From Jardel Dias Cavalcanti – great review about my biography Citizen of the World

Terça-feira, 28/4/2015
Gerald Thomas: cidadão do mundo (parte I)
Jardel Dias Cavalcanti

“Não é o que vocês estão pensando… É o que vocês estão pensando sim. Se é que vocês estão vendo, vocês estão pensando no que estão vendo. Se vocês estão vendo é porque eu encenei, e se eu encenei vocês estão vendo sim. Não é o que vocês estão pensando, não é.” (Gerald Thomas in: Kepler, O Cão Que Insultava Mulheres)

O livro “Gerald Thomas: cidadão do mundo” é uma espécie de autobiografia da criação de Gerald Thomas, organizada por seu amigo Edi Botelho, que foi um dos grandes atores da Companhia de Ópera Seca.

O livro foi editado pela Imprensa Oficial, do Estado de São Paulo, na coleção Aplauso, em 2012. Um presente para os admiradores e estudiosos da obra de Gerald Thomas. No entanto, o livro foi recolhido por um processo judicial por causa de uma frase boba (que não reproduzirei aqui nesta resenha), levada a sério pelo processante. Todos nós, admiradores do diretor, saímos perdendo nessa. O meu exemplar, por sorte, consegui depois de dois anos de buscas, quando finalmente o encontrei em um sebo da cidade de Brasília.

O livro é magnífico! É o mínimo que se pode dizer. Entramos memória adentro na vida e na criação de Gerald Thomas (embasbacados diante de tamanha produção, de tamanho fôlego para colocar tantas peças de teatro e óperas em cartaz, sem falar na sua produção plástica) como se estivéssemos diante da “vontade de potência” de Nietzsche encarnada na sua pessoa. Que pó mágico foi necessário para manter o diretor em pé com tanto trabalho? É o que nos perguntamos. E com certeza temos a resposta: foi o amor ao teatro, uma espécie de “vocação weberiana” da vida para a arte.

Antes de tudo descobrimos que Gerald Thomas não é apenas um planeta, é uma galáxia. Desdobrando-se em várias línguas, vários países, em várias companhias teatrais criadas por ele, criando e recriando seu próprio teatro, circulando em meio a atores, diretores, cantores, afetos e desafetos de todo tipo, vivendo dentro da imprensa e a criticando ao mesmo tempo, circulando no universo das artes plásticas, da música erudita e popular, da literatura, da política, engajando-se em causas humanitárias, polemizando com diretores, atores, cantores, maestros (Berio que o diga) e seu próprio público, construindo amizades exemplares com outros grandes criadores (Haroldo de Campos, Samuel Beckett e Philip Glass e Julian Beck, para início de conversa), enfrentando dia a dia as notícias terríveis do mundo e sua realidade ainda mais terrível e ainda tentando equacionar de forma nada tradicional tudo isso num calderão faustiano (seu inconsciente criativo) que é o seu teatro… Gerald Thomas faz jus ao que sobre ele disse Haroldo de Campos:

“Ele é a vanguarda. O teatro brasileiro hoje, depois do estouro que foi o “Rei da Vela” de José Celso e, antes disso, o estouro que foi “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, a coisa mais inventiva que aconteceu no teatro brasileiro foi o teatro de Thomas. É um trabalho extraordinário, que pode ser objeto desta ou daquela crítica, mas é uma intervenção de um nível como raramente aconteceu no Brasil.” (Haroldo de Campos, em entrevista a Jardel Dias Cavalcanti e Mario Alex – Sibila, n.5, 2003)

Não se espere do livro uma autocomiseração. Gerald Thomas ressalta seus valores, sua realizações, mas não poupa comentários duros aos seus próprios fracassos (serão mesmo fracassos?). Essa sinceridade autobiográfica é rara nos meios artísticos. Tão importante quanto isso, é o fato de que estamos diante de uma autobiografia da criação do seu teatro. Sinal de que, mais importante (mesmo sendo importante) do que traçar um drama apenas pessoal, o que está em jogo é rememorar as impressões que o diretor tem do sua própria obra, marcando aspectos que acha interessantes revelar ao leitor.

O dramaturgo/diretor/encenador não faz em seu relato o papel de um autocrítico distante e frio, ao contrário, se vê em vários momentos jorrando lágrimas ao longo de algumas das páginas do livro devido à intensidade das lembranças. A carga emocional que tem sobre os ombros, em momentos bastante tensos de seu percurso de criador, diz respeito aos momentos de dúvidas, mas também aos momentos de grandes felicidades, como quando montou “Moisés e Aarão”, de Schöenberg, na Áustria. Vale reproduzir a passagem narrada por Thomas:

“A ópera “Moisés e Aarão”, dentro da minha obra teatral, é a coisa mais completa que eu já fiz, não tem nada que se compare a isso. (…) Cada dia eu saia de lá e queria ir para o parque e dizia: Nossa mãe do céu, isso não pode ser verdade! Me beliscava: Isso só pode ser um sonho, não pode ser verdade! E era. Na estreia, vieram amigos meus de todas as partes do mundo. E veio a filha do Schöenberg, a Nuria (…). Ela veio e ficou deslumbrada, ela chorava sentada ali, na plateia. E falou: “Eu vi várias encenações, mas nunca vi nada assim”. Eu fiquei num estado, ali.”

Além de narrar este estado emocional, Thomas não descuida de interpretar a obra de Schöenberg e de comentar detalhes de sua montagem. Ainda traça o significado que a referida obra tem no conjunto do seu pensamento ao narrar a passagem que o faz ir de Schöenberg a Beckett:

“Ele faz o Moisés atravessar aquele deserto de farrapos humanos, chegar na frente, botar a mão na cabeça e falar: “Oh! Palavra. Oh! Palavra que me falta!” Aí começa, para mim, a vida e a obra de Beckett. Palavra que me falta. Costurou para mim, porque o Beckett começa realmente. Ele foi profundamente influenciado por Schöenberg e por esta ópera.”

O início. “Não sei onde nasci (…) tenho três certidões com o mesmo dia e hora, mas em países diferentes”, diz ela ao falar da infância. Gerald Thomas parece ter nascido desterritorializado, deleuzianamente falando. Isto talvez explique sua capacidade de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, fazendo coisas diferentes. O conceito de desterritorialização foi proposto por Gilles Deleuze e Félix Guattari, em “O Anti-Édipo”, para descrever o processo de fuga das estruturas sociais e intelectuais coercivas, que podemos entender como análogo ao processo de descentralização do sujeito narrado nas teorias pós-estruturalistas.

Quando adolescente frequentou o atelier de Ivan Serpa e em contato com o Ziraldo viu alguns de seus desenhos serem publicados na revista O Cruzeiro. O gosto pelas artes plásticas, desenvolvido ali, jamais o abandonaria, levando Gerald Thomas a criar no futuro as próprias imagens dos cartazes e sketches de cenas de suas peças, como também a publicar seus trabalhos em espaços privilegiados como o The New York Times.

A adolescência foi vivida entre Rio de Janeiro, Nova York e Londres, onde se estabeleceu, vindo a estudar “por conta própria” na Biblioteca do Museu Britânico. Jovem curioso entrou de penetra nos ensaio de Peter Brook, como tinha feito antes ao assistir os ensaios de “O Balcão”, de Genet, no teatro Ruth Escobar. Começa a se formar as grandes influências que o marcarão para sempre: “Beckett, Peter Brook, Bob Wilson e Tadeusz Kantor foram as minhas grandes influências. Foi Samuel Beckett quem me deu a vida no teatro.”

Assistindo “O Balcão”, aos 15 ou 16 anos, teve a percepção do valor do teatro do diretor, do encenador: “Foi lá que eu me apaixonei por teatro. Foi lá que eu decidi que aquilo era pintura em todas as dimensões. Aquilo era divino, era maior que o ser humano, era maior que a própria terra e estava dentro de um espaço físico.”

Depois de uma vivência meio errante em Londres, já com vários casamentos nas costas e insônias, criou “Action for Action”, talvez sua primeiríssima criação teatral, baseado nos escritos palestinos de Genet. Mas o que se pode chamar de estreia profissional foi “Verbenas de Seda”, que criou aos 18 anos e encenou no Teatro Opinião em 1972.

A primeira direção teatral foi “A Tempestade”, como uma espécie de workshop prodution. Segundo o próprio Thomas, “foi um fracasso”. Importante para ele, em seguida, foi sua entrada no La Mama, em Nova York, onde deu alguns workshops montando textos de Beckett. Viajou para Frankfurt, Belgrado e Berlin com a “Beckett Trilogy” tendo como atores Julian Beck, Fred Neuman e George Bartenieff, tendo Gerald Thomas a idade de 31 anos. Foi quando Heiner Müeller se interessou pelo seu trabalho. Do contato com Heiner Müeller, surgiu a encenação de “Quartett” no Theater for the New City, em 1985.

Gerald Thomas fala no livro sobre suas grandes amizades. Entre elas com a diretora de teatro Ellen Stewart (do La MaMa) e com o compositor Philip Glass. Ambos parecem irmãos espirituais do diretor. Thomas chega a reproduzir em 5 páginas o depoimento de Glass sobre sua personalidade e seu teatro. Uma avaliação que o diretor considera a melhor que já ouviu na vida. Quem quiser ver na íntegra o depoimento, basta acessar o site do diretor e assistir ao vídeo do depoimento.

Como “jornalista” Thomas teve colunas em O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e fazia ainda o programa Mahattan Connection, além de escrever para o blog da UOL. Esta atividade, aliado ao seu interesse pelas questões político-planetárias, desenvolveu seu senso crítico, seu interesse por discutir questões externas ao teatro, ligadas diretamente aos acontecimentos mais dramáticos de nossa história. E é visível o quanto isso reverberou várias vezes dentro de sua própria produção teatral.

Com a vida dura em Nova York, “com apenas 25 cents no bolso”, eis que a sorte aparece para Thomas – mas, ressalte-se, devido ao seu talento. Foi quando começou a publicar seus desenhos. Além de criador teatral Gerald Thomas desenvolveu a atividade de desenhista, sendo publicado de forma frequente na página de opinião do The New York Times e em revistas como Vanity Fair, The Boston Globe e Atlantic Monthy. Boa parte dessa produção pode ser vista no belíssimo livro “Arranhando a superfície”, que Thomas publicou no Brasil em 2012, pela editora Cobogó. Já casado em Londres com Daniela, filha do Ziraldo, mudaram-se para Nova York e ela torna-se a cenógrafa oficial de suas peças.

Gerald Thomas funda em Londres a Dry Opera Company, que no Brasil se chamou Companhia Ópera Seca e começa, então, sua produção enlouquecida, numa sequência de peças que atordoariam público e crítica brasileira: “Quatro vezes Beckett”, “Quartett”, “Carmem com filtro”, “Eletra Comcreta”. Atores de altíssima qualidade eram escolhidos pelo diretor: Sergio Britto, Tonia Carreiro, Antonio Fagundes, Luis Damasceno, Edi Botelho, Bete Coelho, Beth Goulart, Lu Grimald e Ana Kfouri.

Suas obras despertam a paixão e uma espécie de assombro, renovando a linguagem teatral brasileira, emperrada ainda, com raras exceções, no teatro da palavra, da cuspição de texto. Gerald Thomas parece ter incorporado a ideia wagneriana de “arte total”. Suas peças eclodem com música, referências às artes plásticas de vanguarda, uma visualidade operística/cinematográfica/pictural, e um jorro de palavras que traziam no substrato a própria alma do teatro de Beckett.

Ninguém parecia entender nada, como se a crítica estivesse ainda esperando “significado” para um teatro que explodia numa desconstrução total, numa colagem pós-moderna de referências sofisticadíssimas da arte de vanguarda. Jornalistas mequetrefes entrevistavam pessoas na saída de suas peças perguntando ao púbico se haviam entendido alguma coisa. Era o sinal bruto de nosso provincianismo diante da novidade que o teatro internacional de Gerald Thomas trazia.

Jardel Dias Cavalcanti

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