Jardel Dias Cavalcanti on “Citizen of the World” (part 2)

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Terça-feira, 12/5/2015
Gerald Thomas: cidadão do mundo (parte II)
Jardel Dias Cavalcanti

“O universo dramático de Gerald Thomas é um campo permanentemente posto à prova. A dor do ser. O fascínio/repulsa pela sexualidade, a ineficácia da comunicação, a investigação dos limites da palavra, a observação perplexa da história.” (Alberto Guzik)

Ao longo e “Gerald Thomas: cidadão do mundo”, vamos tendo contato com a grande e permanente produção teatral, crítica e operística do diretor. Continuamos nosso passeio por esse universo.

Segundo a definição de Peter Brook “companhia é qualquer grupo de gente jogada num espaço (Empty Space), com garra e estória pra contar”. Essa definição de companhia teatral, que Gerald Thomas cita em “Cidadão do Mundo”, deve ter ressoado na sua mente quando da criação de sua companhia, a Dry Opera Company (no Brasil, Companhia de Ópera Seca). Os dois nomes da companhia foram dados por Ellen Stewart do La MaMa, quando Gerald Thomas lá estreou “Trilogia Kafka”, em 1988.

Entre os anos de 1984 e 1988, com “garra e estória para contar”, Gerald Thomas montou mais de dez obras. Entre suas escolhas, levou para o palco a literatura, a música e o pensamento dos grandes mestres (des)construtores da modernidade, Kafka, Beckett, Wagner e o autor contemporâneo Heiner Müller. As apresentações rodaram o Brasil e o mundo: Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Porto Alegre, Viena, Sérvia, Nova York, Munique, etc.

São desse período as peças “All Strange Away” (texto de Beckett), “Quatro vezes Beckett”, “Carmem com Filtro”, “Quartett”, “Eletra Comcreta”, “Carmem com filtro 2.5”, “Trilogia Kafka (Um Processo, Uma Metamorfose, Praga)” e a ópera “O Navio Fantasma”.

Claro que essas apresentações caíram no Brasil como uma bomba atômica, introduzindo uma crise no sistema dos significados da crítica, do público e do próprio teatro brasileiro. Tudo o que se fazia aqui foi espatifado em mil pedaços. Parecíamos provincianos diante de tamanha desconstrução, de tamanha ousadia criativa, de tamanha contemporaneidade. Era preciso um novo vocabulário crítico para se entender o significado da revolução de Gerald Thomas nos trazia. O teatro verdadeiramente contemporâneo nascia no Brasil.

Fernanda Torres in Flash and Crash Days (performing with her mother, Fernanda Montenegro)

Fernanda Torres in Flash and Crash Days (performing with her mother, Fernanda Montenegro)

Os seus textos cênicos, e a genial cenografia de Daniela Thomas, são submetidos pelo diretor a uma ideia de “arte total”, sendo envolvidos pelo universo da música, das artes plásticas, do cinema, da dança, da ópera, das performances. Começa, como ressonância, a pulular textos escritos por Haroldo de Campos, Gerd Borheim, Silvia Fernandes, Sergio Coelho, David George, Alberto Guzik, Flora Sussekind, dentre outros, buscando entender o teatro de Gerald Thomas.

Não bastassem suas obras teatrais, Gerald Thomas intervinha no cenário cultural através de reflexões que eram publicadas nos grandes jornais brasileiros. Atualizava o debate, chamando a atenção para as figuras de Andy Warhol, Francis Bacon, James Joyce, Richard Wagner, Tadeuz Kantor, Freud, Haroldo de Campos, Godard, Peter Brook, Schoënberg, Duchamp, Greenberg, Cage, Stockhausen, Philip Glass, Walter Benjamim, Pollock, Joseph Albers, Pina Bausch, Nelson Rodrigues, dentre outros – todos canibalizados por Thomas em seus escritos e em suas peças – exigindo da crítica e do publico informações mais universais, menos provincianas.

Para Gerald Thomas, a criação da Dry Opera Company gerou bastante sofrimento, como diz: “fui perdendo as pessoas, uma a uma, pra televisão, e o que restou foi ranço”. A primeira fase da companhia foi para ele mais louca: “tínhamos pessoas mais estranhas, mais bizarras”. Nesse momento do comentário, o diretor aproveita para defender sua visão/opção por pessoas homossexuais:

“A homossexualidade tem uma enorme importância sim, positiva digo, na medida em que ela já posiciona a pessoa na contramão desde cedo. Quando se é bissexual, homossexual ou qualquer minoria, aprende-se logo cedo que a barra é pesada e que o mundo será um GRANDE MURO. E, nesse caso, a primeira companhia tinha mais gays do que as outras fases. Eu, particularmente, não me dou bem com héteros, não gosto. Eles são os que regem o mundo, o status quo. Nós, do teatro, somos as vadias, os gays, os malditos”.

Na remontagem de “Carmem com Filtro”, a figura de Philip Glass se faz presente, conduzindo a música e fazendo nascer uma grande amizade, uma relação de admiração mútua entre o diretor e o compositor. Em “Mattogrosso”, de 1989, novamente a parceria com Philip Glass se realizaria. O espetáculo no Rio agradou Thomas: “A montagem carioca de “Mattogrosso” [no Teatro Municipal] foi muito emocionante, com a orquestra ali, embaixo, o coro inteiro ali, naquelas frisas. Agora, depois de reformado, espero que um dia me convidem. Prometo que não mostro mais a bunda.”

Em seguida Gerald Thomas dirige “M.O.R.T.E” (Movimentos obsessivos e redundantes para tanta estética), “Fim de Jogo” e The Flash and Crash Days”. Em “M.O.R.T.E”, segundo ele, trata-se da crise do artista e do criador: “é a crise do criador que nunca para diante do espelho de horrores que a humanidade apresenta a cada dia, disfarçada dos mais diferentes costumes e fardas e fantasias. Somos seres monstruosos e destruidores, predadores, e não temos boas intensões!”.

A energia indomável de Gerald Thomas o fez coordenar ao mesmo tempo três espetáculos: “M.O.R.T.E” e “Fim de Jogo”, que podiam serem vistas alternadamente (quinta, sexta e sábado), enquanto ainda o diretor montava em Stuttgard “Perseu e Andrômeda”. Um fôlego sem fim.

Em “Fim de Jogo” uma dificuldade, ou insatisfação, com a direção da atriz Giulia Gam: “Eu não consegui trazer a Giulia para o universo de Beckett. (…) a Giulinha estava perdida com o Clov, como sempre esteve, e era indirigível, muito ansiosa.”.

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No entanto, Haroldo de Campos, ainda assim, elogiará o trabalho de Giulia com Gerald Thomas. Diz Haroldo: “A grácil Giulia Gam soube perseguir o difícil: transformar-se no seu oposto. Passada ao avesso por uma dura disciplina diretiva, por um passe de magia negra (cinza) de Thomas, transfigura-se em cena num pesado e patético lêmure lunar, cuja passividade, cravada de assustadiça agressividade, se traduz em réplicas tanto mais eficazes quanto mais neutras”. (do livro “Um encenador de si mesmo: Gerald Thomas”, p. 212).

O espetáculo “Perseu e Andrômeda” recebeu crítica favorável em Stuttgard, ocupando uma página inteira de Die Zeit, sendo a primeira ópera de Thomas no Ópera de Stuttgard. Apesar do sucesso, Thomas se contraria: “Mas não gostei de fazer, não gosto dessa música serialista, não gosto dessa música atonal. A não ser que seja Schöenberg, para mim, é um porre esse tipo de música.”

Sobre o espetáculo “The Flash and Crash Days” é uma pena que Thomas fale tão pouco no livro organizado por Edi Botelho, nos deixando com água na boca. Resume o seu comentário às seguintes palavras: “Foi lindo, maravilhoso, porque a minha sogra (Fernanda Montenegro) é divina mesmo, um dos maiores machos com quem já trabalhei, uma palhaça (ríamos o ensaio inteiro)”.

A década de noventa foi bastante criativa para Gerald Thomas, como podemos ver na cronologia de suas obras apresentada no final de “Cidadão do Mundo”. É surpreendente o fôlego do diretor, consequência de sua vontade criativa, de seu ser-para-a-arte. Com encenações no Brasil e nas capitais européias, as obras e a presença crítica de Thomas se faziam ouvir. Não havia possibilidade de se ficar indiferente à peremptória presença do diretor, um dos mais incansáveis trabalhadores do teatro, como se pode ver abaixo.

Inicia-se a década de noventa com a estréia de “Fim de Jogo”, de Beckett e segue-se as seguintes obras: “M.O.R.T.E”, “The sayd eyes of Karlheinz Öhl”, Esperando Godot”, “M.O.R.T.E.2”, “The flash and crash days”, “Saints and Clows”, “O império das meias verdades”, “Narciso”, “Unglauber”, “Dr. Fausto”, “Zaíde”, “Don Juan”, Tristão e Isolda”, “Quartett”, “Chief Butterknife and the hausting spirit of his archenemy kryptodick”, “Nowhere man”, “Babylon”, “Os reis do iê, iê, îe”, “Breve interrupção do inferno”, “A breve interrupção do fim”, “Graal, um retrato de Fausto quando jovem”, “Lorca em um caminhão”, “Moisés e Aarão”, “Raw War”, “Ventriloquest”, além de dirigir o show “O sorriso do gato de Alice”, da cantora Gal Costa.

“Esperando Godot”, de Beckett é encenado por Thomas em Munique, em 1990. O espetáculo não agrada tanto ao diretor. Beckett havia morrido quatro meses antes e Thomas, que já planejara o espetáculo a dois anos, temia que a ideia de oportunismo passasse pela cabeça das pessoas. Também teve problemas de direção com o ator que fazia Estragon, o Edgard Walter, que, como diz Thomas, “sempre queria saber por que isso, por que aquilo e, nessa peça, ou você aceita aquele jogo, dois seres, ali num deserto, que passam o dia se enganando, se enganam o tempo todo, dão rasteira um no outro o tempo todo, ou você aceita esse jogo, ou desiste e passa o papel para outro ator.”

O comentário sobre seu contrato com o Teatro Estatal de Munique nessa época nos diz muito sobre a verve desterritorializada de Gerald Thomas:

“Eu tinha um contrato de cinco anos com o Teatro Estatal de Munique, mas eu não consigo, eu não pertenço a nenhum teatro. Eu não aguento ser funcionário público, e tinha o compromisso de fazer dois espetáculos por ano. Isso praticamente me obrigava a morar em Munique. Então, eu falei: “não quero essa vida, não é isso que eu quero pra mim”. Se fosse um espetáculo por ano ainda dava, mas dois era demais. Enquanto um está em cartaz você já tem que estar preparando o outro, não era o que eu queria. Munique é muito provinciana, não tem uma repercussão no mundo. É uma província e eu estava estourando nessa época, estava sendo requisitado por tudo quanto é teatro na Alemanha. Era Hamburgo me querendo, Berlim me querendo, Stuttgard me querendo, e eu me senti preso ali, num contrato, que não era nada incrível assim. Tinha também uma Ópera de Graz, na Áustria interessada no meu trabalho, e eu não via muito sentido ficar preso ali por cinco anos. Então, desfiz o contrato e paguei a multa que tinha que pagar.”

Do contratato de Munique montou “Esperando Godot” e “Fim de Jogo”, com Bete Coelho preparando os atores, Wagner Pinto na iluminação e Daniela Thomas fazendo os cenários. Ali fez também a leitura “despretensiosa” de todas as peças de Beckett. O escritor irlandês passava a ser quase uma segunda pele para o diretor.

A década para Gerald Thomas estava apenas começando… A Itália o esperava, com um casamento com uma atriz italiana e a montagem de “The Sayd eyes of Karlheinz Öhl” e “os melhores vinhos, acompanhados com pedaços de parmesão” e muito azeite de oliva virgem.

(Continua na parte III)

por Jardel Dias Cavalcanti

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