembrandt, Goya e Francis Bacon (todos pintaram açougues). A obra, onde as tensões emocionais parecem esquartejadas a facão, se baseia no texto de Heiner Müller. A peça já havia sido montada outras vezes por Thomas. Uma vez em Nova York e outra no Brasil com Tônia Carreiro e Sergio Britto no elenco. Mas o diretor considera a peça com a participação de Latorraca e Botelho sua melhor versão. Realmente, não há quem tenha visto a peça e não a ache surpreendente!

Depois, ainda em 1996, Gerald Thomas dirigiu uma criação sua, Nowhere Man, que considera o seu trabalho mais autobiográfico. Ele diz: Nowhere Man é uma coisa que eu sou, um homem de lugar nenhum e, ao mesmo tempo, sou de todos os lugares”. Thomas classifica seus trabalhos como os “mais pesados” e os “mais gostosos”. Em Nowhere Man estaria sua criação mais pesada. Com a presença de Mephisto… não poderia ser diferente.

Como uma grande brincadeira, Thomas cria em seguida, a peça Os Reis do Iê, Iê, Iê (1997), onde reunia os quatro Beatles em cena. Gerald Thomas era John Lennon, Bete Coelho fazia Paul MCartney, Luis Damasceno era Ringo Starr e Domingos Varela encenava George Harrison. Segundo Gerald Thomas “era tudo um hospício, todos nós éramos loucos achando que éramos os Beatles”.

Também no ano de 1997, aparece A Breve interrupção do inferno, no Deutsches National Theater, de Weimar, na Alemanha. Apenas 14 dias da estreia o diretor abandona o espetáculo, vivendo uma situação conflituosa com Ismael Ivo, que segundo Gerald Thomas foi “o pior encontro que eu tive na vida com um artista”.

Em seguida, produz A Breve interrupção do fim, baseado em Galáxia”, de Haroldo de Campos, junto com 1º. Ato, grupo de Belo Horizonte. “Tendo que morar naquela Av. Afonso Pena com Amazonas. Pior época. Deus me livre.” Mas, nem tudo foi mal para o diretor: “me dei bem com o elenco, aliás, foram ótimas trepadas.” O pior foi o começo do contrato com Roberto Malta, que chamou repórteres para presenciar a assinatura, o que desagradou Thomas. A intenção de Malta era clara: “Estou trazendo você por causa do nome que você tem, e é uma maneira de colocar o 1º. Ato na capa da Ilustrada. Eu estou comprando a sua grife para que o 1º. Ato dê um salto”. Thomas levantou-se e não assinou o contrato. No hotel, meia hora depois, recebeu o pedido de desculpas de Malta, que “desfez a porcaria toda”.

Gerald Thomas monta, ainda nessa época, um texto inédito de Haroldo de Campos, Graal, o retrato de um Fausto quando jovem com os formando da CAL. Mas, múltiplo como sempre, e para desespero de todos, além da peça em construção, participa das gravações do Manhattan Connection, viaja para o Castelo de Cara no vale do Loire, na França, e se transfere de colunista de O Globo para a Folha de São Paulo.

Depois veio Lorca em um caminhão. A ideia do SESC era retomar a ideia do grupo “A Barraca” de Lorca, que viajava pela Espanha inteira se apresentando. As apresentações seriam pelo interior de São Paulo (32 cidades), onde o caminhão se abria e virava um palco. O problema era o título da peça proposto por Gerald Thomas: Eu, Frederico Garcia Lorca, Homossexual, que Durmo com Homens Nus na Cama, e Faço Sexo Anal, Estou Aqui me Apresentando. Quem compraria um título desses? Depois de um embate com Ricardo Fernandes, e para a alegria de todos, o título anunciado por Thomas passou a ser “O Cão Andaluz”. Só não esperavam que seria “O Cão Andaluz… Eu, Garcia Lorca, homossexual, que dormia nu na cama com homem…” e todo o resto, como a Folha de São Paulo publicou.

Com a nova configuração da Companhia de Ópera Seca, o diretor monta Ventriloquist (1999). O resultado agradou Thomas que assim fala do espetáculo: “Foi o maior sucesso que eu tive na nova configuração. Desde a Trilogia da B.E.S.T.A. , 1994/1995, eu não tinha um sucesso tão incrível quanto com Ventriloquist. Estreou no Rio num dia de carnaval com o teatro completamente lotado, e a Bárbara Heliodora amando o espetáculo. (…) A peça ficou quatro anos rodando, fez circuito mundial, uma loucura. Ventriloquist é um evento como a Trilogia Kafka foi um evento, Flash and Crash foi um evento, M.O.R.T.E, com a estética branca. Foi um desses divisores de água.”

No Rio de Janeiro, Ventriloquist estreou no teatro Sérgio Porto, depois passou pelo Sesc Copacabana e o Teatro Leblon com enorme sucesso. Na plateia Philip Glass, Martin Scorcese, Caetano Veloso e a Veja publicou na capa da revista a foto do diretor com a seguinte frase: “Gerald Thomas: o marqueteiro da vanguarda”. Em São Paulo, o diretor alugou o Teatro São Pedro, e sem publicar anuncio algum da peça, apresentou-a nas segundas, terças e quartas, enquanto mantinha outra peça, Nietzsche contra Wagner, na sexta, sábado e domingo.

O espetáculo Nietzsche contra Wagner mostra o apreço de Gerald Thomas pela ópera e pela filosofia, pela via dos dois maiores criadores do século XIX. Eis o relato do diretor sobre a base da montagem da peça: “Na Croácia, eu tinha conhecido esse compositor fantástico que é o Borut Krzisnik, que era carpinteiro, e falou: “Olha, eu sou da Eslovênia, aqui em cima, e eu queria te dar um CD. Eu adoro o seu trabalho, o pouco que eu conheço”. Eu ouvi o CD e foi a música mais linda que eu já ouvi na minha vida. Eu construí o espetáculo chamado Nietzsche contra Wagner em cima do CD que ele tinha me dado, as músicas dele.” E sobre o livro de Nietzsche como motivo da peça, diz Thomas “É um texto que eu sempre achei muito bom (…) que poderia virar teatro e resolvi montar da minha maneira”.

Gerald Thomas decidiu encerrar o espetáculo, que teve temporada no Sesc São Paulo e Sesc Copacabana, por causa “de coisas perigosas”, como relata a seguir: “Marcos Azevedo tinha que ficar açoitando uma pedra até não aguentar mais, e o chicote voltava nele, que acabava sangrando todas as noites. E eu falava: vem cá, não tem um jeito de você bater na pedra de maneira que pareça ou então bater no chão, atrás, que vai dar a impressão. Mas o Azevedo, stanislavisquiano dizia: “Não, tem que ser na pedra, eu vou acabar com essa pedra”. Era uma pedra enorme que teve que subir pelo elevador externo para entrar no teatro, uma pedra gigantesca, e ele achava que, com o chicote, iria realmente dominar a pedra”.

O fim da década de 90 se encerrada para Thomas com Ventriloquist, não encerra, porém, o seu desejo de criação. Ao contrário, com sua obra (e imagem sempre polêmica) firmada nos meios teatrais e na mídia, sua produção continua vigorosa, com mais de 20 espetáculos apresentados.

Um parêntese. O teatro, “um espaço onde historicamente se pratica o pleno exercício da liberdade de expressão”, será marcado no Brasil por uma mancha negra retrógrada, pela mais absurda reação conservadora diante do gesto “teatral” de Gerald Thomas ao mostrar a bunda no Teatro Municipal após a apresentação de sua versão da ópera Tristão e Isolda. A cidade das bundas e variadas vergonhas (nosso Iraque tropical a céu aberto) processará um dos seus maiores artistas em nome de uma falsa moral envelhecida, encarquilhada, por causa da reação do diretor às vaias e xingamentos fascistas que recebeu… Enquanto isso, a cidade do Rio de Janeiro continuaria e continua apodrecendo do lado de fora do teatro…

É a sua produção do século XXI o que comentaremos, junto com uma avaliação geral de seu trabalho, na próxima e última parte de nossa incursão pelo livro Gerald Thomas: cidadão do mundo, milagrosamente organizado por Edi Botelho.

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