Matéria sobre Hamlet “prevista” pra sair num jornal – mas que se fodam!!!

Hamlet's home.

Hamlet’s home.

Eu gosto de Jan Kott (sim, um gênio !) – o maior autor e pesquisador de Shakespeare (que da de 10 X 0 em Harold Bloom e outros). Seu “Shakespeare Our Contemporary” mudou a vida de muita gente. Mudou a vida de muitos encenadores. Grotowski (seu conterrâneo Polonês) e Peter Brook são os dois melhores exemplos.

Kott compara cada peça de Shakespeare a um autor contemporâneo e acha um Prospero em todos os lugares, um Hamlet em todas as esquinas, e assim por diante. Mas isso faz muito tempo. E hoje? Faz sentido? Tem graça?

Hamlet esta em todos nos. É um arquétipo da melhor espécie de “duvidar da existência” que foi criado para os palcos. É um carinha travesso, avesso aos sentidos do establishment: era um punk rocker da sua época: era o Neil Young do seu tempo, já que o reino da Dinamarca não era o reino da Dinamarca e o Dr. William jogava seus porcos na cara da Rainha Elizabeth 1 – e ela o ovacionava quando o pobre príncipe (cara de velho príncipe) ia sendo levado por “Rosencrantz e Guildenstern Are Dead” (de Tom Stoppard), pra “ ilha dos loucos” , ou seja, os arredores do próprio Globe Theatre, sul ou norte do Tamisa ou o Avon, Londres ou em Stratford.

Orson Welles e Peter O’Toole discutem esse personagem numa discussão hoje meio antiquada, mas de enorme valor antropológico: o que se vê ali é uma direta e indireta pra aqueles que, como eu, tem essa mania de montar um CarmemComFiltro, ou uma EletraComCreta e os mitos com ou sem filtro, como se fosse um vicio da nossa eterna sociedade – agora virtual e vazia – repleta e cheia de Instagrams do nada, e comentários escrotos em tudo que é Twitter, Facebook, site, blog e o caralho a quatro.

Caberia um HamletComFiltro?

Desde Kurosawa, Samuel Beckett até Heiner Mueller ou Al Pacino, todos tentam “enxergar” algum ícone Shakepeareano em alguma sombra, seja através de uma “maquina” Hamlet ou um Lear mudo, cego e deseperado ou um ponto de ônibus em Nova York a resposta é obvia: Shakespeare é uma fonte inesgotável, se o dramaturgo quer ficar repetindo e ecoando frases cunhadas em circunstancias bastante peculiares a reinos, impérios, sistemas financeiros na beira da falência ou em plena ascenção de sociedades emergentes e burras (Polônio).

Sim, eu já construí e desconstruí meus mitos – mas isso já faz muito tempo. Desde as minhas inúmeras versões de Carmem ou Eletra, tento escrever sobre as MINHAS tragédias, sobre as MINHAS duvidas e as duvidas do MEU tempo. Esse é o meu depoimento.
Esse sou eu. E é você que me le.

Hamlet sou eu!

Gerald Thomas

Wengen, Suíça, Jan 4, 2014

Neil Young é um desses seres que não morrem (Hamlet também não morre: o atual príncipe vê o pai – fantasma no inicio da peça). Young é um grunge antes dos Grunges que até hoje se mantem fiel aos seus princípios: “Keep on Rocking in the Free World” – quer dizer “não se intimidem – lutem com suas convicções” . Mas quais são elas?

Neil Young, ao contrario do mundo rockeiro, não se VENDEU. Mantem os mesmo princípios que tinha, aos 15 anos, quando deixou o Canadá e se mudou pra Los Angeles. Ele é perseguido pelo seu pai ideológico (Bob Dylan) e resiste a uma serie de possíveis corrupções do mundo “real” em sua volta. E não somente resiste: da bronca e tudo. Young e Hamlet são estudiosos dos seus próprios hábitos e não os abandonam sob pressão. Neil Young – numa entrevista com Jean Luc Godard, diz que prefere ser enterrado em pé – como os ciganos – do que se vender pra industria fonográfica. E nessa conversa, ele menciona alguns filósofos mas não menciona Shakespeare como autor. Ele se refere a Hamlet como o autor de uma odisséia que deveria ser seguida por todo e qualquer artista que tenha uma MENSAGEM.

Sim, são poucos. Poucos querem honrar os fantasmas de seus pais como Hamlet. Poucos honram seus fantasmas (Johnny Rotten e Kurt Cobain) tão brilhantemente quanto Neil Young. No entanto – no final de cada concerto – Young balbucia as palavras de Hamlet (se metamorfoseando em… Fortimbras) “and the rest is silence”

Gerald Thomas.

______________________UPDATE – breaking news 🙂 _________________

Quinta, 16 Janeiro 2014 – saiu (finalmente) a salada do Fiurucci na Folha: OBS ; Sou autor-diretor (quem escreve as proprias peças é o que mesmo? ou dramaturgo, mas o Fiorucci não tem brains:14015626

Nos 450 anos de Shakespeare, artistas desvendam influência do dramaturgo
GUSTAVO FIORATTI
DE SÃO PAULO
16/01/2014 03h01

A brincadeira é a seguinte: identificar quais criações contemporâneas estão impregnadas pela obra de William Shakespeare, 450 anos depois do nascimento do autor inglês, comemorados mundo afora no mês de abril.
Difícil não cair nos casos óbvios, como “Exit Music”, canção da banda Radiohead que fala de Romeu e Julieta. Mas dá para arriscar menções mais ousadas, como um possível eco de Lady Macbeth em “House of Cards”.
A convite da Folha, autores teatrais, diretores e um roqueiro infiltrado entre eles (o cantor e compositor Supla) vasculharam suas memórias em busca de associações entre a produção contemporânea e Shakespeare.
“Hamlet está em todos nós. É um arquétipo da melhor espécie de duvidar da existência”, diz o diretor Gerald Thomas. “É um carinha travesso, avesso aos sentidos do establishment: era um punk rocker da sua época, era o Neil Young do seu tempo.”
O jogo acompanha uma onda de peças comemorativas que, no Brasil, já tem exemplares em cartaz.
Duas montagens estrearam no Rio: “Sonho de uma Noite de Verão”, com adaptação de Walcyr Carrasco (autor das novelas “Amor à Vida” e “O Cravo e a Rosa”), na sede da Cia. de Teatro Contemporâneo, e “Ricardo 3º”, com Gustavo Gasparani e Sergio Módena, no Espaço Sesc.
Também há Shakespeare na peça “Última Sessão”, em que trechos de vários textos do inglês estão por todo o cenário. A peça entra em cartaz hoje, com Laura Cardoso, em São Paulo. Também na cidade, uma versão de “Romeu e Julieta”, com direção de Ivan Feijó, deve estrear em abril.

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