QUEM RI POR ULTIMO, RI MELHOR !!!

(IN) Tolerância X Tolerância.

A ULTIMA coisa nesse mundo que preciso é lição em direitos humanos. Durante SEIS anos trabalhei na Amnesty International (a sede da organização: International Secretariat – década de 70) em Londres trabalhando pelos presos políticos brasileiros, exilados, desaparecidos e torturados. Depois fui pra “Liga de Liberação dos Povos” do Senador Italiano, Lélio Basso. E depois disso, fui pro Russell Tribunal. Sei do que estou falando.

Não é somente das celebridades presas ou exiladas, como Gabeira, Herzog, Stuart Angel e Arraes que falo. Eu visitei quase todas as prisões brasileiras em 1978 (Barro Branco, Frei Caneca, Itamaracá, etc). A lista era enorme: o Doi Codi, a Oban, etc estavam em plena operação (assim como o Fleury no DOPS) e outros esconderijos da ‘ocupação militar’ brasileira pós Ato Institucional numero 5 mandavam ver. E eu la, na sala de “telex” da Amnesty, em Southampton Street, Covent Garden, defendia os estudantes da Convergência Socialista ou dezenas de presos cujos nomes, infelizmente, hoje me fogem a cabeça. Ah sim, Alex Polari de Alverga, Nelson Rodrigues Filho, Vladimir Pomar, Pedro Pomar, Elza Monerat, Iramaya Queiros Benjamin e assim por diante.

Faz um mês (ou um pouco mais), eu estava marchando nas ruas de NY (onde moro), protestando o horrendo veredicto do “Grand Jury” sobre a horrenda morte de Eric Garner em Staten Island e Michael Brown em Ferguson, Missouri. Fiz o mesmo ha dois anos quando Trayvon Martin foi assassinado na Florida e deixei flores no ‘makeshift memorial” dos dois policiais mortos em Brooklyn, Wenjian Liu (Chines, 12 anos de USA) e Rafael Ramos, hispanico. Como veem, sou ecletico nas minha homenagens.

Gostaria de estar hoje em Paris – nessa marcha de 1 milhão pra ser mais um na multidão, apostando nessa utópica sociedade livre e na mais utópica ainda “liberdade de expressão”. Mas não estarei. Mas fico feliz ao ouvir que QUARENTA chefes de estado estarão: de Netanyahu a Mahmud Abas! Que ironia! A ultima “marcha de 1 milhão” da qual participei foi em Londres, 2003, pra tentar evitar que Tony Blair se juntasse a Bush na inútil, banal e estúpida invasão do Iraq ( e olha a merda que deu!)

Sim, defendo toda e qualquer liberdade de expressão, mesmo depois desse trágico evento de Paris que matou os cartunistas do Charlie Hebdo e mais pessoas num mercado Kosher.

Sei o que é racismo: fui criança em Erwin ,Tennessee e, confesso que vi as piores coisas, presenciei os mais horrendos comentários sobre negros – era o centro da “segregation” (junto com Alabama, etc), justamente quando o maior de todos os lideres, Dr. Martin Luther King Jr, estava marchando pra Washington e….bem…

Sei o que é xenofobia: mais da metade da minha família foi exterminada em vários campos de concentração na Alemanha (de Auschwitz até Buchenwald) e nem por isso deixo de ser fã incondicional de Richard Wagner e enceno suas óperas.

Sei o que significa ‘odiar o inimigo”, já que fui educado com o holocausto na cabeça mas com um pai protestante luterano que tinha uma ampla visão de mundo e – depois de ter lutado dentro da Alemanha em plena Segunda guerra (a favor da Resistência pro Forças Aliadas), olhava o mundo pasmo, assim como meu mestre Samuel Beckett, olhava o mundo pasmo, de sua janela no Boulevard St Jacques, nessa mesma Paris depois de ter feito o mesmo: trabalhou na Resistance.

Mesnmo tendo minha família exterminada em Auschwitz, admito qualquer forma de cartoon, sacanagem, piada, etc a respeito dessa cultura (judaica) da qual faço parte.

Nada (ou pouco) sei sobre o Judaísmo. Nem me lembro das “datas sagradas” – pois pra mim essas datas viraram uma espécie de transtorno bipolar.

Não se comemora Ramadan ou Yon Kipur ou Natal pra celebrar nada. Comemoram-se as “diferenças”. Uma espécie de competição olímpica horrenda que confina cada credo ao seu guetto, afirma sua superioridade, e ataca os outros. ODEIO VACAS SAGRADAS. Eu sou a favor do FIM aos tabus e das Vacas Sagradas. Palhaçada tudo isso!

Mas, MESMO assim, mesmo assim!!!, admito sátiras aos cadáveres dos meus parentes! Sou filho da contra-cultura, pus meus pés na lama de Woodstock e até hoje acredito naqueles valores “Freedom, Freedom, I’m a motherless child” e acredito (inutilmente) no Star Spangled Banner que Hendix inverteu, distorceu e transformou nas bombas que caiam sobre Vietnam.

“É tanta liberdade que não há mais como provocar”, dizia o Wolinski em 1993, passando pela favela da Rocinha, no Rio.
Wolinski foi morto na quarta feira passada, na redação do Charlie Hebdo.

Merda!. ODEIO qualquer forma de racismo. Sou uma figura publica e eu ja disse a que vim e a que veio (que feio!), faz mais de 4 decadas. Sou de teatro e do teatro! Da farsa ao realismo, da satrira as lagrimas, me coloco no palco “fingindo encenar a mim mesmo”, usando atores ou cantores liricos numa tentative de reinventar o “mundo ideal” – sendo que essa Torre de Babel ja deu!!! E tento escrever (sim é desespero incrivel) , tento depor sobre a minha época, sobre os conflitos do tempo presente em que vivo.

Qualquer coisa DIVISIVA É HORRIVEL. Somos HUMANOS porra! To cagando se é mesquita, sinagoga, igreja católica, templo evangélico, templo bhuddista ou o caralho a quatro. Qualquer pessoa que LEVA A SERIO demais o fato de nos satirizarmos uns aos outros, que vão a merda!!! Ou se enterrem Vivos ou mortos vivos ou (quase mortos)!! Sim, sou intransigente no que diz respeito a liberdade de expressão de cada um: e sou ainda MAIS INTRANSIGENTE quanto MATAM EM NOME DE ALLAH, DE MOHHAMED, de Cristo, de comunismo, de Nazismo, de Fascismo, de qualquer “ismo”.

Protestei nas ruas de Nashville e de New York na dedada de 60 e 70 contra a Guerra do Vietnam. Junto do nosso parco movimento, havia um cartunista de NY (Jules Feiffer) e tinha o Pasquim do Ziraldo e Jaguar e Francis no Brasil e tinha o Private Eye em Londres e tinha o Monty Python – que valia por todos (em especial: “THE LIFE of Bryan” – com sua sátira sobre o apredrejamento (stoning) ou a própria crucificação ou as varias milhares de dissidências entre as frentes de libertação da Palestina.

Caricaturar NUNCA é crime. Caneta e lápis não matam ! Exageram, humilham, nos fazem cócegas, mas não matam.

Aceito QUALQUER caricatura a respeito da minha família contida em cinzas em em cinzeiros (que tanto vi nas minhas épocas da Triligia Kafka em Vienna, no Wiener Festwochen em 1989)!!!. Posso ficar incomodado com desenhos de cinzeiros cheios com a legenda “aqui dentro, uma pilha de ex judeus” – mas não saio por ai metralhando as pessoas. E quando urram da platéia “Judeuzinho volta pro campo”, como berravam na minha platéia em Tristão e Isolda no Municipal do Rio em 2003, eu abaixo as calças e mostro a BUNDA!!!!

Uma caricatura pode apagar a outra, como a borracha, lado oposto do lápis que a desenha. Sim, mostrei a BUNDA e fui processado por evangélicos hipócritas e fanáticos (Rosinha, Garotinho, essa cambada). Mas, um ano depois, e muita grana gasta com advogados, acabei absolvido pelo STF em Brasília.

Eu faria tudo de novo, assim como esta em plena reunião de pauta nesse momento, a equipe que sobrou, do Charlie Hebdo. O próximo numero terá 1 milhão de exemplares. Deja vu? Talvez. Afinal, bati nas portas da Amnesty International na década de 70 porque eu havia recebido a noticia, via The Guardian, de que o Pasquim todo havia sido preso, inclusive meu futuro sogro, o Ziraldo.

Ninguém vai nos calar, jamais. Podem nos oprimir por um tempo, podem matar alguns, podem torturar com choques e waterboarding, podem tentar nos massacrar de todas as formas mas…QUEM RI POR ULTIMO, RI MELHOR !!!

GERALD THOMAS
Jan 11, 2015

Comments Off on QUEM RI POR ULTIMO, RI MELHOR !!!

Filed under Uncategorized

Comments are closed.