“Scratching the surface” (book of paintings) review in Portuguese

Publicado em r  curado por Leonardo Tonus
O que me atraiu no Scratching the surface (desenhos de Gerald Thomas organizados por Isabel Diegues, ed. Cobogó, 2012) foi o lance de nada estar pronto. Os desenhos do livro não são uma finalidade em si – ou, pelo menos, a maioria deles não o é. Rastros de outros processos, tentativas repetidas, pretendem uma terceira coisa que não é nem a representação de algo, nem, à la Picasso, o preenchimento de uma superfície a partir do seu vazio.
Portanto, vivos.
Vou me estender, e faço isso para mim mesma, porque vou gostar. Os rastros. Meio como me vejo, um conjunto sempre mutante de coisas que ainda estão presente e de outras que acabam de chegar. Tentativas. Sem parar, sem parar. E agora esse negócio de supor um vazio inicial, que não é a minha, e que também não parece ser a de Gerald Thomas. Não há a suposição de partida, de um retângulo a pedir linhas sem centro que o preencham e, ao preenchê-lo, apontem justamente para essa metafísica disfarçada do vazio que se mantém, outra vez justamente, porque cheio. Como no “La cuisine” de Picasso, a primeira versão mais do que a segunda, na sua feitura: a “panela” vazia, e os ingredientes: a linha, o preto, e o retângulo. Como no Sartre, sobre Giacometti, mas também sobre Picasso: “o vazio é anterior aos seres que o habitam”.
Não aqui.
 O papel está lá e é qualquer um. E nele cabem os registros mentais e também os registros do tempo para-sempre-presente dos encontros não programados com, por exemplo, as xícaras de café. A organizadora Isabel Diegues teve o bom senso de incluir, nos desenhos do autor mais explicitado (o Thomas), a participação autoral de seus companheiros momentâneos, como o bloco do papel, com sua espiral em metal e suas outras folhas, um fundo de mesa, a mancha que calhou de lá estar. E mais os detalhes desenhados que acabaram nem sendo mesmo aproveitado, como acontece sempre com tudo – e não só com detalhes de desenhos.

Melhor que o Picasso. Quero dizer, melhor para mim, para o hoje. Seria um parentesco, não fossem as cabeças tão diferentes. Porque Gerald Thomas também recapitula, com colagens, o que já foi feito; também fala de uma história da arte e de uma “grande arte” supostamente eterna, mas vista ironicamente pelos olhos da mídia, do jornal que dura um dia. E também aqui vou encontrar a presença da plateia, de mim, lá dentro: Picasso montava suas touradas contando com o observador do quadro na própria composição do quadro. Gerald Thomas também me supõe. Fala comigo. Me escreve frases, conta que eu vá lê-las. Ambos, afinal, compartilhando um mesmo estar-no-mundo teatral. O segundo (cronologicamente) mais às claras que o primeiro. Ambos sem se importar nem um pouco com divisões entre o que está sendo criado – sem conclusão à vista – naquele momento e um suposto “real” que dessa ação independe. Ambos sem se importar nem um pouco com a impossibilidade de se separar tempo do processo de criação com esse outro tempo – que se inventou do nada – e que é o tempo de uma apresentação, uma vez o processo de criação terminado. Nunca fica. Constrói-se, descontrói-se, e agora todos juntos mais uma vez!
E ambos com um saudável apreço por o que temos entre as pernas e por o que entra e sai por ali.
Nenhuma teleologia. Foi do que gostei antes de ver e do que continuei gostando, e gostando ficarei até que o livro se misture com outras coisas e continue, ainda livro mas não mais livro.
Ah, mas e a tensão – que toda criação (em falta de nome melhor) precisa ter para se manter minimamente existente como unidade, como tal?
A tensão não está na coisa, no papel, no tubarão morto. Está na busca, na repetição nunca igual, no rastro daquele momento em que tubarão começou a ser tubarão. Talvez pelo rabo, talvez pelo copo d’água ou pelo risquinho abandonado em um canto qualquer e, nem por abandonado de fato abandonado. Lá, presente. O abandonado-presente.

A teórica americana Lisa Florman, ao falar de Picasso, disse que freudianamente, suas raízes – históricas dentro da história da arte e históricas dentro da história pessoal do artista – deveriam ser descobertas à posteriori. Assim como nos sonhos descobre-se significados a partir de uma cultura e de uma psique existentes, mas que se modificam, cultura e psique, a cada sonho.
Há explicações para os tubarões de Gerald Thomas. Ele mesmo se encarregou de algumas: os tubarões, derrotados como os artistas, tudo comem, tudo absorvem, até morrer.
Tenho enorme e irracional medo de tubarões. Desmaiei ao ver o filme. Bônus adicional do livro: me fez bem vê-los afogados em copos de água. Ou não é bônus. É o que acontece mesmo com os processos/diálogos que nunca terminam.

Elvira Vigna
Janeiro de 2013

Scratching the Surface / Arranhando a Superficie

Scratching the Surface / Arranhando a Superficie

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